Mesa com flores, 2012
Sérgio Telles (Brasil, 1936)
óleo sobre tela, 73 x 60 cm
Mesa com flores, 2012
Sérgio Telles (Brasil, 1936)
óleo sobre tela, 73 x 60 cm
Paisagem do Canal da Barra da Tijuca, casario e Pedra da Gávea ao fundo
Gian Paolo (Brasil, 1965)
óleo s eucatex, 50 X 60 cm
Notícias matutinas
Alexander Mark Rossi (GB, 1840 – 1916)
óleo sobre tela, 60 x 91 cm
Bananeiras, ao Fundo Serra dos Órgão – RJ
Paulo Gagarin (Rússia-Brasil, 1885-1980)
óleo s tela, 41 X 34 cm
“Uma planta se dá também nesta província, que foi da ilha de São Tomé, com a fruta da qual se ajudam muitas pessoas a sustentar na terra. Esta planta é muito tenra e não muito alta, não tem ramos senão umas folhas que serão sei ou sete palmos de comprido. A fruta dela se chama bananas; parecem-se na feição com pepinos, e criam-se em cachos; alguns deles há tão grandes que tem de 150 bananas para cima. E muitas vezes é tamanho o peso delas que acontece quebrar a planta pelo meio. Como são de vez colhem-se estes cachos, e dali a alguns dias amadurecem. Depois de colhidos, cortam esta planta, porque não frutifica mais que a primeira vez, mas tornam logo a nascer dela uns filhos que brotam do mesmo pé, de que se fazem outros semelhantes. Esta fruta é mui saborosa, e das boas que há na terra; tem uma pele como de figo (ainda mais dura) a qual lhe lançam fora quando a querem comer; mas faz dano à saúde e causa febre a quem se demanda nela.”
Em: História da província de Santa Cruz, Gandavo [Pero Magalhães de Gandavo], organização de Ricardo M. Valle, São Paulo, Editora Hedra: 2008, pp 89-90.
Natureza morta
Olímpia Couto (Brasil, 1947)
óleo sobre eucatex, 50 x 70 cm
Tarde preguiçosa de leitura
Arlene Cassidy (Canadá, contemporânea)
Na mesa da roleta no cassino em Monte Carlo, 1892
Edvard Munch (Noruega, 1863-1944)
óleo sobre tela, 74 x 116 cm
Museu Munch, Oslo
Fiódor Dostoiévski, escreveu a novela, O jogador, publicada em 1867, como pagamento de uma dívida de jogo. Parte das dificuldades financeiras que sofreu por toda vida era resultado de seu vício de jogador. A primeira vez que se dedicou à roleta, jogo que o seduziu de imediato, foi em 1862, Numa das vezes em que perdeu, em 1866, concordou em escrever um livro em um mês. Se não conseguisse abdicaria os direitos de autor, de todos os livros até então publicados, em benefício de F. T. Stellovsky, conhecido editor dos maiores escritores russos da época. A aposta acordada tinha prazo até 1º de novembro daquele ano. O jogador, obra que Thomas Mann considerou uma das melhores de Dostoiévski, foi escrita em 26 dias. Para isso Dostoiévski deixou de lado o manuscrito de Crime e Castigo, em que trabalhava. E pediu auxílio da estenógrafa Anna Grigoryevna para poder entregar o manuscrito em tempo. Um ano depois, eles se casaram.
Paisagem com rio, 1928
[Cataguases]
Aníbal Mattos (Brasil, 1886-1969)
óleo sobre madeira, 49 x 34 cm
Um canto confortável, 1887
Charles Courtney Curran (EUA, 1861–1942)
óleo sobre tela, 22 x 30 cm
Ralph Waldo Emerson
Ralph Waldo Emerson (1803 – 1882)
Ollie, Imogen e Tati, 2013
Luke Martineau (Inglaterra, 1970)
óleo sobre tela, 60 x 96 cm
“Os anos da Rua Paraíba, 214 marcam um período intenso na minha vida. Meu amor pela leitura era tal que chegava a descurar dos estudos para me dedicar aos romances. Burlava com a maior facilidade a fiscalização de mamãe, que nesse ponto era bastante severa. Assim que me apanhei lendo em francês, nem ela nem meus irmãos (que só vieram a ler nessa língua algum tempo depois), puderam controlar minhas leituras. Após as aulas, aos domingos e feriados, passava inteiramente entregue à minha paixão: lia tudo que me caía sob os olhos, não havendo nada que me interessasse tanto, nem cinema, nem festas, nada. Os meus estudos de inglês, muito me serviam nesse particular. Tinha um professor que preferia conversar com mamãe sobre jardinagem e galinhas, sendo suas aulas de meia hora, no máximo, com exceção de quando papai se achava em casa. Para mamãe, entretanto, inglês era a matéria de que eu mais gostava e à qual mais me dedicava, isto não só porque o professor nos ajudava a tapeá-la, falando conosco na sua presença, aquelas frases de principiantes:”What is this?“, “Where is the door?”, “How are you?“, “What is the matter with you?” e outras da mesma categoria, como também entre os compêndios adotados por ele havia um, o Inglês sem Mestre, que me auxiliava a mistificá-la. Era um livro de tamanho bem maior do que o comum de estudo, capa dura, marrom. Metia dentro o romance que lia no momento e passava o dia com ele aberto ostensivamente, fingindo que preparava as lições para o dia seguinte. À noite, enquanto ela conversava com as irmãs, sentadas ao redor da mesa da sala de jantar, lá estava eu, absorta no estudo, pensava ela. De vez em quando, porém, reclamava:
— Helena, não sei que estudo é esse seu, ouvindo conversa ao mesmo tempo, assim não pode aprender.
Não respondia nada, mergulhada que estava na leitura apaixonante, de onde nem um tiro de canhão me arrancaria. Quando, porém, as reclamações se amiudavam muito, abandonava a sala, indo para o meu quarto.
Dias havia, entretanto, em que, receosa de que acabasse desconfiando da minha grande dedicação ao estudo de inglês, mudava de tática. Despedia-me dizendo que ia à casa de vovó, trancava a porta do meu quarto (cada um de nós tinha o seu naquele casarão), saindo pela porta da frente. Assim que transpunha o portão de ferro, parava uns passos adiante e, depois de alguns minutos de espera, voltava de manso, inspecionando o corredor da entrada para ver se tinha alguém e, se não, entrava rápida, pulava a janela do meu quarto, que deixara aberta de propósito. Metia-me debaixo da cama e ali passava o dia lendo romances, na maior felicidade, apesar dos sobressaltos e a despeito da posição incômoda, deitada de costas. De vez em quando, mamãe, na sua faina de dona de casa caprichosa, vinha varrer e catar as folhas secas que poderiam ter caído nos vasos de begônia que se alinhavam ao longo da entrada.
Menina com livro, 1909
Henri Lebasque (França, 1865 – 1937)
óleo sobre tela
Ouvia, com o coração batendo, o ruído dos seus chinelos, pra lá pra cá, a vassoura de palha varrendo, louca de medo que me descobrisse. Mas nunca acontecia: continuava seu trabalho, longe de suspeitar que me achava ali bem perto. As horas passavam na maior rapidez e eu lia, lia, completamente esquecida do mundo e da realidade, vivendo apenas aquilo que o livro contava.
À hora do jantar saía de debaixo da cama, pulava de novo a janela e entrava pela porta da frente como se estivesse chegando naquele momento da casa de vovó. Deitada debaixo da cama, com luz insuficiente, os braços cansados de manter o livro à altura dos olhos, lia toda uma enfiada de livros a mais disparatada possível: Capitain, Pardaillan, Fausta Vencida de Miguel Zevacco, O Piano de Clara, O Violino do Diabo, Anjos da Terra, de Perez Escrich, Memórias de um Médico, Visconde de Bragelone, Vinte Anos Depois, Conde de Montecristo, de Alexandre Dumas, quase tudo de Júlio Verne, todos os fascículos de Sherlock Holmes, Nick Carter e Arsène Lupin e os primeiros romances de Paul Bourget, em grande moda da Bibliotèque de Ma Fille, a Filha do Diretor do Circo, que me pôs triste muitos dias, tudo misturado com Recordações da Casa dos Mortos, Le Crime de Sylvestre Bonnard, Le Lys Rouge, Crime e Castigo e muita coisa de que não me lembro. Mas não havia livro que chegasse para a minha enorme sede. Como não tinha dinheiro para comprar, recorria às colegas do colégio, lia escondido os do meu tio e o vendeiro vizinho nos emprestava alguns: O Judeu Errante, de Eugênio Sue e vários fascículos dos Dramas do Novo Mundo de Gustavo Aymard, além de alguns de Escrich. Siô Mané e Siô Chico, além de nossos fornecedores de gêneros, contribuíam também para o nosso desenvolvimento intelectual. Quando não havia outra fonte onde buscar, lá ia atrás deles , que sempre desencavavam algum velho romance de Escrich o façanhas de índios americanos. Outro meio de arranjar eram os amigos de Dauto, sendo necessário, porém, que lhe pagasse quatrocentos réis para comprar cocada baiana na venda de Zé Miliano, botequineiro da esquina da rua. Como pagamento era sempre adiantado, passava antes pela venda, comprava as cocadas e depois então ia em busca de Caio Líbano ou outro que tivesse livros. Em casa, esperava impaciente, chegando à calçada de minuto em minuto para ver se ele aparecia na esquina. Mas, qual, as horas passavam e nada. Já sabia, era só procurá-lo no quintal e encontrava-o trepado no mais alto galho do , pois abacateiro. Tinha conseguido entrar num dos momentos em que estava no interior e subira na árvore para se livrar de mim. Não podia atingi-lo, pois não tinha coragem de subir tão alto. Embaixo, pedia, chorava, ameaçava e ele, nada.
Só descia depois que tinha acabado de ler o livro que eu tinha pago para que buscasse pra mim. Mas não me corrigia: era só faltar leitura e me deixava seduzir pelas suas promessas de que daque vez procederia diferente.”
Em: Por onde andou meu coração: memórias, Maria Helena Cardoso, Rio de Janeiro, José Olympio: 1968, 2ª edição, Coleção Sagarana, volume 70, pp: 59-60
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Maria Helena Cardoso, professora, escritora, ficcionista e memorialista. Nasceu em Diamantina, MG em 1903 e faleceu no Rio de Janeiro em 1994. Passou a infância em Curvelo, MG, onde fez os primeiros estudos, prosseguindo-os em Belo Horizonte, onde se formou na Escola de Farmácia. Mudou-se com a família para o Rio de Janeiro em 1923. [Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras: 1711-2001, Nelly Novaes Coelho]
Obras:
Por onde andou meu coração, memórias, 1967
Vida,vida, romance, 1973