Autoria desconhecida.
Por mais conforto e carinho
numa gaiola dourada,
a ave não esquece o ninho
e a liberdade ceifada.
(Severino Campelo)
Autoria desconhecida.
Por mais conforto e carinho
numa gaiola dourada,
a ave não esquece o ninho
e a liberdade ceifada.
(Severino Campelo)
Ilustração de Anne Mortimer.
O meu gato é meu amigo…
Em casa, na falta dela,
assiste a T V comigo,
do futebol à novela.
(Dari Pereira)
Festa junina
Papas Stéfanos (Grécia/Brasil, 1948)
óleo sobre madeira, 8- x 60 cm
Cornélio Pires
No casarão antigo da Fazenda,
tudo é jogos, brinquedos e festança:
na varanda do lado jogam prenda
e no salão o baile não descansa;
A fogueira, tão célebre na lenda,
estala em labaredas. Canta e dança,
o povo do batuque, na contenda,
aos pulos e aos requebros da folgança.
No cururu manhoso a caboclada,
rasca nas violas, canta ao desafio,
provocando constante gargalhada,
Depois, das diversões cortando o fio,
o povo em procissão, de madrugada,
vai lavar o São João, além, no rio.
Cornélio Pires (Brasil, 1884 — 1958).
Ilustração, A. E. Marty
Meu lenço, na despedida,
tu não viste, em movimento:
lenço molhado, querida,
não pode agitar-se ao vento.
(Carlos Guimarães)
Ilustração Art Frahm
Zalina Rolim
É inteligente e graciosa;
Mais limpa, que ela, não há:
Focinhito cor-de-rosa,
E chama-se Resedá.
Muito orgulhosa e faceira,
Não quer saber da cozinha,
E, à sesta, sob a roseira,
Dorme um sono de rainha.
Gosta do sol, ama as flores,
Corre por todo o jardim,
E tem, no dorso, em três cores,
A maciez do cetim.
Em pequenino açafate,
Todo acolchoado e felpudo,
De vivo tom escarlate
Tem o berço de veludo.
É toda mimos da sorte,
Gatinha de estimação,
Defende-a, contra o mais forte,
Das patas vivo arranhão.
Mas é boazinha e correta;
Não provoca ásperos tratos;
Somente mostra-se inquieta,
Se escuta rumor de ratos.
Então – adeus, gentileza! –
É toda instinto animal,
De um salto, atira-se à presa…
E é como as outras, tal qual.
Largo de Santa Cecília, 1960
Durval Pereira (Brasil, 1918- 1984)
óleo sobre tela, 60 x 80 cm
Ribeiro Couto
São Paulo da garoa intermitente,
Da penumbra que às vezes coadjuva
A nostalgia… — Quem, meu Deus, não sente
Um pouco desse ambiente… desta “Chuva”…
A chuva fina molha a paisagem lá fora,
O dia está cinzento e longo… um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora…
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, lá fora.
Da saleta fechada em que estamos os dois,
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta…
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
Se um de nós vai falar e recua depois.
Dentro de nós existe uma tarde mais fria…
Ah! para que falar? Como é suave, brando
O tormento de adivinhar — quem o faria?
As palavras que estão dentro de nós chorando…
Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Estão lá fora no jardim se desfolhando,
Chove dentro de nós… Chove melancolia…
Em: 232 Poetas Paulistas:antologia, ed. e col. Pedro de Alcântara Worms, São Paulo, Conquista: 1968, p. 239-40.
Jangada do Ceará, 1988
Win Van Dijk (Holanda/Brasil, 1915-1990)
óleo sobre tela, 46 x 55 cm
Conversas de marinheiro
ouço nas conchas do mar.
São almas de jangadeiros
Que não puderam voltar.
(Hegel Pontes)
Auto-retrato, Retratando o cotidiano em Vina-Lituânia, s/d
Lasar Segall (Lituânia/Brasil, 1889 – 1957)
óleo sobre papelão, 67 x 47 cm
Ladyce West
Na indolência de um domingo de verão,
quando o sol cerceia o movimento e o calor detém a brisa,
Quando o bafo quente das calçadas se ergue lento,
envolve o corpo e reprime pensamentos,
Quando a inércia paralisa insetos,
cala pássaros, esconde peixes,
No meio da tarde indiferente,
preguiçosa, frouxa e incandescente,
Um solitário acordeon se faz ouvir.
É gemido desditoso, lamento sofrido.
Queixume penoso.
No ar estagnado do bairro,
por entre casas sonolentas e mudas torres de igrejas,
por cima do asfalto amolecido das ruas,
mascarando o borbulhar do riacho,
vibram notas saudosas, melodias sofridas,
canções de outras eras, de outras terras.
Gemidas.
A nostalgia se espalha.
Manta transparente, que envolve.
Aderente.
Libação sonora, suadouro enlutado,
carpindo na tarde.
Canto solitário de imigrante europeu,
Chora a terra, a distância,
a perda do lugar em que nasceu.
©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2019.
Luluzinha, Glória e Plínio da revista em quadrinhos Luluzinha, criação de Marjorie Henderson Buell.
Ruth Rocha
São duas crianças lindas
Mas são muito diferentes!
Uma é toda desdentada,
A outra é cheia de dentes…
Uma anda descabelada,
A outra é cheia de pentes!
Uma delas usa óculos,
E a outra só usa lentes.
Uma gosta de gelados,
A outra gosta de quentes.
Uma tem cabelos longos,
A outra corta eles rentes.
Não queira que sejam iguais,
Aliás, nem mesmo tentes!
São duas crianças lindas,
Mas são muito diferentes.
Ilustração de Walter Heubach.
Vitor Caruso
Maldosa como ninguém
Finge que reza, na igreja.
Porém não reza, pragueja
Acrescentando um “Amém”…
Em: 232 Poetas Paulistas:antologia, ed. e col. Pedro de Alcântara Worms, São Paulo, Conquista: 1968, p. 149