Ilustração de noite, Yan Nascimbene
Quando a noite vem descendo
e o mundo parece em calma,
existe um mundo fervendo
na inquietação de minha alma.
(Durval Mendonça)
Quando a noite vem descendo
e o mundo parece em calma,
existe um mundo fervendo
na inquietação de minha alma.
(Durval Mendonça)
O destino nos ensina
mensagens que são verdades:
– Quem só enfrenta neblina
fraqueja nas tempestades !…
(José Valdez de Castro Moura)

Vale do Sertig no outono, 1925
Ernst Ludwig Kirchner (Alemanha, 1880-1938)
óleo sobre tela, 136 x 200 cm
Kirchner Museum, Davos, Suíça
Álvaro Moreyra
Ah! como eu sinto o Outono
nesses crepúsculos dispersos,
de solidão e de abandono…
nessas nuvens longínquas, agoureiras,
que têm a cor que um dia houve em meus versos
e nas tuas olheiras…
Tomba uma sombra roxa sobre a Terra…
A mesma nuança, em torno, tudo encerra
nuns tons fanados de ametista…
Paisagem morta, evocativa, doce…
como se o Ocaso fosse
um pintor simbolista…
Caem violetas…
Canta uma voz, distante…
E a luz vai a fugir, esfacelando
em trêmulas silhuetas
os troncos da alameda agonizante…
O Outono é uma elegia
que as folhas plangem, pelo vento, em bando…
E o Outono me endolora e anestesia
com a saudade remota do silêncio…
Silêncio vesperal das ressonâncias
esquecidas
que o Ângelus lento deixa sempre no ar…
Silêncio
irmão das covas, das ermidas…
incenso das distâncias…
onde a memória fica a ouvir perdidas
palavras que morreram sem falar…
E do silêncio em névoas esgarçado,
a cuja extrema sugestão me abrigo,
tu te evolas, dolente,
tal uma hora feliz de tempo alado
que às vezes brota de repente
de um velho aroma ou de acorde antigo…
Em: Legenda da luz e da vida, Álvaro Moreyra, 1911
Almir Correia
Homem de palha
coração de capim
vai embora
aos pouquinhos
no bico dos passarinhos
e fim.

Vinho branco ou vinho tinto
depende do que acompanha;
em bodas sempre é distinto
o espumante ou champanha.
(Paulo Pereira Lima)
O aplauso é a mais justa loa
que a um artista se concebe:
tão pouco, para quem doa;
tão bom, para quem recebe!
(José Ouverney)
Como riqueza do lar,
o bebê, que a mãe segura,
lembra a pérola do mar,
numa concha de ternura!
(Hegel Pontes)
Na rotunda
Francine van Hove (França, 1942)
óleo sobre tela, 50 x 65 cm
XXVII
Tite de Lemos
Nem tomes por virtude o que é defeito,
floreios de poetas amestrados,
nem tenhas por humano o que é perfeito,
coisa de heróis e deuses aplicados.
Deve ser que não levo muito jeito
ou quando pense certo faça errado
e ande torto julgando andar direito,
sujeito cego atrás do objeto amado.
Persigo a brevidade de um instante
que toda eternidade contivesse:
nisso me acho e nisso estou perdido
com desvelo tão quieto e tão constante
que vivê-lo, mais nada, me envaidece
e até nem cuido ser correspondido.
Em: Caderno de sonetos, Tite de Lemos, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1988. p. 63
Cidade geométrica, 1985
Cláudio Tozzi (Brasil, 1944)
acrílica sobre tela colada em madeira, 90 x 200 cm
A minha roça eu troquei
pelas luzes da cidade.
Nesse dia eu comecei
meu plantio de saudade!
(Arlindo Tadeu Hagen)
Moça de vestido branco, 2007
Johan Patricny, (Suécia, 1976)
óleo sobre tela
Carlos de Laet
“De que inúmeros sois a mente humana
a existência falaz não me doirava!”
(Bocage)
Atirei-me sedento de verdade
à ciência do exato e do infinito;
escravo fui do imperioso grito
que minha alma soltou na escuridade.
Desengano cruel! Fatalidade!
No tremendo areal, solo maldito,
passei a vida de errante e de proscrito
e o perfume perdi da mocidade!
Pedi a luz — e dão-me um labirinto
onde exausto se embrenha o entendimento
e reina a sombra que envolver-me sinto.
Deus, responde, socorre ao desalento;
se a verdade aqui está, se acaso minto,
tira-me, então, pra vê-la, o sentimento.
(1870)
Em: Poesias de Pimenta de Laet. 1878