Feira moderna de Caruaru, poema de Domingos Pellegrini, Jr.

21 06 2012

Cabras, arte africana, sem autoria.

Feira moderna de Caruaru

Domingos Pellegrini Jr.

1

A carne-de-sol na sombra

das barracas de alvaiade

Quarenta cachorros magros

Ninguém pode ter piedade

C’uma costela de vaca

a fome toca rabeca

no coração da cidade.

A feira dura três dias

não deixa sobra nenhuma

Cada velho cada menino

é doutor de economia.

Um cego vendendo um bode

garante que produz leite

coalhada até requeijão

— Mas, cego, como é que pode?

O cego apenas responde:

— Hoje quem faz propaganda

não aceita discussão.

2

Mas cadê aquela feira

que irmão abraçava irmão

Fateira entregava a concha

pra mexer no caldeirão

Feirante botava a fruta

na boca do cidadão

Se não gostou, não comprava

Se azedou, devolvia

Se não vendia, era dado

Freguês pagava outro dia

Morria, era perdoado

Hoje são outros 500

São outros tempos, meu mano

O cego vendeu o bode

— Vendi, e sem garantia

Tinha mais de 30 anos

não vive mais 30 dias

Negócio tipo moderno.

Hoje aqui ninguém mais fia.

Quem pode, financia.

Quem não pode, vá pro inferno.

Em: Poesia viva 2: a diversidade de nosso tempo na visão de cada poeta, coord. e sel. Moacyr Félix, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira:1979





Manhã de chuva, poesia infantil de Murilo Araújo

20 06 2012

Cartão postal francês, ilustração de Margret Boriss.

Manhã de chuva

Murilo Araújo

Chove; chove e choveu a noite inteira.

A vidraça está cheia de pinguinhos;

a água chora cantando na goteira…

Que dó dos passarinhos!

Quanto vento! Que frio! Chove tanto…

As roseiras estão que é só espinhos.

As florinhas deviam ter um manto:

Que pena dos raminhos!

E agora, quando a chuvarada arrasa,

passam meninos pobres nos caminhos.

E agasalha tão bem a nossa casa…

Façam entrar depressa os pobrezinhos!

Em: Poemas completos de Murilo Araújo, Rio de Janeiro, Irmãos Pongetti:1960





Quadrinha do meio ambiente

20 06 2012

Floresta, ilustração de Sérgio Bastos.

Busque enfrentar desafios,

preserve a mãe natureza:

— Nossa flora, fauna e rios,

fontes de nossa pureza.

(Joamir Medeiros)




Quadrinha sobre o teatro

19 06 2012

Crianças no palco, autoria desconhecida.

No teatro iluminado,
o bom ator se angustia,
ao ver entre o cortinado
uma platéia vazia.

(Antônio V. Ruffato)





Noite de inverno, poema de Américo Macedo

18 06 2012

Marinha, 1965

Heitor de Pinho (Brasil, 1897-1968)

Óleo sobre cartão, 25 x 40 cm

Coleção Particular

Noite de Inverno

Américo Macedo

Estala a ventania! O mar bravio,

Ruge, como uma hiena acorrentada!

O céu de chumbo, cúpula pesada,

Mostra-se escuro, umbrático e sombrio!

A chuva cai pesadamente!  O frio

Corta, como uma lâmina afiada!

E muito ao longe ecuta-se a balada

Dos sapos a cantar n’água do rio.

O raio corta o espaço enfurecido,

Em ziguezagues prófugos e cresce

O fragor do trovão, enraivecido!

E sobe… e sobe a intérmina caudal!

E a água é tanta e tanta, que parece

Um segundo dilúvio Universal!

Em: Panorama da Poesia Norte Rio-grandense, Rômulo Wanderley, Natal, Edições do Val: 1965, prefácio de  Luís da Câmara Cascudo.

Américo Soares de Macedo, ( 1877- 1948) nasceu em Assu, no Rio Grande do Norte a 29 de dezembro de 1877.  Funcionário da Prefeitura Municipal.  Morreu modestamente em 2 de janeiro de 1948.

Obras:

Sombras, poesia, 1945





Quadrinha da esperança

17 06 2012

Pato Donald acorda para uma manhã ensolarada, ilustração Walt Disney.

Tenha fé, não erga a voz
blasfemando revoltada,
porque Deus manda a alvorada
depois de uma noite atroz.

(Élton Carvalho)





Trova da educação

16 06 2012

Ilustração Maurício de Sousa.

Nenhum dinheiro, no mundo,
vale mais que a educação:
pois ela é um cesto sem fundo,
sempre a desejar mais pão…

(Clevane Pessoa de Araújo Lopes)





Quadrinha do meio ambiente

15 06 2012

Chico Bento prepara a terra para plantar, ilustração Maurício Sousa.

Que o mister da agricultura
não traga, em nenhum momento,
mesmo gerando fartura,
selvagem desmatamento!

(Wanda de Paula Mourthé)





Quadrinha das lembranças

14 06 2012

Menina na rede conversando com cachorro, Capa da Revista Good Housekeeping, 1928.

Como persiste a fragrância

da flor que o vento levou,

doces lembranças da infância

nem mesmo o tempo apagou.

(Dororthy Jansson Moretti)





Quadrinha das palavras na areia

11 06 2012

Praia, Caroline Ruth Eger.

Deixei recado na areia

da praia de ondas selvagens

me esqueci que a maré cheia

nada entende de mensagens…

(Albertina Moreira Pedro)