Capa da revista Fruit, Garden & Home, junho de 1924 [EUA].
Mandei a ilusão embora.
A saudade quis entrar.
Há tanto espaço lá fora
mas ela insiste em ficar.
(Zeni de Barros Lana)
Irmão Metralha consulta um atlas à procura do tesouro do tio Patinhas, ilustração Walt Disney.
Que elegante está você!
Este pijama é perfeito!
Só não entendo porque
tantos números no peito!???
(José Ouverney)
Ilustração de Elizabeth Becker.
Reynaldo Valinho Alvarez
Carrego na mochila, entre outros trastes,
três ou quatro verdades importantes.
O resto é de mentiras. São contrastes
que entrego às outras partes contrastantes.
A lira não me vale. São desastres
o que encontro nos outros caminhantes.
Na terra devastada, erguem-se as hastes
das lanças e dos canos fumegantes.
A mochila me pesa. As três verdades
ou quatro, já não sei, não pesam tanto,
mude-se o tempo e mudem-se as vontades.
O que me dói ou pesa, ou o que é um espanto
é que um modesto grama de inverdades
valha um tonel de torpe desengano.
Em: Galope do tempo, Reynaldo Valinho Alvarez, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro: 1997, p. 55
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Natureza morta, 2008
Florêncio [Carlos José dos Santos] (Brasil, 1947)
óleo sobre tela, 60 x 80 cm
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Domingos Pellegrini
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O milagre da uva
virar vinho
e o vinho virar
vinagre
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O milagre da flor
virar semente
e a semente virar
uma baita árvore
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O milagre das pedras
sua lenta vida
rocha virando areia
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E o milagre dos astros
o universo tecido
de órbitas e estrelas.
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Em: Gaiola aberta: 1964-2004, Domingos Pellegrini, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil: 2005
A carta de amor
Mark Spain (Inglaterra, 1962)
óleo
Tema: Azul
Silvia Nice
Eu sei de cor
Mar, luar, firmamento,
presentes já no paraíso,
cor primária e cor-pigmento
Adão e Eva já sabiam disso?
É cor de menino, é a cor de planetas,
está na bandeira, mas uso em caneta
é bebê, é petróleo, é turquesa, é marinho,
é safira, é viagra, é até ararinha
Se nos olhos, beleza
No sangue, nobreza
Dos quadrinhos pras lentes
é a cor mais quente
Na TV fez sucesso
mas já deu, tô de boa,
meu humor se perdeu
naquela tal Lagoa
Figurando no cine
pintou os sets
quis se destacar
com legenda, foi Jasmine
coloriu a Smurfette
e em 3D foi Avatar
Escravos libertos do plantio do algodão
aliviavam a dor de seus corpos nus
clamavam com a voz do coração
o olhar divino cantando Blues
Estimula mesmo a criatividade
olha só o pinguinho de tinta
no papel da Aquarela
Mas não posso negar a verdade
das sete cores do arco
eu prefiro a amarela.
Nathalya Delgado
Cores se igualam a amores.
Cores se incluem a lugares.
Cores se espalham pelos mares.
Cores que alegram os lares.
Uma cor decora meus amores.
Uma cor se integra aos meus lugares
Uma cor encanta os meus mares.
Uma cor se destaca nos meus lares.
Pablo Picasso (Espanha, 1881-1973)
óleo sobre tela, 122 x 82 cm
The Art Institute, Chicago
Tema: Azul
Não sou fã da cor azul.
Só no céu.
De preferência como pano de fundo
De uma frondosa bananeira,
De uma grande mangueira,
De pitangueiras e jabuticabeiras.
Por trás de uma montanha,
Enquadrando a paisagem bucólica,
Ou contrastando com um flamboyant.
Não há rosas azuis. Nem tulipas.
Nem comidas, nem bebidas.
Fruta tropical não se passa por azul.
Nem o mirtilo que é roxo e europeu.
A baleia azul, não o é…
Tampouco é o “blue cheese”.
Azul para mim é uma cor triste.
Não sou a única.
Picasso triste é azul.
No Irã é a cor do luto.
É a cor do nada, na televisão…
Indefinível, precisa de companhia para existir:
Azul-bebê, azul- turquesa, azul-marinho, azul-celeste, azul-anil,
Azul cobalto, azul-ardósia, azul-petróleo, azul-aço, azul-cadete,
Azul-pólvora, azul meia-noite, azul-furtivo, azul da Pérsia.
Em inglês, significa tristeza.
“Are you feeling blue?”
‘Não. Não estou deprimida”, respondo.
“Estou verde e amarela…”
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©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014
Sem título, 1941
Roberto Burle Marx (Brasil, 1909-1994)
óleo sobre tela
Coleção Roberto Marinho
Tema de hoje: Pela sua janela hoje
Por minha janela hoje vejo o mundo passar.
Por ela, entrou a pena branca de um pássaro em voo,
e a brisa fria que me esfriou as orelhas.
Da minha janela ouço o soluço da araponga na mata;
o zumbido de um jato nos céus; e no buriti, a arruaça dos maracanãs inquietos.
O mangueiral em flor anuncia um verão saboroso,
enquanto a névoa no horizonte lembra os dias curtos de inverno.
Por minha janela, hoje, entrou a réstia de sol com que esquentei minhas mãos,
e o perfume do jasmim que plantamos juntos no portão.
Por ela, vejo que as abelhas continuam na lida,
e os colibris dançam com as flores mais vistosas.
A relva orvalhada me colore de esperança.
No beiral, as lagartixas tomam banho de sol.
Hoje, por minha janela, espero.
Espero por você que não mandou notícias.
Espero por você, enquanto vejo o mundo passar.
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©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014.
Sua paixão eram os relógios-cuco.
Tinha mais de oitenta espalhados pela casa.
Cantavam todos em coral ao meio dia.
Quando morreu levou consigo
a voz da passarada.
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©Ladyce West, Rio de Janeiro:2014