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Ladeira do Faria, na Saúde
Orlando Brito (Brasil, 1920-1981)
óleo sobre tela, 40 x 32 cm
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Ladeira do Faria, na Saúde
Orlando Brito (Brasil, 1920-1981)
óleo sobre tela, 40 x 32 cm

Flautista, 1934
Cândido Portinari (Brasil, 1903-1962)
óleo sobre madeira, 46 x 37 cm
Coleção Particular
Mauro Mota
Para onde fui? Ou essa
música de onde veio?
Uma flauta divide
a noite pelo meio.
Em: Antologia Poética, Mauro Mota, Rio de Janeiro, Editora Leitura: 1968, p. 93.

Torquato Tasso lendo um poema para Isabela D’Este
Luigi Mussini (Itália, 1813-1888)
óleo sobre tela
Galeria de Arte Moderna, Florença
DA MINHA MESA DE TRABALHO, esta semana com cravinas lilás debruadas.–
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Ah! Como está bonita a Avenida 23 de maio em São Paulo! Primeiro porque o programa de arborização e manutenção dos espaços verdes na cidade deu a essa via expressa dentro do perímetro urbano um ar de parque. Hoje, depois de uns dez ou quinze anos – não me lembro bem quando o processo começou – árvores cobertas de flores, arbustos e vegetação rasteira dão uma variedade enorme de verdes e cores suaves ao horizonte do motorista. E para completar, neste janeiro quando os muros foram pintados como primeiro passo para serem cobertos com vegetação, a calma visual realmente se estabilizou. Há de haver lugares numa urbe em que se possa estar em contato com a natureza com seu verde e sua energia calma para que outros problemas da vida citadina possam ser momentaneamente esquecidos.
A controvérsia sobre a pintura cinza do prefeito Doria me pareceu muito ligada à imprensa que precisa de escândalos para ter leitores, ouvintes e telespectadores. A verdade é que os muros estavam com trabalhos parcialmente danificados, com novos grafites por cima de velhos. Melhor cobrir tudo com plantas para dar à avenida o toque final de área verde no descanso visual. Acho que há lugar para a pintura externa do grafite. Não há para pixação. Mas mesmo o grafite deve ser regularizado, com locais permitidos. A cidade é a casa de todos, não é para todos fazerem o que quiserem.
Nesta semana a perseguição a João Doria vem da limitação de tamanho e de horário para os blocos de rua nas zonas residenciais. Ora, já morei, no Rio de Janeiro, em Copacabana de esquina com a avenida Atlântica, pagando um dos mais caros impostos prediais da cidade, para ter todos os meus domingos de setembro em diante preenchidos das 15 às 21 horas com uma bateria de escola de samba, com trio elétrico parado em frente à praia, tocando o samba enredo da escola. Era infernal. Morar no décimo andar não ajudou. O som sobe. Não podíamos conversar em casa, não podíamos ouvir música, ver televisão. Nada. Mais de seis meses – dependendo da data do Carnaval – eram passados dessa maneira, sem a menor consideração para todos os moradores cujas residências davam para essa rua.
Para piorar, um barzinho pequeno, cujas mesas tomavam a calçada em frente, empolgado com a bagunça reinante, promovia noites de samba no mesmo local às sextas, sábados e domingos, nesse dia, logo após o ensaio da escola de samba. A farra ia até 1 hora da manhã. De nada adiantou nossos abaixo-assinados à prefeitura. Corria o boato que um vereador da cidade seria um dos diretores da escola de samba em questão e nenhuma restrição a esse ensaio seria colocada pela prefeitura. Depois de cinco anos neste local, saímos.
Tenho, portanto, grande simpatia por um prefeito que não se importe de colocar ordem na cidade. Não sou contra o Carnaval. Não sou contra o grafite como arte, mas para vivermos em harmonia numa cidade plural temos que considerar o direito de todos.
João Doria tem o meu apoio. Há muito tempo que São Paulo precisava de uma faxina. É uma cidade bonita. Com algumas joias arquitetônicas no centro da cidade que estão com aspecto lastimável por causa das pixações em todos os cantos. Que seja, sim, crime pixar. É um crime contra as propriedades pública e privada .
Não se precisa de praia para uma cidade linda, veja os exemplos de Londres, Paris, Roma, Madri, Nova York. Nenhuma delas tem praia. Como São Paulo, elas todas têm rio. Em alguns casos mais de um rio. O prefeito poderia dar um jeitinho no Tietê também, depois que limpar, lustrar, organizar a cidade, quem sabe, colocar o Tietê no lugar de proeminência que merece ter.
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LIVROS sobre a mesa: O Príncipe dos Canalhas, Loretta Chase; Tempo é dinheiro, Lionel Shriver; Diário da queda, Michel Laub.

Natureza Morta, maçãs
Modesto Brocos (Espanha/Brasil, 1852-1936)
óleo sobre tela, 28 x 38 cm

New York Subway, 2009
Shane Sutton (Irlanda, contemporâneo)
Óleo sobre tela, 100 x 70 cm

Araçoiaba da Serra, 1995
Joel Firmino do Amaral (Brasil, 1951)
aquarela sobre papel, 14 x 24 m

Mike no chuveiro do vestiário
Nathaniel Wyrick (EUA, contemporâneo)
acrílica e gloss sobre tela, 40 x 60 cm
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Há pouco tempo durante a disputa à presidência dos Estados Unidos, uma gravação de um dos candidatos se gabando de conquistas amorosas em termos chulos vazou na rede social criando polêmica. A raiz do problema era, em parte, o linguajar usado numa conversa particular, classificada pelo autor como “papo de homem, papo de vestiário”, onde a vanglória sexual e linguagem grosseira são socialmente permitidas. Semelhante problema se desenvolve na vida de José Victor personagem principal de O tribunal da quinta-feira. Tendo trocado emails com seu melhor amigo Walter sobre fantasias e feitos sexuais, usando imagens e linguagem grosseiras, ele se encontra mais tarde vitima do vazamento de seus textos. Sem dúvida, a perda de privacidade é um tema atual mas este livro aborda outros assuntos controversos, que servem de teste para a ética contemporânea.
Entre os assuntos abordados estão o roubo de informações particulares e a disseminação desses dados pelas redes sociais; assim como a obrigação ética de se revelar uma doença sexual transmissível, como a AIDS. Há outro aspecto ético não tão óbvio que permeia o texto: a escolha de certas expressões grosseiras seria de fato o retrato de um preconceito? Ou pode ser escusado justamente por ser de uso comum em certos ambientes? E pode ser usado em conversas privadas? No momento, tendemos a crer na força da palavra falada ou escrita. Há aqueles que defendem a mudança de palavras em canções folclóricas, como “Atirei o pau no gato” ou na supressão de certas marchinhas consideradas preconceituosas dos bailes de Carnaval, festa em que tradicionalmente burlam-se as regras sociais. O comportamento ético e o politicamente correto estão em foco.

Grande maestria foi necessária para atingir o nível de simplicidade quase jornalística do texto que à primeira vista parece sem arte. Há também o excelente desenvolvimento do personagem principal, cujas obsessões e humor abrem a porta da simpatia para o leitor. A linguagem e os pequenos capítulos dão a falsa impressão de um trabalho solto e inconsequente. Mas a trama é desenvolvida com pontos bem fechados que sustentam o ritmo acelerado. A prosa de Michel Laub, que conheço até agora só por esse livro, lembrou-me a do escritor americano Phillip Roth: clara, sem requintes literários tratando da desintegração da sociedade, da guerra entre os instintos carnais e os morais num contexto de grande contemporaneidade e explorando a obsessão do narrador consigo mesmo.
É, no entanto, justamente nesse ponto que o autor me decepciona, porque os problemas de José Victor, ainda que honestamente alcançados são produto de uma realidade tão imediata que o mero espaço entre a escrita do texto e sua publicação já mostra defasagem de hábitos. Hoje pouquíssimo de pessoal é comunicado através de emails. Senhas escritas, com a possibilidade de serem perdidas e encontradas em mãos alheias têm o gosto de passado, de já visto. Bastante explorado. Esse é uma das dificuldades em se firmar uma história numa realidade que muda muito rapidamente. Além disso, enraizar uma história com problemas tão corriqueiros e datáveis limita o escopo que a própria obra poderia ter adquirido. Mas para que esse livro permaneça viável por mais de uma década, essas questões deveriam ter tido outro meio de serem apresentadas ao leitor. A pergunta ética existe, mas está entrelaçada a uma trama com data de validade.
Michel LaubFora essa observação, O tribunal da quinta-feira é um livro bom, de leitura rápida que nos faz pensar e questionar assuntos do cotidiano e nosso posicionamento ético a respeito deles.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.

A lição, 2014
Tala Madani (Iran, 1981)
óleo sobre tela, 96 x 62 cm
Paisagem rural, 2012
Clóvis Péscio (Brasil, 1951)
óleo sobre tela, 30 x 40 cm