Aldo Bonadei (Brasil, 1906-1974)
óleo sobre cartão, 37 x 48 cm
Konstantin Razumov (Rússia, 1974)
óleo sobre tela, 33 x 22 cm
Na capa de trás da edição brasileira de Memórias de uma casamento, somos informados de que aqui encontraremos “um olhar profundo sobre uma classe e seus privilégios, numa trama que se desenvolve entre Paris e Nova York, Long Island e Newport”. Coroando essa apresentação, como que para justificá-la temos uma citação atribuída ao Washington Post: “Entre os escritores contemporâneos, Begley talvez seja o crítico mais sagaz e devastador do sistema de classes da sociedade americana”. Nada mais ilusório. Ainda que os personagens dessa narrativa sejam pessoas da classe social mais alta nos EUA, o foco está no retrato de uma mulher, complexa, vazia, intolerante, fútil, provavelmente ninfomaníaca, certamente desequilibrada emocionalmente. Como ela, existem centenas de outras em qualquer classe social. Ela causa danos a qualquer grupo familiar. Não importa, na verdade, onde nasceu, em que família, com quem casou. Tipos como o dela não precisam ser da mais alta sociedade. Eles existem em todo canto.
Louis Begley é fiel a dois de seus predecessores: Henry James, grande mestre da literatura americana de final de século, também produziu, como mandava o seu tempo, romances retratando tipos de mulher: Portrait of a Lady; Daisy Miller vêm à mente; enquanto Louis Auchincloss, já em pleno século XX, também se esmerou nesse gênero como o fez em Sybil, The Dark Lady e outros. No Brasil, deste autor, encontramos em tradução: A infinita variedade dessa mulher mais um de seus perfis de mulher. Curiosamente, ambos Henry James e Louis Auchincloss se especializaram nos retratos de mulheres das classes sociais mais altas dos EUA. No Brasil, a tradição literária dos perfis de mulher, não se limita às classes mais altas, mas, como nos EUA, começa no século XIX, com Machado de Assis [Helena] e sobretudo com José de Alencar [Senhora, Diva, Lucíola, entre outros].
Louis Begley
Ficam por aí as comparações. Ainda que a prosa de Louis Begley seja agradável e os olhos corram sem obstáculos pelo texto, a apresentação da personagem principal Lucy De Bourgh, herdeira de mais de uma família importante da Nova Inglaterra,formada por pessoas vindas no Mayflower e no Arabella, portanto entre os primeiros a chegar no continente americano, é monótona. Não há diálogos nestas 194 páginas. Há monólogos de Lucy, de Jane. Há cartas. Em suma, falta dinamismo no texto. Temos diversos relatos, por diferentes pessoas. Contudo o texto flui. Não só por habilidade do autor, mas também pela malévola e mórbida curiosidade despertada no leitor para saber sobre os detalhes, tintim por tintim, do malfadado casamento, onde o respeito pelo próximo é inexistente.
Tivesse Louis Begley usado de outros meios para narrar talvez pudesse ter despertado maior interesse nesta leitora. Como está, trata-se de uma obra um tanto medíocre se comparada às suas anteriores, principalmente Sobre Schmidt e Schmidt Recua.
Jovem com véu [Margarita Luti], 1516
Rafael Sanzio (Itália, 1483-1520)
óleo sobre madeira, 82 x 61 cm
Palazzo Pitti, Florença
Há dois meses postei uma nota de Stendhal sobre um quadro de Rafael Sanzio, pintor da Renascença italiana. Era o retrato de uma jovem mulher, provavelmente de sua amante, conhecida como La Fornarina [a padeira, ou a filha do padeiro]. A paixão de Rafael por Margarita Luti, a jovem retratada foi amplamente conhecida. Vasari — autor da primeira compilação das vidas dos artistas italianos — não a menciona mas se referiu a Rafael como um homem que gostava muito da companhia de mulheres, um sedutor. Mais tarde, depois da morte de Rafael, em publicações posteriores o nome de Margarita Luti foi ligado ao de Rafael. Nunca houve identificação clara de que essa modelo era de fato Margarita. O artista pintou diversos retratos em que essa jovem aparece, mas não há até agora prova concreta de identificação.
Jovem com véu de 1516, mostra Rafael no seu melhor estilo. Grande delicadeza na pintura dos tons de pele, nas cores, prestimoso retratar dos tecidos. Um cuidado muito acima dos já espetaculares retratos anteriores.
La Fornarina, ou Retrato de uma jovem mulher, 1519
Rafael Sanzio (Itália, 1483-1520)
óleo sobre madeira, 85 x 60 cm
Galleria Nazionale d’Arte Antiga, Palazzo Barberini, Roma
No retrato do Palácio Barberini em Roma, posterior ao encontrado no Palazzo Pitti, vemos um Rafael mais enfatuado com sua modelo? Sem qualquer joia exceto a pérola no cabelo,que já aparecia no retrato anterior, acima, e a fita azul amarrada no braço, local que Rafael escolheu para assinar a obra; com um belo turbante oriental, última moda na época, a jovem seminua parece fazer um pequeno esforço para cobrir os seios. É uma pose associada às esculturas de Vênus, cujas cópias romanas dos originais gregos estavam à disposição do pintor. Vênus a deusa do amor é assim associada ao retrato da jovem mulher.
Mais tarde, depois da morte de Rafael, foi descoberta na Vila Hadriana em Tívoli, uma escultura em mármore, de origem grega, provável cópia de Praxíteles, cuja pose muito se assemelha à pintura de Rafael.
Vênus, dita Vênus de Médici, século I a.E.C.
Cleomenes , d’après Praxíteles
Mármore, 153 cm de altura
Encontrada em 1680 na Vila Hadriana, Tívoli
Galleria degli Uffizi, Florença
Trude Waehner (Áustria, 1900-1979)
óleo sobre tela, 61 x 50 cm
Ontem foi o dia do primeiro encontro do novo grupo de leituras chamado Ao pé da letra. Este grupo, que já começa lotado e com fila de espera, é resultado direto do Papalivros, que em abril deste ano completa 13 anos de atividade ininterrupta, ou seja 156 livros lidos.
Por causa da página do Papalivros neste blog sempre tivemos uma fila de espera. Mas ultimamente a fila de espera estava muito longa com mais de 55 pessoas, só aqui no Rio de Janeiro. Assim resolvi ver se consigo, e acho que conseguirei, orquestrar mais um grupo.
Como aconteceu no primeiro grupo, este começa com membros de ambos os sexos, com pessoas dos mais variados caminhos que têm o amor à leitura e que gostariam de discutir, conversar, expressar suas opiniões a respeito daquilo que leem, enquanto forjam novas amizades, novos conhecimentos.
Começamos com um número maior do que o previsto para um bom desenrolar das funções, porque a experiência diz que muitos imaginam ter mais tempo do que de fato dispõem. Manter a leitura de um livro por mês pode ser mais difícil do que se imagina.
Ao pé da letra, assim como Papalivros, terá uma página neste blog. Mantivemos no grupo quase tudo que deu certo no outro grupo. A frequência dos encontros, a localização, o tipo de discussão, a maneira de avisar, o horário. Mas sobretudo a vontade de conexão com o outro.
A seleção de livros é democrática, com sugestões vindas dos membros. Assim como a definição dos estilos de leitura. Enquanto o Papalivros se concentra exclusivamente em literatura contemporânea, o Ao pé da letra abrirá os horizontes para incluir biografias, história e outros estilos.
A primeira leitura foi Um homem chamado Ove, de Fredrick Backman, estipulado pelo Papalivros. A segunda, a de abril é Infiel, de Ayaan Hirsi Ali.
Você poderá acompanhar os títulos escolhidos pelo grupo através da página neste blog.
Parabéns a todos os participantes. Foi um prazer — verdadeiro — conhecê-los ontem. Boa sorte e boas leituras. Que este grupo tenha tanto sucesso quanto seu irmão mais velho.
Fabian Perez (Argentina, 1967)
“Passo a noite no hotel do aeroporto, o Ikeja Arms — pegarei o voo de volta a Ibadan amanhã. Gosto deste hotel velho com seus grandes bares escuros cheios de tripulação e aeromoças de folga. Eles conferem aquele pequeno toque de vulgaridade que o visitante sempre traz a uma taverna como esta. Adicione a isso uma noite tropical, álcool abundante, uma nação envolvida em uma guerra civil… eu quase espero que Hemingway entre pela porta.”
Em: As aventuras de um coração humano, William Boyd, Rio de Janeiro, Rocco: 2008, tradução de Antônio E. de Moura Filho, p. 403-404.