“Os irmãos”, texto de José Luís Peixoto

23 04 2020

 

 

 

emilio grau sala (1911-1975)senhora lendo o jornal ost, 60 x 72, christies 3Senhora lendo jornal

Emilio Grau Sala (Espanha, 1911 – 1975)

óleo sobre tela, 60 x 72 cm

 

 

“À direita do velho Gabriel, com os olhares paralelos, presos em pontos abstractos e desfocados, estavam os irmãos. Os seu olhares eram iguais, mas não viam o mesmo. Eram o mesmo olhar a ver duas coisas. Durante os meses em que estava parado, era, os irmãos que tomavam conta do lagar. Sempre juntos, sempre um ao lado do outro, envelheceram ao mesmo tempo: tinham a mesma curva nas costas, o mesmo andar pouco ligeiro e, sem que o soubessem, o mesmo número exacto de cabelos brancos na cabeça. Já tinham passado muito mais de setenta anos da manhã de agosto em que, ao mesmo tempo, nasceram, rasgando a mãe por dentro à sua passagem. Contavam os mais velhos, que tinham ouvido dos seus pais, que, assim que lhes cortaram os cordões umbilicais, a mãe os olhou e viu ainda que eram siameses. Morreu alguns minutos depois, sem dizer uma palavra. O seu enterro foi seguido por toda a vila e sentido como uma tragédia entre as maiores. Todas as pessoas da vila davam os pêsames ao pai dos irmãos, pela esposa e pelos filhos, pois todos cuidaram que crianças assim não medravam. Mas, no momento em que a mãe era enterrada, os meninos dormiam sobre três cobertores dobrados, no quarto do pai, ao lado da cama onde a mãe se esvaíra em sangue. De pele muito enrugada, os meninos dormiam , com as mãos que tinham unidas levantadas sobre o lençol que os cobria, como num orgulho inocente de serem irmãos. E, sob o olhar preocupado das pessoas, cresceram como crescem as crianças. Com os anos, muitos lhes quiseram analisar as mãos e todos se arrepiavam com o que viam: a mão direita de um e a mão esquerda do outro estavam unidas pelo dedo mindinho. Tinham as mãos muito elegantes, finas, dedos longos, mas a partir da última norça do mindinho, os seus dedos fundiam-se e terminavam numa só unha. Todos os que viam isto inventavam maneiras de os separar, mas o mais insistente foi o homem de arrancar dentes com o alicate. Inflamado, dizia conhecer homens que tinham cortado muitas pernas e muitos braços na guerra, e que tinha lido muitos livros com desenhos mesmo, e que cortar um dedo a uma criança é mais fácil do que podar uma  parreira. E o pai dos irmãos perguntou-lhe e como é que eu decido qual deles é que fica sem dedo? E o homem de arrancar dentes com um alicate, imediato, respondeu já tinha pensado nisso, o mais justo é cortar o dedo aos dois. O pai dos irmãos olhou-o por um instante e não voltou a falar com ele. ”

 

Em:  Nenhum olhar, José Luís Peixoto, Dublinense: 2018, páginas 17 e 18.





Nossas cidades: Santos

22 04 2020

 

 

 

PAULO DO VALLE JÚNIOR (Brasil, 1889-1958)Paisagem de Santos, ost, 90 x 68 cmPaisagem de Santos

Paulo do Valle Júnior (Brasil, 1889 -1958)

óleo sobre tela, 90 x 68 cm





Resenha: “A vida pela frente” de Émile Ajar

21 04 2020

 

 

 

Adam Clague Moça lendo, ost. 32 x 30 cmMoça lendo

Adam Clague ( EUA, contemporâneo)

óleo sobre tela, 59 x 30 cm

 

 

Alguns amigos perguntaram porque dei três estrelas de cinco para A vida pela frente, de Émile Ajar,  tradução  de  André  Telles,  originalmente publicado em 1975, e ganhador do Prix Goncourt.  A surpresa vem pelas muitas de resenhas superlativas desta obra.   Há também um grande trabalho de marketing,  desde seu lançamento em 2019.  Aqui no Rio de Janeiro, a maioria das livrarias físicas tem este livro empilhado na primeira bancada, e  compras via internet sempre trazem este livro como opção para suas compras,  na primeira página.

Há uma  incompatibilidade de gênios  entre a obra e a leitora.  A vida pela frente é sentimental,  idealista  e parece acreditar num mundo muito mais perfeito do que imagino possível.  Parece  estranho dizer isso quando se trata da história de um menino árabe, muito pobre, criado por uma cafetina judia,  num  bairro de prostituição em Paris e trabalhar temas da eutanásia ao aborto, exploração dos seres humanos, discriminação, injustiça social, violência. Incongruente, você poderá achar. Mas não é.

 

A_VIDA_PELA_FRENTE_1566 VERA

 

Somos apresentados a esse mundo através de um menino que talvez tenha dez a onze anos, que não sabe ao certo quando nasceu.  A voz é de espanto, delicada e tem a intenção de nos seduzir por sua inocência.  Infelizmente para a narrativa logo no primeiro capítulo ele pergunta: “– Seu Hamil, é possível viver sem amor?”  Congelei.  Estava frente à  chave de abertura de mundo paralelo. Entrava num texto próprio  para um filme de Walt Disney, com a  necessidade de explorar escandalosamente meus mais finos sentimentos.  Já sabia estar na companhia de um menino carente e agora ele iria me ensinar as coisas importantes da vida.  Não, não faz sentido. Não me agrada ser sensibilizada dessa maneira, manipulada, só faltava ouvir os violinos ao fundo tocando uma canção suave.

Mas continuei a leitura.  Dois de meus grupos de leitura haviam independentemente escolhido este livro para discussão.  Eu tinha que chegar ao fim.  O que veio foi previsível.  Um texto para nos mostrar valores essenciais  para a humanidade.  Romance de formação?  Não vejo assim.  Romance com a intenção de formar, moralizar o leitor.  Já saí da escola há tempos, minha formação já está sedimentada. Não preciso disso.

 

emile ajarÉmile Ajar, pseudônimo de Romain Gary

 

Não gosto de histórias moralizantes. Histórias que querem abertamente me fazer engolir valores,  ensinamentos, frases bonitas, nada mais que revestidos lugares comuns, feitos para sensibilizar o leitor às platitudes insensatamente repetidas na modernidade como se fossem profundas conclusões sobre o ser humano: a necessidade de amarmos uns aos outros, a sobrevivência pela solidariedade; necessária coragem para a vida no âmbito marginalizado.  Sinto muito.  Isso não é profundidade de texto.  Mostre-me.  Não me guie.

Textos como este lembram-me do Pequeno Príncipe de Saint-Exupéry,  que não passam de uma visão romântica do comportamento que devemos ter com os outros, conosco mesmo, mas a nível superficial.  São bonitinhos.  Pretendem profundidade. Pretendem posições filosóficas. Pretendem enunciar verdades, “para um mundo moderno que perdeu seus valores”.  Não acho isso.  Não tenho essa visão.  É um livro pretensioso. Não é para mim.  Há muito passei  da  fase  de achar que frases bonitas refletem profundidade.

Quanto mais escrevo, mais sinto vontade de diminuir o número de estrelas que dei. Não  recomendo.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Trova do beijo

20 04 2020

 

 

1950sIlustração  revista americana dos anos 50.

 

 

Num beijo fez imortal

o nosso amor sem ressábios:

um romance original

escrito por quatro lábios.

 

(Lilinha Fernandes)





Minutos de sabedoria: Augusto Cury

20 04 2020

 

 

Dana Krinsky, (Israel) Inverno, ost, 50 x 60cmInverno

Dana Krinsky (Israel, 1969)

óleo sobre tela, 50 x 60cm

 

 

“Todos querem o perfume das flores, mas poucos sujam suas mãos para cultivá-las.”

 

Augusto Cury

 

 

Augusto_Cury,_escritor_(28339139296)Augusto Cury




Domingo, um passeio no campo

19 04 2020

 

 

CAMPÃO (José Marques, S.P. 1892-S.P. 1949) Óleo s. tela colada em madeira 92 X 74 Paisagem rural ass. c. inf. direito e datado 1946Paisagem rural, 1946

José Marques Campão (Brasil, 1892- 1949)

óleo sobre tela colada em madeira 92 X 74 cm





Flores para um sábado perfeito!

18 04 2020

 

 

MARQUES JUNIOR (Augusto, RJ 1887- RJ 1960) - Óleo s-tela 54 x 45 - Vaso - ass. inf. direito -Vaso de flores, petúnias

Marques Júnior (Brasil, 1887- 1960)

óleo sobre tela,   54 x 45 cm

 





Imagem de leitura — Leonid Pasternak

18 04 2020

 

 

 

The Night before the Exam, Leonid Pasternak , 1895. Collection Musée d'OrsayA noite antes das provas, 1895

Leonid Osipovich Pasternak (Rússia, 1862-1945)

óleo sobre  tela

Musée d’Orsay, Paris





Rio de Janeiro, um parque à beira-mar!

17 04 2020

 

 

 

JORGE VIEIRA - Marina da Glória - o.s.t. - Medidas 74x64Marina da Glória

Jorge Vieira (Brasil, 1952)

óleo sobre tela, 74 x 64cm





“Alemães na Argélia” texto de Kaouther Adimi

17 04 2020

 

 

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“Alemanha,  1940

 

Na imprensa nazista, aparecem artigos sobre a situação nos países do norte da África ocupados pelo exército francês. A rádio alemã começa até mesmo a difundir transmissões em árabe.  Ouvimos, perplexos, esses jornalistas, que, de Berlim, apelam para que peguemos em  armas contra a França.  Parece que os soldados alemães são lançados de paraquedas no meio da noite, nos vilarejos perdidos da Argélia. Trazem latas de comida e oferecem chocolate às crianças. Estão lá para tentar nos convencer a aderir ao exército hitleriano, que  promete expulsar a França do país. Prometem que, graças à Alemanha, nossas crianças serão escolarizadas e a Argélia voltará a ser uma terra islâmica. Anos mais tarde, nesses mesmos vilarejos, encontraremos metralhadoras e um capacete alemão. Nossos avós encolherão os ombros: “Era um jovem soldado alemão que foi lançado de paraquedas aqui… Ele trouxe comida e nós o escondemos”. ”

 

Em: As verdadeiras riquezas, Kaouther Adimi, tradução Sandra M. Stroparo, Rio de Janeiro, Rádio Londres: 2019, página 65