Natureza morta, 1971
Emiliano Di Cavalcanti (Brasil 1897 – 1976)
óleo sobre tela, 80 x 116 cm
Notícias parisienses, 2021
Anna Reznikova (Chipre, contemporânea)
óleo sobre tela, 60 x 50 cm
Nada como um fim de semana de molho para lermos um livro de mistério, Foi assim que comecei Oito assassinatos perfeitos, de Peter Swanson, com tradução de Thereza Christina Rocque da Motta. A premissa, pela contracapa, me pareceu fascinante. Abrimos a leitura com um livreiro, em Boston, trabalhando na livraria, Old Devils, habitada permanentemente por um bichano, chamado Nero. O lugar se especializa em livros de mistério. Quanto charme nessa ambientação! Além do mais é inverno, a neve se amontoa nas calçadas, talvez ninguém venha comprar livros. Um dos donos, está prestes a fechar a porta, certo de que necessitava chegar em casa antes do tempo tornar a cidade caótica, quando uma agente do FBI chega querendo conversar com ele sobre uma série de crimes na Nova Inglaterra. A agente desenvolveu uma teoria e deseja consultar Malcolm Kershaw (Mal) que conhece muito dos livros de mistério: parece que a série de crimes, que ela investiga, possa estar ligada à literatura deste gênero.
Tudo indica que Mal, poderia ajudá-la. Mas já no segundo capítulo, para quem está familiarizado com livros de Agatha Christie, Simenon e outros do gênero, um alerta soa e já se imagina boa parte do quebra-cabeças. Mesmo assim, a leitura é interessante e fácil. No desenrolar dos primeiros dez capítulos listas de livros de mistério com suas respectivas soluções aparecem. Por que? Porque aparentemente esses livros poderiam oferecer pistas sobre os assassinatos investigados.
Achei a ideia do autor sensacional. Mas a resolução ficou aquém do esperado. A procura pelo criminoso em série é interessante e sim, há reviravoltas, surpresas, viradas, que prendem a atenção do leitor. Mas nos últimos dez capítulos, ou seja durante a resolução do caso, no auge do dilema vivenciado pelos leitores e principalmente nos últimos dois capítulos o leitor acaba confuso, tendo que voltar atrás para tentar compreender o que aconteceu. Essa falta de clareza poderia ser melhor explorada, mesmo que fosse em parte o objetivo do autor confundir o leitor. Isso leva a um desconcerto com a solução das intrigas e frustração com a leitura. Em outras palavras: poderia ter um final mais caprichado.
Outro ponto que gostaria de levantar é a falta de ambientação, além do mínimo. Quando a ação acontece em Boston, como é o caso, o leitor pode já ter uma imagem da cidade. Mas faltou à narrativa pequenos detalhes que melhor caracterizariam o local. Um monte de neve e uma livraria, não é ambientação suficiente. Não teria sido muito trabalhoso adicionar às descrições aqueles detalhes que retratassem melhor aquela alma urbana: a aparência das casas no centro da cidade, os cheiros dos bares de Faneuil Hall, por exemplo, algo que ajudasse o leitor a imaginar por detalhes fornecidos a ele, o que é estar naquele lugar. Ambientação com referência aos cinco sentidos é encontrada na maior parte dos livros de mistério, pelos menos nos clássicos, que muitas vezes se passam em ambientes exóticos ou desconhecidos do leitor.
Com esses senões fica difícil dar a nota máxima à essa procura por um criminoso em série. Aqui vão três de cinco estrelas.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
A volta
Jasmine Saintonge (Canadá, contemporânea)
óleo sobre tela, 119 x 76 cm
O pianista da estação ganhou o Gande Prêmio RTL-Lire 2021 [RTL: rede de televisão francesa e Revista Lire]. Este prêmio difere dos outros do país; é dado pelo público: cem leitores escolhidos cada qual por diferentes livreiros, votam na obra vencedora. Um dos requerimentos entre os competidores é que sejam autores que não precisam de maior reconhecimento. Não ficou claro as coordenadas desta última categoria. Procurei saber sobre essa distinção após a leitura do livro, já que minha opinião contrasta tanto com o galardão concedido.
Trata-se da história de um homem, Joseph Marty, de sessenta e nove anos, que passa a vida tocando pianos públicos em estações de trem, metrô, aeroportos, lugares de passagem. Nômade, sempre em movimento, como se sua própria vida fosse um interminável e contínuo rondó. Qual seria o motivo? Para descobrirmos as razões visitamos o passado do pianista, órfão de ambos os pais aos quinze anos. Segue-se então mais uma história de órfãos que são maltratados nos orfanatos, sofrendo física e emocionalmente. Reconheço que neste momento, tive que decidir se continuaria ou não a leitura.
Fui leitora assídua minha vida inteira. Desde os seis anos de idade ler foi meu maior e constante entretenimento. Criança, adolescente, adulta, morando aqui no Brasil, e em diferentes países, li. Como consequência o número de histórias de órfãos que li é incontável da Cinderela à Pequena órfã Annie, de Oliver Twist e David Coperfield a Jane Eyre, Harry Potter, Poliana e outras dezenas mais de clássicos da literatura mundial. As histórias de órfãos têm, comumente, o sofrimento da criança ou adolescente em primeiro plano. E o tema logo me pareceu batido, cansativo e não tive curiosidade de ir em frente. Li, o livro inteiro porque foi selecionado pelos leitores de um grupo de leitura a que pertenço. E usei de muitos subterfúgios para manter meu interesse. Procurei por orfanatos nos Pirineus, onde a trama se desenrola, viajei via internet por diversos internatos já fechados na área. A história começa em 1969; procurei por fotos de cidades dos Pirineus da década de sessenta. Enfim, fiz o que pude para manter meu interesse neste livro.
A prosa de Jean-Baptiste Andrea, com tradução de Júlia da Rocha Simões, é suave, competente. Há bons momentos e posto abaixo passagens me pareceram interessantes. Foram quatorze marcações.
“O velho Rothenberg me dava aulas de piano. Ele era mais enrugado que papel amassado – rosto, pescoço e mãos num vertiginoso braille de rugas. Eu queria passá-lo a ferro a cada vez que o via. Mas quando ele tocava. Quando ele tocava, reis magos pegavam a estrada. Princesas exóticas e longínquas eram tomadas de languidez em seus palácios de areia. Até a sra. Rothenberg, uma sombra murcha que cheirava a pétalas e naftalina, voltava a ser a rainha do verão que ele havia seduzido, sessenta anos antes, sob uma nogueira em flor.”
“O ódio, como a oração, se alimenta de silêncio.”
Tenho outro senão: Joseph Marty passa muito tempo sem tocar piano. Como, sem treino algum, sem qualquer dedicação de horas diárias de ensaio, ele consegue tocar com tanta perfeição? Quem é capaz de pegar e largar qualquer instrumento musical, e fazer uma performance como se tempo algum houvesse passado?
Este livro não me tocou. Não me emocionou. Não é ruim. Tenho certeza de que muitos leitores não foram expostos a tantos personagens órfãos. De fato, interessante notar que hoje há muito menos órfãos no mundo do que havia no passado, graças às descobertas médicas e ao cuidado com prevenção de doenças que temos. Acho uma história romântica para corações que gostam de se sensibilizar. É um livro de passagem. Os personagens adolescentes passam por situações que eventualmente os tornam adultos. Mas, francamente, achei o tema, o assunto, na fronteira com o lugar-comum. Duas estrelas de cinco.
Jovem com gato, 1882
[Sophia Ivanova Kramskoy]
Ivan Nikolayevich Kramskoy (Rússia, 1837-1887)
óleo sobre tela, 71 x 58 cm
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Ivan Kramskoy foi excelente retratista. Uma das características de seus retratos é a habilidade de traduzir emoções diversas só através dos olhos do modelo. Homem, mulher ou criança são retratados com o que seus olhos refletem: interesse, descaso, incompreensão, sofrimento independentemente do resto da composição, ou seja, ele consegue dar ao espectador a essência do momento daquele personagem. Aqui, neste retrato, gosto precisamente, do abandono dos corpos do gatinho e da jovem: um ecoa o outro, no conforto, na desatenção ao que os rodeia. Há um tanto de desleixo, distração, displicência. O desmazelo é refletido na franja do xale esparramada sem rumo sobre o sofá, em contraste com a severidade das cores verticais do papel de parede ao fundo e a dura almofada do recamier divã em que ela se recosta. Vemos a jovem sonhar. Seus olhos traem a mente: ela está longe dali, ainda que acaricie o companheiro peludo com ambas as mãos.
Flores e livros
Marie Nivouliès de Pierrefort (França, 1879 -Brasil, 1968)
óleo sobre madeira, 73 x 90 cm
Cosendo a bandeira, 1939
Theodoro De Bona (Brasil, 1904-1990)
óleo sobre tela, 98 x 78 cm
Acervo do Clube Curitibano