Uma história de inverno de duendes e gnomos, 1886
Dennis Miller Bunker (EUA, 1861-1890)
óleo sobre tela, 96 x 125 cm
Uma história de inverno de duendes e gnomos, 1886
Dennis Miller Bunker (EUA, 1861-1890)
óleo sobre tela, 96 x 125 cm
Melancia, peras e faca sobre a mesa, 1980
Pedro H. Vieira (Brasil, 1932)
óleo sobre eucatex, 23 x 20 cm

A estação de trem, 1862
William Powell Frith (GB, 1819 – 1909)
óleo sobre tela
Royal Holloway College, University of London
Ia viajar!… Viajei. Trinta e quatro vezes, à, pressa, bufando, com todo o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia, num vagão, envolto em poeirada e fumo, sufocado, a arquejar, a escorrer de suor, saltando em cada estação para sorver desesperadamente limonadas mornas que me escangalhavam a entranha. Catorze vezes subi derreadamente, atrás de um criado, a escadaria desconhecida de um hotel; e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma cama desconhecida, donde me erguia, estremunhado, para pedir em línguas desconhecidas um café com leite que me sabia a fava, um banho de tina que me cheirava a lodo. Oito vezes travei bulhas abomináveis na rua com cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapeleira, quinze lenços, três ceroulas, e duas botas, uma branca, outra envernizada, ambas do pé direito. Em mais de trinta mesas redondas esperei tristonhamente que me chegasse o boeuf-à-la-mode, já frio, com molho coalhado – e que o copeiro me trouxesse a garrafa de Bordéus que eu provava e repelia com desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos mármores, com pé respeitoso e abafado, vinte e nove catedrais. Trilhei molemente, com uma dor surda na nuca, em catorze museus, cento e quarenta salas revestidas até aos tetos de Cristos, heróis, santos, ninfas, princesas, batalhas, arquiteturas, verduras, nudezas, sombrias manchas de betume, tristezas das formas imóveis! E o dia mais doce foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, encontrei um velho inglês de penca flamejante que habitara o Porto… Gastei seis mil francos Tinha viajado.
[Exemplo de Sucessão de fatos]
Em: Flor do Lácio, [antologia] Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário) p. 151.
Paula Brito
[ Fábula de Lachambeaudie]
Reina o estio. — No vale
Lânguida flor emurchece
E chama, p’ra socorrê-la
Uma nuvem, que aparece.
“Tu que do Aquilão nas asas
Vais pelo espaço a correr,
Vê que de calor me abraso,
Vem, não me deixes morrer.
“Com essas águas, que levas
A minha dor, refrigera.”
“— Tenho missão mais sagrada,
Agora não posso — espera.”
Disse e foi-se!… De abrasada
Cai e espira a flor tão bela:
Volta a nuvem e despeja
Quanta água tinha sobre ela…
Era tarde!…
MORALIDADE
Quase sempre
Quando um desditoso chora,
Rara vez no mundo encontra
Remédio ao mal que o devora;
Mas quando sucumbe ao peso
Da desgraça que o persegue,
Mudam-se as cenas — louvores
Então não há quem lhe negue.
Mas que vale esse aparato
Da verdade ou da impostura?
Nem lírios, nem goivos tiram
Os mortos da sepultura.
Em: O Espelho, revista de literatura, modas, indústria e artes, 4 de setembro de 1859, página 21.
Francisco de Paula Brito ( RJ 1809 – RJ 1861) – tipógrafo, editor, jornalista, escritor, poeta, dramaturgo, tradutor e letrista. Foi aprendiz na Tipografia Nacional. Trabalhou em seguida, em 1827 no Jornal do Comércio. Em 1831 passa a livreiro e editor com Tipografia Fluminense de Brito & Cia. Em 1833 lança o jornal O Homem de Cor, primeiro jornal brasileiro contra o preconceito racial. É na sua editora que se forma a “Sociedade Petalógica”, grupo de poetas, compositores, atores, líderes da sociedade, ministros de governo, senadores, jornalistas e médicos que “constituíam movimento romântico de 1840-60” Por outro lado, a tipografia de Paula Brito serviu também de ponto de encontro entre músicos populares [ Laurindo Rabello e Xisto Bahia, por exemplo] e poetas românticos. A combinação produziu muitas parcerias musicais, principalmente no gênero das modinhas, que serviriam de embrião para a música popular urbana, popular no Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX.
Obras:
Anônimas, poesia, 1859
O triunfo dos indígenas, teatro, sd
Os sorvetes, teatro, sd
O fidalgo fanfarrão, teatro, sd
A revelação póstuma, conto, 1839
A mãe-irmã, conto, 1839
O Enjeitado, conto
A marmota na Corte, periódico humorístico, 1849
A Maxambomba, teatro
A mulher do Simplício, ou A fluminense exaltada, periódico humorístico, 1832
Ao dezenove de outubro de 1854, dia de S. Pedro de Alcântara, nome de S. M. o Sr. D. Pedro II, poesia
Biblioteca das senhoras, 1859
Elegia à morte de Evaristo Xavier da Veiga, poesia, 1837
Fábulas de Esopo para uso da mocidade, arranjadas em quadrinhas, poesia, 1857
Monumento à memória do brigadeiro Miguel de Frias Vasconcellos e de seu irmão Francisco de Paula, 1859
Norma, teatro, 1844
Oferenda aos brasileiros, sd
Os Puritanos, teatro 1845
Poesias de Francisco de Paula Brito, poesia, 1863
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Pierre Lachambeaudie (França, 1807 – 1872) foi um escritor de fábulas francês.