Paisagem com Verde: Lagoa Santa, 1986
Inimá de Paula (Brasil, 1918-1999)
óleo sobre tela, 53 x 64 cm
Paisagem com Verde: Lagoa Santa, 1986
Inimá de Paula (Brasil, 1918-1999)
óleo sobre tela, 53 x 64 cm
Entrada da fazenda, 1966
Aldo Bonadei (Brasil, 1906-1974)
óleo sobre tela, 59 x 77cm
O Rio Grande do Sul está em todos os nossos pensamentos. Dia sim. outro também. Durante a semana passada, uns versos, que eu não sabia de quem, e que não sabia de onde vinham, vieram me visitar, memória é uma coisa chocante.
Por muitos anos tive o hábito de anotar versos que lia e que achava bonitos. Na adolescência certamente sem o cuidado que desenvolvi, ao longo dos anos, de anotar o autor, o livro etc. A frase que me perseguiu foi “os rios são com certeza, o pranto da natureza.” Bem, chegar à autoria de Olegário Mariano foi fácil. Bastou abrir aspas, colocar a frase no Google, fechar aspas e procurar. O problema foi achar a poesia…. Achei. Tenho em casa a obra completa do poeta. Mas são dois volumes… Levei um tempinho. Aqui vai para vocês.
Acredito que o rio mencionado na poesia seja o Rio Saracuruna aqui no estado do Rio de Janeiro. Já naquela época, antes de 1931, Mariano nos alertava sobre os maus tratos que este rio recebia.
A Fazenda Santa Cruz
Olegário Mariano (1889-1958)
Por entre a folhagem verde
Que pelas brenhas se perde,
No coração da Fazenda
Dorme a casa de vivenda.
Um pátio largo defronte,
Ao fundo azul — o horizonte
A crepitar, esbraseado,
Num crepúsculo doirado.
A mata pesada, imensa,
Parece que sonha ou pensa…
Catedral verde que encerra
O culto simples da terra.
Abre-se um rio de prata
E, num fragor de cascata,
Borbulha de duna em duna…
É o rio Saracuruna.
À tona um enxame treme
Se equilibra e vibra e freme,
E às vezes se desmorona
Como uma coluna, à tona…
Umas partem, outras voltam,
As asas doiradas soltam
Em nervosas tarantelas,
Brancas, verdes amarelas.
Bate a porteira da entrada.
Sonolenta entra a boiada:
— Pintado! Moreno! Audaz!
And à frente, meu rapaz!
Um deles, o mais tristonho,
Que é pesado como um sonho,
Olhando o campo tão lindo,
Vai passando, vai mugindo…
Entre árvores surge a lua,
Branca e inteiramente nua,
Mostrando, em suaves coleios,
O tronco, os braços, os seios…
Sobe e do alto descampado
Espalha um véu de noivado
Com cintilações estranhas
Pela encosta das montanhas…
Depois desce ao rio, e o rio
Que rola sereno e frio,
Se enrosca num frenesi:
— Beija-me as águas, Iaci!
O Saracuruna sonha…
Na marcha lenta e tristonha,
O rio lembra um vivente
Porque chora, porque sente.
Vai sinuoso… Entra a devesa
Levando na correnteza
Troncos, arbustos e ninhos
Que encontrou pelos caminhos.
E perde-se longe… Agora
Nem sinal da água que chora…
Os rios são, com certeza,
O pranto da natureza.
Em: Toda uma vida de poesia — poesias completas, Olegário Mariano, Rio de Janeiro, José Olympio: 1957, volume 1 (1911-1931), pp. 90-92.
Longo, o quão longo?
Lucy Almey Bird (Inglaterra, 1973)
acrílica sobre tela colada em cartão, 35 x 43 cm
Flores
Georgina de Albuquerque (Brasil,1885 – 1962)
óleo sobre tela, 84 x 105 cm
Vaso azul e rosas
Shokichi Takaki (Japão-Brasil, 1914-2006)
óleo sobre tela
Praça Paris, Rio de Janeiro, 1943
Dakir Parreiras (Brasil, 1894 -1967)
óleo sobre madeira, 32 x 41 cm.
Abra I, 1968
Frank Stella (EUA, 1936-2024)
acrílica e grafite em tela formatada, 305 x 305 cm
Quem frequenta este blog, ou visita a página da Peregrina Cultural no Facebook, certamente não poderia imaginar que um dos meus grandes amores, figurativamente falando, nas artes plásticas do século XX, foi entre outros, Frank Stella (EUA, 1936-2024). Num blog que favorece não só a pintura figurativa assim como a pintura figurativa brasileira, saber que eu tinha verdadeiro carinho, amor e apreciação pelo trabalho de Stella deve vir como surpresa. Mas sim, há pintores abstratos, tanto do expressionismo abstrato americano, como Franz Kline, Mark Rothko, e também do abstracionismo geométrico, como o de Frank Stella e de seu antecessor Morris Louis, que sempre me tocaram.
Saber do falecimento de Frank Stella (4 de maio) foi um choque. Stella para mim foi um pintor mesmerizante. Entrar em seu mundo, pelo tamanho gigantesco de suas telas, muitas delas eventualmente em formas fora do comum, era entrar no País das Maravilhas. Era dar asas a sonhos felizes. Admirava a precisão matemática de sua pintura. Foi um grande visionário do que imaginava-se ser o futuro. Ainda que este futuro tenha sido um pouco diferente… Por muito tempo pensei em me dedicar no doutoramento ao trabalho deles. Mas história da arte é uma matéria conservadora. Já havia sido uma luta eu dedicar meus anos de pós-graduação e todos os outros em diante a René Magritte antes que o mínimo de 50 anos fossem passados (teoricamente só se sabe se alguém vai ter influência marcante depois de 50 anos de sua morte). Imaginem como seria querer trabalhar com alguém ainda vivo. E nos anos 80 a maioria destes artistas ainda estava viva. Então fica aqui o meu testemunho de que com Stella, acho que ele é o último a falecer, vai-se uma geração inteira de artistas que eram sérios em suas pesquisas para chegarem a obras “que qualquer um poderia fazer”.

Outro falecimento nesta semana, (30 de abril) que muito me tocou foi o de Paul Auster, (EUA, 1947-2024) um dos escritores americanos que mais admirei, cujo último livro 4321 considero uma obra-prima da literatura americana contemporânea. Li duas vezes, primeiro em inglês, depois em português para poder selecionar algumas passagens para meus grupos de leitura. Auster era um escritor que mostrava camadas de significados, de referências em cada cena, detalhista, suas narrativas são verdadeiros tesouros trabalhando constantemente com o tema que lhe afligia: o acaso. Era um verdadeiro conhecedor da literatura americana e mundial, falava o francês fluentemente, eu mesma o vi falando francês, no programa da televisão francesa La Grande Librairie. Mas era sobretudo um escritor americano, da realidade americana de um fôlego raro de encontrarmos atualmente. Aos poucos a geração pós-guerra dá seu adeus. Que fiquem conosco suas obras notáveis em cada uma das artes em que estes dois homens brilhantes trabalharam. Fica aqui o meu minuto de silêncio em respeito ao que ambos conseguiram e nos deram.
Gaúcho no campo
José Lutzenberger (Alemanha-Brasil, 1882-1951)
aquarela sobre papel, 17 x 26 cm
Cena rural com semeadora e galinhas
Isabel Cruz (Brasil, contemporânea)
óleo sobre eucatex, 30 x 26 cm.
Carro de boi
Paulo Daleffi (Brasil, 1971)
óleo sobre tela, 50 X 70 cm