Walter MacEwen ( EUA, 1860-1943)
óleo sobre tela, 87 x 61 cm
“A memória é uma paisagem contemplada de um comboio em movimento.”
José Eduardo Agualusa
Em: O vendedor de passados, Rio de Janeiro, Gryphus: 2004, p. 153.
Walter MacEwen ( EUA, 1860-1943)
óleo sobre tela, 87 x 61 cm
José Eduardo Agualusa
Em: O vendedor de passados, Rio de Janeiro, Gryphus: 2004, p. 153.
Retrato de Dolores Otaño, 1892
Dario Regoyos (Espanha, 1856-1913)
óleo sobre tela, 55 x 35 cm
Museu Rainha Sofia, Madri
Vincent van Gogh (Holanda, 1853-1890)
óleo sobre tela, 73 x 53 cm
Museu van Gogh, Amsterdam
Tendo lido recentemente O sentido de um fim, de Julian Barnes, uma obra com meras 156 páginas, resolvi listar outras pequenas joias literárias que se apresentam de maneira sucinta e que nem por isso perdem o verdadeiro objetivo da boa literatura: mover o leitor a refletir. Assim aqui vai mais uma lista para quem segue o blog, escolhido pela Peregrina.
Livros inesquecíveis com menos de 200 páginas
EM ORDEM ALFABÉTICA
As Avós de Doris Lessing

Billy Budd, marinheiro de Herman Melville

A Casa de Papel de Carlos Maria Dominguez

A Fera na Selva de Henry James
O Sentido de um fim de Julian Barnes, obra vencedora do Man Booker Prize de 2011.
A Trégua de Mário Benedetti
Vermelho Amargo de Bartolomeu Campos de Queirós

24 horas na vida de uma mulher, de Stefan Zweig
Mais algum que deixei de lado? Tem que ser sensacional. Obras com menos de 200 páginas existem aos borbotões. Mas que deixem marcas no coração?
A Passagem pelo Noroeste, 1874
John Everett Millais (GB, 1829 – 1896)
óleo sobre tela, 176 x 222 cm
Tate Gallery, Londres
Viaduto Santa Efigênia, São Paulo,c. 2005
Renato Neves (Brasil, contemporâneo)
acrílica sobre tela, 70 x 100 cm
Anthony Morris, RP (Grã-Bretanha, 1938)
óleo sobre tela
Recentemente tive uma discussão acalorada com meu irmão sobre a lembrança de um evento da nossa infância. Cada um de nós, únicos protagonistas da aventura, se lembrava de coisas diferentes e em diferente ordem. Mais revelador ainda: cada qual só tinha a memória daquilo mais significativo para si mesmo. Guardamos para o futuro, para o nosso banco de memórias, para o perfil do nosso passado, só o momento de nosso próprio ato de bravura. Os dois haviam sido corajosos, individualmente, mas uma única lembrança, pessoal, individual, em que fomos heróis, se manteve. Não chegando a um acordo, partimos frustrados, como se tivéssemos sido traídos pelo outro. Aí estava uma prova, para mim, historiadora, que de fato a reconstituição do passado é sempre ficcionalizada de acordo com o narrador. Faz parte do dia a dia, de quem se dedica à história, considerar que memórias são seletivas. Julian Barnes adverte o leitor sobre esse fenômeno desde o início da narrativa, através de Adrian, um adolescente precoce em conversa com seu professor: “Esse é um dos principais problemas da história, não é senhor? A questão da interpretação subjetiva versus a interpretação objetiva, o fato de que nós precisamos conhecer a história do historiador, a fim de entender a versão que é colocada diante de nós.” [18]
O sentido de um fim, de Julian Barnes, trata diretamente da memória e da narrativa que damos às nossas vidas. Trata da maneira sucinta e por vezes poética com que narramos nossas próprias lembranças; reeditando-as com a a passagem do tempo. Julian Barnes também trata de maneira sucinta e poética o tema, revelando a enorme dimensão do que pode existir por trás dos detalhes que escolhemos lembrar, dos fatos que obliteramos, e como a cada narrativa podemos encontrar uma nova interpretação. Esta é uma obra magistral. Pequena, enxuta, prova de que conteúdo não precisa ser copioso para ter impacto.
Inicialmente O sentido de um fim parece estar contido nos preparativos a que, aos sessenta anos, Tony Webster, protagonista e narrador, se dedica ao colocar a vida em ordem para um futuro incerto. Mas à medida que se recorda do passado e conclui que não realizara nada do que sonhara, é forçado a reconsiderar o que havia feito de sua própria vida, de seu casamento. Fora nada mais do que a vida de um homem comum. Tem vívidas recordações de sua adolescência e dos amigos de então. Lembra-se de sua primeira namorada e dos hábitos diferentes de relacionamentos na época de sua juventude. Esse início, a primeira parte da história, marca o tom de meditação que permeia a narrativa: uma longa ponderação sobre as expectativas que temos sobre o futuro, e sobre o comportamento humano.
As lembranças, cada qual acessada a partir de um gatilho diferente parecem sempre surpreendentes. Tudo é próximo da realidade e enigmático. Revisto dezenas de vezes e sempre novo. Como num processo de psicanálise ou inquérito policial, a cada recontagem, a cada rearrumação de fatos, uma lembrança resgatada, uma revelação, nem tão clara, nem tão nebulosa, mas presente. A verdade? Está em algum lugar e não chega a ser mencionada.
O título O sentido de um fim toma conotações inesperadas, imprevistas. Muito mais do que estabelecer ordem em uma vida que se prepara para o fim, essa trama nos leva a questionar a veracidade das nossas certezas. Somos, afinal, quem pensamos ser?
Julian Barnes, ©AP Photo/Kathy Willens
De repente, a história singela, franca, desafetada, que prendeu nossa atenção até o final, levanta dúvidas. Sérias. Não sobre si mesma. Mas ela interage conosco. Questiona. No mesmo tom meditativo da narrativa, embarcamos numa ponderação a respeito do passado. Rever a ficção das nossas vidas, não é fácil. Saberemos catar nos rincões da memória o que é verdade? Separá-la, mesmo não conhecendo todos os fatos? Sim, porque é isso o que somos, um conglomerado de ficções e alguns fatos aos quais damos a nossa identidade, não é mesmo? Tony Webster, adolescente, não percebe a ficção do dia a dia. “Esse era outro de nossos temores: que a Vida não fosse igual à Literatura” [21]. Mas é. A vida é igual à literatura. Somos protagonistas da história que desenvolvemos, editamos, burilamos. Eliminamos fatos indesejados, colorimos a gosto. E em algum lugar, em algum ponto, essa fantasia toma uma vida própria, ambulante e acreditamos nela. Só mesmo um acontecimento inesperado, um evento de grandes proporções — como acontece em O sentido de um fim — pode desvendar a proporção de realidade que escolhemos esconder dos outros e de nós mesmos. Mas mesmo assim, não revelará tudo. Só o suficiente para o entendimento geral de uma determinada situação.
O sentido de um fim é uma joia, uma obra prima.
NOTA: Com este livro Julian Barnes ganhou o Booker Prize de 2011.
Fundo de quintal com galináceo
Tácito Ibiapina (Brasil, 1950)
óleo sobre tela, 50 x 40 cm
Armando Romanelli (Brasil, 1945)
óleo sobre tela, 60 x 60 cm
Pedro Bruno (Brasil, 1888-1949)
óleo sobre tela, 108 x 185 cm
Gino Bruno (Itália/Brasil, 1899-1977)
óleo sobre tela, 65 x 50 cm
“O Jambeiro-vermelho é uma espécie originária da Malásia, país invadido pelos portugueses em 1511. Eles partiram de Goa e conquistaram a região de Malaca, transformando o estado em uma cidade importante para a história da navegação ibérica durante sua fenomenal expansão pelos mares. Ou seja, na mesma época em que pingavam desterrados pela costa de Pindorama, as frotas portuguesas construíam igrejas e fortalezas sob a sombra do Jambeiro-vermelho. Após governarem por mais de um século, foram derrotados pelos holandeses em 1641, período em que, supostamente, vigorava um tratado militar de não agressão entre as duas potências ultramarinas por conta dos embates em Pernambuco. Provavelmente o Jambo veio parar entre nós nesse momento de ligação transversal do Brasil com a Malásia, via portugueses e holandeses. Será daí, dessa origem transatlântica, seu cheiro leve de memória do tempo mordido?”
Em: O Globo,coluna Época de jambo, 2º caderno, quarta-feira, 02/09/2015, p. 2.




