Imagem de leitura — Stanhope Alexander Forbes

6 05 2012

Por entre os pinheiros, 1915

Stanhope Alexander Forbes (Irlanda 1857-1947)

óleo sobre tela

Stanhope Alexander Forbes  nasceu em 1857 em Dublin na Irlanda. Estudou arte na Escola de Arte Lambeth e mais tarde completou sua educação em Paris, no ateliê de Léon Bonnat.  Na França ele desenvolveu a técnica de pintura “ao ar livre”.  Retornou à Irlanda em 1884 e imediatamente se tornou um líder no movimento artístico do país sendo um dos membros fundadores da  chamada Escola de Newlyn, fundada em 1899 com sua esposa, a também pintora, Elizabeth Forbes.   Faleceu em 1947.





Quadrinha infantil do burrinho

6 05 2012

Ilustração Maurício de Sousa.

Ao burro, nossa homenagem

Pelo seu grande valor;

Ajuda o homem do campo,

É forte trabalhador.

(Walter Nieble de Freitas)





O mundo interpreta Tom Jobim

6 05 2012



Espetáculo Vokal Xtravaganzza 2010, concerto em Liubliana, Eslovênia.

Reparem todos os sons são vozes.

Fiquei muito feliz de ver essa interpretação, por dois motivos, mostra que a música é realmente um meio de comunicação universal.

Conheço bem Liubliana na Elovênia, onde passei uma temporada acompanhando meu marido que esteve lá num programa universitário.  Saímos de lá uma semana antes da independência e quando quitamos a nossa estadia no hotel o gerente do hotel, que ficou nosso amigo durante o tempo que lá permanecemos nos disse:  “Da próxima vez vocês não precisarão de vistos, e a estadia será mais fácil, porque seremos uma nação independente.  Mas guardem segredo!”  Uma semana depois a Eslovênia estava independente.

PS: Agradeço ao meu primo Sérgio Lowndes de Gusmão Lobo por me mandar por email essa delícia.

Um bom domingo para todos.




A figura da Mãe na arte brasileira, considerações sobre o tema

6 05 2012

Maternidade

Aurélio d’Alincourt  (Brasil, 1919-1990)

óleo sobre tela, 46 x 55 cm

O Dia da Mães é comemorado desde a década de 1930 no Brasil.  Há poucos cartões com uma iconografia nossa para o Dia das Mães, cartões fabricados no Brasil especificamente para essa data.  Talvez isso se dê porque as crianças em geral fazem seus próprios cartões, auxiliadas nas escolas pelos professores.  As mamães  devem  apreciar muito mais o esforço de seus rebentos, preferindo recebê-los no lugar de cartões que seus filhos tivessem simplesmente comprado na papelaria mais próxima de casa.

Mãe e filha, s/d

Alfredo Volpi (Itália, 1896- Brasil, 1988)

óleo sobre cartão, 55 x 40 cm

Quase todos os países têm uma data dedicada às mães, mas elas variam de país para país.  Algum tempo atrás, Israel acabou com o Dia das Mães e estabeleceu o Dia da Família no seu lugar.  Apesar de países como os Estados Unidos comemorarem o Dia das Mães desde o início do século XX há pouca variedade na iconografia celebrando esse dia em cartões comemorativos, além do buquê de flores, alguns gatinhos, cachorrinhos e outros animais com seus repectivos filhotes.  Só depois da Segunda Guerra Mundial e depois década de 1970, talvez pelo próprio  aumento da riqueza da sociedade americana, passamos a ver cartões com maior variedade de temas para comemorar o Dia das Mães.

Mãe e filha, 1955

Jenner Augusto (Brasil, 1924- 2003)

Óleo sobre tela, 61 x 50 cm

No Brasil a maioria dos cartões é — igual aqueles de Natal — copiada diretamente do exterior, tanto dos EUA, como da Inglaterra e da França.  Aparentemente a demanda por esses cartões nunca foi grande suficiente para justificar uma produção caseira.  Mesmo assim eles não têm sido muitos.  Hoje, eles vêm da China, com desenhos coringas, desenhados com caixas de presentes empilhadas, corações e outras trivialidades. Já chegam por aqui impressos em português, da mesma modo que os cartões de Natal vendidos nas grandes lojas de papelaria, já vêm com votos impressos em português.  Os “mais brasileiros”  — feitos aqui e com dizeres que refletem o nosso dia a dia — custam 10 a 15 vezes o preço do importado.

Mãe preta, 1912

Lucílio de Albuquerque (Brasil, 1877 – 1939)

Óleo sobre tela,  180 x 130 cm

Museu de Belas Artes da Bahia, Salvador

Gosto de refletir sobre a nossa vida diária. Esse trabalho de “antropóloga social” é só baseado na imagem, nas “figurinhas” que preenchem o nosso dia a dia.  Elas podem nos dizer muito porque afinal sabemos que “uma imagem vale 1000 palavras”. O que encontramos nos cartões postais e outros cartões comemorativos para esse dia é muito neutro, quase aplicável a qualquer circunstância: uma abundância do verbo amar, conjugada no presente e no futuro.  E, como não encontro cartões fabricados no Brasil, com ilustrações que falem dos nossos valores, voltei meu olhar para as representações de maternidade de pintores brasileiros.

A produção artística, figurativa, representando a maternidade tem um longo relacionamento com a iconografia religiosa da Virgem Maria com o Menino Jesus.  Mas aqui no Brasil essa associação é muito mais forte e frequente, muito mais óbvia  do que as criadas no exterior.  Quando observamos as imagens de mães, imagens pintadas no final do século XIX e início do século XX notamos que elas têm muitas semelhanças com imagens religiosas da Virgem Maria com o Menino Jesus, como se a maternidade fosse só compreendida se santificada.

Mater, 1885

Henrique Bernardelli ( Brasil, 1857-1936)

Óleo sobre tela, 150x 100 cm

Museu Nacional de Belas Artes [MNBA], Rio de Janeiro

Pode até parecer natural que assim seja, já que a Igreja teve uma influência muito forte no dia a dia da famíllia brasileira, ditando dos mais irrelevantes detalhes até ao que se comprava para ter em casa, para adornar as nossas paredes.  Muitas são as residências no Brasil que têm só imaginária religiosa nas paredes ladeando talvez, um retrato de pai e mãe: “A última ceia” deve ter sido a decoração de parede mais comum no Brasil, seguida de alguns santos preferidos de São Jorge a Santo Antônio.  Esse foi um país cuja cultura dependeu por mais séculos do que o provável daquilo que era permitido ou visto com bons olhos pelos religiosos ou pelos padres.  Tudo só começa a se liberar, para as massas, para a grande e conservadora classe média brasileira, na década de 60 do século XX, quando eventos de revolta social e de costumes se tornam universais e simultaneamente a Igreja Católica adota as Encyclica Pacem in Terris, do papa João XXIII.

Maternidade, 1906

Eliseu Visconti  ( Itália, 1866 – Brasil, 1944),

óleo sobre tela

Diferente do que aconteceu no século XIX nas artes visuais na Europa e nos Estados Unidos, é só no século XX, no Brasil, com Eliseu Visconti que os costumes da vida urbana, do dia a dia começam a aparecer na pintura regularmente.  Não, que não houvesse antes um ou outro pintor que aderira à pintura de gênero, mas não havia esse tipo de representação na quantidade que um país do nosso porte, com as centenas e centenas de fortunas nobiliárquicas, agrícolas e industriais pudesse sugerir.  A pintura de gênero teve muita dificuldade de se estabelecer não só por causa dos freios culturais dos compradores mas também por sofrer de preconceito dos pintores que, como os clássicos treinados na Europa, consideravam a pintura histórica o topo de linha na pintura européia.  E certamente as representações de maternidade seguem um destino semelhante.

A relação entre a maternidade e a iconografia  religiosa parece se afrouxar quando a imigração de artistas de outros países,  com outra cultura e outros pontos de vista começa a se fazer sentir, ainda que timidamente.   Eliseu Visconti é o primeiro grande artista e por muito tempo o único a sistematicamente quebrar essa associação da iconografia da Virgem Maria com a da maternidade.  Ele adotou em seu lugar a temática bastante difundida na pintura de gênero da Belle Époque. Ele traz essa modernidade para o Brasil retratando muitas cenas de mães no dia a dia, como em Maternidade. Mas poucos seguem o seu exemplo. Em geral, isso só acontecerá com artistas imigrantes que já chegavam ao Brasil de outras partes do mundo.

Maternidade, 1931

Lasar Segall (Rússia, 1891- Brasil, 1957)

Óleo sobre tela, 54 x 73 cm

Mesmo assim, a tradição de associar a maternidade à religiosidade continuou forte através do século XX, com alguns pouquíssimos rasgos de independência, vindos de pintoras mulheres. Mesmo quando parece que alguém está quebrando as regras culturais, não escritas, representando o amor de mãe de uma maneira diferente, o substrato religioso persiste, como vemos no exemplo de Cícero Dias.

 Maternidade, s/d

Cícero Dias ( Brasil, 1907-2003)

Serigrafia, 63 x 52 cm

Galeria Alphaville, São Paulo

Vamos observar a temática em Cícero Dias: mãe e filho juntos.  A mãe parece ter um lenço na cabeça lembrando os véus das madonas.  O menino, já grandinho, de pé, solta uma pipa.  No entanto, de braços abertos, ele forma tanto uma estrela quanto uma cruz.  Esta última é um tema  que se repete na pipa no lado direito da tela, que parece sair por uma janela.  As referências estão aí e são claras.

Maternidade, 1966

Orlando Teruz (Brasil, 1902-1984)

óleo sobre tela, 90 x 70 cm

Orlando Teruz, que se dedicou algumas vezes ao tema, continua a tradição de associar maternidade ao tema religioso,  mesmo trabalhando na segunda parte do século XX, como é o caso da tela acima.

Maternidade,1950

Gerson Pompeu Pinheiro (Brasil, 1910-1978)

óleo sobre tela

Gerson Pompeu Pinheiro parecia em 1950 querer se soltar um pouco da rígida associação quando colocou uma mãe com ombros nus e cabelos soltos e um tênue véu, no centro da tela.  Mas duas outras características permanecem: o bebê parece estar sendo apresentado ao público como acontecia em muitos quadros da Madona com Jesus bebê durante o século XVI na Renascença.   Além disso, a dupla nessa tela está circundada por uma construção que lembra, por arcos e pilastras, o interior de um templo, de uma igreja, com um pequeno altar no lado direito onde vemos uma imagem provavelmente de uma santa [Santa Teresa?] e um faixa de pano de altar ou uma estola sacerdotal.

Maternidade, s/d

Elsa OS [Elza de Oliveira Souza] (Brasil, 1928)

óleo sobre eucatex, 49 x 34 cm


Até mesmo a pintora naïf Elsa Os [Elza de Oliveira Souza] usa o cabelo da mãe como um véu e o vestido decorado como um manto bordado a ouro. E pintores como José Moraes, que usam de uma linguagem pós cubista, mesmo assim insistem na fórmula iconográfica de uma senhora, sentada (como se estivesse em um trono) com uma criança no regaço.

Maternidade, 1964

José Moraes (Brasil, 1921-2003)

Guache sobre papel, 64 x 44cm

Di Cavalcanti, dentre o pintores brasileiros que cruzam o século XX, parece ser aquele que mais deseja se liberar dos grilhões impostos por essa iconografia.  Ele trava frequentemente uma batalha para uma nova imagem.  Ocasionalmente consegue, como na tela reproduzida abaixo. Mas nem sempre.

Maternidade, 1937

Emiliano Di Cavalcanti (Brasil, 1897-1976)

óleo sobre tela

Mãe e filha, 2009

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)

óleo sobre tela

Na obra de Reynaldo Fonseca, pintor de  intrigante iconografia própria e conhecido pela subversão de textos, continuamos a ter a frontalidade  semelhante à das madonas entronadas da Renascença assim como a ausência de profundidade no espaço em que suas figuras se encontram, típico em seu trabalho.  Isso aumenta a semelhança aos ícones bizantinos que retratam a Virgem Maria com Jesus, sobre fundos em dourado, achatando a profundidade.  Efeito semelhante é conseguido na pintura de Vicente do Rego Monteiro, mesmo com a estilização das formas que caracterizou sua preferência pelo Art Deco.

Maternidade, 1924

Vicente do Rego Monteiro (Brasil, 1899-1970)

óleo

Palácio dos Bandeirantes, SP

O que caracteriza essas semelhanças é a predisposição brasileira, o favoritismo cultural, de fazermos mãe e filho um ícone, um emblema de maternidade.  Tudo leva a crer que consideramos a maternidade uma missão “santificada”, única e não uma parte normal, corriqueira do dia a dia de qualquer mulher.

Maternidade, 1981

Gilberto Gomes (Brasil, 1955)

[técnica não especificada]

Correndo paralelamente a essa visão temos a representação através do século XX do que se poderia denominar responsabilidadde social: a representação de mulheres com bebês, em estado de absoluta pobreza,  revelando o desepero quieto, calado, sofrido com dignidade e abnegação.  Essas mulheres continuam em geral sentadas e abraçadas a um filho bebê, imagens semelhantes às das madonas.  Os exemplos de Gilberto Gomes, Volpi e de Lucílio de Albuquerque acima ilustrados, ou os quadros abaixo ilustram este fenômeno.  É a confluência de dois temas: da mãe, sagrada e da mãe sofredora.  Também nessas representações temos principalmente a imagem de mãe e filho em primeiro plano, com um fundo esquematizado, neutro que simplesmente realça o sofrimento implícito.  Na imagem de Tomás Santa Rosa abaixo, que a princípio poderia ser mais alegre já que dispõe de mais detalhada paisagem, ao contrário, parece chorar sofrimento, a mãe parece até ter uma coroa de espinhos desmoronada.  Tudo parece um grande sofrimento, um calvário, uma tristeza só.

Maternidade,  1946

Cândido Portinari (Brasil, 1903 – 1962)

Técnica mista, sépia e pincel seco 65 x 49 cm

Maternidade

Tomás Santa Rosa (Brasil, 1909-1956)

óleo sobre tela, 81 x 65 cm

Onde está então a alegria de ser mãe?   Onde está a senhora brincando com seu bebê, quando até mesmo em altares da Renascença vemos as Virgens Marias brincando com Jesus Cristo, com um pardalzinho, com um gatinho?  Por que os pintores brasileiros parecem ter-se limitado a um único tipo de representação de maternidade?  Por que se negaram a tratar a pintura de gênero com seriedade?  Por que o dia a dia de ser mãe. de brincar com o bebê, de dar banho, de passar a toalha, de levar ao parquinho, à praia, de colocá-lo para dormir, de desfrutar  de sua companhia debaixo da sombra de uma árvore, de ler um conto de fadas, por que essas pequenas mas incrivelmente importantes alegrias da maternidade não chegaram a fazer parte do imaginário artístico?





Palavras para lembrar — Victor Hugo

5 05 2012

Alberto lendo, 1915

Giovanni Giacometti (Suíça, 1868-1933)

óleo sobre tela

Museu de Belas Artes do Cantão de Lausanne

“Aprender a ler é acender uma fogueira; cada sílaba soletrada é uma faísca.”

 –

Victor Hugo





Abriu em versos o seu coração, poema de Zalina Rolim, homenagem ao Dia das Mães

5 05 2012

Mãe e filhos no jardim, 1928

René Brimstead

Para House & Garden, Julho de 1928.

Abriu em versos o seu coração

Zalina Rolim

Venha do céu o melindroso Anjinho

— Maravilha de graça e de inocência

De nosso lar a flor e da existência

O rescendente laço de carinho.

Venha do céu na doce refulgência

De um sorriso de Deus ao nosso ninho…

Criatura gentil, meigo entezinho,

Do eterno Bem a misteriosa essência.

Venha… e com ele o resplendor da graça

Que — avezinha ideal — passa e perpassa

E acende em nosso olhar doce lampejo…

Venha… e com ele a vaga de ternura

Que o coração dos pais funde e mistura

Na deliciosa música do beijo.

Em: 232 Poetas Paulistas, antologia de Pedro de Alcântara Worms, Rio de Janeiro, Conquista:1968

Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo — nasceu em Botucatu (SP), em 20 de julho de 1869.

Professora alfabetizadora transferiu-se com a família para São Paulo em 1893.

Educadora, entre 1896 e 1897, exerceu o cargo de vice-inspetora, do Jardim da Infância anexo à Escola Normal Caetano de Campos, em São Paulo.

Escreveu para diversas revistas femininas e jornais como A Mensageira, O Itapetininga, Correio Paulistano e A Província de São Paulo.

Faleceu em São Paulo, em 24 de junho de 1961.

Obras:

1893 – O coração

1897 – Livro das Crianças

1903 – Livro da saudade (organizado nesta data para publicação póstuma)





Imagem de leitura — Eastman Johnson

5 05 2012

O pequeno convalescente, 1872

Eastman Johnson (EUA, 1824-1906)

óleo sobre papelão, 31 × 29 cm

Museu de Belas Artes de  Boston, Massachusetts.

Eastman Johnson nasceu em Lovell, no estado de Maine nos Estados Unidos em 1824.   Depois que sua família se mudou para a capital do país, seu pai o colocou como aprendiz de um litógrafo em 1840.  Em 1849 mudou-se para Düsseldorf , Alemanha, onde muitos artistas, incluindo muitos americanos, estudavam arte. Lá, participou do ateliê de Emanuel Gottlieb Leutze, em seguida, mudou-se para Haia onde estudou os pintores mestres do século XVII. Terminou suas viagens européias em Paris, onde estudou com Thomas Couture antes de retornar aos EUA em 1855 por causa do falecimento de sua mãe.  De família politicamente influente, ele foi não só um artista americano mas o co-fundador do Museu Metropolitano de Arte, Nova York, que leva seu nome inscrito na entrada. Ficou mais conhecido por suas pinturas de gênero, de cenas da vida cotidiana, e por seus retratos tanto das pessoas comuns como de americanos proeminentes, entre eles: Abraham Lincoln , Nathaniel Hawthorne , Ralph Waldo Emerson e Henry Wadsworth Longfellow.





O Ateneu, de Raul Pompéia, quem não se lembra?

5 05 2012

A escola da jaqueta azul, Gloucester

John Kemp (Inglaterra, 1833-1923)

óleo sobre tela

Glouscester Museums

BBC

Hoje estive pensando no livro de Raul Pompéia, O Ateneu, originalmente publicado em 1888.  Essa história se enraizou na minha imaginação por dois motivos: li a respeito da reclamação de Fernando Meirelles em Recife sobre a falta de público para seu filme Xingu, e ouvi no rádio uma exposição sobre os bullying, assunto muito em voga no momento.  Às vezes as coisas se embaralham nas nossas imaginações.  Pensei nos motivos de Xingu e Heleno, ambos filmes lançados recentemente, não terem atingido as audiências esperadas.  Analisei meus próprios sentimentos a respeito, as razões de eu ainda não ter visto nenhum deles.  E acho que, no meu caso, não fui a nenhum deles por achar que pareciam, pelas chamadas na televisão, um pouco didáticos, como se fossem documentários dramatizados.  Provavelmente estou errada, mas como vou ao cinema regularmente, pensei muito nas razões porque nenhum desses filmes havia me atraído até agora.

Em seguida, ainda com filmes na cabeça, ouvi a reportagem sobre bullying e me lembrei de O Ateneu, uma das nossas obras primas da literatura brasileira.  Devo dizer que sou grande apreciadora, fã mesmo, de filmes de época.  E que quando morava fora do Brasil, onde era mais fácil ver não só nos cinemas mas na televisão filmes da Merchant-Ivory Productions ou séries de época da BBC, do mesmo gênero, fazia tudo para não perder estas produções.  E me pergunto porque nossa indústria cinematográfica, que hoje não deve nada a ninguém em tecnologia, que tem centenas de excelente atores  em que se apoiar, ainda não tentou, seriamente, sem os viéses novelísticos, esse gênero de tanto sucesso lá fora.  O Ateneu certamente estaria entre uma das obras que se adaptariam muito bem ao nicho.

Essas observações não pretendem denegrir os esforços de Fernando Meirelles nem do cinema nacional.  São simples questionamentos que têm por intenção ventilar o que está sendo falado no momento.  Para quem ainda não conhece, aqui fica um trecho do romance de Raul Pompéia, que evidentemente já se encontra em domínio público.

A escola da jaqueta azul

John Kemp (Inglaterra, 1833-1923)

[Atribuído]

óleo sobre tela

Glouscester Museums

BBC

CAPÍTULO III

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Entrei pela geografia como em casa minha. As anfractuosidades marginais dos continentes desfaziam-se nas cartas, por maior brevidade do meu trabalho; os rios dispensavam detalhes complicados dos meandros e afluíam-me para a memória, abandonando o pendor natural das vertentes; as cordilheiras, imensa tropa de amestrados elefantes, arranjavam-se em sistemas de orografia facílima; reduzia-se o número das cidades principais do mundo, sumindo-se no chão, para que eu não tivesse de decorar tanto nome; arredondava-se a cota das populações,perdendo as frações importunas, com prejuízo dos recenseamentos e maior gravame dos úteros nacionais; uma mnemônica feliz ensinava-me a enumeração dos estados e das províncias. Graças à destreza do Sanches, não havia incidente estudado da superfície terrestre que se me não colasse ao cérebro como se fosse minha cabeça, por dentro, o que é por fora a esfera do mundo.

A seu turno a gramática abria-se como um cofre de confeitos pela Páscoa. Cetim cor de céu e açúcar. Eu escolhia a bel-prazer os adjetivos, como amêndoas adocicadas pelas circunstâncias adverbiais da mais agradável variedade; os amáveis substantivos! voavam-me à roda, próprios e apelativos, como criaturinhas de alfenim alado; a etimologia, a sintaxe, a prosódia, a ortografia, quatro graus de doçura da mesma gustação. Quando muito, as exceções e os verbos irregulares desgostavam-me a principio; como esses feios confeitos crespos de chocolate: levados a boca saborosíssimos.

A história pátria deliciou-me em quanto pôde. Desde os missionários da  catequese colonizadora, que vinham ao meu encontro, com Anchieta, visões de bondade, recitando escolhidas estrofes do evangelho das selvas, mandando adiante, coroados de flores, pela estrada larga de areia branca, os columins alegres,aprendizes da fé e da civilização, acompanhados da turba selvagem do gentio cor de casca de árvores, emplumados, sarapintados de mil tintas, em respeitosa contrição de feiticismo domado, avultando do seio, do fundo da mata escura, como uma marcha fantástica de troncos. Até às eras da independência, evocação complicada de sarrafos comemorativos das alvoradas do Rocio e de anseios de patriotismo infantil; um príncipe fundido, cavalgando uma data, mostrando no lenço aos povos a legenda oficial do Ipiranga; mais abaixo, pontuadas pelas salvas do Santo Antônio, as aclamações de um povo mesclado que deixou morrer Tiradentes para se esbofar em vivas ao ramo de café da Domitila.

Cada página era um encanto, prefaciadas pela explicação complacente do colega. Graças à habilidade das suas apresentações, apertei a mão aos mais truculentos figurões do passado, aos mais poderosos. Antônio Salema, o cruel, sorriu-me; o Vidigal foi gentil; D. João VI deixou-me rapé nos dedos. Conheci de vista Mem de Sá, Maurício de Nassau, vi passar o herói mineiro, calmo, mãos atadas como Cristo, barba abundante de apóstolo das gentes, um toque de sol na fronte lisa e vasta, escavada pelo destino para receber melhor a coroa do martírio.

A história santa revelou-me este épico, quem o diria? — o cônego Roquette! E eu bebi a embriaguez musical dos capítulos como o canto profundo das catedrais. Ouvi suspirar a Crença, o idílio do Éden, o amor primitivo do Gênesis, invejado dos anjos, sob o olhar magnânimo dos leões; ouvi a queixa terna do primeiro par banido para a dor, para o trabalho; Adão vergonhoso, vestindo as parras da primeira pruderie, Eva a envolver a nudez jovem de lírios na túnica de ouro das madeixas, cobrindo com as mãos o ventre, obscenidade das mães, estigmatizada pela maldição de Deus.

E crescia o canto na abóbada e o órgão falava à tradição inteira do sofrimento humano suplantado pela divindade. Modulava-se a harmonia em suave gorjeio, entoando a elevação dos salmos, o êxtase sensual do Cântico dos Cânticos na boca da Sulamita, e a sedução de Booz enredado no estratagema honesto da ternura, e a melancolia trágica de Judite, e a serena glória de Ester, a princesa querida.

Subitamente, entreabria-se o quadro sonoro para irromper o coro das lamentações. Acabavam no ar, lucíolas extintas, os derradeiros sons da harpa de Davi; perdia-se em ecos a derradeira antístrofe Salomão; sumiu-se à extremidade do campo a imagem de Rute, ao braço o feixe louro de trigo; entrou a Hebréia sombria na tenda de Holofernes, levando nos lábios o beijo assassino; cobriu-se a aparição luminosa de Ester com o sono da noite de Mardoqueu. Era a gama dolente dos terrores. Clamavam as imprecações do dilúvio, os desesperos de Gomorra; flamejava no firmamento a espada do anjo de Senaqueribe; dialogavam em concerto tétrico as súplicas do Egito, os gemidos de Babilônia, as pedras condenadas de Jerusalém. Vozeava o tenebroso grave das pregações dos profetas. Embalde o fulgor das transfigurações, como o lívido fuzil, escancarava abertas de luz sobre a tormenta noturna; Ezequiel tinha a visão do Eterno; Elias visitava o Mistério numa escapada de chamas. Nada. A música solene era o miserere. Nem o clarão da alvorada de Belém na Judéia debelava a sombra, nem a miragem viva do Tabor. A epopéia agonizava ao rodar do século, ecoava numa caverna onde havia um túmulo; bradava triunfo um momento pela Ressurreição do Justo; morria, enfim, lento, lento com a prece dos mártires do anfiteatro, com a longínqua prece subterrânea dos refugiados das Catacumbas.

A doutrina cristã, anotada pela proficiência do explicador, foi ocasião de dobrado ensino que muito me interessou. Era o céu aberto, rodeado de altares, para todas as criações consagradas da fé. Curioso encarar a grandeza do Altíssimo; mas havia janelas para o purgatório a que o Sanches se debruçava comigo, cuja vista muito mais seduzia. E o preceptor tinha um tempero de unção na voz e no modo, uma sobranceria de diretor espiritual, que fala do pecado sem macular a boca. Expunha quase compungido, fincando o olhar no teto, fazendo estalar os dedos, num enlevo de abstração religiosa; expunha, demorando os incidentes, as mais cabeludas manifestações de Satanás no mundo. Nem ao menos dourava os chifres, que me não fizessem medo; pelo contrário, havia como que o capricho de surpreender com as fantasias do Mal e da Tentação, e, segundo o lineamento do Sanches, a cauda do demônio tinha talvez dois metros mais que na realidade. Insinuou-me, é certo, uma vez, que não é tão feio o dito, como o pintam.

O catecismo começou a infundir-me o temor apavorado dos oráculos obscuros. Eu não acreditava inteiramente. Bem pensando, achava que metade daquilo era invenção malvada do Sanches. E quando ele punha-se a contar histórias de castidade, sem atenção à parvidade da matéria do preceito teológico, mulher do próximo, Conceição da Virgem, terceiro-luxúria, brados ao céu pela sensualidade contra a natureza, vantagens morais do matrimônio, e porque a carne, a inocente carne, que eu só conhecia condenada pela quaresma e pelos monopolistas do bacalhau, a pobre carne do beef, era inimigo da alma; quando retificava o meu engano, que era outra a carne e guisada de modo especial e muito especialmente trinchada, eu mordia um pedacinho de indignação contra as calúnias à santa cartilha do meu devoto credo. Mas a coisa interessava e eu ia colhendo as informações para julgar por mim oportunamente.

Na tabuada e no desenho linear, eu prescindia do colega mais velho; no desenho, porque achava graça em percorrer os caprichosos traços, divertindo-me a geometria miúda como um brinquedo; na tatuada e no sistema métrico, porque perdera as esperanças de passar de medíocre como ginasta de cálculos, e resolvera deixar a Maurílio ou a quem quer que fosse o primado das cifras.

Em dois meses tínhamos vencido por alto a matéria toda do curso; e, com este preparo, sorria-me o agouro de magnífico futuro, quando veio a fatalidade desandar a roda.

…………………………………………………….

Em: O Ateneu, Raul Pompéia, em dóminio público.

Minha versão: O Ateneu, Raul Pompéia, São Paulo, Ed. Ática:s/d





Palavras para lembrar — Voltaire

4 05 2012

O grande mistério das cores, 2008

Delphine Cossais (França, 1972)

Delphine Cossais

“Vamos ler e vamos dançar: dois passatempos que nunca trarão perigo para o mundo.”

Voltaire





Quadrinha da mamãe

3 05 2012

Dia das mães, ilustração de Jessie Willcox Smith.

Quanta bondade e ternura

O teu coração encerra;

Mamãezinha és para mim

O anjo bom desta terra!

(Walter Nieble de Freitas)