Autoria desconhecida.
Por mais conforto e carinho
numa gaiola dourada,
a ave não esquece o ninho
e a liberdade ceifada.
(Severino Campelo)
Autoria desconhecida.
Por mais conforto e carinho
numa gaiola dourada,
a ave não esquece o ninho
e a liberdade ceifada.
(Severino Campelo)
Ilustração, A. E. Marty
Meu lenço, na despedida,
tu não viste, em movimento:
lenço molhado, querida,
não pode agitar-se ao vento.
(Carlos Guimarães)
Paisagem
Leopoldo Gotuzzo (Brasil, 1887 – 1983)
óleo sobre tela, 61 x 46 cm
Sonia Carneiro Leão
Gotinha meiga e mansa
acaricia meu rosto,
descendo suave
a trilha da saudade.
Lá fora as rosas rosas
E os hibiscos dourados
saúdam o outono.
Negro curió entre os poleiros
saltita de júbilo e gorjeia,
mesmo nos confins
das grades da vida.
Só eu,
do outro lado das coisas,
choro.
Tornei-me o poro por onde passa,
no vazio de uma lágrima,
o peso de tua falta.
Sol na manhã enevoada, Beth Whitney, aquarela.
Nossa estrada, que era igual,
dividiu-se em dois caminhos:
eu, regando o roseiral,
você…contando os espinhos.
(Vanda Fagundes Queiroz)
Auto-retrato, Retratando o cotidiano em Vina-Lituânia, s/d
Lasar Segall (Lituânia/Brasil, 1889 – 1957)
óleo sobre papelão, 67 x 47 cm
Ladyce West
Na indolência de um domingo de verão,
quando o sol cerceia o movimento e o calor detém a brisa,
Quando o bafo quente das calçadas se ergue lento,
envolve o corpo e reprime pensamentos,
Quando a inércia paralisa insetos,
cala pássaros, esconde peixes,
No meio da tarde indiferente,
preguiçosa, frouxa e incandescente,
Um solitário acordeon se faz ouvir.
É gemido desditoso, lamento sofrido.
Queixume penoso.
No ar estagnado do bairro,
por entre casas sonolentas e mudas torres de igrejas,
por cima do asfalto amolecido das ruas,
mascarando o borbulhar do riacho,
vibram notas saudosas, melodias sofridas,
canções de outras eras, de outras terras.
Gemidas.
A nostalgia se espalha.
Manta transparente, que envolve.
Aderente.
Libação sonora, suadouro enlutado,
carpindo na tarde.
Canto solitário de imigrante europeu,
Chora a terra, a distância,
a perda do lugar em que nasceu.
©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2019.
Luluzinha, Glória e Plínio da revista em quadrinhos Luluzinha, criação de Marjorie Henderson Buell.
Ruth Rocha
São duas crianças lindas
Mas são muito diferentes!
Uma é toda desdentada,
A outra é cheia de dentes…
Uma anda descabelada,
A outra é cheia de pentes!
Uma delas usa óculos,
E a outra só usa lentes.
Uma gosta de gelados,
A outra gosta de quentes.
Uma tem cabelos longos,
A outra corta eles rentes.
Não queira que sejam iguais,
Aliás, nem mesmo tentes!
São duas crianças lindas,
Mas são muito diferentes.
Sem título, 2014
[No camarote]
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)
óleo sobre tela
Alvarenga Peixoto
Eu vi a linda Estela, e namorado
Fiz logo eterno voto de querê-la;
Mas vi depois a Nize, e é tão bela,
Que merece igualmente o meu cuidado.
A qual escolherei, se neste estado
Não posso distinguir Nize d’Estela?
Se Nize vir aqui, morro por ela;
Se Estela agora vir, fico abrasado.
Mas, ah! que aquela me despreza amante,
Pois sabe que estou preso em outros braços,
E esta não me quer por inconstante.
Vem, Cupido, soltar-me destes laços,
Ou faz de dois semblantes um semblante,
Ou divide o meu peito em dois pedaços!
Em: Alvarenga Peixoto, Obras Poéticas. Edição da Prefeitura do Município de São Paulo, [Coleção Documentos – Clube da Poesia], 1956, p.29.
Alvarenga Peixoto (Brasil, 1742-1793) advogado e poeta do círculo da Inconfidência Mineira. Foi preso e degredado para a África.
No campo de golfe, ilustração autor desconhecido.
Quando te chamo de amigo,
Declaro-te pleno apoio:
Não só no que tens de trigo;
Também no que tens de joio.
(Antônio Augusto de Assis)
Luz da manhã
James H. Crank (EUA, ?)
óleo sobre tela, 91 x 66 cm
Coryna Ferreira Rebuá
Como faz frio neste quarto agora!
A chuva bate em cheio na vidraça
E o relógio da igreja, de hora em hora,
Soa. Há passos na rua… E a ronda passa…
Não consigo dormir. Como demora
Essa vigília que me torna lassa!
Se abro um livro, não leio. E lá fora
Chove. Há passos na rua… E a ronda passa…
Dormes? Não creio. Eu sei que estás velando,
Porque eu pressinto que, de quando em quando,
Vem o teu corpo fluídico e me enlaça.
O relógio da igreja está batendo.
São quatro horas. Que insônia! Está chovendo.
Ouço passos na rua… E a ronda passa.
Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Janeiro, Editora Vecchi: 1965, p. 318
Bibliografia:
Felicidade, 1930
Alma Sedenta, 1932
Vida, 1940
Meu Romance de Amor, 1942
Ilustração de Milo Winter para as Fábulas de Esopo, 1919.
Olegário Mariano
As formigas levavam-na… Chovia…
Era o fim… Triste outono fumarento!..
Perto, uma fonte, em suave movimento,
cantigas de água trêmula carpia.
Quando eu a conheci, ela trazia
na voz um triste e doloroso acento.
Era a cigarra de maior talento,
mais cantadeira desta freguesia.
Passa o cortejo entre árvores amigas…
Que tristeza nas folhas… Que tristeza!
Que alegria nos olhos das formigas!…
Pobre cigarra! Quando te levavam,
enquanto te chorava a Natureza,
tuas irmãs e tua mãe cantavam. . .