Palavras para lembrar — Christopher Morley

27 06 2012

Homem lendo, s/d

André Deymonaz (Marrocos/França, 1946)

óleo sobre tela

“Não há erro quando se encontra um livro de verdade. É como amor à primeira vista”.

Christopher Morley





Palavras para lembrar — Dr. SunWolf

25 06 2012

Mãe do pintor na hora do chá, 1945

Frank Mason (EUA, 1921)

óleo sobre tela, 60 x 50 cm

www.frankmason.org

“Uma das vantagens de se ler um livro é que você pode brincar com os amigos imaginários de outra pessoa, a qualquer hora da noite”.

Dr. SunWolf





Oscar Pereira da Silva um homem de seu tempo

22 06 2012

Capa da Revista LIFE, de setembro de 1928, por Russell Patterson (EUA, 1893-1977)

Zeitgeist  é uma palavra alemã largamente adotada, assim mesmo, em alemão, nas cadeiras humanísticas para expressar o espírito de uma época, representado pelo clima cultural, intelectual, espiritual, ético e político de um grupo de pessoas, de nações.   [A pronúncia é: ”zaitgaist”]. Para quem lida com a história da arte, da arquitetura, das manifestações artísticas e culturais em geral, essa palavrinha é um sinal taquigráfico indicando uma semelhança de pensamentos, comportamentos, de estética.  Já usamos essa expressão muitas vezes aqui no blog, mas como faz parte de um jargão profissional é interessante lembrá-lo principalmente quando nos deparamos com uma semelhança de imagens.

O conceito de zeitgeist é importante para o estudo da história da arte porque auxilia na determinação das fontes inspiradoras dos artistas.  Desde que o mundo é mundo, desde a  Grécia, de Roma, da Idade Média, Renascença, e aí por diante que pintores, escultores, artistas gráficos, se inspiram na obra de seus antecessores.  Às vezes as inspirações são óbvias, às vezes precisa-se de muito tempo e pesquisa para provarmos que este pintor ou aquele escultor estava familiarizado com o trabalho de um determinado antecessor.  Muitos e muitos estudiosos passam um bocado de tempo tentando re-organizar o passado para melhor compreender como se manisfesta ou como se perpetua uma determinada tendência nas artes.  E é sobre essa divulgação de formas e conceitos que hoje examino um trabalho de Oscar Pereira da Silva, um dos nossos grandes pintores do século XX.

Recentemente estive, por razões diversas, verificando as imagens gráficas das capas de partituras de músicas populares, para piano e canto do início do século XX.  Passei horas e horas em grande deleite, observando o trabalho de muitos artistas gráficos anônimos e alguns bastante conhecidos.  Até que me deparei com a capa para a música Dear Heart, de 1919.  Não sei se foi um grande sucesso na época, mas achei referências a ela na web.  Com música de W. C. Polla and Willard Goldsmith, e letra de Jean Lefarve, a partitura foi publicada em 1919 pela C. C. Church and Co. de Hartford, Connecticut.  Se você quiser ouvir a música, clique aqui.

Dear Heart, 1919. de Jean Lefarve e W. C. Polla and Willard Goldsmith, ilustração de Rolf Armstrong.

A ilustração da partitura acima é de Rolf Armstrong.  Foi usada na capa da revista americana Metropolitan de 1919.  Nela vejo uma bela melindrosa que olha diretamente para mim, o leitor, enfentiçando-me com seus grandes e amendoados olhos azuis.  O turbante cor de laranja esconde os cabelos negros, cortados à la garçonne típicos da época, deixando entrever mechas, coquetemente enroscadas no que se denominava “pega rapaz“, que é aquela mecha de cabelos em forma de vírgula.  A rosa vermelha próxima ao nó do turbante compensa a longa linha do pescoço e reflete o carmim da boca entreaberta, convidativa, que parece dizer que essa melindrosa está pronta para se divertir, para sair dançando o charleston. Ela é misteriosa e sedutora.

Assim que bati com os olhos na capa dessa partitura me lembrei do quadro na Pinacoteca do Estado de São Paulo, Mulher com turbante, de Oscar Pereira da Silva, com uma moça semelhante. Não me lembrava da data, mas eu sabia que Oscar Pereira da Silva já havia falecido por volta dos anos 40.  Há exatamente 11 anos entre a capa da revista Metropolitan, da partitura para Dear Heart e o quadro brasileiro.  Lá está o mesmo espírito, o retrato do mundo pre-Segunda Guerra Mundial.  Melindrosas eram o tema nas artes gráficas através desses anos todos,  como a capa da revista Life, desenhada por Russell Patterson e publicada em setembro de 1928, reproduzida acima, demonstra.

Mulher com turbante, 1930

Oscar Pereira da Silva (Brasil,1867-1939)

óleo sobre tela, 41 x 33 cm

PESP — Pinacoteca do Estado de São Paulo

Há semelhanças bastante perceptíveis.  Uma melindrosa, morena, com olhos azuis, rasgados e brilhantes de excitação olha diretamente para o observador.  Um turbante cor de laranja esconde seu cabelo escuro, cortado a la garçonne, com  sensuais mechas encaracoladas próximas às orelhas.  Na versão brasileira a melindrosa tem os lábios da cor do fundo do quadro, e um sorriso mais aberto, mais convidativo à diversão.  No lugar da rosa da capa acima, temos um ombro nu, sensual, que ajuda como a rosa anteriormente a compensar a longa linha de um pescoço colossal.  A versão tropical é muito mais exuberante, menos misteriosa mas tão sedutora quanto sua companheira americana.

Sabemos que no Rio de Janeiro do início do século XX o piano ainda era um instrumento encontrado na maioria das casas da classe média, com moçoilas casadouras.  Mesmo no início do século XX, muitas famílias ainda mantinham saraus e todas as moças da casa aprendiam a tocar piano. Muitas dessas partituras vinham do exterior.  Oscar Pereira da Silva conhecia bem esse hábito dos saraus.  Há um de seus quadros na Pinacoteca do Estado de São Paulo, A hora de música , reproduzido abaixo, que mostra exatamente esse uso do piano na família.

Hora de música, 1901

Oscar Pereira da Silva (Brasil,1867-1939)

óleo sobre tela

Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Oscar Pereira da Silva foi um pintor que pemaneceu dentro dos parâmetros da pintura histórica e realista, não abrindo espaço em sua produção para as “novidades” das técnicas mais modernas.  Foi um retratista, um pintor de cenas históricas e sempre teve uma boa e tradicional clientela que o manteve produzindo até o fim.  Suas pinturas de gênero tendem a ser bastante detalhistas e é realmente só na maturidade que vemos um trabalho como A mulher com turbante, que tem uma leveza de traço, uma rapidez de pincelada, que se deve muito mais aos moldes modernos de pintura do que ao realismo minucioso ao qual Oscar Pereira da Silva é sempre associado.

Agora, levando em consideração a popularidade de certas canções, e a familiaridade do pintor e de todos na época com partituras para piano, a pergunta a fazer é:

Oscar Pereira da Silva conhecia essa capa de música?  Ou é isso simplesmente Zeitgeist?

©Ladyce West,2012





A vida em Piratininga, texto de Otoniel Mota

22 06 2012

Roça, s/d

Rui de Paula (Brasil, 1961)

óleo sobre tela, 70 x 100 cm

A vida em Piratininga

Otoniel Mota

Pelo arraial vagam em promiscuidade bois, cavalos, porcos e ovelhas, a se roçarem nas paredes frágeis dos casebres de pau-a-pique. As paredes da Cadeia e da Casa de Conselho vivem por eles maltratadas, pois lhes servem de tábuas de arrebentar carrapatos.

Galinhas cocoricam, grasnam patos, grugulejam bandos de perus.  Ladram cães meio selvagens, que, às vezes, estraçalham rebanhos de ovelhas e não poupam bezerros. O Conselho vota leis severas contra eles e seus donos, pena de morte para os cães e degredo para os donos, em caso de reincidência.

Partem reclamações de todos os lados, por parte de roceiros, contra o gado solto que lhes vai estragar as plantações. Pedem-se editais para que esse gado se feche ou venha pastoreado. Vacas e bois ameaçam as vidas dos que vão para a lavoura.

Pela manhã o sino tange para a missa. Depois, a escola para os pequenos e a roça para os adultos. À tarde o sino da recolhida.

Ao morrer do dia, os macucos, empoleirados, soltam seus pios merencórios, como gemidos de saudade. Os urus e os intans na capoeira, os chororós à beira do capo respondem-se por todos os recantos. Bandos de pássaros verdes – araras, papagaios, maitacas, maracanãs, araguaris, tirivas, jandaias, periquitos e tuins – numa algazarra infernal, revoam de capões em capões, baixam aos milharais e afinal recolhem-se às matas e capoeiras.

Silvam flechas e estalam pelotadas.

De raro em raro, o som plangente de uma vila. Mais ao longe, a dança, o canto monótono dos selvagens, composto apenas de três ou quatro notas.

É evidente que, a princípio, não havia iluminação alguma a não ser a da lua e das estrelas. Só mais tarde é que se cuidou de lampiões alimentados com óleo de peixe e presos às paredes das habitações.

Em: Terra Bandeirante: 4º ano, Theobaldo Miranda Santos,  Rio de Janeiro, Agir:1954

Vocabulário:

Vagam — andam sem destino

Em promiscuidades — misturados, unidos desordenadamente.

Severas — rigorosas.

Degredo — pena de desterro ou exílio.

Reincidência — repetição.

Editais — avisos oficiais, ordens escritas do governo.

Tange — toca, bate.

Merencórios — tristes, melancólicos.

Plangente — que chora, triste

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O texto acima, de um livro usado nas escolas do Estado de São Paulo na década de 1950, é acompanhado do seguinte questionário para ser respondido pelos estudantes:

Que vagam pelo arraial?

Que fazem com as paredes da Cadeia?

Que fazem os outros animais?

Que vota o Conselho?

De onde partem as reclamações?

Que se pedem e que se fazem?

Que há ela manhã?

E à tarde?

Que acontece ao morrer do dia?

A princípio havia iluminação?

E mais tarde?





Imagem de leitura — Henrique Manzo

22 06 2012

Leitura, s/d

Henrique Manzo (Brasil, 1896-1982)

óleo sobre tela, 38 x 32 cm

Coleção Particular

Henrique Manzo nasceu em São Bernardo do Campo, no estado de São Paulo.  Estudou no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo onde foi  aluno de Panelli, Antônio Quadrenchi e Alfredo Norfini. Foi pintor, desenhista, restaurador e cenógrafo. Como cenógrafo trabalhou no Teatro Carlos Gomes no Rio de Janeiro.  E morou no Rio de Janeiro em 1917-18.  Mas sua vida profissional em todas as várias facetas se desenrola principalmente na cidade de São Paulo onde foi pintor e restaurador do Museu Paulista (Hoje Museu do Ipiranga), professor da Escola Paulista de Belas Artes e participante ativo dos Salões Paulistas de Belas Artes.  Faleceu na cidade de São Paulo, em 1982.





Palavras para lembrar — Oprah Winfrey

21 06 2012

Leitura, 2005

Igor Zhuk (Ucrânia, 1971)

óleo sobre tela, 50 x 70cm

www.zhuk-art.com

“Os livros foram o meu passe para a liberdade. Aprendi a ler aos três anos, e logo descobri que havia um mundo inteiro a ser conquistado além do nosso sítio no Mississipi”.

Oprah Winfrey





Imagem de leitura — Curt Herrmann

21 06 2012

Sophie Herrmann lendo

Curt Herrmann (Alemanha, 1854-1929)

óleo sobre tela

Hugo Curt Herrmann nasceu em Merseburg, em Saale, em 1854.  Deixou a escola secundária em 1873 e foi estudar arte no ateliê de Carl Steffeck, onde foi colega de outros pintores alemães que viriam a ser conhecidos: Max Liebermann e Hans von Marée.  depois de terminar seus estudos na Academia de Belas Artes de Munique passou a ser principalmente retratista.  Em 1893, mudando-se para Berlim, abriu uma escola de desenho para moças, que manteve por dez anos. Aos poucos foi se interessando pela pintura decorativa e através do pintor Henry van de Velde, acabou entrando para o círculo de pintores neo-impressionistas.  Teve um papel importante nas artes visuais de Berlim. Grande retrospectiva de seu trabalho foi feita quando completou 70 anos e hoje ainda há um museu dedicado às suas obras.  Faleceu em 1929.





Palavras para lembrar — Gilbert K. Chesterton

20 06 2012

O livro de recordações, 1899

Frank Dadd (Inglaterra, 1851- 1929)

óleo sobre tela

“Um cômodo sem livros é como um corpo sem alma”.

Gilbert K. Chesterton





Pequiri, descrição, de J. B. Mello e Souza, do livro Majupira

19 06 2012

Paisagem, s/d

Omar Pelegatta (Brasil, 1925-2000)

óleo sobre eucatex, 34 x 26cm

Só então conseguiu observar bem o aspecto do vilarejo onde estava.

O Pequiri consta, na realidade, de uma única rua e de uma pequena praça. A rua, na maior parte da sua extensão, só tem casas de um lado, visto que o outro é ocupado pelo leito da estrada de ferro.  Em consequência dessa disposição ingrata, as casas, em sua maioria, dão fundos para a montanha, rude maciço de impressionante altura. Em frente à pequena capela do povoado fuçava a praçazinha, que bem quereria ser retangular e plana, mas que não realizava a contento nenhum desses louváveis propósitos. À esquerda da via férrea havia algumas casas, construídas onde foi possível  obter área bastante para elas.Tais edificações, eretas à borda do precipício, apresentavam a singularidade de serem térreas na parte da frente, e de grande altura na nos fundos, o que se explica pelo brusco declive do terreno.

“Como se teria formado uma povoação nestas grimpas?” interrogava o jovem médico a seus botões. “Uma enxurrada mais violenta bem pode arrastar essas casas e precipitar os escombros no abismo. Seria prudente criar naquela topografia absurda, naquele desconforto, um estabelecimento destinado a grande atividade e futuro?

Mas… por outro lado, que pureza de ar! que limpidez de céu! que brisa agradável! Montanhas enormes e plácidas, cobertas de vegetação espessa, fechavam o horizonte ao oriente. Uma escarpa mais elevada que todas, e separada das demais por profundas grotas, atirava-se para o alto na ânsia temerária de escalar o azul.

Em compensação, abria-se do lado oposto, o imenso vale do rio Paraíba do Sul, ondeando de colinas verdejantes, até a serrania da Bocaina, muito longe, para o lado do nascente.

Que pureza de ar! que limpidez de céu! que brisa agradável! O gorjear da passarada harmonizava-se bem com o murmúrio da água, cascateando nas grotas, por toda a parte. Certamente, não se poderia encontrar mais serena estância para o corpo e para o espírito! Bem inspirado aquele que se lembrou de localizar ali um centro de estudo, e de trabalho benfazejo!”

Em: Majupira (romance brasileiro da atualidade, 1930-1934), J. B. Mello e Souza, São Paulo, Saraiva:1949.  Capítulo: Pelo Caminho dos Bandeirantes.





Imagem de leitura — Ipolit Strambu

19 06 2012

Moça sentada, 1930

Ipolit Strambu (Romênia, 1871-1934)

óleo sobre tela

Ipolit Strambu nasceu em Baia de Aramă, no condado de Mehedinţi, na Rumênia, em 1871.  Teve sua educação artística na Escola de Belas Arte de Bucareste onde estudou com G. D. Mirea entre 1891-1895. Ganhou uma bolsa de estudos que o levou a estudar pintura em Munique na Alemanha, na Academia de Real de Belas Artes na Bavaria  entre 1896- 1901.  Na primavera de 1901 retornou ao seu país natal, estabelecendo-se em Bucareste, onde permaneceu, trabalhando até seu falecimento em 1934.

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