Publiquei esta cena da Natividade, no dia 24 de dezembro de 2023, comemorando o Natal. O que não disse naquele dia é da minha frustração com essas definições de arte popular, naïf (ingênua em francês, mas adotada mundialmente) e arte primitiva que se intercalam no Brasil. Não parece haver consenso de como identificá-las ou separá-las.
O grande divisor de águas frequentemente é o treinamento oficial, ou seja se o artista é autodidata ou não; se fez um curso de arte numa escola de Belas Artes, ou se aprendeu com o professor do bairro. Isso é um exemplo. A temática também faz alguma diferença. Temas folclóricos, cores vivas, traços rústicos são o esperado. Aliás, acho que no Brasil somos muito complacentes quanto a aceitação da chamada arte naïf ou popular. Vejo trabalhos por demais rústicos apresentados em galerias de arte de algum prestígio. Temos o hábito de querer levar em consideração a falta de oportunidades que alguns artistas tiveram. Julgar de coração mole não é necessariamente uma boa coisa. Acontece porque temos grande aversão às regras, a padrões. Todo brasileiro quer ser bonzinho. Mas esse critério cá das nossas bandas não é universal. Conheço pintores chamados naïf, que são arquitetos, ou têm curso de design de interiores e que por isso mesmo foram treinados em algum tipo de representação espacial, representação de perspectiva, expostos de alguma forma às convenções da representação quer aquelas usadas tradicionalmente no mundo ocidental ou a perspectiva ambiental, como a usada nas xilogravuras policromadas japonesas.
A talha acima, de um escultor que não conheço, J. Cruz, foi a leilão como Arte Popular em abril de 2021, aqui no Rio de Janeiro. [Arte Popular – J. Cruz – Talha em bloco de madeira nobre, representando presépio. Med.: 38 x 42 cm.] Por que chamaram de arte popular? Porque provavelmente não conhecem o artista e seu meio de expressão é comum entre brasileiros sem treino: escultura em madeira, não muito diferente das matrizes de xilogravuras tradicionalmente consideradas arte popular. Quem acha que xilogravura é só arte popular, nunca viu os detalhes e a delicadeza das obras de Albrecht Dürer, pintor e gravurista da renascença alemã. Verdade é que por desconhecermos o senhor J. Cruz, quem quer que ele seja ou tenha sido, sabemos, só de olhar para a obra que estava familiarizado a iconografia das obras da renascença italiana. Como assim? Vejam abaixo.
Painel da Natividade, c. 1310-1330
Lorenzo Maitani (Siena, 1255-1330)
Catedral de Orvieto, Itália
A arte religiosa dos séculos XIII e XIV obedecia aos rigores iconográficos da Igreja (Falo da Igreja cristã, nesta época não havia a diferença entre igreja católica e outras, era tudo Igreja, só havia uma). Ela ditava o que aparecia na cena retratada e porque (muito simbolismo). Assim sendo, as cenas eram determinadas até certo ponto a priori, pela Igreja, a quase única patrona das artes e principal responsável pela sobrevivência de artistas. A Igreja Romana do Ocidente foi abandonando a tradição dos ícones que permaneceram como padrão de representação na Igreja Romana do Oriente, hoje Igreja Ortodoxa. Essa ainda permanece com as representações religiosas como ícones. Nos países do Ocidente vemos através dos séculos da Baixa Idade Média, as primeiras tentativas de quebrar a rigidez dos ícones com cenas que se aproximavam da vida dos homens comuns. Giotto é o grande nome, na renascença italiana, desta “humanização ” do conteúdo nas cenas retratadas, sem nunca, no entanto, se desviar dos quesitos estabelecidos pela Igreja.
Não havia Escola de Belas Artes para ensinar artistas a pintar, esculpir, fazer arte, até o século XVII. Na França, por exemplo, começa em 1648. Artistas eram artesãos. E como artesãos pertenciam a guildas, como todos os que trabalhavam com as mãos: pedreiros, carpinteiros, ferreiros, padeiros, boticários, barbeiros, ourives, fabricantes de velas, sapateiros e assim por diante. A guilda era onde um artista aprendia sua arte, trabalhando sob o comando de outro artista, já conhecido, e por anos. Não era ele que decidia se já podia trabalhar sozinho… havia regras… tantos anos cumpridos. Começavam misturando tintas, depois passavam a preparar as telas, mais tarde podiam aprender a fazer o fundo, até chegarem ao ponto de poderem trabalhar sozinhos e eventualmente terem seus próprios ateliês reconhecidos pelas guildas onde poderiam formar, dar aulas, a novos artistas.
O nosso artista brasileiro do século XX, J. Cruz, cujo único outro trabalho que encontrei online é um crucifixo, evidentemente aprendeu a olhar para artistas do passado, aprendeu a ver a tradição iconográfica da cena da Natividade, como mostra bem a comparação que vemos entre seu trabalho e o de Lorenzo Maitani, nos relevos exteriores da fachada oeste da Catedral de Orvieto. Maitani era arquiteto e escultor. Foi o arquiteto desta catedral e responsável por grande número dos relevos em pedra, decorativos no exterior dessa igreja.
J. Cruz fez uma excelente escolha ao combinar seu estilo bem brasileiro, bem moderno, com ecos de Vicente do Rego Monteiro, à iconografia usada no século XIV, para a representação da Natividade. Não estou com isso dizendo que ele se inspirou exatamente nesta representação. Não sei. Talvez em uma foto destes relevos ou até mesmo de outras representações da Natividade. Mas assim que vi a talha brasileira, lembrei-me da Natividade de Maitani que faz parte de um grande ciclo de imagens religiosas decorando o exterior da catedral de Orvieto.
Fachada oeste da Catedral de Orvieto, Lorenzo Maitani, primeira metade do século XIV.
Fachada oeste da Catedral de Orvieto, Lorenzo Maitani, primeira metade do século XIV. RESSALTE DA CENA DA NATIVIDADE
Em comum, temos o posicionamento dos elementos no espaço. Maria na cama, enrolada em cobertas levanta com a mão esquerda o dossel (mosquiteiro) que protege o menino Jesus em seu berço. O arco acima deles simboliza a construção onde a família se abrigou, que pode ser, manjedoura, gruta, casa abandonada… Durante a Idade Média a Natividade de Cristo foi ganhando detalhes que não existiam anteriormente. O nascimento de Cristo foi descrito brevemente só em dois evangelhos, o de Matheus (2:1-12) e o de Lucas (2:1-20). A menção de uma caverna aparece no Livro apócrifa de Tiago. Assume-se na história da arte que foi justamente a falta de descrição detalhada desse evento que faz com que ele cresça e ganhe até personagens como o boi e o burro, e até mesmo os três reis magos que nos relatos mais antigos eram simplesmente padres (religiosos). Toda essa evolução aconteceu durante a Baixa Idade Média, ou seja, entre os séculos XI e XV. Outros personagens que povoam a cena, além do burro e do boi no canto direito superior, temos José, sentado, no canto direito inferior, apoiando a cabeça na mão direita, dando sinais de cansaço. No centro da representação as duas obras mostram também as ajudantes de Maria, mulheres, que prepararam a água para o parto. Esse detalhe, das parteiras, vem da tradição bizantina, da Igreja Romana do Oriente, que também é responsável pela representação de Maria na cama. Esses detalhes bizantinos, indicam para quem estuda a história da arte que trata-se de uma representação com raízes na Idade Média, e no caso de Maitani, ajuda-nos a comprovar que ele foi formado pela escola de Siena, porque esta levou muito tempo para se libertar das influências bizantinas. Maria em adoração a Jesus, em pé ou ajoelhada, na cena da Natividade, já é uma representação mais tardia, baseada na obra Meditaçõesde Giovanni de Caulibus, [Pseudo-Bonaventura]… e assim por diante, podemos ir aos poucos datando as diferentes representações da Natividade, de acordo com diferentes textos e épocas.
Anunciação, Natividade e Adoração dos Pastores, 1259-1261
Nicolas Pisano (1220-1284)
Painel, Relevo em mármore do púlpito do batistério de Pisa
Pisa
Púlpito do Batistério de Pisa, 1259-1261, Nicolas Pisano (1220-1284)
Nicolas Pisano também mostra algumas raízes da iconografia bizantina. Maria está recostada numa cama, temos as parteiras ao centro da cena, e José aparece no canto esquerdo inferior, mais ou menos na mesma posição que ele tem na obra de Maitani (que é posterior a esta). As outras diferenças podemos considerar que existem porque temos a combinação de três eventos em um único painel, que são a Anunciaçãoa Maria pelo anjo Gabriel, a Natividade de Cristo e a Adoração dos Reis Magos. Uso esse exemplo, de uma obra muito mais conhecida pelo público em geral, para demonstrar a maneira como alguns motivos se perpetuaram e foram passados de geração em geração.
Voltando à nossa primeira questão, acho difícil classificar a obra de J. Cruz como primitiva, naïf ou popular. Não tenho dúvidas de que ele estava consciente das tradições da representação da Natividade e familiarizado com obras italianas da proto-renascença. Se ele as conheceu em pessoa ou por fotografias, não deixou de estudá-las. Não há nada nesta obra que indique ser de alguém que não teve treino nem estudo algum. Muito pelo contrário, chego a imaginar que haja uma conexão entre ele e Vicente do Rêgo Monteiro. Talvez ele tenha sida aluno, artista do círculo de Rego Monteiro. Não sei, mas é provavel que o nordeste do Brasil seja o ponto em comum entre eles.
NOTA:
Este texto faz parte de um trabalho em andamento, futura publicação com o título provisório: Notas da história da arte através das salas de aula.
Ladyce West é uma historiadora da arte. Em sua vida acadêmica, antes de abrir uma galeria de arte e antiquário, dedicou-se ao estudo do surrealismo belga. Seu livro: Humor, Wit and Irony in the Works of Belgian Surrealists, baseado em tese da Universidade de Maryland, está em processo de tradução para o português.
Harry C. West na nossa primeira biblioteca no Rio de Janeiro.
2024 chegou e trouxe a decisão de começar a dar um destino para a já diminuida biblioteca daqui de casa. Chegamos ao Rio de Janeiro com aproximadamente 2,800 livros, com mobiliário reduzido, meu piano de meia cauda, minha coleção de azulejos persas dos séculos XVIII e XIX e pela primeira vez a combinação de nossos livros em um único cômodo. Sim, moramos nos Estados Unidos com o luxo de cada um ter sua própria biblioteca, seu próprio computador, sua própria impressora, suas poltronas favoritas, e todos os outros objetos que compõem uma biblioteca-escritório de pessoas estudiosas.
Depois de escolher o lugar para morar, no RJ, voltamos para os Estados Unidos determinados a reduzir nosso mobiliário, livros, objetos. Deixávamos para trás uma casa em centro de terreno com um jardim extenso, uma pequena floresta ao fundo por onde corria um riachinho cantante na linha divisória com os vizinhos de trás, distante cento e vinte metros da casa. Este terreno tinha um bocado de vida silvestre, difícil de imaginar que estávamos num ambiente urbano, a oito quilômetros do movimentado centro da cidade, capital do estado. Nossos companheiros de endereço faziam um conto de Rudyard Kipling parecer americano. Tínhamos corujas, gambás, esquilos, como os do Brasil, uma meia dúzia de famílias de chipmunks (não achei tradução porque não são esquilos, mas da família), pombinhas, passarinhos de todo tipo, toupeiras, guaxinins, coelhinhos com rabo de pompom, lesmas, borboletas, grilos aos milhares… Todos nós convivendo felizes em pouco mais de 2100 metros quadrados de jardim sombreado por mais de 20 carvalhos de 30 metros de altura, alguns pinheiros e uns dez dogwoods, além de arbustos e plantas que eu mesma tocava. Pouca grama, ainda bem, só na frente da casa.
Harry em sua mesa favorita, (apesar de ter uma escrivaninha): mesa de jogo, na biblioteca. A mim parece e era desconfortável, mas ele gostava.
Saímos deste local para morarmos num apartamento de cento e oitenta metros quadrados, no Rio de Janeiro. Tínhamos que reduzir. Passamos aproximadamente oito meses nos preparando, empacotando, selecionando objetos. Nossas bibliotecas foram podadas. A minha concentrada em arte moderna europeia e na arte dos séculos XVII e XVIII, em história medieval além, é claro, de muita literatura europeia dos séculos XIX e XX, com ênfase na Inglaterra e França. Harry, por outro lado tinha uma vastíssima coleção de diversas traduções dos clássicos gregos e romanos (ele gostava de comparar traduções), grande coleção de filosofia, que também apresentava diversas cópias do mesmo texto com diferentes traduções para o inglês. Psicologia era seu campo de estudos aplicados à literatura americana. E todos os textos da literatura americana do século XIX, sua especialidade, além dos teoristas contemporâneos de Lacan a Bachelard, James Hillman e outros. Chegamos ao Brasil com um container de 40 pés grande parte dele dedicado a livros, manuscritos, papelada, que só a nós interessava. Isso foi antes dos livros digitalizados do Kindle ou de qualquer outro dispositivo. Calculamos que deixamos metade dos nossos livros para trás. Mas não contamos.
Em 2009 nos mudamos para outro endereço. Menor. Lá se foram outros tantos livros, a maior parte dos meus livros de arte. Estava ficando fácil arranjar imagens na internet que me permitiam continuar a trabalhar sem ter que folhear livros pesados e fólios. Nossa filiação com as universidades americanas começava a dar frutos substanciais quanto à pesquisa, porque tínhamos o direito de consultar livros já digitalizados desses locais. [Hoje eu assino alguns sites onde encontro as mais recentes publicações sérias.] O mundo mudou.
Nosso mundo.
Outras mudanças, doença, fizeram dos originais 2.800 livros no Rio de Janeiro, talvez uns 1700. Hoje selecionei 231 volumes para doação. Foi a primeira seleção. Vou repetir essa limpeza ainda umas duas vezes neste mês. Guardei todos os que ainda tinham anotações. Aprendi com Harry a marcar os livros nas próprias páginas. Porque esses eram livros de trabalho. Muitos deles, que hoje guardei, já estão com dorsos e capas desgastados pelos trinta e cinco anos em que Harry ensinou na universidade. Guardei também porque têm sua letra, tão bem elaborada, tão distinta, tão fácil de ler e sua assinatura nas páginas de rosto. Estes eu guardei. Não tive coragem ainda de me desfazer deles, assim como ainda tenho os manuscritos dos dois livros já acabados mas faltando polir, que ele deixou para trás. Tentei ainda conversar nos últimos anos, ajudá-lo na edição nos cortes (sou boa de cortes), mas seu interesse já não estava lá.
Nossa biblioteca era vasta porque apesar de trabalharmos nas humanidades, havia poucos pontos em comum nas nossas áreas de interesse. Havia poucas duplicatas. Exceto, e foi assim que nos apaixonamos, quando comparávamos notas: eu trabalhando com Freud e outros da psicologia, porque minha especialidade era a arte surrealista e Harry se dedicando aos pós-Junguianos na interpretação dos grandes escritores americanos do século XIX: Hawthorne, Poe, Emerson, Melville, Whitman e Throreau. Ele aprendeu sobre as artes plásticas comigo e passou a visitar museus com outros olhos. Tivemos também a sorte de viajar muito, e residir em alguns diferentes países. Desta ligação, eu saí ganhando, porque ele me educou nos textos clássicos gregos e romanos, assim como nos filósofos da renascença. Por sua causa devorei Edgar Alan Poe, Nathaniel Hawthorne e meu favorito entre esses, Emerson e seus ensaios. Mas além da primeira geração de clássicos americanos, também me familiarizei com Emily Dickinson, Henry James, Stephen Crane, Kate Chopin e outros. Nessa troca, ganhei mais, porque a literatura havia sempre sido um interesse meu, afinal de contas comecei meus estudos em letras, em francês. E Harry só se interessou pelas artes visuais depois de nos conhecermos. Mas fizemos uma boa dupla que se entendeu e se completou. Fico, portanto, ainda com muitos de seus livros ‘primários’, aqueles que têm sua letra cobrindo páginas, e sublinhados com pontos de interrogação ou menção do caminho para levar adiante. Quanto a seus manuscritos ainda não tive coragem de deixá-los ir. Mas estou abrindo espaço nas prateleiras. Ainda leio muito, ainda leio em papel. Ultimamente compro a versão digital e se gosto do livro, compro o mesmo livro em papel. Caminho para uma vida mais leve.
Jorge Luís Borges (1899-1986) nascido numa família tradicional argentina, foi criado bilíngue em inglês e espanhol e foi educado em casa até os onze anos de idade. Aos nove anos Traduziu do inglês para o espanhol a obra The Happy Prince, de Oscar Wilde [O príncipe feliz]. Aos doze anos já lia Shakespeare. Aprendeu francês tornando-se fluente na língua. A família, evitando problemas políticos, viveu na Suíça, passando por lá toda a primeira guerra mundial até retornar à Argentina em 1921, quando Borges estava com 22 anos. A esta altura Jorge Luís Borges já lia em alemão, principalmente filosofia.