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Tio Patinhas encontra uma pepita, ilustração Walt Disney.
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Stella Leonardos
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— Eu fui andando
Por um caminho.
— Eu fui também.
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— Eu vi cantando
Um passarinho.
— Eu vi também.
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— Ia pensando
Em fazer ninho.
— Você também?
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Em: Fantoches, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José: 1956
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Alexei Harlomoff (Rússia, 1840-1925)
óleo sobre tela
Coleção Particular
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Casario e igrejas no centro histórico em Salvador, BA, s/d
Carlos Bastos (Brasil, 1925 – 2004)
óleo sobre tela, 73 x 100cm
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Charles Blackman (Austrália, 1928)
Esmalte sobre papel colado em placa, 98 x 130 cm
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O inglês é uma língua prática e precisa. À maneira do português do Brasil incorpora expressões estrangeiras com facilidade mas, diferente da nossa língua, cada palavra adquirida recebe um significado bem preciso, específico. Sinto essas diferenças diariamente em conversa com meu marido, que além de ter o inglês como língua nativa e ser professor de literatura americana, ao tentar se expressar em português considera o que falamos extraordinariamente vago; enrola-se com os nossos sujeitos ocultos e com as diferenças que umas poucas letras no final das palavras podem fazer — letras que qualquer americano ignoraria num diálogo informal. Falo dos femininos e masculinos, da conjugação verbal que permite a ocultação do pronome pessoal [porque este já está incorporado na conjugação] e assim por diante. Acabo de me lembrar mais uma vez desse contraste entre as duas línguas, quando procurei usar a palavra ‘proustiana’. Com a manha de quem passou a vida entre as duas línguas decidi ir ao dicionário para ver o significado em português. Aqui ‘proustiano’ tem unicamente a ver com a “capacidade de se recuperar fato retidos na memória à maneira de Proust”, enquanto que em inglês ‘proustiano’ já deixou de lado sua simbiose com o escritor francês, e passou a significar uma memória involuntária qualquer. Demonstração exemplar das diferenças entre essas línguas. ‘Proustiana‘, como memória involuntária é a maneira de narrar usada por Hilary Mantel em Um experimento amoroso [Record: 1999].
O romance narra vida de Carmel McBain e de sua vizinha, Karina, nem sempre amiga, mas sempre colega dos bancos escolares, meninas que nasceram no norte da Inglaterra, na região próxima a Manchester, no seio de famílias da classe média baixa, pobre, operária e católica. Famílias que se sacrificam, cada qual à sua maneira, para educar as filhas e lhes dar meios de uma ascensão social mais veloz. De maneira proustiana, desordenada, ora na adolescência, ora na primeira infância, acompanhamos Carmel desde os primeiros anos escolares até o amadurecimento da fase adulta. Hilary Mantel é escritora de palavra precisa, texto sucinto, e uma enorme capacidade de escolher o detalhe certo para com ele traçar um mundo de inferências que dão profundidade ao texto e empurram a narrativa para frente. Não dá vontade de se deixar de lado a história, relutantemente apaga-se a luz antes de dormir; por outro lado, leva-se o livro na bolsa para aproveitar os 20 minutos no transporte público.
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Romances de amadurecimento em geral são menos complexos do que este. Tradicionalmente, essas histórias têm como personagem principal um jovem adolescente, O apanhador no campo de centeio, de Salinger vem à mente. Mas, na última década, tive o prazer de ver essa produção literária centrada em meninas adolescentes, na literatura para adultos. [Outro romance que aborda esse tema, já resenhado aqui é obra do escritor peruano Alonso Cueto: O sussurro da mulher baleia]. Hilary Mantel no entanto não se detém em uma única experiência de ritos de passagem, já que acompanha a vida de Carmel desde os primeiros dias na escola. Por isso mesmo, quando finalmente nos deparamos com climax narrativo dessas memórias nossa surpresa, que foi cuidadosamente elaborada, traz a profundidade de anos de conhecimento da vida através dos olhos de nossa heroína.
Crescer, amadurecer emocionalmente, não é fácil. O mundo não é aconchegante, a vida é cheia de decepções. Famílias com boas intenções nem sempre se sensibilizam às dificuldades do crescimento, principalmente quando estão vivendo no limite, trabalhando horas exageradas, economizando todos os centavos. Além disso, há as barreiras que cada sociedade impõe: classe social, religião, origem, sotaques. Diferenças que para alguém de fora podem parecer irrelevantes, para quem vive rodeada desses valores parece muito difícil libertar-se deles. Carmel e Karina têm que se submeter aos desejos de seus pais. Karina é obrigada a ajudar em casa, sua mãe trabalha dois turnos. A Carmel, por outro lado, não é permitido o trabalho doméstico. A pressão é para que estude. Ambas sofrem. Exclusão, buling, anomalias alimentares, tudo está presente nesses anos. Tudo isso e a religião católica, que para essas meninas não ajuda. A história se passa na década de 1960, quando a pílula já estava disseminada na Inglaterra e há liberdade sexual para as jovens mulheres. Como cada uma resolve seus sentimentos em relação ao sexo e à religião, acaba por demonstrar os valores que permaneceram no amadurecimento.
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O título, Um experimento amoroso, que parece tão abstrato, aplica-se aos diversos tipos de amor por que os personagens passam, do amor maternal ao sexual. Hilary Mantel narra com um ritmo pulsante até o final, mesmo com as idas e vindas ao passado próximo e ao passado longínquo. Algumas decisões de Carmel, que parecem insignificantes, no final nos levam ao retrato detalhado da personalidade da jovem. Esse é também um bom retrato da Inglaterra dos anos 60 do século passado, assim como do distanciamento natural entre pais e filhos. As dúvidas de Carmel e de suas amigas nos lembram das grandes mudanças nos últimos 5o anos. Para melhor, sem dúvida. Mas essas mudanças podem ter sido simplesmente externas. Os seres humanos me parece que permaneceram os mesmos. Recomendo sem restrições esse romance reflexivo, intenso e sedutor.
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Emile Friant (França, 1863-1932)
óleo sobre madeira, 26 x 34 cm
Coleção Particular
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Blaise Pascal (1623-1662)
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Michael de Bono (Grã-Bretanha, 1983)
óleo sobre tela
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Haydéa Santiago (Brasil, 1896-1980)
Pastel sobre cartão colado em eucatex
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Para comemorar o Dia Internacional da Mulher uma postagem com alguns nomes que já apareceram por aqui, com outras obras é claro, mas que não foram postados recentemente.
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Anita Malfatti (Brasil, 1889-1964)
óleo sobre madeira, 38 x 46 cm
[Retrata a fazenda de Tarsila do Amaral]
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Abigail de Andrade (Brasil, 1864-1891)
óleo sobre tela, 70 x 50 cm
Coleção Sérgio Sahione Fadel
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Vanice Ayres Leite (Brasil, contemporânea)
45 x 53 cm
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Djanira Motta e Silva (Brasil, 1914-1979)
óleo sobre tela, 73 x 114 cm
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Elisiana Alves (Brasil, contemporânea)
aquarela, 21 x 28 cm
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Rosina Becker do Valle (Brasil, 1914-2000)
óleo sobre tela, 17 x 22 cm
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Boneca vestida de preto, década 1980
Marysia Portinari (Brasil, 1937)
óleo sobre tela
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Sem título, 2004
Inha Bastos (Brasil, contemporânea)
óleo sobre tela, 90 x 130 cm
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Yolanda Lederer Mohalyi (Hungria, 1909– Brasil, 1978)
Desenho sobre papel, grafite, 70 x 50 cm
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Virginia de Paula (Brasil)
técnica mista, 90 x 80 cm
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Beatriz Dutra (Brasil, 1924)
óleo sobre papel, 14 x 23 cm
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Bia Betancourt (Brasil, 1963)
acrílica sobre tela
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Vera Sabino (Brasil, 1949)
acrílica sobre eucatex, 40 x 50 cm
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Isolda Hermes da Fonseca Chapman (Brasil, 1924-2004)
óleo sobre eucatex, 42 x 32 cm
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Maria Leontina da Costa (Brasil, 1917-1984)
óleo sobre tela, 46 x 38 cm
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Bertha Worms (França, 1868 — Brasil, 1937)
óleo sobre tela, 46 x 39 cm
PESP — Pinacoteca do Estado de São Paulo
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Copos de leite em janela em Barbacena, 1995
Yara Tupinambá (Brasil, 1932)
acrílica sobre tela, 70 x 50 cm