Trova do seu bem-querer

12 09 2022
Ilustração de revista americana década 1960.

Você nem sabe a ventura

que me traz seu bem-querer:

se é paixão ou se é loucura,

eu não quero nem saber!

(Ana Maria Motta)





Trova da carta de amor

6 09 2022
Ilustração Henry Clive.

Planejo a carta e o maldoso

orgulho logo desponta

E caneta de orgulhoso

não tem tinta e não tem ponta!

(Ana Maria Motta)





Trova do engano

1 09 2022

O pato teve um ataque

quando a casca se partiu;

ansioso, esperava um “Quac!”

e o que escutou foi um – “Piu”!

 

(Pedro Ornellas)





Trova do futuro

26 08 2022
Doug Holgate, ilustração

Passam crianças depressa,

levando livros nos braços…

É o futuro que começa

a dar os primeiros, passos.

(Durval Mendonça)





Trova do broche

17 08 2022
Ilustração de moda, anos 30, sem assinatura.

— Viste que broche ofuscante

traz ela preso ao vestido?

Muito lindo! É diamante?…

— Não, meu bem, é do marido.

(Albércio Vieira Machado)





Trova dos seus cabelos

9 08 2022

 

Bordam, soltos, seus cabelos,

caracóis negros na fronha,

e eu, insone, horas a vê-los,

fico a sonhar com quem sonha…

 

(Edgard Barcellos Cerqueira)





Trova do beijo

2 08 2022
Ilustração de revista, 1953.

Uma vez tu me beijaste

e eu fiquei pobrezinha,

porque num beijo levaste

todos os beijos que eu tinha.

(Alda Pereira Pinto)





Trova do livro

26 07 2022
Luluzinha, criação de Marjorie Henderson Buell

 

Que seria deste mundo,

não fosse o livro existir?

Seria treva o passado,

um sol sem brilho o porvir.

 

(Elpídio  Reis)





Trova do vento

19 07 2022
Ilustração de Edward Killingworth Johnson.

O vento, com pé macio,

passou pelo meu jardim,

e como guri vadio,

nas minhas rosas deu fim.

(Carlos Ribeiro Rocha)





“Um domingo uma tarde” poesia de Reynaldo Valinho Alvarez

17 07 2022
Manhã, larva que em tarde se transforma,
obedecendo ao tempo e à sua norma.

 

Um domingo uma tarde

 

Reynaldo Valinho Alvarez

 

um domingo uma tarde um menino na rua

e à frente como um sol uma bola de cor

enquanto acima o sol real se espreguiçando

cai sobre o tempo morno e absorto do passado

em lentas gotas rubras num solene rio

 

um domingo uma  tarde uma árvore frondosa

irrompendo na rua como um cone verde

enquanto as aves chamam o parceiro ausente

e os muros alvacentos gritam sob a luz

o prazer de brilhar na mornidão tranquila.

 

como pedir ao tempo

escasso e errante pingo

que fixe para sempre

a tarde de domingo?

 

Em: A faca pelo fio: poemas reunidos, Reynaldo Valinho Alvarez, Rio de Janeiro, Imago: 1999, p.12