Ilha de Paquetá, 1907
Carlos Balliester (Brasil, 1874 – 1926)
óleo sobre tela, 48 x 67 cm
Ilha de Paquetá, 1907
Carlos Balliester (Brasil, 1874 – 1926)
óleo sobre tela, 48 x 67 cm
Moça com vaso de flores, c. 1908
A. C. W. Duncan (GB, ativo 1883-?)
óleo sobre tela
East Ayrshire Council, The Dick Institute Museum and Art Gallery, Kilmarnock, Grã-Bretanha
Revêrie, de Alphonse Mucha, 1896.
Provérbio chinês
As três irmãs, 1917
Henri Matisse (França, 1869-1954)
óleo sobre tela, 92 x 73 cm
Musée d’ Orsay, Paris
Este é o terceiro livro de Maria Dueñas que leio. O primeiro, O tempo entre costuras, foi uma leitura excepcional. Rara obra de aventuras em que uma mulher tem a liderança. Foi também uma excelente maneira de relatar alguns detalhes da vida na Espanha na época de Franco. Nota dez. Li depois O melhor está por vir. Não me encantou. A mim, pareceu um exercício forçado para a entrada no mercado americano. A história se passa na Califórnia, e está ligada às missões espanholas. Por isso não li nenhuma outra obra de Dueñas. Mas este mês meu grupo de leitura escolheu As filhas do Capitão, para discussão.
Assim como seu primeiro livro – O tempo entre costuras, sucesso mundial que virou uma série na televisão, muito boa por sinal — este é um livro de aventuras. Aqui três jovens irmãs emigram para os Estados Unidos nos anos 30 do século XX. As filhas do Capitão tem capítulos pequenos e muitas situações de perigo, momentos críticos de decisões pessoais de cada personagem, refletindo com clareza e detalhe as vicissitudes, perigos, alegrias e sucessos dos recém-chegados ao EUA, momento que imigrantes têm como um segundo nascimento ao desfrutarem de liberdades em geral fora de seu alcance na terra natal. Sem dúvida a chegada ao país para onde se emigra pode ser um período de escolhas, e empreendedorismo sem igual. As irmãs, Victoria, Mona e Luz Arenas, que a princípio não queriam deixar a Espanha para acompanhar a mãe e se juntarem ao pai emigrante, logo despertam para novas possibilidades que são ainda mais sedutoras quando subitamente encontram-se órfãs de pai e responsáveis pela mãe camponesa, analfabeta, com visão do mundo limitada pela aldeia onde moravam naquele país ibérico.

Como grande parte dos imigrantes, a família encontra respaldo na comunidade de conterrâneos emigrados. Aqui foram espanhóis que ocupavam grande variedade de posições sociais, do trabalhador braçal, aos pequenos negociantes, profissionais liberais e até mesmo personagens da decadente família real do país. Para sobreviverem, se alimentarem, as irmãs jovens, atraentes e bonitas, decidem levar avante o pequeno restaurante endividado que o pai lhes deixara. Sem nunca terem trabalhado no ramo, sem qualquer conhecimento de inglês, as irmãs Arenas se empenham em encontrar maneiras de sobreviver e simultaneamente descobrir as próprias habilidades, opiniões, gostos, limites, moral e perseverança. Sem que se fale nas encrencas amorosas que pavimentam o caminho, este é um livro que descreve conquistas, erros, desavenças, decisões nem sempre acertadas, a vida repleta de aventuras numa terra estranha. Neste ponto As filhas do capitão é um livro tão excitante quanto O tempo entre costuras. O que é diferente, é a enorme coletânea de dados históricos que vêm muitas vezes a troco de nada, e pesam no texto por absoluta falta de disciplina da autora e falta de algum bom editor que lhe aconselhasse a cortar muito dessas partes.
Maria Dueñas
Depois do sucesso de O tempo entre costuras Maria Dueñas deixou a carreira de professora universitária para se dedicar exclusivamente à escrita. Tornou-se escritora por tempo integral. Enquanto escrever ficção era um hobby, uma segunda opção de vida, sua narrativa fluiu. Toda a pesquisa necessária para retratar a época de Franco na Espanha fez parte da narrativa de seu primeiro romance sem pesar no texto. Grande pesquisa histórica foi necessária para localizar este romance As filhas do capitão na mal conhecida imigração espanhola nos Estados Unidos. É evidente que Maria Dueñas se dedicou seriamente a levantar os detalhes da época e de toda a colônia espanhola em Manhattan nos anos 30 do século passado. Mas é exatamente por isso que há desconforto na leitura do texto. Apesar de abraçar a carreira de escritora de ficção, a autora não conseguiu se desfazer do hábito acadêmico de colocar tudo o que se sabe num documento para provar que a pesquisa foi feita. Maria Dueñas vestiu a toga de escritora sem se desfazer dos vícios da escrita acadêmica. Há momentos em que quase sentimos sua vontade de colocar uma nota de rodapé sobre a descoberta que fez. Há dezenas e dezenas de parágrafos sobre a família real espanhola; há detalhes sobre as ruas, sobre endereços, sobre hotéis, que não enriquecem necessariamente o texto, mas que servem de obstáculos para a leitura suave da história. Muito disso poderia ser cortado. Poderia também pertencer ainda a outro romance sobre espanhóis em Nova York. E muito também poderia ser revelado através de diálogos, através de reflexões de personagens para suas decisões, sem que ocasionalmente o leitor se sinta tendo uma aula sobre o assunto. Este é, sem dúvida, o grande defeito deste livro.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Minha sombra pode andar sobre a água, 2012
Gehard Demetz (Itália, 1972)
madeira de cal e acrílica, 168 x 52 x 32 cm
Natureza morta com uvas e abacaxi, 1999
Clóvis Pescio (Brasil, 1951)
óleo sobre tela, 59 x 70 cm
Almofada vermelha
Belinda del pesco (EUA, contemporânea)
aquarela, 20 x 25 cm
Não se trata de ficção. Este é um livro de ensaios sobre escrita, literatura, escolhas e preferências do autor e ainda outros temas surgidos nas entrevistas que Haruki Murakami deu. Não se trata tampouco de um guia para o escritor neófito, nem uma cartilha de como se tornar um escritor de sucesso. Invés disso temos um belo preenchimento do retrato de Murakami como pessoa, intelectual e pensador.

Mesmo assim é um livro que encanta, principalmente àqueles como eu, que apreciam os livros do autor. Saímos dessa leitura com a sensação de quem é Murakami, um cara sóbrio, que tem dúvidas, muitas delas sobre suas criações. Conhecemos o início de sua carreira como escritor e suas ideias sobre a educação nas escolas japonesas. É um livro leve, de fácil leitura, repleto de vinhetas ou histórias ilustrando suas ideias. Nesta obra passeamos pelas memórias do autor, e vislumbramos os processos de sua escrita.
Haruki Murakami
Tudo me pareceu de interesse: seu desprezo pelos prêmios literários; o hábito de sair do Japão para um lugar onde não é conhecido (por exemplo, Paris) e viver lá pelos 6, 8, 10 meses necessários para escrever o romance que tem na cabeça e que surgiu no Japão (ele gosta deste distanciamento físico); o descaso que críticos japoneses têm por sua obra, por acreditarem que é repleta de perspectivas estrangeiras (americanas na maioria); o cuidado detalhado, minucioso, vagaroso necessário para completar uma obra e sobretudo a seriedade com que trata de sua vocação.
Leitura encantadora. Difere de todos os outros Murakamis que li. Com ele começamos a perceber o homem que cria o mundo paralelo em que nos deliciamos. Vale a pena! Muito bom.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Leitura
Elena Petrovna Samokish-Sudkovskaya (Rússia, 1863-1924)
Aquarela
Aluísio de Azevedo
Natureza morta
João Simeoni (Brasil, 1907-1969)
óleo sobre tela, 32 x 47 cm
Vaso de flores, 1955
Alberto da Veiga Guignard (Brasil, 1896-1962)
óleo sobre madeira, 75 x 61 cm