“Meus avós portugueses”, soneto de Augusto Frederico Schmidt

27 10 2022

Leitor, 1986

Gregório Gruber (Brasil, 1957)

aquarela e pastel, 70 x 100 cm

 

 

Meus avós portugueses

 

Augusto Frederico Schmidt

 

Meus avós portugueses no meu sangue

Estão falando há muito, e é assim somente

Que, por vezes, as vozes dos outros sangues

Não se fazem ouvir e não comandam.

 

Meus avó portugueses são teimosos

E procuram vencer-me transformando

Essas  minhas volúpias de erradio,

De vagamundo, em nobres sentimentos.

 

Querem-me esses avós, do Minho e Douro,

Um ser capaz de amar a terra à antiga,

E nesse amor construir toda uma vida;

 

Querem-me um crente em Deus e um fiel exemplo

De constância no amor: e, é certo, às vezes,

Isso acontece, mas somente às vezes.

 

Em: Eu te direi as grandes palavras – seleção poética, Augusto Frederico Schmidt, Rio de Janeiro, José Aguilar:1975, p. 76-77





Minutos de sabedoria: Jonathan Swift

25 10 2022

Kayhan lendo The New York Times, 2017

[Resistência começa em casa]

Aliza Nisenbaum (México, 1977)

óleo sobre tela, 195 x 160 cm

“Ninguém deve se envergonhar por descobrir ter estado errado a vida inteira; isso significa que a pessoa está mais madura e mais inteligente hoje do que ontem.”

Jonathan Swift

 
Jonathan Swift (1667-1745)




Curiosidade Literária

24 10 2022

Best Seller

Karn Dupree (EUA, contemporânea)

gravura

Eça de Queiroz passou a vida obcecado em se manter magro, muito magro. Tinha horror à gordura corporal.  Mas gostava e apreciava belas e suntuosas refeições.  De fato, a descrição de vastos repastos está presente em grande número de suas obras.  Acreditava que é pela comida que se descobre as características  de um povo.  Comia e bebia muito bem, mas, ao término de refeição substancial, saía para andar por horas e horas e cobrindo quilômetros para contrabalançar o que tinha ingerido.  Morreu jovem, aos cinquenta e cinco anos de câncer do estômago.





Imagem de leitura — Shena Ajuelos

24 10 2022

Livro da paixão, 2021

Shena Ajuelos (França, 1951)

óleo sobre tela, 73 x 60 cm





O acaso sempre ensina…

23 10 2022

Adoro o acaso.  Sempre aprendo por onde o acaso me leva.  Domingo, já próximo do fim do ano, pensei  nos meus cadernos ou jornais de 2023.  Sim, tenho e mantenho alguns.  Recebi de presente de uma amiga um belíssimo livro de páginas em branco, que ela encadernou.  Recebi de outra amiga, na mesma ocasião, diversas ilustrações de pequeno tamanho, para que eu usasse neste journaling book.  Uma terceira amiga, me deu um porta copos de cerâmica, feito por ela, porque sabe que gosto de tomar chá ou café enquanto leio.  Elas três haviam combinado, é óbvio, depois de verem o que poucas pessoas conhecem: meu caderno de anotações literárias que mostra por onde andei e em que lugar li aquela frase especial, aquela passagem sem  igual.

Meu caderno de frases ou trechos de leituras. Este é o de 2022, já está no finalzinho. Este caderno foi presente de minha sobrinha Anna Paula no Natal passado.

Pois, sim, parece uma coisa antiga, não é mesmo?   Coisa do Século XIX.  Mas é muito útil.  Este blog segue em grande parte este espírito de anotar aquilo que acho interessante, é um Commonplace Book Digital, que já tem quatorze anos seguidos de anotações!  Mas na internet as coisas desaparecem.  Ando com vontade de imprimir em separado todas as passagens que já coloquei aqui.  São muitos anos de postagens.  Isso tudo começou quando eu tinha oito anos.  E minha avó materna, vovó Albina, me deu de presente de primeira comunhão um caderno, com capa dura, onde era para eu colocar poesias de que gostasse.  Havia um incentivo: eu poderia escrever com caneta a tinta para transpor as poesias.  Até então eu só usava lápis.  Daí para frente, tornou-se um hábito.  Nem sempre bem mantido durante a adolescência, um período em que li muito, muito mesmo, mas anotei pouco.  Mas tornou-se um hábito.  Recentemente recuperei de caixas de guardados alguns desses cadernos.  Uns dos anos 80.  Outros dos anos 90.  Posso sempre dizer quando andava atarefada, porque eles passam a ter anotações esparsas, mas tenho certeza que os livros lidos, naquela época de papel, têm muita coisa sublinhada e anotada nas margens.

O livro de poesias qua ganhei aos 8 anos e mantive até os 12 anos. Eu adorava POESIAS, escrito em dourado na capa.
Aqui quatro dos livros de leituras, com o primeiro bem em cima.

Para cada novo caderno, dou uma decoração especial, na capa interior.  Aquela imagem lá em cima, da capa da revista Colliers, de julho de 1929, só a imagem, vai para a primeira página do caderno de anotações de 2023.  Cada novo caderno merece uma repaginada na diagramação.  É uma bobagem dirão muitos, mas acredito que esses cuidados me ajudam a lembrar de trechos e passagens do que leio. 

Fiquei muito curiosa de saber o que aquela jovem no trem lia enquanto todos os senhores permaneciam sentados escondidos atrás de seus jornais.  Falta de cavalheirismo!  Em 1929!  O título do livro que ela lê, talvez tivesse algo a ver com essa falta de gentileza dos homens no trem.  Acho que teve.  Chama-se When knighthood was in flower [Quando o cavalheirismo florescia] Ironia…  Mas será que esse livro existia ou será que foi um título inventado para a ocasião?

Sim, publicado em 1898

Trata-se de um grande best-seller, um romance histórico. Foca no caso de amor entre Mary Tudor, irmã mais nova de Henrique VIII e um homem comum, sem nobreza, Charles Brandon.  Não dá sorte:  ela é obrigada a casar na corte francesa, por arranjo prévio de Henrique VIII com Luís XII da França.  Interessante notar que este livro foi o primeiro romance de Charles Major, que o publicou sob pseudônimo: Edwin Caskoden.  Provavelmente querendo se proteger caso a publicação fosse um desastre.

E ainda, este romance, foi tão popular que três anos após sua publicação ainda estava na lista dos mais vendidos, de acordo com o  The New York Times.  E ele fomentou, por causa do sucesso que obteve, uma verdadeira febre de romances históricos. Foi transformado em filme, em peça de teatro.  Teve uma longa vida, e ainda se encontra à venda caso vocês se interessem.  Um dia talvez eu tenha tempo  para ler.   Mas gostei de refletir nas atividades deste domingo.  Serendipidade é a palavra que vem à mente: o descobrir de coisas novas ao acaso.  Com isso, não comecei ainda o planejamento do meu livro de livros de 2023.  Temos ainda alguns fins de semana pela frente.

©Ladyce West, 2022, Rio de Janeiro





Preparando o texto, Umberto Eco

20 10 2022

Banca de livros usados, 2010

Ciro d’Alessio (Itália, 1977)

óleo sobre tela

 

 

 

“O que eu faço nos anos de gestação literária? Reúno documentos; visito lugares e traço mapas; tomo nota da planta de prédios, ou talvez de um navio, como no caso de A ilha do dia anterior; e faço esboço dos rostos dos personagens. Para O nome da rosa, fiz retratos de todos os monges sobre os quais escrevia. Passo  esses anos preparatórios numa espécie de castelo encantado — ou, se preferirem, num estado de recolhimento artístico. Ninguém sabe o que estou fazendo, nem os membros da minha família. Dou a impressão de estar fazendo muitas coisas diferentes, mas estou sempre focado em capturar ideias,imagens e palavras para minha história. Escrevendo sobre a Idade Média, se vejo um carro passando na rua e fico talvez impressionado com sua cor, registro a experiência no meu caderno de anotações ou simplesmente na mente, e essa cor, mais tarde, desempenhará  um papel na descrição, por exemplo, de uma miniatura.”

 

Em: Confissões de um jovem romancista, Umberto Eco, tradução de Clóvis Marques, Rio de Janeiro, Record: 2018, p. 14





Imagem de leitura — Arthur Kaufmann

18 10 2022

Menina lendo no sofá, 1945

Arthur Kaufmann (Alemanha, 1888 -1971)

óleo sobre tela, 71 x 112 cm





Curiosidade literária

17 10 2022

Folheando um livro, 1977

Benjamín Palencia, (Espanha, 1894-1980)

óleo sobre tela

 

O escritor José de Alencar, conhecido na família por Cazuza, teve sete irmãos. Era o primogênito.  Seus pais, responsáveis pela fértil família, tiveram  um romance proibido. O pai, José Martiniano de Alencar, padre, havia mantido uma relação ilícita com sua prima-irmã, Ana Josefina de Alencar. Deixando a batina, eventualmente torna-se senador do Segundo  Império e mais tarde governador do estado do Ceará.

 





Minutos de sabedoria: Bertrand Russell

15 10 2022

Esbjörn lendo na varanda, 1918

Carl Larsson (Suécia, 1853-1919)

Aquarela sobre papel

 

“O desejo de entender o mundo e o desejo de reformá-lo são as duas grandes máquinas do progresso.”

 

Bertrand Russell

(Marriage and Morals, 1929)

 

 

 

 

Bertrand Russell | Discografia | Discogs

Bertrand Russell (1872-1970)




Leituras de 2022: “A boa sorte”, Rosa Montero, resenha

14 10 2022

Menina lendo

Carmen Gomez Junyent (Espanha, 1954)

Pastel, 45 x 38 cm

Há tempos acompanho Rosa Montero. Das obras publicadas no Brasil li: A louca da casa, A história do rei transparente, Te tratarei como uma rainha, Muitas coisas que perguntei e algumas que disse, Histórias de mulheres, O coração do tártaro, Instruções para salvar o mundo, e agora, A boa sorte, este com tradução de Fábio Weintraub. Poderíamos dizer que aprecio sua habilidade narrativa e imaginação. Tenho leituras favoritas entre estes livros mas até hoje nunca me arrependi de dedicar muitas horas às suas criações. Mas A boa sorte não irá para a lista dos meus favoritos da escritora.

Assuntos na pauta de Rosa Montero, e aqui não é exceção, têm a ver com a jornada do autoconhecimento. Também encontramos histórias com diversa variantes narradas pelo mesmo personagem de acordo com as necessidades que não são necessariamente mentiras, mas que poderiam ser plausíveis. Rosa Montero sempre nos regala com testemunho das diferentes versões que damos à nossa trajetória, de acordo com a audiência ou o momento em que vivemos. E ainda uma vez mais, Rosa Montero mostra ser a maga das imagens, aquela que seduz leitores como se hipnotizados. É certamente capaz de descrever situações, atmosferas, ambientes, absolutamente degradantes de maneira que não choque ou faça o leitor se aborrecer. Há muita arte nisso. A condição humana a preocupa, também merece atenção soluções variadas que seus personagens encontram para sobreviver.

Em geral, seus personagens têm muitas falhas: heróis ou heroínas, bandidos e afins, não importa. Os mundos que cria na ficção são sempre o bas-fond, os bairros pobres, as vidas de esperanças quebradas, de poucos horizontes.  Rosa Montero despe seus personagens, desnuda seus motivos, por mais torpes que possam ser; ela nos ajuda a entender que tanto o mais bem aquinhoado quanto os menos dotados trilham caminhos semelhantes.  O resultado, positivo ou não, depende exclusivamente de seus esforços.  Ela não protege nem a eles, nem a nós, leitores.  Passa ao leitor uma realidade frequentemente sombria, povoada por pessoas com propósitos obscuros, ambientes sujos, razões de vida torpes e muitos inocentes enrascados no aguardo  de vida melhor. Mas ela é consistente, pois há sempre o lastro de fé, de possibilidades vindouras em sua narrativa.  Há aquele  que sobrevive que se amolda, que consegue passar a perna na crueldade humana.

A boa sorte tem todas esses traços comuns à obra de Rosa Montero. Temos um homem bem sucedido amargando culpa, uma mulher bonita e maltratada à beira de imaginar-se sem possibilidades de amor e de formar uma família.  Bandidos de todos os jeitos, sempre pensando em querer algo mais, inconformados com a vida. E no entanto, este livro não me satisfez. 

Rosa Montero

 

Deixe-me ser clara.  Continuo a apreciar a imensa criatividade de Rosa Montero.  Ela consegue surpreender sempre;  criar personagens fortes, inesquecíveis, cujas lutas e dores acompanhamos com o coração nas mãos.  Nos oito livros dela que li, não pareceu haver limite na  engenhosidade de suas tramas, nem nos mundos que criou.  Na verdade, sempre tenho a impressão de que estou a ver, sentir e observar um mundo paralelo com clara semelhança àquele em que vivo.  Isto é uma arte.  Mas o que não me agradou em A boa sorte, foi a sensação no final de que havia necessidade de um fechamento específico, quando personagens precisam ser contabilizados;  a vida, inóspita detalhada na narrativa necessita realmente de um ponto final para cada personagem?  Com um fechamento um tanto hollywoodiano onde tudo se resolve, ficou um gosto de agrado ao mundo editorial.  Além disso, a narrativa, no último terço do livro, veio recheada com frases de edificação ou conselhos aquém da imaginação da autora: “para encontrar um sentido para a morte, é preciso antes encontrar um sentido para a vida“; “o inferno está aqui, somos nós“; “muitas vezes a vida consiste em escolher o mal menor”; “a alegria é um hábito“. Deixou em mim a sensação de manual de vida, que me desagrada bastante.  Continuo, no entanto, a achar que Rosa Montero é uma escritora que deve ser lida. Até hoje ela dá muito mais a nós leitores, do que muitos outros contadores de histórias. Três estrelas, de cinco no máximo.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.