Trova da noite

28 05 2025
Ilustração de noite, Yan Nascimbene

 

Quando a noite vem descendo

e o mundo parece em calma,

existe um mundo fervendo

na inquietação de minha alma.

(Durval Mendonça)





Trova da tempestade

21 05 2025
Ilustração, Margaret C. Hoopes

 

 

O destino nos ensina

mensagens que são verdades:

– Quem só enfrenta neblina

fraqueja nas tempestades !…

 

(José Valdez de Castro Moura)





Do outono e do silêncio, poema de Álvaro Moreyra

19 05 2025

Vale do Sertig no outono, 1925

Ernst Ludwig Kirchner (Alemanha, 1880-1938)

óleo sobre tela, 136 x 200 cm

Kirchner Museum, Davos, Suíça

 

 

 

Do outono e do silêncio

 

Álvaro Moreyra

 

Ah! como eu sinto o Outono

nesses crepúsculos dispersos,

de solidão e de abandono…

nessas nuvens longínquas, agoureiras,

que têm a cor que um dia houve em meus versos

e nas tuas olheiras…

 

Tomba uma sombra roxa sobre a Terra…

A mesma nuança, em torno, tudo encerra

nuns tons fanados de ametista…

Paisagem morta, evocativa, doce…

como se o Ocaso fosse

um pintor simbolista…

 

Caem violetas…

 

Canta uma voz, distante…

 

E a luz vai a fugir, esfacelando

em trêmulas silhuetas

os troncos da alameda agonizante…

 

O Outono é uma elegia

que as folhas plangem, pelo vento, em bando…

E o Outono me endolora e anestesia

com a saudade remota do silêncio…

Silêncio vesperal das ressonâncias

esquecidas

que o Ângelus lento deixa sempre no ar…

Silêncio

irmão das covas, das ermidas…

incenso das distâncias…

onde a memória fica a ouvir perdidas

palavras que morreram sem falar…

 

E do silêncio em névoas esgarçado,

a cuja extrema sugestão me abrigo,

tu te evolas, dolente,

tal uma hora feliz de tempo alado

que às vezes brota de repente

de um velho aroma ou de acorde antigo…

                                                            

 

Em: Legenda da luz e da vida, Álvaro Moreyra, 1911

 

 





Espantalho, poesia infantil, Almir Correia

15 05 2025
 
Espantalho

 

Almir Correia

 

Homem de palha

coração de capim

vai embora

aos pouquinhos

no bico dos passarinhos

e fim.





Trova do vinho

12 05 2025

 

 

Vinho branco ou vinho tinto

depende do que acompanha;

em bodas sempre é distinto

o espumante ou champanha.

 

 

(Paulo Pereira Lima)





Trova do aplauso

5 05 2025
Tintin, nas Aventuras da esmeralda de Castafiore, Hergé.

 

 

O aplauso é a mais justa loa

que a um artista se concebe:

tão pouco, para quem doa;

tão bom, para quem recebe!

 

 

(José Ouverney)





Trova da mãe

2 05 2025
Mãe e bebê, Mabel Rollins Harris, c. 1935

 

Como riqueza do lar,

o bebê, que a mãe segura,

lembra a pérola do mar,

numa concha de ternura!

 

(Hegel Pontes)





Soneto XXVII de Tite de Lemos

29 04 2025

Na rotunda

Francine van Hove (França, 1942)

óleo sobre tela, 50 x 65 cm

 

 

XXVII

 

Tite de Lemos

 

Nem tomes por virtude o que é defeito,

floreios de poetas amestrados,

nem tenhas por humano o que é perfeito,

coisa de heróis e deuses aplicados.

 

Deve ser que não levo muito jeito

ou quando pense certo faça errado

e ande torto julgando andar direito,

sujeito cego atrás do objeto amado.

 

Persigo a brevidade de um instante

que toda eternidade contivesse:

nisso me acho e nisso estou perdido

 

com desvelo tão quieto e tão constante

que vivê-lo, mais nada, me envaidece

e até nem cuido ser correspondido.

 

 

Em: Caderno de sonetos, Tite de Lemos, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1988. p. 63





Trova da cidade grande

25 04 2025

Cidade geométrica, 1985

Cláudio Tozzi (Brasil, 1944)

acrílica sobre tela colada em madeira, 90 x 200 cm

 

 

A minha roça eu troquei

pelas luzes da cidade.

Nesse dia eu comecei

meu plantio de saudade!


(Arlindo Tadeu Hagen)





Desengano, soneto de Carlos de Laet

19 04 2025

Moça de vestido branco, 2007

Johan Patricny, (Suécia, 1976)

óleo sobre tela

Desengano

 

Carlos de Laet

 

“De que inúmeros sois a mente humana

a existência falaz  não me doirava!”

(Bocage)

 

Atirei-me sedento de  verdade

à ciência do exato e do infinito;

escravo fui do imperioso grito

que minha alma soltou na escuridade.

 

Desengano cruel! Fatalidade!

No tremendo areal, solo maldito,

passei a vida de errante e de proscrito

e o perfume perdi da mocidade!

 

Pedi a luz — e dão-me um labirinto

onde exausto se embrenha o entendimento

e reina a sombra que envolver-me sinto.

 

Deus, responde, socorre ao desalento;

se a verdade aqui está, se acaso minto,

tira-me, então, pra vê-la, o sentimento.

(1870)

 

 

Em: Poesias de Pimenta de Laet. 1878