Resenha: “A espiã vermelha” de Jennie Rooney

27 10 2020

O casal Zaitsev no interior de sua casa, 1955

Igor Radomano (Rússia, 1921-1992)

óleo sobre tela, 139 x 111 cm

Quando recebi de presente de Natal em 2019 este livro, não sabia que havia um  filme baseado na obra, estrelado por Judy Dench.  Pode ter sido muito bom se fez jus a obra de Jeannie Rooney, lançada no Brasil pela Record com tradução do inglês por Cláudia Mello Belhassof.  Pensei no início tratar-se de história de espionagem nos termos tradicionais, próxima às obras de Ian Fleming que  fizeram do agente 007 do MI5, um dos mais populares e sedutores personagens no mundo inteiro. Foi surpreendente realizar que esta espiã, personagem principal, não era figmento da imaginação de um escritor, mas obra de ficção baseada na biografia de verdadeira espiã que passou segredos importantes do governo britânico para as mãos dos russos.  Tão importante foram eles que ela foi considerada a agente da maior importância para a KGB.  A espiã vermelha, portanto é uma biografia ficcionalizada de Melita Norwood, a mulher que passou segredos de estado para as mãos do inimigo.

Ainda que a maioria dos leitores  considere este livro uma “trama envolvente sobre o amor e o significado da lealdade” como informa a orelha do livro, acredito que seja principalmente um longo ensaio, uma obra de apreciação sobre  traição.  Ou melhor, a constatação das infinitas maneiras em que uma pessoa pode ser traída ou trair.

A primeira consideração que me ocorreu foi a diferença  entre inglês e português  ao tratarmos de traição.  Em inglês para traição, há duas palavras distintas.  “Treason” que limita a traição a um ato de quebra de confiança nos interesses de estado e “Betrayal” cujo significado também é traição, mas abraça um maior número de situações de quebra de confiança, incluindo a traição amorosa. A espiã vermelha trata de ambos os significados.  Não só Joan Stanley (o nome de Melita Norwood  no livro) trai seu país, mas trai e é traída por amigos, familiares e parceiros amorosos.

Depois voltei ao significado de traição do ponto de vista histórico.  É atribuído, sem qualquer documentação, a Winston Churchill a máxima “é o vencedor quem escreve a história”, ou “cabe ao vencedor escrever a história”. Questionar a traição de estado é não aceitar o rumo da história. Joan Stanley  é traidora porque a Grã Bretanha estava no grupo que venceu a Segunda Guerra Mundial.  O mesmo aconteceu aqui no Brasil, com Domingos Fernandes Calabar, traidor por apoiar a colonização holandesa, quando Portugal vencia os invasores no nordeste brasileiro.   Nos anos 70,  Chico Buarque de Hollanda e Ruy Guerra lançaram a peça, musicada:  Calabar: o elogio da traição (1973)  que pretende questionar esta traição.  Mas não se consegue contar a história pelo lado dos que perderam, pois qualquer situação mencionada de como  seria a realidade caso outros tivessem vencido,  não passa de fantasia, paisagens  imaginárias, idealizadas de uma história que nunca aconteceu.  E por mais que na biografia ficcional essa espiã inglesa pareça pretender o equilíbrio entre potências mundiais, suas ações são imperdoáveis por submeter o mundo inteiro à perigosa corrida nuclear. Só por essas considerações suscitadas pela leitura de  A espiã vermelha este livro já teria me satisfeito pelo saudável exercício filosófico que evoca.

Jennie Rooney

Bom notar que a narrativa em capítulos intercalados entre o presente e o passado é muito eficiente e mantém o interesse do leitor do início ao fim.  Descobrimos também ao longo do texto outras maneiras em que uma pessoa pode trair e ser traída. É um livro rico de observações, passagens que requerem do leitor atento, uma pausa para avaliar, desde “a nacionalidade é uma falsa distinção” [108] a “que coisa horrível envelhecer. Não tem certeza se recomendaria isso a alguém;” [182]. Este é um livro que questiona aquilo que tomamos como certo.  Levanta questões.  Tem sucesso fazendo isso, obliquamente.

Joan Stanley é uma personagem muito rica.  Repleta de dúvidas sobre si mesma acaba se revelando mais complexa do que se imaginaria no início. É uma cientista, uma raridade na época, mulher moderna até pelos dias de hoje.  Mas enquanto é intrépida para algumas coisas, também precisa da aprovação dos outros.  Recomendo a leitura.  Mesmo que não se saiba onde a ficção se desvia dos fatos desta recente história.  Recomendo.

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Imagem de leitura — Jules Emile Saintin

21 10 2020

 

 

Jules_Emile_Saintin_Junge_Frau_bei_der_LektüreJovem em meio a leitura, 1894

Jules Emile Saintin (França, 1829-1894)

óleo sobre madeira, 24 x 18 cm





Imagem de leitura — Frank Markham Shipworth

6 10 2020

 

 

Frank Markham ShipworthEmbelezando a irmã, 1886

Frank Markham Shipworth (GB, 1854-1929)

óleo sobre tela, 89 x 103 cm





Dona Felicidade, poesia de Raul Braga

29 09 2020

 

 

Gildásio Jardim Barbosa- do vale do Jequitinhonha - MG. Trabalho de pintura sobre tecidos estampados em tela. Que faz fusão dos personagens com as estampas -2Moça lendo na rede

Gildásio Jardim Barbosa (Brasil, contemporâneo)

[Vale do Jequitinhonha – MG]

pintura sobre tecidos estampados em tela.

 

Dona Felicidade

 

Raul Braga

 

Quão inconstante és tu, felicidade,

Irrefletida em não poder mais ser

Que a gente fica em tal ansiedade,

Com medo de perder-te, ou de não ter.

 

E vai a vida, assim em desprezar,

Gastos nos dias bons da mocidade,

Sem que nos venha nesse amanhecer

Um vislumbre, sequer, de claridade.

 

Insensato sou eu, quanto insensato,

Em querer esboçar uma quimera

Quando bem fácil eu tenho o teu retrato

Felicidade, em tudo és bem mulher:

 

— Tu vens chegando, quando não se espera,

E vais embora, quando não se quer.

 

Em: A lira na minha terra: poetas antigos e contemporâneos no Pará, Clóvis Meira, Belém: 1993, p. 332-3





Imagem de leitura — Anônimo

28 09 2020

 

 

 

genuesische-schule-des-17.-jahrhunderts-3376550São Jerônimo, século XVII

Escola Genovesa

óleo sobre tela, 64 x 52 cm





Imagem de leitura — Vincenzo Irolli

17 09 2020

 

 

 

Vincenzo Irolli (Italian, 1860-1949).O livro verde

Vincenzo Irolli (Itália, 1860-1942)

óleo sobre tela





Imagem de leitura — Fongwei Liu

20 08 2020

 

 

Fongwei Liu (China,), uma velha história,2009, ostUma velha história, 2009

Fongwei Liu (China, radicado nos EUA)

óleo sobre tela

 





Minutos de sabedoria: Ernest Hemingway

13 08 2020

 

 

jurick-karin-48Leitora na grama

Karin Jurick (EUA, contemporânea)

 

 

“É uma estupidez não ter esperança.”

Ernest Hemingway





Imagem de leitura — Francis Coates Jones

11 08 2020

Francis COates JOnes, Interesting news,

Notícia interessante

Francis Coates Jones (EUA, 1857 – 1932)

óleo sobre tela, 50 x 35 cm





Lendo e lembrando do que leu

8 08 2020

 

 

Convent Lily, Marie Spartali Stillman, 1891Lírio do convento, 1891

Marie Spartali Stillman (GB, 1844 – 1927)

aquarela

Ashmolean Museum, Oxford

 

 

Leio por volta de quarenta e cinco livros de ficção por ano.  E muitos livros de não ficção. Livros de ficção recentes têm tido muito pontos em comum, temas que estão em pauta, aparecem com maior frequência.  Assim aos poucos, se não tomo nota dos personagens, daquilo que achei interessante, acho difícil voltar e me lembrar exatamente do que li em que livro.  Faço parte de três grupos de leitura e nem sempre o que leio é algo que eu teria escolhido.  Portanto nem sempre os autores são conhecidos meus, ou nem sempre trata-se de temas e minha preferência.  Não me importo com isso, porque quero que a leitura abra meus horizontes.  No entanto, à medida que o tempo passa, acho que meu sistema de anotações sobre o que estou lendo está se tornando obsoleto.

Com isso me mente procuro um sistema um pouco mais fácil.  No kindle, onde leio provavelmente metade dos livros, é mais fácil marcar e fazer notas e depois resgatá-las, separá-las.  Selecionar por temas é importante.  Uma coisa que sempre me dá dor de cabeça é guardar o nome dos personagens.  Conheço leitores que fazem isso com cuidado.  Não consigo.  Então saí pela internet à procura de sistemas de anotações de livros.  Hoje mostro o sistema de Bobbie Powers, que li no Medium.  Vou tentar e digo depois se funcionou.

 

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Ele usa três passos:  asterisco, sublinhar, e notas nas páginas finais do livro.

Com o asterisco, esse sinal gráfico em forma de estrela, é usado para passagens que ele considera importantes.  Se for muito importante, ele coloca um círculo ao redor do asterisco.  Esses asteriscos com círculo em geral são o que irá para as páginas em branco no final do livro.

Sublinhar é para citações ou ideias importantes que deveriam ser lembradas palavra por palavra. Sublinhar é uma coisa muito pessoal.  Às vezes marca-se uma passagem porque ela lembra outro livro, ou uma situação pela qual já passamos.  É muito pessoal.

Notas no final do livro, marcando a página onde são encontradas, elas são, de fato, a sua experiência ao ler, aquilo que você acho importante anotar, porque está certo de que faz parte do que o livro quis trazer à tona.

Bobbie Powers ainda anota no rodapé, o significado de palavras que encontrou no texto cujo significado procurou no dicionário..

Lista de personagens – Vou tentar essa maneira na minha próxima leitura.  Com uma adição: no avesso da capa detrás vou escrever o nome dos personagens, para que na hora da conversa sobre o livro eu não fique procurando: “aquela menina loura que era aborrecia muito porque chorava a toa…” esperando que alguém me ajude com o nome… .Teresa!”  Pois é, vamos ver se funciona.

 

Para você ler o artigo de Bobbie Powers na íntegra, clique aqui:  Use this Simple   Technique to Get More Out of Every Book You Read