Minha Aldeia, poema de Antonio Gedeão

18 10 2012

Vista parcial de Ouro Preto, s/d

Mário Agostinelli (Peru 1915 – Brasil, 2000).

óleo sobre tela colada em madeira, 47 x 56 cm

Minha aldeia

Antonio Gedeão

Minha aldeia é todo o mundo.

Todo o mundo me pertence.

Aqui me encontro e confundo

com gente de todo o mundo

que a todo o mundo pertence.

Bate o sol na minha aldeia

com várias inclinações.

Ângulo novo, nova ideia;

outros graus, outras razões.

Que os homens da minha aldeia

são centenas de milhões.

Os homens da minha aldeia

divergem por natureza.

O mesmo sonho os separa,

a mesma fria certeza

os afasta e desempara,

rumorejante seara

onde se odeia em beleza.

Os homens da minha aldeia

formigam raivosamente

com os pés colados ao chão.

Nessa prisão permanente

cada qual é seu irmão.

Valências de fora e dentro

ligam tudo ao mesmo centro

numa inquebrável cadeia.

Longas raízes que imergem,

todos os homens convergem

no centro da minha aldeia.

Em: Poesias completas (1956-1967), coleção Poetas de hoje, Lisboa, Portugália:s/d

Rômulo Vasco da Gama de Carvalho , rambém conhecido pelos pseudônimos : Antonio Gedeão ou por Rômulo de Carvalho. (Portugal,  1906-1997)  Poeta, professor e historiador da ciência portuguesa.  Teve um papel importante na divulgação de temas científicos, colaborando em revistas da especialidade e organizando obras no campo da história das ciências e das instituições.  Revelou-se como poeta apenas em 1956, com a obra Movimento Perpétuo.

Obras poéticas:

Movimento perpétuo, 1956

Teatro do Mundo, 1958

Máquina de Fogo, 1961

Poema para Galileu 1964

Linhas de Força, 1967

Poemas Póstumos, 1983

Novos Poemas Póstumos, 1990





Quadrinha do meu feitiço

13 10 2012

Ilustração de autoria desconhecida.

Pensei fazer um feitiço

para esquecer-te, mas vi

que de tanto pensar nisso

é que penso mais em ti.

(Lilinha Fernandes)





Primavera, Mário Quintana

7 10 2012

Primavera, Ilustração Marie Cramer.

Canção da Primavera

Mário Quintana

(Para Érico Veríssimo)

 –

Primavera cruza o rio

Cruza o sonho que tu sonhas.

Na cidade adormecida

Primavera vem chegando.

 –

Catavento enloqueceu,

Ficou girando, girando.

Em torno do catavento

Dancemos todos em bando.

 –

Dancemos todos, dancemos,

Amadas, Mortos, Amigos,

Dancemos todos até

Não mais saber-se o motivo…

Até que as paineiras tenham

Por sobre os muros florido!

Em: Canções, de Mario Quintana, Rio de Janeiro, Globo: 1946





Quadrinha da arte de bem viver

5 10 2012

Ilustração de revista americana do anos 40 do século XX, sem indicação de autoria.

Eis a arte  de viver

num conselho dos mais sábios:

às vezes, para vencer

basta um sorriso nos lábios…

(J.G. de Araújo Jorge)





Quadrinha do aluno confuso

3 10 2012

Pergunta a mestra ao menino,
aluno meio confuso:
– a porca… tem masculino?
– tem, ‘fessora… o parafuso!

(Edmar Japiassú Maia)





Borboletas são? poema de Maria Helena Sleutjes

2 10 2012

Borboletas, ilustração de Brita Barlow, para capa da revista americana Better Homes & Garden, de setembro de 1933.

Borboletas são?

Maria Helena Sleutjes

Borboletas, como explicar?

São insetos…

Nem pensar!

São pedaços coloridos

Que voam.

Isto sim!

São as almas das flores

Visitando os jardins.

Isto sim!

Borboletas, como explicar?

São Lepidópteras…

Nem pensar!

São reflexos de anjos

Que flutuam.

Isto sim!

Borboletas

São pequenas bailarinas

São crianças dançarinas

Pedaços de serpentinas

No canto do meu olhar.

 –





Quadrinha do segredo da felicidade

1 10 2012

Cascão dá flores para Mônica, ilustração de Maurício de Sousa.

Sei que não foge à verdade,
você também pode crer;
em amor, felicidade
é dar mais que receber.


(Nice Nascimento)





O morcego, soneto de Da Costa e Silva

30 09 2012

Morcego, ilustração sem autoria da década de 1920.

O morcego

Da Costa e Silva

Como uma borboleta escura e desconforme,

Suspenso pelos pés com o instintivo emprego

Das garras que o sustém, o mórbido morcego,

Tonto de sono e luz, durante o dia dorme.

Dorme durante o dia; e à noite, ei-lo, conforme

É costume, senhor do pávido sossego,

Abrindo o membranoso e elástico refego

Das asas que-lhe dão um todo demiforme.

Rasgando, em largo voo, a treva ampla e uniforme,

O noturno avejão guincha em desassossego,

A pupila incendida a arder na noite enorme.

E é de ver-se, depois, em lânguido aconchego,

As asas a abanar sobre o animal que dorme,

O sanguinário egoísmo em forma de morcego.

Em: Poesias Completas, Da Costa e Silva, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985 [edição do centenário]

Antônio Francisco da Costa e Silva ( Brasil, [PI] 1885 — [RJ] 1950) poeta, jornalista.  Advogado, cursou a  Faculdade do Direito do Recife. Trabalho no Ministério da Fazenda.

Obras:

Sangue (1908),

 Elegia dos Olhos, s/d

Poema da Natureza, s/d

Clepsidra, s/d

 Zodíaco (1917),

 Verhaeren (1917),

Pandora (1919),

Verônica (1927),

Alhambra (1925-1933), obra póstuma inacabada,

 Antologia (coleção de poemas publicada em vida – 1934),

Poesias Completas (1950) (1975) (1985), coletânea póstuma.





Quantos Dias — poesia tradicional brasileira

28 09 2012

Reunião de bonecas, ilustração B. Midderigh Bokhorst, 1930.

Quantos dias

Trinta dias tem setembro,

mais abril, junho e novembro

fevereiro, vinte oito tem;

nos bissextos, mais um lhe deem,

e os outros, que sete são,

trinta e um todos terão.

Em: O mundo da criança: poemas e rimas, Rio de Janeiro, Delta:  sem data





Os relógios, poema de Décio Valente

26 09 2012

Ilustração Kaili.

Os relógios

Décio Valente

Sempre andando,

sem parar um segundo,

vão eles,

em monótono tique-taque,

levando o Tempo

nos finos braços,

que se enlaçam

em contínuos abraços

e marcam,

minuto a minuto,

a pontualidade

das horas tristes e alegres,

que passam…

Em: Cantiga Simples: poesias, Décio Valente, São Paulo:1971