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George Monanuli (Georgia, contemporâneo)
70 x 90 cm
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“Boas coisas se tornam permanentes. Bons livros provavelmente continuarão na sua forma impressa”.
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Massimo Vignelli
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George Monanuli (Georgia, contemporâneo)
70 x 90 cm
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Massimo Vignelli
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Nem escrito, nem falado,
porém fácil de entender,
é o silêncio do recado
que um olhar sabe dizer.
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(Sebas Sundfeld)
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Albert-Jan Cool (Holanda, 1947)
aquarela
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Albert-Jan Cool nasceu em Oegstgeest na Holanda em 1947. Pintor figurativo. Prefere cenas alegres , coloridas e brilhantes. Pinta tanto com tintas acrílicas quanto com aquarelas. Começou seus estudos na sua cidade natal, fazendo depois o curso de Belas Artes em Haia à noite enquanto trabalhava durante o dia como ilustrador arqueológico, o que o permitiu de viajar pelo Oriente Médio além da Holanda através de sítios arqueológicos. Trabalhou também como autônomo nas ilustrações de livros e revistas. Já publicou diversos livros de instrução sobre pintura entre eles o livro A Costa, que explora os segredos da pintura em aquarela com motivos de praia, que já foi reeditado e traduzido para outras línguas.
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Cemitério de São João Batista, Rio de Janeiro.–
Não sei se existe uma história dos cemitérios do Rio de Janeiro. Quase todos foram abertos depois das hecatombes da febre amarela, a partir de dezembro de 1849. O do Caju é anterior. É o mais antigo da cidade. Foi instalado em 1839 por José Clemente Pereira, numa gleba comprada à José Goulart, para enterrar os indigentes e escravos até então sepultados nos terrenos de Santa Luzia, onde se ia erguer o atual hospital da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro. Foi chamado Campo-Santo do Caju. Seu primeiro defunto foi inumado em 1840. Em 1851, o nome foi mudado para o de Cemitério de São Francisco Xavier. Entretanto, não só persiste a antiga denominação como ela entrou nas frases feitas. Assim, quando se diz – um dia, Pedro, irás para o Caju – quer dizer – um dia, Pedro, ai! de ti, também morrerás e serás enterrado. Naquele ano o campo-santo é ampliado e juntaram-se as terras de José Goulart, as da antiga Fazenda do Murundu, de Baltasar Pinto dos Reis. Em 1858, desmembra-se o terreno que vai ser o cemitério da venerável Ordem Terceira da Penitência e em 1859 o que vai ser o cemitério da venerável Ordem Terceira do Carmo. Essa vasta área corresponde, mais ou menos, ao que é hoje limitada pela Avenida Brasil, pelas Ruas Carlos Seidl, Indústria e Monsenhor Manuel Gomes e nela estão os quatro cemitérios, fábricas, depósitos e favelas; as ruas novas dos fundos das necrópoles; e o Hospital São Sebastião. O aterros, em frente, fizeram desaparecer os cais da Limpeza Pública, o dos madeireiros e a ponta de terra onde desembarcavam os macabeus de Jurujuba – perante a grada de honra das palmeiras cruzando suas folhas como espadas verdes no silêncio do funeral anônimo. O mar foi para longe e os pobres mortos deixaram de ser devorados pelos necrófagos talássicos, os siris e os guaiamuns. Passaram a ser pasto dos de terra, os tatus e as baratas. Aí! ser entregue às baratas…
Entramos no cemitério como quem penetra as imensidades. Não as urbanas, como as perspectivas dos três poderes, na Brasília; as dos Campo Eísios em Paris; do Zocalo, no México; da praça de São Pedro, e da Via da Conciliação em Roma. Mais do que isto. Mais que as próprias imensidades do pampa, do deserto, da estepe. Eram as imensidades sem fundo do tempo fugitivo e eterno, do espaço verificável e infinito. Transpondo seu pórtico de pedra eu tive a percepção invasora (e para sempre entranhada e durável) de um impacto silencioso e formidando. Alguma coisa se passou ali, se passou em mim, invisível, como que incometida e destituída de flagrante ação. Um súbito vazio, rarefação do elemento essencial a que eu bati guelras de ansioso peixe. Na imensa ausência eu só captava os círculos concêntricos da palavra oásis, da palavra oásis, da palavra oásis, se desprendendo da sineta que repicava para o defunto que chegava e para o enterro com que fomos de cambulhada. A entrada principal do campo-santo era uma larga avenida que a cobiça da Santa Casa foi estreitanto de tanto vender os palmos de terra onde capelas ricas e modernas cobrem a vista dos túmulos dos primeiros tempos. Logo à esquerda os do Visconde e do Barão do Rio Branco. O deste, apenas um cubo de alvenaria caiada a espera que a Nação construa o monumento do construtor de suas fronteiras. Logo depois a moça abraçada a uma coluna (cujo mármore se derrete como um torrão de açúcar, da sepultura de Águeda Francisca Durão. O belo monumento de letras apagadas de José Clemente Pereira. À direita, o de José d’Araújo Coelho com sua pirâmide e sua cabeça de esqueleto. O da que foi Ana Maria Ribeiro de Araújo Sousa com a armaria da Morte: em campo de nada a caveira triunfante sobre tíbias postas em aspa. As de Luísa Rosa Avendano Pereira e do médico Roberto Jorge Haddock Lobo. No fim das duas quadras iniciais o Cruzeiro de granito, todo dourado do tempo e azinhavrado dos musgos, abre seus braços de árvore de pedra, de moinho de pedra – sobre o infinito luminoso do seu despencado em cima da baixada carioca e da baixada fluminense. Nos degraus destes cruzeiros de cemitérios é que senta o Grão-Porco na meia noite das sextas-feiras de novilúnio. Senta e espera os destemidos que entram para solicitar ouro, poder e amor. Quem chega ao Porco e pede, já ganhou porque tem preenchida a condição — que é atravessar até ali sem desviar a cabeça, sem olhar para os lados, por mais que os defuntos saídos do chão da terra chamem com psius pelo nome, xinguem, vaem, cutuquem e puxem pela roupa. Ai! de quem olha para os lados, hesita, treme e para. Cai logo morto e cai fedendo de podre e de borrado. Já quando ele vence, logo os cadáveres voltam para as covas que se fecham e estralejando as lajes e um vento largo e rude varre o cheiro da carniça, limpa a face da lua nova. O Porco imundo vira num príncipe prateado e todo airoso. Abraça o postulante e os dois saem juntos (porque o Vinícius, lá fora gritou que já é sábado!) – saem juntos, para nunca mais se separarem. Nem nós de cá desta vida, nem nós de lá de depois da morte….
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Em Balão Cativo: memórias/ vol2, Pedro Nava, Rio de Janeiro, José Olympio: 1973, pp: 40-42
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Numa colcha de retalhos
costurei nossas lembranças
e alinhavei os atalhos
com a linha da esperança.
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(Alice Cristina Velho Brandão)
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Vaso com oleandro e livros, 1888
Vincent van Gogh (Holanda,1853-1890)
óleo sobre tela 60 x 73 cm
Metropolitan Museum, Nova York
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Afonso Louzada
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Talvez marcando o poema, em livro antigo,
encontrei uma flor já ressequida.
Velha história de amor… penso comigo,
pondo-me a ler a página esquecida.
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Quem à flor nesse livro deu abrigo,
quem sabe? procurou tê-la escondida –
do amor sentindo o grande abraço amigo,
para a própria saudade comovida.
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E o que ficou daquele amor profundo?
Talvez agora, já não resta nada
De tudo que era sonho e que era vida.
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Sob o silêncio lúgubre do mundo,
Apenas essa flor abandonada –
marcando a velha página esquecida.
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Em: Sonetos, Afonso Louzada, Rio de Janeiro, 1956, 2ª edição aumentada.
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Forno de pão [Hamburgo Velho], 1956
Ernesto Scheffel (Brasil, 1927)
óleo sobre tela, 297 x 138 cm
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Daniel Pennac
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Expansão II, 2012
W. Radwan (Brasil, 1953)
óleo sobre madeira e carvão, 100 x 100 cm
http://wradwan.blogspot.com.br/
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Dando continuidade às postagens com artistas brasileiros, hoje quero mostrar o trabalho de Wadgy Radwan, que exerce sua arte numa esfera única, entre a pintura e a escultura. Sua última exposição na Galeria Maurício Pontual no Rio de Janeiro, que vi no final do ano passado, explora contrastes.
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W. Radwan (Brasil, 1953)
óleo sobre madeira e carvão vegetal, 110 x 110 cm
http://wradwan.blogspot.com.br/
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Suas obras são imponentes, mas não exageradamente. Têm presença visual marcante. Além disso, mexem com os sentidos. Minhas preferidas pertencem à série Magma. À mim, pediram que fossem tocadas, que suas superfícies fossem apreciadas com a ponta dos meus dedos, para sentir as inúmeras facetas dos carvões. Claro que não fiz isso. Mas o apelo ao tato é exarcebado pelo contraste com a outra parte das esculturas-pinturas: a parte lisa.
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Magma II, 2011
W. Radwan (Brasil, 1953)
óleo sobre madeira e carvão vegetal, 110 x 110cm
http://wradwan.blogspot.com.br/
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Radwan trabalha com contrastes. A série Magma mostra dois planos com pesos semelhantes: o ‘natural’ e o ‘industrial’ — essas denominações são minhas. Além da superfície encrespada de carvão, existe o plano que funciona como ‘sombra’, em geral deslocada. Enquanto as superfícies cobertas por carvão vegetal pintado são orgânicas, grossas e ásperas, suas ‘sombras’ são suaves, polidas, e em cores contrastantes. A ‘sombra’ — o reverso, o anti-natural, o industrial — contrasta em cor e acabamento com o que se apresenta como o natural, orgânico, intrigante. Enquanto um plano é rico em tonalidades, o outro tem uma única cor, lisa.
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Magma I, 2011
W. Radwan (Brasil, 1953)
óleo sobre madeira, 110 x 110 cm
http://wradwan.blogspot.com.br/
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As obras pertencentes ao grupo Expansão continuam a explorar contrastes, mas de outra maneira. Nelas, a maior parte da superfície é dedicada ao plano com textura, nesse caso, o carvão vegetal. E a obra se abre, deixa espaço para mostar, revelar numa abertura, num entrever, o ponto de contraste. Esse pode ser trazido pela cor, ou pela introdução de outros elementos em relevo, manufaturados, com formas industrializadas dispersos sobre uma área lisa, como acontece com Expansão II aqui abaixo.
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Expansão III, 2012
W. Radwan (Brasil, 1953)
óleo sobre carvão vegetal, PVC e madeira, 100 x 100 cm
http://wradwan.blogspot.com.br/
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O trabalho exposto no fim de 2012 é o desenvolvimento de ideias que já vinham sendo exploradas: contrastes entre formas naturais e industriais, o jogo entre esses planos e a abordagem às questões ambientais. Já anterior a esta exposição o trabalho Esperança, delineava o caminho a ser traçado.
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Esperança, 2012
W. Radwan (Brasil, 1953)
Acrílica, carvão vegetal e madeira, 60 x 100 cm
[Selecionada para o 9º Salão de Artes Plásticas da Academia Brasileira do Meio Ambiente]
http://wradwan.blogspot.com.br/
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Aqui dois planos de dimensões próximas, um deles deslocado, oferecem contraste semelhante aos dos trabalhos vistos na Galeria Maurício Pontual. Não consigo olhar para Esperança sem ter a sensação de uma metáfora análoga a do monolito negro do filme 2001 Odisséia no Espaço. Há o elemento natural e o feito pela mão do homem, da mesma forma em que o monolito do filme é contrastado com a vida dos macacos no planeta. O uso da geometria, da expansão de superfícies precisamente calculada, o espelhar de formas entre as obras, a abstração da cor — todos os trabalhos recentes se limitam a uma palheta de três cores: branco, negro e vermelho — tudo isso apela para a introspecção, a reflexão, chegando até mesmo a uma espiritualização provocada pela forma. Apelos familiares feitos por obras de artistas que têm um relacionamento estético com Radwan, mesmo que de gerações anteriores: Rothko e Louise Nevelson, são alguns dos que vêm à mente.
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Encontros e desencontros, 2011
W. Radwan (Brasil, 1953)
acrílica sobre PVC emadeira, 80 x 100 cm
http://wradwan.blogspot.com.br/
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Em 2011, W. Radwan mostrou seus trabalhos na galeria TNT. Lá também o formato, o abstracionismo trazem para discussão os icônes da industrialização. É nessa fase imediatamente anterior que vejo maior familiaridade entre Radwan e o artista plástico Sérgio Camargo. Mas acredito que o jogo de sombras e o uso abundante de produtos orgânicos na obra de Radwan tragam, pelo menos nessa fase, maior riqueza, maior significação para quem as observa. E ainda que seja herdeiro de Krajberg no uso das formas naturais, Radwan toma um caminho próprio, desligando-se a cada nova obra dessas influências, para realizar uma viagem própria, singular e de extrema beleza. É um grande prazer observar a sua obra.
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©Ladyce West, Rio de Janeiro:2013
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Sem dar chance ao desatino,
quando a dor te atormentar,
tenta torcer o destino
cantando, em vez de chorar!
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(Ulysses de Carvalho Junior)