Palavras para lembrar — Arthur Phelps

9 11 2012

Menina com livro, s/d

Murman Kuchava (Georgia, 1962)

óleo sobre tela

“A leitura às vezes é uma engenhosa ferramenta para evitar a reflexão.”

Arthur Phelps





E você como organiza a sua biblioteca?

8 11 2012

A bibioteca da Filadélfia, 1875

George Bacon Wood ( EUA, 1832-1910)

óleo sobre tela

Como anda a sua biblioteca particular?  Geraldine Brooks publicou uma pequena crônica no The Global Mail, titulada People of the Bookshelf [Gente da Prateleira de Livros] muito engraçada sobre os hábitos das pessoas ao guardarem livros.  Assumindo que a maioria de nós não é profissional de biblioteca, não trabalha com catalogação, que normas devemos seguir? Há aqueles que os guardam em ordem por autor, — último nome sendo o normal nos países de língua inglesa — e aqueles que os guardam por título.  E quando se trata de biografias?  Vamos por biografado ou pelo autor?

Parece uma questão supérflua, mas acho que a organização de livros demonstra parcialmente o que eles representam para nós.  As minhas estantes estão organizadas só por assunto: História Antiga, Medieval, Surrealismo, Renascença, Romances.  Depois dentro de cada uma dessas há subdivisões.  Literatura sempre foi divida pelos países de origem e pelas línguas… E biografias são organizadas de acordo com o biografado e não com o autor… Depois de notar esses detalhes, sobre os quais nunca havia pensado, concluo: organizo tudo pelo assunto.

E vocês?





Sobre música, trecho de Amsterdam de Ian McEwan

6 11 2012

Sra. Meigh ao piano-órgão, 1883

William Merrit Chase ( EUA, 1849-1916)

óleo sobre tela, 66 x 47 cm

Coleção Particular

“Este era o ataque. A apologia tomava emprestado e distorcia o velho estratagema do Eclesiastes: era tempo de resgatar a música das mão dos “donos daa verdade”, e era tempo de reafirmar a comunicabilidade essencial da música, que havia sido forjada, na Europa, numa tradição humanista que sempre reconhecera o enigma da natureza humana; era tempo de aceitar que uma execução para o público constituía uma “comunhão laica”, e era tempo de reconhecer a primazia do ritmo e do tom, bem como a natureza básica da melodia. Para que isso acontecesse sem apenas repetir a música do passado, cumpria formular uma definição contemporânea de beleza, o que, por sua vez, era impossível sem que se compreendesse uma “verdade fundamental”.  Nesse ponto, Clive se valeu ousadamente de alguns ensaios inéditos e altamente especulativos de um colega de Noam Chomsky, que ele tinha lido quando passara férias na casa do autor, em Cape Cod: nossa capacidade de “ler” ritmos, melodias e harmonias agradáveis, assim como a faculdade exclusivamente humana da linguagem, era geneticamente determinada. Segundo os antropólogos, esses três elementos deviam existir em todas as culturas musicais. Nosso ouvido para harmonia era inato. (Além disso, sem um contexto envolvente de harmonia, a dissonância não fazia sentido e se tornava desinteressante.) Compreender uma linha melódica era um ato mental complexo, mas passível de ser executado até por uma criança bem pequena;  já nascíamos com uma herança, éramos o Homo musicas; portanto, definir a beleza na música implicava uma definição da natureza humana, o que nos trazia de volta às humanidades e à capacidade de comunicação…”

Em: Amsterdam, de Ian McEwan, São Paulo, Companhia das Letras:2012, tradução de  Jorio Dauster.





Morres de fraco? Morres de atrevido. – Soneto de Bocage

6 11 2012

Leitora, 1921

Eugen Spiro (Alemanha, 1874-1972)

óleo sobre tela

Sammlung F.Benjamin, Berlim-Grünewald

VIII

Bocage

Aflito coração, que o teu tormento,

Que os teu desejos tácito devoras,

E ao  doce objeto, às perfeições adoras,

Só te vás explicar co(m) pensamento.

Infeliz coração, recobra alento,

Seca as inúteis lágrimas, que choras;

Tu cevas o teu mal, porque demoras

Os voos ao ditoso atrevimento.

Inflama surdos ais, que o medo esfria;

Um bem tão suspirado, e tão subido,

Como se há de ganhar sem ousadia?

Ao vencedor afoute-se o vencido;

Longe o respeito, longe a cobardia;

Morres de fraco? Morres de atrevido.





Imagem de leitura — Francisco Manna

5 11 2012

Descanso no parque

Francisco Manna (Itália, 1879 – Brasil, 1943)

óleo sobre tela, 80 x 72 cm

Coleção Particular

Francisco Manna nasceu na Sicília, na Itália em 1879.  Imigrou para o Brasil, em 1888, onde primeiro se radicou no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, onde aprendeu os rudimentos da pintura com o artista plástico Romoaldo Pratti.  Depois, em 1903, aos 25 anos mudou-se para o Rio de Janeiro onde estudou pintura na Escola Nacional de Belas Artes com Henrique Bernardelli, Zeferino da Costa e Baptista da Costa.  Aluno aplicado, logo, em 1906 consegue menção honrosa no Salão. Faleceu no Brasil em 1943.





Filhotes fofos: leopardo

5 11 2012

Leopardos, foto: Grant Atkinson, The Grosby Group.

O fotógrafo especialista em vida selvagem Grant Atkinson registrou o momento em que uma fêmea de leopardo carrega seu filhote na boca para tirá-lo de um esconderijo onde estava para se proteger de predadores. O pequeno animal ficou escondido na ‘toca’ enquanto a mãe foi à caça de alimentos em Botswana, no sul da África. Depois de ver a mãe, o filhote ficou tão animado que tentou brincar com ela.  Atkinson estava seguindo a fêmea quando ela foi até o esconderijo. Foi então que ele viu o filhote saindo pelo buraco.  Mais tarde,  os dois foram para um novo esconderijo, onde o filhote ficou protegido e a mãe se deitou alerta.

Fonte: TERRA





Trova da felicidade

5 11 2012

Viagem de trem, ilustração de Margret Boriss.

Felicidade, vantagem

que todos querem ganhar,

não é bem um fim de viagem,

é um modo de viajar.

(Eno Teodoro Wanke)

 





Palavras para lembrar — Abraham Lincoln

5 11 2012

Lendo na murada da praia, 2009

Judi A. Gorski (EUA, contemporânea)

acrílica sobre tela

http://judigorski.blogspot.com

” A capacidade e o gosto pela leitura dão acesso a tudo que já tenha sido descoberto por outros”.

Abraham Lincoln





No mundo da lua, poesia infantil de Martins D’Alvarez

4 11 2012

Lua, ilustração David Burk — http://www.dburkart.com/blog.html

No mundo da lua

Martins D’Alvarez

Lá vai a lua…

Lá vai!…

Boiando…

como um limão que flutua.

E eu fico de cá, pensando:

que haverá dentro da lua?

Mas a lua nem me escuta…

fura uma nuvem,

se esconde.

Surge e se põe a me olhar.

Será que de esconde-esconde

ela está me convidando

para brincar?

E a lua

continua…

Lá vai andando,

lá vai!

— Ninguém a está segurando…

Por que é que a lua não cai?

Em: O mundo da criança: poemas e rimas, volume I, Rio de Janeiro, Delta: 1975, p. 149

José Martins D’Alvarez   (CE 1903-1993)  Poeta, romancista, jornalista, diplomado em Farmácia e Odontologia, professor, membro da Academia Cearense de Letras. Nasceu na cidade de Barbalha, Estado do Ceara, em 14 de setembro de 1904.  Filho de Antonio Martins de Jesus a de Antonia Leite da Cruz Martins. Fez os estudos primários na sua cidade natal, os secundários, no Liceu do Ceará.  Depois de formado em Odontologia. Transferiu em 1938 sua residência para o Rio de Janeiro, onde exerceu, além de atividades na imprensa, atividades no magistério superior.

Obras:

“Choro verde: a ronda das horas verdes”, 1930 (versos).

“Quarta-feira de cinzas”, 1932 (novela).

 “Vitral”, 1934 (poemas).

“Morro do moinho” 1937 (romance)

“O Norte Canta”, 1941 (poesia popular).

“No Mundo da Lua”, 1942 (poesia para crianças).

“Chama infinita, 1949 (poesias)

“O nordeste que o sul não conhece 1953 (ensaio)

“Ritmos e legendas” 1959 (poesias escolhidas)

“Roteiro sentimental: geopolítica do Brasil” 1967 (poesias escolhidas)

“Poesia do cotidiano”, 1977 (poesias)





O rebuliço da manhã, texto de Manuel de Oliveira Paiva

4 11 2012

Rua de Barbacena, 1969

Win Van Dijk (1915-1990)

óleo sobre tela, 37 x 61 cm

“O Santo Cruzeiro ia a pouco e pouco emergindo ao sol. Um peixeiro que passava carregado para a Feira parou em frente ao gradil sagrado, de chapéu na mão, aproximou-se, beijou uma das cruzes de ferro cravadas no meio de um círculo no ponto donde sai cada lampião, meteu a mão no uru, tirou um vintém e sacudiu para dentro. O disco de cobre foi tinir no ladrilho, junto a enorme peanha adornada de assuntos religiosos em meio relevo de barro nas faces do prisma.

As cercanias, à distância, por trás do templo, alçavam os seus coqueiros, as suas mangueiras e plantações, uma povoação de folhagens por trás da de casarias. Para além desses blocos unidos de verdura, adivinhava-se o aspecto desolador do extenso bairro do Outeiro. Uma zona irregular e caprichosa de alegrias da vegetação, entre o mundo da cidade e o vasto aldeamento dos pescadores, dos lancheiros, dos trabalhadores da praia, dos homens do ganho, dos operários, e de uma numerosa população decaída, uns habitando cabanas, verdadeiras covas de palha desse esquimós do areal ardente. Através dos ruídos ouvia-se o cantar do galo ao longe.

Para a cidade, os tetos se distendiam esquentando o sol. Na Rua de Baixo, ali pertinho, o Mercado, com as suas paredes cor de sangue de boi, produzia uma zoada alegre, e era assim a modo de uma grande colmeia de gente. De fronte dele, ao meio da rua, estacionavam animais devolutos, quase a dormir em pé, sob as cangalhas. Nos armazéns, carroças carregavam açúcar. Espalhava-se um odor de água ardente, da destilação próxima, de par com o assobio da máquina a vapor.

A Rua das Flores abria diante da igreja. A população se movia, na labutação diária. De quando em vez brilhava a nota rubra de um xale no meio dos transeuntes afastados, que pareciam pisar em veludo.

Maria desce o patamar, e a sua fascinação continua a esperar de cada canto a imagem do primo. A rua, passando os castanheiros da praça, estendia-se ao olhar, com a sua casaria térrea, indo fenecer num horizonte longínquo, de alvo, de verde, de cinzento e de vermelho. O carro não podia partir imediatamente, porque um comboio de algodão nublava com a sua onda loira, a largura do arruado e avançava como a cabeça d’água de uma enchente, com um passo dançado e medido. Sobressaía ao lume da onda um vulto, a cavalo, e os gritos dos camboeiros e a sonaria dos chocalhos. Enfrentando com o Santo Cruzeiro os matutos descobriam, e depois de ter dobrado para a praia, ainda iam olhando religiosamente para trás.”

Em: Obra Completa, Manuel de Oliveria Paiva, Rio de Janeiro, Graphia: 1993.  Texto retirado do livro: Dona Guidinha do Poço, publicação póstuma, de 1952.

Manuel de Oliveira Paiva  (Brasil, 1861-1892).  Escritor e abolicionista nascido no Ceará. Começou seu estudos como seminarista em Crato, carreira que abandonou, vindo para o Rio de Janeiro estudar na Escola Militar.  Maas retorna ao Ceará em 1883 por problemas de saúde.  Teve uma única obra  publicada em vida, na forma de folhetim no jornal Libertador, em 1889, chamada A Afilhada.  O romance Dona Guidinha do Poço, teve um destino tortuoso até chegar à publicação em 1952, sessenta anos após a morte do autor, que deixou o manuscrito inteiramente pronto ao morrer.