A lição de escrita, c. 1905
Pierre-Auguste Renoir (França, 1841-1919)
óleo sobre tela, 46 x 55 cm
A ser leiloado em 9-4-2025, Christie’s de Paris
um dos quadros do colecionador: Henri Cannone
A lição de escrita, c. 1905
Pierre-Auguste Renoir (França, 1841-1919)
óleo sobre tela, 46 x 55 cm
A ser leiloado em 9-4-2025, Christie’s de Paris
um dos quadros do colecionador: Henri Cannone
Minha amiga Regina Porto do blog Livro Errante indicou Nas pegadas da alemoa, de Ilko Minev [Buzz Editora: 2021] para leitura. Marcamos de conversar sobre o livro no último dia do mês, mas já vou colocar aqui minhas impressões. Foi uma ótima surpresa. Gostei da leitura principalmente porque aprendi muito sobre o norte do Brasil, sobre a Amazônia, sobre o Amapá. É uma região do Brasil que não conheço, mas que atrai o olhar do mundo todo, que está nas manchetes há anos e que nós brasileiros aqui do sudeste em geral não conhecemos bem.
Eu classificaria essa obra como aventura, com informações históricas, tratadas com objetividade jornalística, detalhando riquezas e perigos no meio ambiente, tudo isso com um leve toque de romance para suavizar a narrativa e não considerá-la exclusivamente texto instrutivo. O autor não escreveu esse romance para competir com Dostoiévski ou Gabriel Garcia Marquez. Sua intenção é informar e divertir. E consegue. Dois de seus livros já se tornaram best-sellers no Brasil. Este, que ficou cinco semanas consecutivas na lista dos mais vendidos no país em 2022, e Na sombra do mundo perdido, que ainda não li, entre os mais vendidos em 2018. Ilko Minev tem uma história pessoal interessante que o deixa ao mesmo tempo narrar como observador de fora e mostrar a vida amazônica no seu âmago. Naturalizado brasileiro, nasceu na Bulgária, de onde emigrou, graças às restrições políticas do governo comunista na época. Eventualmente veio para o Brasil, depois de uma parada na Bélgica. Formado em economia, era para ter ficado por seis meses trabalhando no setor eletrônico, em 1972, mas foi ficando. E ficou, para nossa alegria, orgulho e enriquecimento. Tornou-se um empreendedor de sucesso no Amazonas, fazendo parte da comunidade judaica de Manaus. Quando se aposentou, dedicou-se a escrever histórias da Amazônia.
O livro começa contando algo surpreendente: a Alemanha, antes da Segunda Guerra Mundial havia mandado uma expedição para exploração do território brasileiro, no Amapá. Vieram com muito material. Estavam ciumentos da França, da Inglaterra e da Holanda terem aqueles territórios ricos das guianas (que ainda não eram países independentes) e queriam explorar o Amapá para terem também sua “guiana”… Eu nunca tinha ouvido falar disso e fiquei surpresa.
“… em 1935, ainda antes da Segunda Guerra Mundial, realmente houve uma bem organizada e bastante sofisticada expedição alemã, munida de hidroavião e de outros recursos avançados para a época, que, com a ajuda do governo Vargas, passou um ano e sete meses conhecendo e mapeando aquela remota e completamente desconhecida região na fronteira do Brasil com a Guiana Francesa. Pelo que pesquisei, os alemães colheram amostras, catalogaram boa parte da flora e da fauna e estabeleceram contato com as tribos indígenas antes mesmo de o Brasil marcar presença naquelas bandas.”
Assim como esse fato histórico é apresentado, detalhes da vida cotidiana no norte do país são apresentados com riqueza suficiente para deixar curiosidade e gosto de quero mais. Não só detalhes históricos do passado, descrições de pequenas cidades na Amazônia ou testemunhos do trabalho das ONGs ou até mesmo políticas do governo francês em relação à Guiana, mas também descrições das cachoeiras e plantas da região seduzem o leitor. Mas esse é o relato de uma aventura que deixa o leitor torcendo pelo sucesso da excursão planejada para procurar uma pessoa, conhecida como Alemoa, fruto de um casamento da época do expedição alemã ao Amapá. Mas sabendo de todo o planejamento que foi feito, torcemos com mais gosto ainda para um final feliz
Gostei muito do livro e recomendo a todos que queiram fazer um giro pelo norte do Brasil de hoje. A linguagem é clara, narrativa direta, um tantinho de romance para ligar a trama do início ao fim e muito, muito conhecimento generosamente oferecido.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
O manuscrito, 1921
Francis Ernest Jackson (Inglaterra, 1872 – 1945)
Ashmolean Museum, Oxford
Cecília Meireles
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
No livro Viagem (1939)
Leitor, 1971
Louay Kayyali (Síria, 1934-1978)
óleo sobre tela
Ministério da Educação em Damasco
“Quando, Lídia, vier o nosso Outono,
com o Inverno que há nele, reservemos
um pensamento, não para a futura
Primavera, que é de outrem
nem para o estio, de quem somos mortos,
senão para o que fica do que passa
o amarelo atual que as folhas vivem
e as torna diferentes.”
Ricardo Reis
Nos últimos tempos, o grupo de leitura Ao Pé da Letra tem votado um maior número de obras de literatura brasileira contemporânea para leitura mensal, sem, no entanto, se limitar ao nicho. A escolha de março foi Antonio da escritora paulista Beatriz Bracher [Editora 34: 2010 — minha edição foi eletrônica, kindle]. Essa foi uma obra intrigante, que deixou os leitores do grupo, anotando nomes de personagens, fazendo árvores genealógicas, passando-as para o WhatsApp do grupo, escrevendo suas dúvidas sobre o que liam — quem é quem? — à medida que a história era construída. Por que? Trata-se de narrativa indireta de um segredo de família, sem que o leitor saiba de antemão quem ocupa qual papel no emaranhado das relações familiares.
Três gerações são abordadas, para que a quarta possa saber de onde vem e estar, eventualmente, ciente dos segredos mantidos por essa tradicional família brasileira. Somos tragados no emaranhado de feitos e desfeitos de diferentes gerações, em capítulos narrados por alguns personagens, que só entendemos quem são com muita atenção ao texto. Como em toda família há pessoas que demonstram comportamentos esdrúxulos, fora de série, inusitados, ainda que tenham por base, a época em que vivem e suas razões. A história da família é o tema da obra, contada por três diferentes pontos de vista. Cada um deles como se estivéssemos em sua presença, numa tarde, num dia não especificado, contando causos. A narrativa é não linear com linguagem casual, imitando a maneira de falar comum. Por isso mesmo, os textos são cheios de idas e vindas nos detalhes trazendo um efeito circular na contação.
O resultado é uma escrita perfeitamente inteligível, registrada como falamos. Cada capítulo é um imenso monólogo, dando a aparência de ter sido registrado ipsis verbis. Mas para dar esse efeito tão natural, certamente a escritora submeteu o texto a inúmeras edições para, finalmente chegar a registro tão semelhante à língua falada. Parabéns para ela. Realmente, cada um dos capítulos parece um relato de alguém sentado no sofá à nossa frente.
Mas essa maneira de contar uma história se torna um jogo de gato e rato em que a escritora, com todo poder nas mãos, brinca com o leitor. É um quebra-cabeças para quem lê, que se vê em um labirinto tal qual os labirintos de jardins do século XVIII, que nos dão ânsias para descobrir a saída, mergulhando, a caminho da solução, numa espiral descendente até o fim. A forma enigmática do livro Antonio trouxe à mente o livro As iniciais de Bernardo Carvalho que assim como esse precisa ser desvendado, ainda que de maneira totalmente diferente.
Antonio foi a obra colocada em segundo lugar no Prêmio Portugal Telecom de Literatura e finalista do Prêmio São Paulo de Literatura. em 2009. Recomendo? Com restrições. Não sei até agora, e já li esse livro há duas semanas, se o final, se a resolução do enigma, vale o esforço e as horas de dedicação do leitor. Mas, como tenho facilidade de deixar de lado livros por diversos motivos, não importa se grandes ou pequenas obras, de autores conhecidos ou não, ver que Antonio me fez ir até o fim e que a trama, me levou a apreciar o poderoso domínio narrativo de Beatriz Bracher tem que ser levado em consideração. Há equilíbrio entre forma e conteúdo. Esse foi o primeiro livro da autora que leio. Três estrelas de cinco.
NOTA1: tenho muitos leitores portugueses que certamente observarão algo diferente: Antonio aparece sem acento circunflexo através da obra.
NOTA2: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Leitura, 2011
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925-2019)
óleo sobre tela
“O ciúme não nasce do amor, e sim do orgulho. O que dói neste sentimento, creia-me, não é a privação do prazer que outrem goza, quando também nós podemos gozá-lo e mais. É unicamente o desgosto de ver o rival possuir um bem que nos pertence ao cobiçarmos, ao qual nos julgamos com direito exclusivo, e em que não admitimos partilha. Há mais ardente ciúme do que o do avaro por seu ouro, do ministro por sua pasta, do ambicioso por sua glória? Pode-se ter ciúme de um amigo, como de um traste de estimação, ou de um animal favorito. Eu quando era criança tinha-o de minhas bonecas.”
José de Alencar, em Senhora, em domínio público.
Jovem lendo, c. 1940
Assinatura ilegível a lápis
óleo sobre madeira, 54 x 43 cm
[Em leilão na Alemanha]
Big Sky Country
Chad Gowey (EUA, 1987)
“No conto popular não importa o nome nem o local ou o tempo, cada personagem é uma peça para a história funcionar. Por isso ela pode ser recontada eternamente que permanecerá sempre a mesma história. “A moura torta”, “Chapeuzinho Vermelho”, cultura popular. Num conto de autor ou num romance é diferente, são as palavras, exatamente aquelas palavras, que constroem aquela história para sempre única, os personagens crescem, têm nomes, a ação tem idade, finca-se em um tempo. É obra de um homem e não de um povo.“
Em: Antônio, Beatriz Bracher, Editora 34: 2010