No salão, em frente ao armário chinês
Gustave de Jonghe (Bélgica, 1829- 1893)
óleo sobre madeira.
No salão, em frente ao armário chinês
Gustave de Jonghe (Bélgica, 1829- 1893)
óleo sobre madeira.
Vaso de flores, 1986
Antonio Augusto Marx (Brasil, 1919 – ?)
Óleo sobre tela, 70×50 cm
Manhã de Março – Posto 6, Rio, 1947
Jurandir Paes Leme (Brasil, 1896 – 1953)
óleo sobre madeira, 27 x 35 cm
O dramaturgo Andrew Ganley
Brigit Ganley (Irlanda, 1909 – 2002)
óleo sobre tela
Em 1926, Agatha Christie publicou seu primeiro grande sucesso de vendas: O assassinato de Roger Ackroyd. Em 2013, a Associação de Escritores Britânicos de Crime elegeu esta obra como a melhor história de crime já escrita. Este mistério é considerado um dos livros de maior influência no gênero, mesmo que tenha gerado controvérsia pela virada no final na trama. Não pude deixar de me lembrar de Roger Ackroyd ao terminar a leitura de A paciente silenciosa, do escritor britânico, nascido em Chipre, Alex Michaelides, publicado em 2019, para uma carreira de sucesso imediato. Como o livro de Agatha Christie, este também ganhou inúmeros prêmios inclusive o Prêmio do site Goodreads para mistérios e suspense no mesmo ano de lançamento. Além disso os dois livros são repletos de suspense, mistério e de finais surpreendentes.
Diferente do que aconteceu comigo na leitura do livro de Agatha Christie, não consegui gostar nem me identificar com qualquer dos personagens envolvidos na trama de Michaelides. A narrativa me pareceu distante e artificial, assim como os dramas pessoais dos personagens me pareceram desde o início forjados, um tanto teatrais.

Não obstante, A paciente silenciosa tem ritmo acelerado que ao longo do tempo torna-se trepidante, causa incertezas aumentando ansiedades no leitor, certo de que há algo muito errado, sem conseguir perceber claramente o que acontece. Há passagens arrepiantes, repletas de situações aterrorizadoras, principalmente na descrição da perseguição [stalking] de um dos personagens.
Alex Michaelides usa de diversos métodos de narrativa para elaborar a trama. Neste ponto, o livro é de grande riqueza, pois passamos da narrativa em primeira pessoa, às notas em diários, conversas, pintura e silêncio como meios de comunicação para a evolução do enredo e desta maneira consegue iludir o leitor, quando precisa, sobre as elipses que irão permitir a reviravolta final. Neste ponto, A paciente silenciosa é uma obra de grande auxílio àqueles que desejariam escrever uma história de suspense.
Alex Michaelides
O livro gera questões sobre ética de trabalho de profissionais como psicólogos, psicanalistas e psiquiatras, assim como segurança nas instituições de acolhimento daqueles que necessitam de tratamento mental. Há também a questão de confiabilidade, transparência e genuíno cuidado de pacientes mentais.
A paciente silenciosa é bom entretenimento, leitura feita para um fim de semana, para um dia de chuva. Diverte, ajuda a passar o tempo, retém a atenção do leitor. Com este fim, recomendo.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Uma jovem, 1839
[Possivelmente Henrietta Carpenter]
Margaret Sarah Carpenter (Inglaterra, 1793-1872)
óleo sobre madeira, 69 x 46cm
Natureza morta
Maria Amélia D’Assumpção (Brasil 1883-1955)
óleo sobre tela
Paisagem praiana
Hugo Adami (Brasil, 1899 — 1999)
óleo sobre tela, 60 x 80 cm
Luiz Peixoto
Eu vou pra beira do mar
esperar uma sereia,
que canta as canções do Vento,
que canta as canções do Mar.
Em noite de lua-cheia,
com ela vou me casar.
No leito branco da areia,
com ela vou me deitar.
E todo o amor que incendeia
meu coração vou lhe dar.
Quando a última candeia
das estrelas se apagar,
bem sei que ela irá embora,
mas um dia há de voltar.
As sereias vão e voltam,
São como as ondas do mar…
Em: Poesia de Luiz Peixoto, Rio de Janeiro, Editora Brasil-América:1964, p. 96
Leitura
Monika Luniak (Alemanha, contemporânea)
óleo sobre tela
Há escritores que surpreendem com a justaposição de eventos que escolhem para nos revelar a trama de um romance. Com isso mostram sua maneira de pensar, como retêm o que veem, a essência do que os preocupa. Formam uma colcha de retalhos que os leva à sabedoria, à lição do que observaram. Fora do Brasil, Julian Barnes é um escritor que seduz com similaridades que descobre em coisas aparentemente assimétricas. Este tipo de narrativa faz parte do charme da prata da casa, o escritor brasileiro Michel Laub. Seguir paralelos que não apresentam conexão imediata é um dos prazeres de seus livros e de A maçã envenenada.
Narrado na primeira pessoa, o personagem, jornalista de quarenta anos, procura respostas, para entender o motivo do suicídio de sua primeira namorada, Valéria. Oscilando entre dois eventos que, justapostos, o intrigam: o suicídio do músico Kurt Cobain e a entrevista de Immaculée Ilibagiza, sobrevivente do genocídio de Ruanda ele transita entre essas duas forças cujo ponto em comum é a preservação ou não da própria vida. Há, de um lado, um cantor, compositor, músico de sucesso, admirado no mundo inteiro, ídolo de uma geração, que despreza a vida e se suicida. De outro está a jovem africana, desconhecida e pobre, feita heroína pelas circunstâncias, porque preza a vida a ponto de sobreviver nas piores condições imagináveis, por um longo tempo. É no equilíbrio entre essas duas forças que o jornalista encontra o caminho da ponderação sobre eventos e sentimentos.

Fragmentos da letra Drain me, de Kurt Cobain, são usadas, para titular duas partes da narrativa. ‘A não ser que seja sobre mim’ [I don’t care what you think unless it is about me], apropriada para descrever a narcisista Valéria, e ‘Que sorte ter encontrado você’, ironicamente, aplicável ao nosso narrador [One baby to another says: I’m lucky I’ve met you]. Enquanto o título A maçã envenenada continua a referência à letra da música de Kurt Cobain, é usado em contraposição, [You’ve taught me everything without a poison apple]; pois o suicídio de Valéria é de fato verdadeira maçã envenenada para o homem maduro que revive a juventude, em busca do significado do suicídio de Valéria.
Ainda que estas referências sejam óbvias, a mim, a procura do protagonista e sua conclusão sobre o que é o suicídio, o que significou o suicídio de Valéria e o efeito que tem sobre os que estão à volta de quem o comete, lembrou duas conhecidas frases do escritor Patrick Ness “Nós somos as escolhas que fazemos” do livro The Knife of Never Letting Go e “Dizer que você não teve escolha é omitir sua responsabilidade”, do livro Monsters of Men.
Michel Laub
Este é o terceiro livro de Laub que leio. Ainda que seja parte de uma trilogia pode ser lido separadamente. Com ele termino o grupo. Para mim, dos três, o livro imperdível é Diário da Queda, que me encantou e comoveu. É o mais emotivo dos três, revelando, com genuína delicadeza, a fragilidade do narrador. Depois, a Maçã envenenada, que trabalha o texto de uma forma mais intelectual, com emoções menos explícitas e por fim O tribunal da quinta-feira, cuja óbvia dor psicológica do personagem principal é transmitida com ironia e distanciamento. De qualquer jeito, recomendo a leitura dos três livros em qualquer ordem que você queira colocá-los.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Moça com livro em mesa junto à janela
Anatoly Ivanov (Cazaquistão- Rússia, 1928 – 2012)
óleo sobre tela
“O suicídio é uma traição aos outros e a si mesmo, ao que você poderia se tornar no futuro, uma pessoa diferente que nunca poderá existir porque a linha foi interrompida antes que os erros sejam corrigidos.”
Em: A maçã envenenada, Michel Laub, São Paulo, Cia das Letras: 2013, p. 103
Paisagem do dique na Bahia, 1980
Jenner Augusto (Brasil, 1924 – 2003)
óleo sobre tela, 37 x 61cm