Soneto XXVII de Tite de Lemos

29 04 2025

Na rotunda

Francine van Hove (França, 1942)

óleo sobre tela, 50 x 65 cm

 

 

XXVII

 

Tite de Lemos

 

Nem tomes por virtude o que é defeito,

floreios de poetas amestrados,

nem tenhas por humano o que é perfeito,

coisa de heróis e deuses aplicados.

 

Deve ser que não levo muito jeito

ou quando pense certo faça errado

e ande torto julgando andar direito,

sujeito cego atrás do objeto amado.

 

Persigo a brevidade de um instante

que toda eternidade contivesse:

nisso me acho e nisso estou perdido

 

com desvelo tão quieto e tão constante

que vivê-lo, mais nada, me envaidece

e até nem cuido ser correspondido.

 

 

Em: Caderno de sonetos, Tite de Lemos, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1988. p. 63





Nossas cidades: Ouro Branco, MG

29 04 2025

Paisagem de Ouro Branco, MG

Oldack de Freitas, (Brasil – Segunda metade do Século XX)

óleo sobre tela,  45 X 60 cm





Paul Auster: livros

28 04 2025

Dia de leitura, 2008

Linda Apple (EUA, 1946)

óleo sobre tela, 15 x 15 cm

 

 

“É por isso que os livros não vão desaparecer. É impossível.  É o único momento em que entramos verdadeiramente na mente de um estranho, e  fazendo isso encontramos o que há de comum na nossa humanidade. Então, o livro não pertence só ao escritor, pertence ao leitor também, e juntos fazemos o que ele é.”

 

Paul Auster

 

Tradução livre: Ladyce West

 

— * — * — *

“And that’s why books are never going to die. It’s impossible. It’s the only time we really go into the mind of a stranger, and we find our common humanity doing this. So the book doesn’t only belong to the writer, it belongs to the reader as well, and then together you make it what it is.”

 

 





Mulher medieval

28 04 2025

Penelope escrevendo para Ulisses, c. 1500

Página com iluminura da obra de Ovídio: Heroides versão em francês

Biblioteca Nacional da França

 

 

No livro O leitor comum de Virgínia Woolf, no primeiro ensaio, Os Pastons e Chaucer, somos apresentados a um detalhado e simpático retrato de uma senhora: Margaret Paston(c. 1420-1484). Virginia Woolf traz aos nossos olhos, a personalidade que detectou através das cartas para membros da família   Primeiro me lembrei do marcante diário e memórias, The memoirs of Glückel of Hameln, (1646- 1724) [não encontrei em português] que, começado em 1690, foram escritas trezentos anos depois das cartas de Margaret Paston. Surpreende o quão pouco mudou naqueles séculos todos o papel da mulher, suas preocupações em manter a família e os  bens da família protegidos. Esse era de fato um dos papeis da mulher, esposa de comerciante ou da pequena nobreza ou dos senhores de terras. 

Apesar de leitora assídua sobre idade média, sempre me assombro com o que aprendo sobre a vida dessas mulheres no passado. Letradas, se comunicavam com membros da família regularmente, por cartas, nos dando assim uma maneira de imaginarmos suas vidas com maior precisão. Mas mais delicioso ainda é ver como Virgínia Woolf constrói um retrato tridimensional dessa mulher que conheceu só através de suas cartas. Para escritores de ficção não só a descrição de Margaret Paston assim como a do Castelo Caistor em Norfolk. Além, é claro, de nos ensinar como observar a obra de Chaucer.   Aqui fica um pedacinho do ensaio de Woolf, para servir de acepipe literário.

 

“As longuíssimas cartas que escreveu tão laboriosamente, com sua letra clara e apertada, para o marido, que estava (como sempre) ausente, não mencionavam a si mesma. Os carneiros tinham destruído o feno. Os homens de Heyden e Tuddenham estavam ausente. Um dique se rompera e um boi foi roubado. Precisavam com urgência de melaço, e ela necessitava muito de tecidos para um vestido.

Mas a Sra. Paston jamais falava de si mesma.

Portanto os pequenos Pastons viam a mãe redigir ou ditar cartas longuíssimas, uma página após a outra, uma hora após a outra; porém interromper um pai ou mãe que escreve tão laboriosamente sobre questões de tamanha importância devia ser um pecado. A tagarelice dos filhos, a sabedoria do quarto de dormir das crianças, ou do seu quarto de estudos não tinham lugar naquelas comunicações elaboradas. Em sua maioria, suas cartas são as cartas de um meirinho honesto para seu chefe, explicando , pedindo conselhos, dando notícias, fazendo relatos. Houvera roubos e carnificina; dificuldades em conseguir o pagamento dos aluguéis; Richard Calle mal conseguira amealhar um dinheiro de nada; e, entre uma coisa e outra, Margaret não tivera tempo de realizar, como deveria, o inventário dos bens que seu marido solicitara. . A velha Agnes, inspecionando à distância um tanto duramente, os afazeres do filho, deve muito bem tê-lo aconselhado a planejar esse inventário, para que tenhais menos o que fazer no mundo,; vosso pai já disse: Onde há poucos afazeres, há muito descanso. O mundo não passa de uma estrada, cheia de infortúnio; e, ao partirmos dela, nada levaremos conosco a não ser nossas boas ações e malfeitos.

Essa passagem ressalta mais uma vez, como a concepção generalizada de que as mulheres na idade média não tinham responsabilidades é errônea. Eram elas as responsáveis pela manutenção, pela adição e preservação dos bens familiares, pelo bem-estar dos filhos e do todos aqueles que se encontravam sob sua guarda, nas terras, nas mansões, nos castelos.

Citação: O leitor comum, Virgínia Woolf, tradução de Marcelo Pen e Ana Carolina Mesquita, Tordesilhas: 2023, p. 34-35

Nota: Cartas de Paston [The Paston Letters] é um do maiores arquivos de correspondência na Inglaterra do século XV. Volume composto de correspondência particular, (por volta de mil cartas) e documentos tais como petições, contratos de aluguel, testamentos, que cobrem três gerações sobre a vida pessoa de uma família na época. Na Biblioteca Britânica em Londres.





Imagem de leitura: Fabien Fabiano

27 04 2025

Ilustração de Fabien Fabiano (França, 1882 – 1962) para a Revista La Vie Parisiènne, publicada em 28 de janeiro de 1922.





Flores para um sábado perfeito!

26 04 2025

Vaso com margaridas e outras flores, 1943

José Pancetti (Brasil, 1902 -1858)

óleo sobre tela, 46 x 38 cm

 

Vaso de flores, 1935

Eugênio Latour (Brasil,1874-1942)

óleo sobre tela, 62 X 51 cm





Imagem de leitura: Dario Campanile

25 04 2025

Feliz acaso

Dario Campanile (Itália, 1948)

 





Trova da cidade grande

25 04 2025

Cidade geométrica, 1985

Cláudio Tozzi (Brasil, 1944)

acrílica sobre tela colada em madeira, 90 x 200 cm

 

 

A minha roça eu troquei

pelas luzes da cidade.

Nesse dia eu comecei

meu plantio de saudade!


(Arlindo Tadeu Hagen)





Vento do mar e o sol no meu rosto a queimar…

25 04 2025

Um passeio pela cidade

Abigail de Andrade (Brasil, 1864-1890)

óleo sobre tela, 60 x 79 cm





Resenha: A carteira, de Francesca Giannone

24 04 2025

Jovem sentimental, 1920-22

Ubaldo Oppi (Itália, 1889-1942)

óleo sobre placa

Museo d’Arte Moderna e Contemporanea di Trento e Rovereto

 

 

A carteira, de Francesca Giannone, traduzido para o português por Roberta Sartori [Editora LVM: 2024] , é o primeiro romance da autora, chamada por alguns como uma “segunda Elena Ferrante“.  Esse livro foi vencedor do Prêmio Bancarella de 2023.  A comparação com Ferrante talvez seja uma das razões de seu grande sucesso – mais de 625.000 livros vendidos em 2023.  Só a localização italiana, acompanhando a narrativa sobre uma mulher e sua família, amigos e parentes, no entanto, não é suficiente para transformá-la em uma segunda autora com potencial de ser universalmente aclamada. Falta-lhe a riqueza nos detalhes relevantes, e o desenvolvimento psicológico dos personagens esboçados para que a comparação se justifique.  

Uma história com ingredientes interessantes que se perde, nas quatrocentas e mais páginas: detalhes desimportantes, com laudas facilmente subtraíveis, sobretudo no último terço, sobre a construção da Casa da Mulher.  A sinopse parecia boa:  uma mulher do norte da Itália se casa com um italiano do sul e vai morar com ele na Puglia, onde ele se encarrega de desenvolver uma vinícola, nas terras que herdou.  Anna o acompanha.  Dona de um espírito independente, culta, leitora, acaba trabalhando como carteira da cidade, após concurso, quando quebra as expectativas de todos, familiares e habitantes locais, por trabalhar numa posição até então ocupada por homens. Considerada uma estranha no ninho, por seus hábitos e linguagem de outra região, ela  teria a oportunidade de conhecer e interagir com os habitantes de Lizanello, [Lecce] entregando cartas e telegramas para toda a população.

 

 

 

No entanto, essa troca entre habitantes e Anna não é explorada pela autora, ainda que seja sugerida na sinopse.  O livro se arrasta cobrindo algumas décadas da vida da carteira, enquanto a trama se perde no núcleo familiar de Anna, seu marido Carlo e filho Roberto; na atração que Antonio, irmão de Carlo, tem por Ana, no passado de Carlo, familiares, filhos legítimos ou não, e um ou outro personagem como Giovanna vítima de um relacionamento abusivo com um padre.  Mas se espremermos o conteúdo  temos uma novela televisiva, em que intrigas e amores proibidos são alimento para um longo volume que merecia bom editor, para cortar cenas inúteis, diálogos que não levam a nada e enchem o leitor de  informação espúria para a trama.

Terminei o livro com a sensação de tempo perdido.  É superficial. É adolescente.  Não é livro para leitor maduro.  Francesca Giannone poderia e deveria entregar mais.  Percebi nela algumas características que costumo ver nos escritores de primeira viagem.  Sua obra poderia ser melhorada com a assistência de um bom editor.  Pergunto-me : para que um prólogo?  Em que ele ajudou nessa narrativa?  Outros detalhes de primeiros romances: muitos personagens nomeados que aparecem uma única vez e não participam mais do resto da trama. Uma das primeiras regras de uma boa edição: personagens com nomes devem ser sempre aqueles que o leitor precisa gravar para entender o enredo. Enfim, há espaço para melhorias na escrita.  Mas é preciso que a autora e que seus editores queiram que isso aconteça, e que não se deitem no sucesso da primeira obra, porque pode ser que não se sustente.  Francesca Giannone toca em assuntos queridos na atualidade: emancipação feminina, mulheres trabalhando, votando, mulheres em profissões fora do esperado, mudança em preconceitos sociais. Mas não se aprofunda em nenhum desses aspectos. Tudo não passa de conversa fiada, de um aceno ao espírito da época.

 

 

Francesca Giannone

 

 

Uma palavra sobre a edição brasileira: deveria ter tido mais rigor na revisão.  Aponto aqui alguns problemas que saltaram aos olhos: duas maneiras de escrever o nome Agata ou Agatha.  Ambos aparecem no texto.  Há frases inteiras que não fazem sentido, mostro algumas mas há mais. Imagino serem resultado de uma revisão final pela inteligência artificial que não distingue homônimos  ou que deixa passar a palavra correta na ordem errada.  1) “Ela havia ficara em recuperação.” [169]; “ele cresceu de forma surpreendentemente” [228]; “No final, ele dará há algo para ele também” [350] “A dela mãe a expulsou de casa” [433]. 

Não recomendo.  Preferiria dar uma estrela negativa, mas não posso.  Fica uma estrela pelo esforço da escritora, pela tradução e alguns pontos a menos pela revisão editorial.  Não conheço essa editora.  Não começamos com o pé direito.  Espero que melhorem no futuro.  Não pretendo colocar o Prêmio Bancarella entre aqueles cujos vencedores farão parte da minha lista de futuras leituras.  Ver que esse prêmio existe há setenta e dois anos e que teve como vencedores Ernest Hemingway (1953), Boris Pasternak (1958), Oriana Fallacci (1970); Umberto Eco (1989) entre outros conhecidos nomes da literatura mundial é surpreendente. Não sei o  que houve em 2023. 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.