Amaury Menezes (Brasil, 1930)
aquarela sobre papel, 48 x 70 cm
Museu de Arte de Goiânia
Amaury Menezes (Brasil, 1930)
aquarela sobre papel, 48 x 70 cm
Museu de Arte de Goiânia
Paul-Émile Chabas (França, 1869-1937)
Óleo sobre tela, 37 x 55 cm
Coleção Particular
500.000 checos na fronteira nazista, 1938
Reginald Marsh (EUA, 1898-1954)
Têmpera sobre eucatex, 61 x 45 cm
Coleção Particular
“Depois de termos visto os principais teatros e dancings de New York, começamos a levar uma vida mais estável e sossegada. Artur começou a estudar mais e a escrever o livro com vontade. Eu lia muito também. Andava pelas livrarias catando novidades e lia em inglês tudo o que podia. De vez em quando recebia carta de Elisabeth e Simone, com presságios tristes sobre a situação europeia. Não tinham mais esperanças de paz e se preparavam para enfrentar “uma época Terrível”, como escreveu Elisabeth com T grande.
À noite, gostávamos de andar a pé na Broadway observando os hábitos dos americanos, admirando os inumeráveis anúncios luminosos e o movimento surpreendente. Mais de uma vez jantamos nos automáticos. Eu gostava de por o níquel para ver o pratinho cair em baixo com uma torta de frango e salada; mais adiante um pouco de morangos e creme. Colocávamos tudo na bandeja e escolhíamos uma mesa de canto, onde saboreávamos nosso jantar improvisado, acompanhado de grandes copos de chope espumando e e escorrendo pela mesa de mármore.
Ríamos das nossas travessuras, como se fôssemos crianças sem juízo.
Eu notava como as moças e senhoras eram respeitadas em New York; muitas vezes à meia noite encontrávamos em plena Broadway um grupo de três ou quatro moças que vinham do teatro ou do cinema, tomavam qualquer coisa numa confeitaria e iam tranquilamente para suas casas, falando e rindo alegremente, quase sem serem notadas pela multidão. Outras vezes víamos duas ou mais senhoras, já matronas, algumas de óculos, jantando juntas num restaurante em trajes de baile, rindo e fumando, depois iam ao teatro e atravessavam as ruas movimentadas, sem ninguém olhar sequer para elas. E, às vezes, já era tarde, fora de horas.
Eu dizia a Artur:
— Eu gostaria de viver aqui, mulher nesse país tem personalidade, não precisa viver acompanhada por homens para ser alguém.
Artur confirmava e admirava-se também da independência absoluta das mulheres nos Estados Unidos.”
Em: O romance de Teresa Bernard, Sra. Leandro Dupré [Maria José Dupré], São Paulo, Ed. Brasiliense Ltda: 1945, 4ª edição, pp. 371-2 [Primeira edição:1941]
William Bouguereau (França, 1825-1905)
óleo sobre tela, 46 x 38 cm
Museu de Belas Artes de Montréal, Canadá
Domenico Peterlini (Itália, 1822-1891)
óleo sobre tela
Palácio Pitti, Florença
Hoje vendo notícias sobre os imigrantes haitianos lembrei-me desse ensaio de André Aciman. Enquanto morei por muitos anos fora da minha terra natal passei um bocado de tempo interessada na questão dos imigrantes e dos exilados, que, quer voluntariamente, quer aqueles obrigados a deixar suas terras natais por governos que lhes eram antagônicos, mostravam sinais de uma tristeza profunda, uma cicatriz emocional, mesmo naqueles que melhor pareciam ter-se adaptado. Muitos escreveram sobre o tema no final do século XX. André Aciman é um dos mais citados. Aqui, falando dos exilados, como ele próprio:
“Eu queria que tudo permanecesse o mesmo. Porque isso também é típico dos que perderam tudo, incluindo suas raízes ou a habilidade de criar novas raízes. Eles podem ser móveis, espalhados, nômades, sem lares, mas permanecem completamente imóveis no seu estado de agitação transitória. É exatamente porque não têm raízes que não se mexem, que se amedrontam com mudanças, que preferem construir em qualquer lugar, do que procurar por uma terra. Um exilado não é simplesmente uma pessoa sem casa; é alguém que não consegue achar outra, que não pode pensar em outra. Alguns nem sabem mais o que um lar significa. Eles reinventam o amor com o que sobrou a cada reviravolta. Algumas pessoas trazem consigo o exílio, assim como o sofrem não importa onde estejam.”
[Tradução minha]
Em: Shadow Cities, de André Aciman, Letters of Transit, reflexions on Exile, Identity, Language and Loss, diversos autores, ed. André Aciman, Nova York, 1998, p.21
O texto integral pode ser achado na WEB aqui.