Curiosidade literária

14 11 2022

Jovem segurando uma partitura, 1755

D’après  Louis Jean François Lagrenée (França, 1724-1805)

The Palmer Museum of Art, The Pennsylvania State University

 

 

 

Giàcomo Girolamo Casanova viveu no século XVIII.  Nasceu em 1725 na antiga República de Veneza, portanto bem antes da unificação da Itália em 1870.  Escreveu a autobiografia História da minha vida,  que o tornou famoso, bem depois de ter-se tornado um homem maduro. Antes disso, tentara a vida militar e a eclesiástica. Teve muitas aventuras, fugiu da cadeia, foi um aventureiro de grande porte. Acabou vivendo sob os auspícios  do Conde da Boêmia, em Duchcov, na República Checa, de 1785 até sua morte, em 1792.  Casanova, declarou ter escrito a biografia por tédio, para surpresa de seus leitores, que não acreditavam que isso fosse possível, já que ele alegara ter tido relações amorosas com cento e vinte e duas mulheres. É justamente essa informação sobre sua habilidade sexual que o tornou popular. Ficou famoso, seu nome, por extensão, significa homem conquistador, libertino, nos círculos mais letrados. Mas suas memórias são até hoje usadas para o estudo de comportamento e hábitos das sociedades no século XVIII. 





Sublinhando…

14 11 2022

Mulher

Armand Schönberger (Hungria, 1885-1974)

pastel sobre papel,  18 x 13 cm

 

“Como já mencionei, uma das teorias de minha mãe era que criança alguma deveria ter permissão de aprender a ler até os oito anos. Como essa teoria não foi cumprida por mim, tive licença de ler tanto quanto quis, e aproveitava todas as oportunidades para isso.  A sala de aulas,  como  era chamada , era um cômodo no último andar da casa, quase completamente forrado de livros.  Algumas das prateleiras eram dedicadas a literatura infantil: Alice in Wonderland [Alice no País das Maravilhas] e Through the Looking Glass [Através do Espelho]; os antigos, sentimentais contos vitorianos que já mencionei, tais como Our Little Violet [Nossa Pequena Violeta]; os livros de Charlotte Young, incluindo The Daisy Chain [A Corrente de Margaridas]; uma coleção completa, creio, de Henry, e, além disso, numerosos livros de estudo, romances, e outros tipos.  Eu lia indiscriminadamente, escolhendo qualquer livro que me interessasse, lendo, portanto, muita coisa que não entendia, mas que retivera minha atenção.”

 

Em: Autobiografia, Agatha Christiie, tradução de Maria Helena Trigueiros, Rio de Janeiro, Nova Fronteira:1979, pp. 97-8.





Imagem de leitura: Aliza Nisenbaum

10 11 2022

Las Talaveritas, Domingo de Manhã, New York Times, 2016

[Marissa e seu pai lendo as notícias]

Aliza Nisenbaum (México, 1977)

óleo sobre tela, 220 x 170 cm





Curiosidade literária

31 10 2022

Leitora

Georg Tappert (Alemanha, 1880-1957)

pastel, 65 x 49 cm

 

O escritor inglês, Daniel Defoe (1660-1731), autor de Robinson Crusoé, teve muitas atividades de trabalho antes de ficar conhecido como panfletista e escritor.  Uma das coisas mais estranhas que fez foi tentar vender perfumes feitos das secreções anais de gatos.

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Em tempo: muitos perfumes famosos têm como ingrediente a secreção anal de animais chamados gatos civetas, (que tecnicamente não são gatos) encontrados na Indonésia e na África. Hoje, por razões éticas essas essências são produzidas sinteticamente.  Entre os perfumes conhecidos que têm este componente estão: Yves Saint Lorain, Kouros; Calvin Klein, Obsession; Guerlain, Coque D’Or e também o Djedi; Jean Patou, Eau de Joy e Adieu Sagesse; Schiaparelli, Shocking; Jean Patou, Patou pour l’Homme; Emanuel Ungaro, Ungaro pour l’Homme II; Revlon, Intimate; Avon, Topaze, Charisma, Tribute e Trazarra; Chanel, Chanel Nº5- Eau de Cologne e Coco Chanel; Lancôme, todas as variedades do Climat Parfum; Cartier, Panthere; Emilio Pucci, Eau de Zadig; entre dezenas e mais dezenas de perfumes usados nos dias de hoje.





“Meus avós portugueses”, soneto de Augusto Frederico Schmidt

27 10 2022

Leitor, 1986

Gregório Gruber (Brasil, 1957)

aquarela e pastel, 70 x 100 cm

 

 

Meus avós portugueses

 

Augusto Frederico Schmidt

 

Meus avós portugueses no meu sangue

Estão falando há muito, e é assim somente

Que, por vezes, as vozes dos outros sangues

Não se fazem ouvir e não comandam.

 

Meus avó portugueses são teimosos

E procuram vencer-me transformando

Essas  minhas volúpias de erradio,

De vagamundo, em nobres sentimentos.

 

Querem-me esses avós, do Minho e Douro,

Um ser capaz de amar a terra à antiga,

E nesse amor construir toda uma vida;

 

Querem-me um crente em Deus e um fiel exemplo

De constância no amor: e, é certo, às vezes,

Isso acontece, mas somente às vezes.

 

Em: Eu te direi as grandes palavras – seleção poética, Augusto Frederico Schmidt, Rio de Janeiro, José Aguilar:1975, p. 76-77





Minutos de sabedoria: Jonathan Swift

25 10 2022

Kayhan lendo The New York Times, 2017

[Resistência começa em casa]

Aliza Nisenbaum (México, 1977)

óleo sobre tela, 195 x 160 cm

“Ninguém deve se envergonhar por descobrir ter estado errado a vida inteira; isso significa que a pessoa está mais madura e mais inteligente hoje do que ontem.”

Jonathan Swift

 
Jonathan Swift (1667-1745)




Curiosidade Literária

24 10 2022

Best Seller

Karn Dupree (EUA, contemporânea)

gravura

Eça de Queiroz passou a vida obcecado em se manter magro, muito magro. Tinha horror à gordura corporal.  Mas gostava e apreciava belas e suntuosas refeições.  De fato, a descrição de vastos repastos está presente em grande número de suas obras.  Acreditava que é pela comida que se descobre as características  de um povo.  Comia e bebia muito bem, mas, ao término de refeição substancial, saía para andar por horas e horas e cobrindo quilômetros para contrabalançar o que tinha ingerido.  Morreu jovem, aos cinquenta e cinco anos de câncer do estômago.





Imagem de leitura — Shena Ajuelos

24 10 2022

Livro da paixão, 2021

Shena Ajuelos (França, 1951)

óleo sobre tela, 73 x 60 cm





O acaso sempre ensina…

23 10 2022

Adoro o acaso.  Sempre aprendo por onde o acaso me leva.  Domingo, já próximo do fim do ano, pensei  nos meus cadernos ou jornais de 2023.  Sim, tenho e mantenho alguns.  Recebi de presente de uma amiga um belíssimo livro de páginas em branco, que ela encadernou.  Recebi de outra amiga, na mesma ocasião, diversas ilustrações de pequeno tamanho, para que eu usasse neste journaling book.  Uma terceira amiga, me deu um porta copos de cerâmica, feito por ela, porque sabe que gosto de tomar chá ou café enquanto leio.  Elas três haviam combinado, é óbvio, depois de verem o que poucas pessoas conhecem: meu caderno de anotações literárias que mostra por onde andei e em que lugar li aquela frase especial, aquela passagem sem  igual.

Meu caderno de frases ou trechos de leituras. Este é o de 2022, já está no finalzinho. Este caderno foi presente de minha sobrinha Anna Paula no Natal passado.

Pois, sim, parece uma coisa antiga, não é mesmo?   Coisa do Século XIX.  Mas é muito útil.  Este blog segue em grande parte este espírito de anotar aquilo que acho interessante, é um Commonplace Book Digital, que já tem quatorze anos seguidos de anotações!  Mas na internet as coisas desaparecem.  Ando com vontade de imprimir em separado todas as passagens que já coloquei aqui.  São muitos anos de postagens.  Isso tudo começou quando eu tinha oito anos.  E minha avó materna, vovó Albina, me deu de presente de primeira comunhão um caderno, com capa dura, onde era para eu colocar poesias de que gostasse.  Havia um incentivo: eu poderia escrever com caneta a tinta para transpor as poesias.  Até então eu só usava lápis.  Daí para frente, tornou-se um hábito.  Nem sempre bem mantido durante a adolescência, um período em que li muito, muito mesmo, mas anotei pouco.  Mas tornou-se um hábito.  Recentemente recuperei de caixas de guardados alguns desses cadernos.  Uns dos anos 80.  Outros dos anos 90.  Posso sempre dizer quando andava atarefada, porque eles passam a ter anotações esparsas, mas tenho certeza que os livros lidos, naquela época de papel, têm muita coisa sublinhada e anotada nas margens.

O livro de poesias qua ganhei aos 8 anos e mantive até os 12 anos. Eu adorava POESIAS, escrito em dourado na capa.
Aqui quatro dos livros de leituras, com o primeiro bem em cima.

Para cada novo caderno, dou uma decoração especial, na capa interior.  Aquela imagem lá em cima, da capa da revista Colliers, de julho de 1929, só a imagem, vai para a primeira página do caderno de anotações de 2023.  Cada novo caderno merece uma repaginada na diagramação.  É uma bobagem dirão muitos, mas acredito que esses cuidados me ajudam a lembrar de trechos e passagens do que leio. 

Fiquei muito curiosa de saber o que aquela jovem no trem lia enquanto todos os senhores permaneciam sentados escondidos atrás de seus jornais.  Falta de cavalheirismo!  Em 1929!  O título do livro que ela lê, talvez tivesse algo a ver com essa falta de gentileza dos homens no trem.  Acho que teve.  Chama-se When knighthood was in flower [Quando o cavalheirismo florescia] Ironia…  Mas será que esse livro existia ou será que foi um título inventado para a ocasião?

Sim, publicado em 1898

Trata-se de um grande best-seller, um romance histórico. Foca no caso de amor entre Mary Tudor, irmã mais nova de Henrique VIII e um homem comum, sem nobreza, Charles Brandon.  Não dá sorte:  ela é obrigada a casar na corte francesa, por arranjo prévio de Henrique VIII com Luís XII da França.  Interessante notar que este livro foi o primeiro romance de Charles Major, que o publicou sob pseudônimo: Edwin Caskoden.  Provavelmente querendo se proteger caso a publicação fosse um desastre.

E ainda, este romance, foi tão popular que três anos após sua publicação ainda estava na lista dos mais vendidos, de acordo com o  The New York Times.  E ele fomentou, por causa do sucesso que obteve, uma verdadeira febre de romances históricos. Foi transformado em filme, em peça de teatro.  Teve uma longa vida, e ainda se encontra à venda caso vocês se interessem.  Um dia talvez eu tenha tempo  para ler.   Mas gostei de refletir nas atividades deste domingo.  Serendipidade é a palavra que vem à mente: o descobrir de coisas novas ao acaso.  Com isso, não comecei ainda o planejamento do meu livro de livros de 2023.  Temos ainda alguns fins de semana pela frente.

©Ladyce West, 2022, Rio de Janeiro





Preparando o texto, Umberto Eco

20 10 2022

Banca de livros usados, 2010

Ciro d’Alessio (Itália, 1977)

óleo sobre tela

 

 

 

“O que eu faço nos anos de gestação literária? Reúno documentos; visito lugares e traço mapas; tomo nota da planta de prédios, ou talvez de um navio, como no caso de A ilha do dia anterior; e faço esboço dos rostos dos personagens. Para O nome da rosa, fiz retratos de todos os monges sobre os quais escrevia. Passo  esses anos preparatórios numa espécie de castelo encantado — ou, se preferirem, num estado de recolhimento artístico. Ninguém sabe o que estou fazendo, nem os membros da minha família. Dou a impressão de estar fazendo muitas coisas diferentes, mas estou sempre focado em capturar ideias,imagens e palavras para minha história. Escrevendo sobre a Idade Média, se vejo um carro passando na rua e fico talvez impressionado com sua cor, registro a experiência no meu caderno de anotações ou simplesmente na mente, e essa cor, mais tarde, desempenhará  um papel na descrição, por exemplo, de uma miniatura.”

 

Em: Confissões de um jovem romancista, Umberto Eco, tradução de Clóvis Marques, Rio de Janeiro, Record: 2018, p. 14