O tempo para uns e outros, Javier Marías

3 02 2026

Memórias

Nesimi Pınarbaşı (Turquia, contemporâneo)

óleo sobre tela,  50 x 70 cm

 

 

“Claro que há aqueles que decidem pôr fim à sua vida, e o fazem, mas são minoria e por isso impressionam tanto, porque contradizem a ânsia de duração que domina a grande maioria, a ânsia que nos faz crer que sempre há tempo e que nos leva a pedir um pouco mais, um pouco mais, quando este se acaba.”

 

Javier Marías, Os enamoramentos





Imagem de leitura: Lasar Segall

2 02 2026

Leitura, c. 1913

Lasar Segall (Lituânia-Brasil, 1889-1957)

óleo sobre papelão, 66 x 56 cm

Museu Lasar Segall, SP





Carnaval chegando, quer uma leitura agradável e inconsequente?

1 02 2026

Leitora, 1960

Gerhard Richter, (Alemanha, 1932)

óleo sobre madeira, 102 x 70 cm

 

 

Nem todas as leituras precisam ser sérias.  Há horas para diversão. Recentemente meu grupo de leitura escolheu esse  tipo de livro: As pessoas na plataforma 5, da autora inglesa Clare Pooley, tradução de Cecília Camargo Bartalotti, Verus: 2024. Trata-se de um grupo de desconhecidos que tomam o mesmo trem Hampton Court-Waterloo Station -Londres, todas as manhãs. Não se conhecem até que uma emergência, um dia, serve de motivo para que comecem a interagir.    

A figura principal é uma escritora com coluna em jornal aconselhando leitores. Iona Iverson, de 57 anos,  não consegue passar despercebida.  Tem uma personalidade expansiva, roupas coloridas, uma bolsa gigante, onde carrega chá,  garrafa térmica, xícara e pires. Havia sido uma jovem atraente, a verdadeira IT-GIRL, na década de 60-70.  Mas no momento sente-se desprezada por seus empregadores e acredita ser discriminada por sua idade. 

Outros passageiros, que eventualmente se “confessam” com Iona, são Sanjay, um enfermeiro oncologista que sofre de ataques de pânico e anda encantado com outra passageira: Ema.  Piers é o engravatado homem do mundo financeiro, infeliz com sua profissão. Emmie, leitora obstinada, é a jovem que trabalha em marketing e tem um namorado controlador, que a obriga a dizer a toda hora onde se encontra e o que faz. Há também a adolescente Marta que sofre bullying na escola e David, o esquecível advogado perto de se divorciar. 

 

Já podemos ver, pelos problemas de cada passageiro, que Clare Pooley dedica-se a passar os olhos sobre alguns problemas que afligem a sociedade atual: Alzheimer’s, Bullying, Etarismo, Stalking, síndrome do pânico e muitos outros.  No entanto, o tom desse livro é leve, há momentos verdadeiramente engraçados e outros um tanto sentimentais. No todo, essa obra é inconsequente, alegre, e acaba da melhor maneira possível.  É um pouco longa.  Poderia ter sido cortada por um terço mais ou menos, retirando as passagens que se prolongam sem adicionar nada de valioso.  A média dos pontos das leitoras desse grupo foi três estrelas de cinco.  Quase o que eu daria, também. Se esse tipo de história, que parece uma mini série televisiva é do seu agrado para diversão, leia.  Foi assim que vi: a escritora pensou em construir um conjunto de personagens, trabalhando assuntos da moda, com esperança de servir eventualmente como inspiração para algum serviço de stream. 





Imagem de leitura: Rupert Charles Wulsten Bunny

22 01 2026

Na varanda

Rupert Bunny (Austrália, 1864-1947)

óleo sobre tela, 80 x 64 cm





Imagem de leitura: David Woodlock

19 01 2026

Jovem lendo em frente a casas em rua residencial

David Woodlock (Inglaterra, 1842-1929)

aquarela, 28 x 22 cm





Jardim de inverno, uma memória…

18 01 2026

O jardim de inverno, 1883

Frances Jones Bannerman (Canadá, 1855-1944)

óleo sobre tela, 63 x 80 cm

Coleção Particular

 

 

Meus avós moravam na Tijuca, no Rio de Janeiro.  Sou a mais velha da família de minha mãe, que era a mais velha das filhas. Passei muito tempo com meus avós.  Nós nos víamos regularmente, mas depois de meu primeiro irmão nascer, com mais assiduidade, quando meus pais saíam à noite ou quando meus avós queriam viajar.  Aos seis anos, comecei a viajar com eles, que também eram meus padrinhos. Fomos a cidades turísticas, cidades das águas em Minas Gerais, às cidades serranas fluminenses e até São Paulo, onde mais tarde uma de minhas tias morou.  Era sempre um prazer estar com eles, desfrutar dos quitutes de vovó, e das  brincadeiras de meu avô, que exercitavam meu vocabulário. 

Tenho memórias detalhadas da casa deles, onde eu dormia no quarto cor de rosa.  Estive lá frequentemente, porque ainda criança, acompanhei os namoros e noivados de minhas tias, irmãs mais novas de mamãe.  Fui dama de honra de ambas em seus casamentos: aos quatro e aos seis anos respectivamente. Justo trabalho para quem havia sido companhia perpétua do casal de namorados, garantindo que nada de estranho acontecesse enquanto passeavam juntos.  Digo isso em tom divertido, porque ganhei incríveis presentes nessa época segurando vela.  Eram balas, passas em caixinha, que eu adorava, passeios de carrinho de bode, na Praça Afonso Pena, uma atividade atrás da outra, um agrado a cada saída.  Fui comprada, sim eu tinha preço!

Frequentar a casa de meus avós maternos trouxe benefícios décadas mais tarde. Adulta, me encontrei encantada por móveis antigos, seduzida pelo cheiro de madeira e pelo perfume de óleo de peroba.  Quando abri minha galeria de arte moderna e móveis de fazenda, dos séculos XVIII e XIX, nos EUA, combinação que deu certo, nem sei bem as razões, entrei num período de vida gratificante.

Meus avós tinham um mobiliário do estilo manuelino, pesado, em jacarandá escuro com colunas nas beiradas, serpentinadas e ornamentos nos almofadões das portas. Tudo finalizado por pés de bolacha, enquanto as cadeiras tinham costas e assentos de couro escuro trabalhado com desenhos abstratos e uma carreira de tachas de latão a toda volta dos assentos e espaldares.  Toda a sala de jantar era nesses móveis favoritos no país desde o tempo colonial, mas os de meus avós provavelmente datavam de seu casamento nos anos  20.  Na sala de jantar, um grande bufê, uma cristaleira, um pequeno bufê e a mesa gigantesca para doze pessoas, as cadeiras enchiam o espaço.  Havia também um móvel só de gavetas pequenas, no mesmo estilo, que mais tarde soube chamar-se um contador. Ficava no hall entre a sala de jantar e o escritório de vovô.   Um móvel bar, espelhado por dentro, detalhe que me fascinava, guardava garrafas de todo tipo de bebida e alguns copos de cristal.  Outros cristais encontravam-se na cristaleira. 

Móvel contador em estilo Manuelino.

 

A sala de estar tinha móveis que hoje chamaríamos Art Déco dos anos 30-40,  com linhas retas, poltronas cujos braços de madeira formavam arcos do pé da frente da cadeira até o chão do pé detrás e estofamento de couro verde escuro. Havia cinzeiros de pé para os homens que fumavam – só eles fumavam – e abajures de pé para o conforto da leitura quer na poltrona, quer no sofá no mesmo estilo.  Havia ali, também um rádio vitrola que embalava em momentos familiares uma dança improvisada de meus pais e tios em momentos descontraídos durante domingos em família.  

O móvel bar ficava em uma das salas de estar, a mais próxima do jardim de inverno, que nada mais era do que uma espaçosa varanda completamente fechada com vidro.  Lá estavam plantas exuberantes, como manda a flora tropical, vasos de parede com plantas ‘choradeiras’. Num canto a figura de Ceres, com uma braçada de trigo, toda em cerâmica branca, imitando mármore, que dominava um dos lados da varanda, instalada num pedestal de ferro. No outro lado, na mesma cerâmica branca, vitrificada, estava seu par, a deusa Fortuna, com pedestal gêmeo. Essa tinha olhos vendados e uma cornucópia nos braços, transbordando frutas.  Foram as primeiras deusas clássicas com que me familiarizei: agricultura e sorte.  O jardim de inverno era meu lugar favorito da casa de meus avós, parecia uma pequena amostra das florestas tropicais que cobriam os morros da antiga Tijuca, ainda não tomados por comunidades. Meu outro lugar de fascínio era o escritório de vovô, com perfume do cachimbo a que ele se dedicava após o jantar e que era coberto de livros nas estantes com portas de vidro de correr. 

O jardim de inverno tinha móveis bem mais modernos, de madeira cor de mel, com acabamento de fibras naturais, feitos rechonchudos e acolhedores pelas almofadas estampadas com folhagens e pássaros nas costas e assentos.  O jardim de inverno trazia para dentro de casa, o convívio com a natureza sem os perrengues dos mosquitos ou insetos indesejáveis.  Havia duas mesas pequenas.  A de ferro com tampo de vidro e a de madeira. Lembro-me de jogar cartas com vovó nessas mesas: jogo da memória.  Apesar de meus avós terem duas salas de estar, era no jardim de inverno que vovô recebia seus amigos.  Hoje percebo que havia algo do período vitoriano nesse local, algo que de vez em quando vejo retratado em quadros ingleses do século XIX. 

Na casa deles não havia o luxo dos tapetes no jardim de inverno que vemos em cenas europeias, mas a própria exuberância das samambaias choronas, descendo parede abaixo de vasos pendurados de encontro às paredes, era experiência única.  Cuidadas por vovó, em grandes vasos de faiança colorida, com relevos, havia até mesmo pequenas árvores de uns dois metros de altura que faziam o ambiente íntimo e úmido, com um leve cheiro de mato.  No jardim, havia algumas plantas que mais ou menos desapareceram dos jardins atuais: manacás, jasmins, bambu da sorte, pacová. 

Hoje, procurando algumas ilustrações para postagens no blog me deparei com a representação do Jardim de Inverno de Frances Jones Bannerman, que coloquei acima. E uma onda de flashes, cenas de um passado muito longínquo me entreteve por umas horas.  Acho que lidar com as fotos de antepassados que vou passar para meus sobrinhos está abrindo os portões das lembranças, propiciando que eu tire algumas conclusões sobre as raízes de certos interesses meus.  Foi uma boa tarde de domingo.  Que seja a premonição de uma ótima semana para mim e para todos nós!

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 18 de janeiro de 2026.





Palavras para lembrar: W. Somerset Maugham

5 01 2026

Moça com gorro, lendo, depois de 1880

Marie R. Dixon ( EUA, ? – 1896)

óleo sobre tela, 44 x 36 cm

“Os livros devem ser lidos por prazer, e quem pode afirmar que o que agrada a uma pessoa deve necessariamente agradar à outra?”

 

W. Somerset Maugham





Viver, soneto de Waldir Neves

5 01 2026

Homem escrevendo, 1890

Heinrich Breling (Alemanha, 1849-1914)

óleo sobre madeira, 13 x 17 cm

 

Viver

 

Waldir Neves

 

 

Vamos, querida, pelo mundo afora,

mirar os lírios brancos dos caminhos…

Vamos beber a luz pura da aurora,

embalados nos cânticos dos ninhos.

 

Vamos de perto ver a flor que chora,

pela fonte levada em torvelinhos…

Vamos colher as rosas, sem demora,

antes que murchem — sem ligar a espinhos.

 

Vamos buscar o belo onde ele exista,

sempre a sonhar, sonhando noite e dia,

que é com sonhos que o belo se conquista.

 

Vamos criar a mística de crer

que a vida é bela… é amor… é fantasia…

e há que sonhar e amar… para viver!…





Imagem de leitura: Mihály Munkácsy

2 01 2026

Interior parisiense, 1877

Mihály Munkácsy (Hungria, 1844-1900)

óleo 





Ler nas férias, longe da escola!

8 12 2025

boa leitura

Embora os adultos geralmente agarrem a chance de atualizar a leitura durante as férias, muitas crianças e adolescentes, especialmente em famílias de baixa renda, que já leem pouco durante o ano, quase não  leem nas férias de verão.

Pode até parecer natural, que o sol do verão nos chame incessantemente para as praias, banhos de sol, brincadeiras ao ar livre e que férias sejam encaradas como tempo LIVRE.  Mas ler pode não ser trabalho.  Ler também pode ser divertimento.  Fora isso o tempo seria livre do que?  De pensamentos?  De ideias?  O preço de manter livros fechados é alto demais para que pensemos assim É preço alto para as crianças, para os pais e certamente para a sociedade.  Ao fechar do verão no hemisfério norte, diversos estudos documentaram um “declínio de verão” na leitura.  Esse lapso da leitura é maior entre alunos de baixa renda. Por não lerem, por não serem expostos a novas ideia, a que perdem o equivalente a dois meses de escola em cada verão, segundo a National Summer Learning Association, um grupo de apoio à educação. E a perda se acumula a cada ano.

Agora, uma nova pesquisa oferece uma solução surpreendentemente simples e barata para o declínio de leitura no verão. Num estudo de três anos, pesquisadores da Universidade do Tennessee, em Knoxville, descobriram que simplesmente dar acesso a livros às crianças de baixa renda nas feiras da primavera – e permitir que elas escolham livros que mais as interessem – surtiu um efeito significativo na lacuna de leitura do verão.

O estudo, financiado pelo Departamento Federal de Educação dos EUA, acompanhou os hábitos de leitura e as notas de mais de 1.300 alunos da Flórida, vindos de 17 escolas de baixa renda. A maioria das crianças era pobre o bastante para receber almoços escolares grátis ou com desconto.

Os pesquisadores queriam ver se proporcionar livros às crianças durante as férias de verão afetaria seu desempenho ao longo dos anos. No início do estudo, 852 alunos da primeira e da segunda série, selecionados aleatoriamente, compareceram a uma feira escolar de livros na primavera, onde puderam escolher entre 600 títulos.

Era oferecida uma variedade de livros, desde aqueles sobre celebridades como Britney Spears e “The Rock“, até histórias de personagens ficcionais como o corajoso criador de casos Junie B. Jones. As crianças também podiam escolher livros culturalmente relevantes, com personagens afro-americanos, assim como livros em espanhol.

As crianças escolheram 12 livros. Os pesquisadores também selecionaram aleatoriamente um grupo de controle de 478 crianças que não receberam nenhum livro. A essas crianças, ofereceram atividades livres e livros de quebra-cabeças.

As feiras e distribuições de livros continuaram por três verões, até que os participantes do estudo chegaram à quarta e quinta séries. Então, os pesquisadores compararam as notas de testes de leitura para os dois grupos.

As crianças que haviam recebido os livros grátis atingiram notas significativamente mais altas que aquelas com livros de atividades. O efeito, correspondente a 1/16 do desvio padrão em notas de testes, foi equivalente a uma criança fazer três anos de cursos de verão, segundo o relatório a ser publicado em setembro no jornal “Reading Psychology“. A diferença nas notas foi duas vezes maior entre as crianças mais pobres do estudo.

As descobertas chegam num momento em que muitos distritos escolares consideram cortar os programas de verão para economizar verbas, de acordo com uma recente pesquisa pela Associação Americana de Administradores de Escolas. O estudo mostrou que oferecer livros gratuitamente, por um custo de US$50 por criança, é uma maneira muito mais econômica de estimular a leitura de verão, afirmou uma co autora do estudo, Anne McGill-Franzen, professora e diretora do centro de leitura da Universidade do Tennessee, em Knoxville.

Uma das descobertas mais notáveis foi que as crianças aprimoraram sua leitura mesmo sem escolher os livros do currículo escolar, ou os clássicos normalmente indicados pelos professores como leitura de verão. Essa conclusão confirma outros estudos sugerindo que as crianças aprendem melhor quando podem escolher seus próprios livros.

Surpreendentemente, o livro mais popular durante o primeiro ano do estudo na Flórida foi uma biografia da cantora Britney Spears.

“O que isso significa para mim é que existe uma cultura e uma mídia jovens que transcendem o que achamos que as crianças deveriam ler”, disse a Dra. McGill-Franzen. “Eu não acho que a maioria dessas crianças lia qualquer coisa durante o verão, mas a oportunidade de escolher seus próprios livros e discutir o que sabem sobre ‘The Rock’ ou Hannah Montana era algo motivador para eles”.

Ellen Galinsky, presidente do Families and Work Institute e autora de um novo livro sobre o aprendizado infantil, “Mind in the Making”, disse esperar que as descobertas estimulem pais e professores a deixar que as crianças escolham seu próprio material de leitura.

“Os interesses de uma criança são uma porta para a sala de leitura”, afirmou Galinsky, acrescentando que seu próprio filho virava as costas aos livros durante a graduação. Como ele gostava de música, ela o encorajou a ler revistas de música ou livros sobre músicos. Seu filho acabou ganhando interesse na leitura e hoje possui um Ph.D.

“Se o seu filho não gosta de leitura, fazê-lo ler qualquer coisa é melhor do que nada”, explicou ela.

Porém, dar às crianças a escolha dos livros que leem é uma mensagem a que muitos pais ainda resistem.

Recentemente, numa livraria, a Dra. McGill-Franzen disse ter testemunhado uma conversa entre algumas mães estimulando suas filhas, da quinta e sexta séries, a ler biografias de figuras históricas, quando as meninas queriam escolher livros sobre Hannah Montana – uma personagem interpretada pela estrela adolescente Miley Cyrus.

“Se esses livros os fizerem ler, isso gera ótimas repercussões no sentido de deixá-los mais inteligentes”, disse a Dra. McGill-Franzen. “Professores e pais de classe média subestimam as preferências das crianças, mas eu acho que precisamos deixar de ser tão rígidos com suas escolhas em relação a livros”.

New York Times: Crianças que leem nas férias têm melhor desempenho escolar