
Homem lendo livro para menina da fronteira, 2011
Alfredo Rodriguez (Mexico, 1954)
óleo sobre tela

Homem lendo livro para menina da fronteira, 2011
Alfredo Rodriguez (Mexico, 1954)
óleo sobre tela
Acho que já nos encontramos
Arne Westerman (EUA, 1927 – 2017)
acrílica sobre tela, 60 x 76 cm
Leitura entre brancos
Monica Castanys (Espanha, 1973)
óleo sobre tela, 60 x 60 cm
O mundo dos livros, ilustração de Jean-François Martin.
Ernest Hemingway
Interior, Hesnes, Noruega , 1925
Albert Marquet (França, 1875 – 1947)
óleo sobre tela
Mulher lendo no jardim
Georges D’Espagnat (França, 1870 – 1950)
óleo sobre tela, 64 x 80 cm
“Vou morrer, pensou Virgile. E repetiu a frase diversas vezes. O fim estava próximo, ele tinha certeza disso. Um calafrio atravessou-lhe o corpo, da cabeça aos pés. Ele tinha medo da morte, não porque ele não estaria mais por aqui — estava acostumado com o sentimento de ausência do mundo — , mas porque morrer significava tornar-se normal. Cadáveres não têm personalidade. Não era o instinto de sobrevivência, que não suportava a morte, mas um seu espírito de contradição.
Rebaixou a luz e sentou-se no sofá. Seus dedos brincavam pelas asperezas, pelas falhas, pelo desgaste do tecido a circunferência de uma queimadura de cigarro. Ávido por sensações e informações apalpou os objetos a seu redor como Hélène Keller lendo um livro em braile. Tinha vivido sete anos naquele apartamento. Tinha-o marcado assim como o pé transfere sua forma para o sapato. Será que se pode dizer a mesma coisa do mundo? Com nossa morte, será que a matéria do mundo guardará a nossa marca? Será que os átomos conservarão os contornos de nossos pensamentos? Pelo menos, pensava Virgile, o apartamento permaneceria, seus amigos continuaram vivos, seus livros e seus discos seriam adotados por outras pessoas.
Para o jantar, não se voltou para a despensa. Entrou no site do Bon Marché e pediu um verdadeiro banquete, com três garrafas de Mouton-Rotschild. A cesta lhe chegou em meia hora. A qualidade da refeição neutralizou um pouco as suas considerações sombrias. Ouviu seus vinis prediletos. Artistas do mundo inteiro de todas as épocas se sucediam na sala para um ótimo concerto em sua homenagem.
Com uma taça de vinho na mão caminhou pelo seu apartamento de dois cômodos com desejo de tocar em cada centímetro quadrado, para deixar marcada ali sua impressão digital. Os deltas, os cristais, os arcosm as curvas e os turbilhões da polpa de seus dedos se fossilizariam. Nenhuma faxina, nenhuma demolição seria capaz de apagar as provas de sua existência. Sues traços se manteriam impressos na penumbra do infinitamente reduzido, à espera dos arqueólogos que um dia os descobririam. Tinha lido uma reportagem sobre as louças da Antiguidade, que ao serem moldadas em argila, girando, gravavam à sua revelia, como num disco, as palavras pronunciadas durante o trabalho. Seu apartamento guardava milhões de microsulcos contendo seus monólogos e suas conversas.”
Em: Talvez uma história de amor, Martin Page, tradução de Bernardo Ajzenberg, Rio de Janeiro, Editora Rocco: 2009, páginas 18-19.
Jovem em azul
Brian James Dunlop (Austrália, 1938 – 2009)
óleo sobre tela, 64 x 83 cm
Katie
Aldo Balding (GB, 1960)
óleo sobre tela, 70 x 50 cm
No ano passado, coloquei aqui no blog, a tradução de Bárbara Heliodora, do Soneto 18 de Shakespeare, um dos mais conhecidos mundialmente. Mas, há outras, muitas outras, e se compararmos podemos ver como a cada tradução o poema muda um tanto… São todas boas e traduzidas por conhecidos poetas, mas a dificuldade da tradução de poesias é evidente. Vejamos, por curiosidade o que acontece.
O soneto pode aparecer nesta forma 4-4-3-3 ou seguido. Optei por 4-4-3-3 para aumentar a legibilidade na tela.
ORIGINAL EM INGLÊS
Shall I compare thee to a summer’s day?
Thou art more lovely and more temperate:
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer’s lease hath all too short a date:
Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimm’d;
And every fair from fair sometime declines,
By chance, or nature’s changing course, untrimm’d;
But thy eternal summer shall not fade
Nor lose possession of that fair thou ow’st;
Nor shall Death brag thou wander’st in his shade,
When in eternal lines to time thou grow’st;
So long as men can breathe or eyes can see,
So long lives this, and this gives life to thee.
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NA TRADUÇÃO DE BÁRBARA HELIODORA (Brasil 1923 — 2015)
Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.
Às vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.
Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:
Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.
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NA TRADUÇÃO DE EMMANUEL SANTIAGO (Brasil, 1984)
Poderei comparar-te ao fulgor do verão?
Tu és tão mais amável e tão mais ameno:
A tormenta de maio a flor tolhe em botão
E o verão se consome num prazo pequeno.
Quando faz calor, o olho do céu nos fulmina,
Outras vezes oculta a dourada nudeza;
E, de tudo que é belo, a beleza declina
Por acaso ou por sua fugaz natureza.
Mas, sem fim, teu verão não conhece fastio,
Nem sequer perde o viço no curso das eras,
Nem a Morte te envolve em seu manto sombrio,
Pois no verso indelével o tempo superas:
…….. Enquanto homens houver, e olhos prontos a ver,
…….. Enquanto isto for lido, tu hás de viver.
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NA TRADUÇÃO DE VASCO GRAÇA MOURA (Portugal, 1942 – 2014)
Que és um dia de verão não sei se diga.
És mais suave e tens mais formosura:
vento agreste botões frágeis fustiga
em Maio e um verão a prazo pouco dura.
O olho do céu vezes sem conta abrasa,
outras a tez dourada lhe escurece,
todo o belo do belo se desfasa,
por caso ou pelo curso a que obedece
da Natureza; mas teu eterno verão
nem murcha, nem te tira teus pertences,
nem a morte te torna assombração
quando o tempo em eternas linhas vences:
enquanto alguém respire ou possa ver
e viva isto e a ti faça viver.
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NA TRADUÇÃO DE PÉRICLES EUGÊNIO DA SILVA RAMOS (Brasil, 1919 – 1992)
A um dia de verão como hei de comparar-te?
Vencendo-o em equilíbrio, és sempre mais amável:
Em maio o vendaval ternos botões disparate,
E o estio se consome em prazo não durável;
Às vezes, muito quente, o olho do céu fulgura,
Outras vezes se ofuscava a sua tez dourada;
Decai da formosura, é certo, a formosura,
Pelo tempo ou o acaso enfim desadornada:
Mas teu verão é eterno, e não desmaiará,
Nem hás de a possessão perder de tuas galas;
Vagando em sua sombra o Fim não te verá,
Pois neste verso eterno ao tempo te igualas:
Enquanto o homem respire, e os olhos possam ver,
Meu canto existirá, e nele hás de viver.
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NA TRADUÇÃO DE CARLOS DE OLIVEIRA (Brasil/Portugal 1921 – 1981)
Comparar-te a um dia de verão?
Há mais ternura em ti, ainda assim:
um maio em flor às mãos do furacão,
o foral do verão que chega ao fim.
Por vezes brilha ardendo o olhar do céu;
outras, desfaz-se a compleição doirada,
perde beleza a beleza; e o que perdeu
vai no acaso, na natureza, em nada.
Mas juro-te que o teu humano verão
será eterno; sempre crescerás
indiferente ao tempo na canção;
e, na canção sem morte, viverás:
Porque o mundo, que vê e que respira,
te verá respirar na minha lira.
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NA TRADUÇÂO DE GERALDO CARNEIRO (Brasil, 1952)
Te comparar com um dia de verão?
Tu és mais temperada e adorável.
Vento balança em maio a flor-botão
E o império do verão não é durável.
O sol às vezes brilha com rigor,
Ou sua tez dourada é mais escura;
Toda beleza enfim perde o esplendor,
Por acaso ou descaso da Natura;
Mas teu verão nunca se apagará,
Perdendo a posse da beleza tua,
Nem a morte rirá por te ofuscar,
Se em versos imortais te perpetuas.
Enquanto alguém respire e veja e viva,
Viva este poema, e nele sobrevivas.
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NA TRADUÇÃO DE IVO BARROSO (Brasil, 1929)
Devo igualar-te a um dia de verão?
Mais afável e belo é o teu semblante:
O vento esfolha Maio inda em botão,
Dura o termo estival um breve instante.
Muitas vezes a luz do céu calcina,
Mas o áureo tom também perde a clareza:
De seu belo a beleza enfim declina,
Ao léu ou pelas leis da Natureza.
Só teu verão eterno não se acaba
Nem a posse de tua formosura;
De impor-te a sombra a Morte não se gaba
Pois que esta estrofe eterna ao Tempo dura.
Enquanto houver viventes nesta lida,
Há-de viver meu verso e te dar vida.
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NA TRADUÇÃO DE THEREZA CHRISTINA ROQUE DA MOTTA (Brasil, 1957)
Como hei de comparar-te a um dia de verão?
És muito mais amável e mais amenas
Os ventos sopram os doces botões de maio,
E o verão finda antes que possamos começá-lo:
Por vezes, o sol lança seus cálidos raios,
Ou esconde o rosto dourado sob a névoa;
E tudo que é belo um dia acaba,
Seja pelo acaso ou por sua natureza;
Mas teu eterno verão jamais se extingue,
Nem perde o frescor que só tu possuis;
Nem a Morte virá arrastar-te sob a sombra,
Quando os versos te elevarem à eternidade:
Enquanto a humanidade puder respirar e ver,
Viverá meu canto, e ele te fará viver.
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NA TRADUÇÃO DE JORGE WANDERLEY (Brasil, 1938 -1999)
Comparar-te com um dia de verão?
Tens mais doçura e mais amenidade:
Flores de maio, ao vento rude vão
Como o estio se vai, com brevidade:
O sol às vezes em calor se exalta
Ou tem a essência de ouro sem firmeza
E o que é formoso, à formosura falta,
Por sorte ou por mudar-se a natureza.
Mas teu verão eterno brilha a ver-te
Guardando o belo que em ti permanece.
Nem a morte rirá de ensombrecer-te,
Quando em verso imortal, no tempo cresces.
Enquanto o homem respire, o olhar aqueça,
Viva o meu verso e a vida te ofereça.
Protetora da Ciência, 2000
Erna Y (Macedônia/Brasil, 1926 – 2014)
[Erna Y Antunes]
óleo sobre tela, 100 x 80 cm
Coleção Particular
Memórias do jardim
Sandra Kuch (EUA, contemporânea)
gravura, 40 x 50 cm