O rebuliço da manhã, texto de Manuel de Oliveira Paiva

4 11 2012

Rua de Barbacena, 1969

Win Van Dijk (1915-1990)

óleo sobre tela, 37 x 61 cm

“O Santo Cruzeiro ia a pouco e pouco emergindo ao sol. Um peixeiro que passava carregado para a Feira parou em frente ao gradil sagrado, de chapéu na mão, aproximou-se, beijou uma das cruzes de ferro cravadas no meio de um círculo no ponto donde sai cada lampião, meteu a mão no uru, tirou um vintém e sacudiu para dentro. O disco de cobre foi tinir no ladrilho, junto a enorme peanha adornada de assuntos religiosos em meio relevo de barro nas faces do prisma.

As cercanias, à distância, por trás do templo, alçavam os seus coqueiros, as suas mangueiras e plantações, uma povoação de folhagens por trás da de casarias. Para além desses blocos unidos de verdura, adivinhava-se o aspecto desolador do extenso bairro do Outeiro. Uma zona irregular e caprichosa de alegrias da vegetação, entre o mundo da cidade e o vasto aldeamento dos pescadores, dos lancheiros, dos trabalhadores da praia, dos homens do ganho, dos operários, e de uma numerosa população decaída, uns habitando cabanas, verdadeiras covas de palha desse esquimós do areal ardente. Através dos ruídos ouvia-se o cantar do galo ao longe.

Para a cidade, os tetos se distendiam esquentando o sol. Na Rua de Baixo, ali pertinho, o Mercado, com as suas paredes cor de sangue de boi, produzia uma zoada alegre, e era assim a modo de uma grande colmeia de gente. De fronte dele, ao meio da rua, estacionavam animais devolutos, quase a dormir em pé, sob as cangalhas. Nos armazéns, carroças carregavam açúcar. Espalhava-se um odor de água ardente, da destilação próxima, de par com o assobio da máquina a vapor.

A Rua das Flores abria diante da igreja. A população se movia, na labutação diária. De quando em vez brilhava a nota rubra de um xale no meio dos transeuntes afastados, que pareciam pisar em veludo.

Maria desce o patamar, e a sua fascinação continua a esperar de cada canto a imagem do primo. A rua, passando os castanheiros da praça, estendia-se ao olhar, com a sua casaria térrea, indo fenecer num horizonte longínquo, de alvo, de verde, de cinzento e de vermelho. O carro não podia partir imediatamente, porque um comboio de algodão nublava com a sua onda loira, a largura do arruado e avançava como a cabeça d’água de uma enchente, com um passo dançado e medido. Sobressaía ao lume da onda um vulto, a cavalo, e os gritos dos camboeiros e a sonaria dos chocalhos. Enfrentando com o Santo Cruzeiro os matutos descobriam, e depois de ter dobrado para a praia, ainda iam olhando religiosamente para trás.”

Em: Obra Completa, Manuel de Oliveria Paiva, Rio de Janeiro, Graphia: 1993.  Texto retirado do livro: Dona Guidinha do Poço, publicação póstuma, de 1952.

Manuel de Oliveira Paiva  (Brasil, 1861-1892).  Escritor e abolicionista nascido no Ceará. Começou seu estudos como seminarista em Crato, carreira que abandonou, vindo para o Rio de Janeiro estudar na Escola Militar.  Maas retorna ao Ceará em 1883 por problemas de saúde.  Teve uma única obra  publicada em vida, na forma de folhetim no jornal Libertador, em 1889, chamada A Afilhada.  O romance Dona Guidinha do Poço, teve um destino tortuoso até chegar à publicação em 1952, sessenta anos após a morte do autor, que deixou o manuscrito inteiramente pronto ao morrer.





Imagem de leitura — Eric Wallis

2 11 2012

Sem título

Eric Wallis (EUA, 1968)

óleo sobre tela

www.wallisart.com

Eric K. Wallis nasceu nos Estados Unidos em 1968.  Começou a pintar aos sete anos, orientado por seu pai também pintor, Kent R. Wallis.  Os dois pintavam lado a lado, cenas simples, da natureza.  Eric continuou pintando durante os anos escolares formativos, ganhando diversos prêmios, como jovem talento, antes entrar para a Universidade de Utah, onde estudou pintura com Adrian Van Suchtelen e com Glen Edwards, ambos dedicados pintores figurativos.  Graduou-se em pintura em 1992. Mas desde 1990 começara a expor em galerias de arte particulares.  Pinta até hoje de 10 a 12 horas por dia e tem muitas obras em diversos museus e coleções particulares nos EUA.





Palavras para lembrar — John Burroughs

22 10 2012

A varanda, 1913

André Albert (França, 1869-1954)

óleo sobre tela, 68 x  68 cm

Christie’s Auction House

“Eu ainda acho o dia muito curto para todos os pensamentos que quero ter, todos os passeios que quero fazer, todos os livros que quero ler e todos os amigos que quero ver”.


John Burroughs





Palavras para lembrar — Christopher Morley

19 10 2012

Ned Anshutz lendo, c. 1900

Thomas Pollock Anshutz ( EUA, 1851-1912)

óleo sobre tela, 96 x 68 cm

Museu do Brooklyn, Nova York

“O verdadeiro objetivo dos livros é laçar a mente para fazê-la pensar por si própria”.


Christopher Morley





Minha Aldeia, poema de Antonio Gedeão

18 10 2012

Vista parcial de Ouro Preto, s/d

Mário Agostinelli (Peru 1915 – Brasil, 2000).

óleo sobre tela colada em madeira, 47 x 56 cm

Minha aldeia

Antonio Gedeão

Minha aldeia é todo o mundo.

Todo o mundo me pertence.

Aqui me encontro e confundo

com gente de todo o mundo

que a todo o mundo pertence.

Bate o sol na minha aldeia

com várias inclinações.

Ângulo novo, nova ideia;

outros graus, outras razões.

Que os homens da minha aldeia

são centenas de milhões.

Os homens da minha aldeia

divergem por natureza.

O mesmo sonho os separa,

a mesma fria certeza

os afasta e desempara,

rumorejante seara

onde se odeia em beleza.

Os homens da minha aldeia

formigam raivosamente

com os pés colados ao chão.

Nessa prisão permanente

cada qual é seu irmão.

Valências de fora e dentro

ligam tudo ao mesmo centro

numa inquebrável cadeia.

Longas raízes que imergem,

todos os homens convergem

no centro da minha aldeia.

Em: Poesias completas (1956-1967), coleção Poetas de hoje, Lisboa, Portugália:s/d

Rômulo Vasco da Gama de Carvalho , rambém conhecido pelos pseudônimos : Antonio Gedeão ou por Rômulo de Carvalho. (Portugal,  1906-1997)  Poeta, professor e historiador da ciência portuguesa.  Teve um papel importante na divulgação de temas científicos, colaborando em revistas da especialidade e organizando obras no campo da história das ciências e das instituições.  Revelou-se como poeta apenas em 1956, com a obra Movimento Perpétuo.

Obras poéticas:

Movimento perpétuo, 1956

Teatro do Mundo, 1958

Máquina de Fogo, 1961

Poema para Galileu 1964

Linhas de Força, 1967

Poemas Póstumos, 1983

Novos Poemas Póstumos, 1990





Imagem de leitura — Armand Guillaumin

16 10 2012

Mlle Guillaumin lendo, 1907

Armand Guillaumin (França 1841-1927)

óleo sobre tela

Coleção Particular

Armand Guillaumin nasceu em Paris em 1841. Em 1856 começou seus estudos artísticos em Paris na École Municipale sob a orientação do escultor Caillouet.  Tornou-se empregado na Estrada de Ferro de Paris em 1860, indo morar em Montmartre. Logo começou seus estudos na Académie Suisse, onde conheceu  Pissarro e Cezanne.  Em 1863 mostrou seu trabalho junto a Cezanne, Edouard Manet e  Pissarro no Salon des Refusés.  Só em 1868 conseguiu deixar o trabalho na ferro-carril e se concentrar exclusivamente na pintura.  Em 1877 Pissarro o apresentou a Gauguin.  Em 1871 viajou; primeiro por diversas partes da França, depois pela Holanda. Manteve-se fiel ao impressionismo. Faleceu em 1927 em Orly, na França.





Palavras para lembrar — J. P. Getty

10 10 2012


Mulher lendo, 2009

Mike Absalom (Grã Bretanha, 1940)

acrílica sobre tela, 80 x 80 cm

www.mikeabsalom.com

“Livros, assim como provérbios, são valorizados pela chancela e estima das épocas  por que passaram”.

J. Paul Getty  





Imagem de leitura — Edward Hopper

5 10 2012

Hotel ao lado da estrada de ferro, 1952

Edward Hopper (EUA, 1882-1967)

Óleo sobre tela, 79 x 101 cm

Coleção Particular

Edward Hopper  nasceu em Nyack no estado de Nova York em 1882.    Mostrou talento artístico desde cedo no que foi incentivado pela família.  Fez um curso de arte por correspondência antes de estudar no New York Institute of Art and Design, onde estudou por seis anos inclusive algum tempo com William Merrit Chase.  Admitiu ter sido muito influenciado pelos mestres franceses: Édouard Manet e Edgar Degas. Começou a trabalhar em ilustração a partir de 1905, deixando este aspecto das artes gráficas nos anos 20.   Só em 1923 teve obras aceitas para exposições de arte.  Mas daí para frente, com alguns altos e baixos iniciais, sua carreira tomou fôlego fazendo com que ele  se tornasse um dos mais importantes pintores do século XX, um verdadeiro retratista da alma americana.  Faleceu em Nova York em 1967.





Palavras para lembrar — Benjamin Franklin

3 10 2012

Lisa

Jackie Knott (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela

Coleção Particular, Texas

www.texasportraitpainter.com

” Ou escreva algo que valha a pena ler, ou faça alguma coisa que valha a pena escrever”.


Benjamin Franklin





Imagem de leitura — Arshile Gorky

1 10 2012

Walinska, 1941

Arshile Gorky (Armênia, 1904-1948)

óleo sobre tela

Arshile Gorky nasceu em Khorgom,  na Armênia em 1904. Seu pai emigrou para os Estados Unidos em 1910.  Gorky sobreviveu, em 1915, ao Genocídio Armeno  fugindo com a mãe e suas três irmãs para território russo.  A mãe morreu de fome em 1919. Gorky finalmente emigrou para os EUA em 1920 aos 16 anos, onde se encontrou com o pai, mas nunca chegaram a ser próximos.  Em 1922 iniciou seus estudos de pintura em Boston.  Logo se informou a respeito dos pintores  pós-impressionistas, sendo bastante influenciado, inicialmente por Paul Cézanne.  Desenvolveu no entanto estilo próprio chegado à pintra automática dos surrealistas e forma um elo entre a arte do início do século na Europa e o expressionismo abstrato de pós-segunda-guerra, nos Estados Unidos.  Suicidou-se em 1948.