“O convívio social tem o grande mérito de abrandar a idiotice do casal que não conversa, jamais descobre que não tem muitas afinidades. A companhia do outro tem o mesmo efeito da aposentadoria para as pessoas da classe média, ou seja, causa divórcio.”
Em: Esnobes, Julian Fellowes, tradução de Beatriz Horta, Rio de Janeiro, Fabrica 231: 2016, p.164.
“… um romance não é apenas um fenômeno linguístico. Na poesia, é difícil traduzir as palavras porque o que importa é o seu som, assim como seus significados deliberadamente múltiplos, e é a escolha das palavras que determina o conteúdo. Numa narrativa, temos a situação contrária: o universo que o autor construiu, os acontecimentos que neles ocorrem é que ditam o ritmo,, o estilo e até a escolha das palavras. A narrativa é governada pela regra latina, “Rem tene, verba sequentor” — “Prenda-se ao tema e as palavras virão” — ao passo que na poesia a formulação deve ser mudada para: “Prenda-se às palavras e o tema virá.”
Em: Confissões de um jovem romancista, Umberto Eco, tradução de Clóvis Marques, Rio de Janeiro, Record: 2018, p. 15
Escrita em números: é impressionante saber os limites autoimpostos por alguns escritores, para o mínimo de palavras produzidas por dia. Aqui vai uma amostra:
Ray Bradbury — escrevia 1.000 palavras por dia desde os 12 anos de idade
Raymond Chandler — não tinha um limite específico, mas sabe-se que escrevia 5.000 palavras por dia
Arthur Conan Doyle, William Golding, Norman Mailer — diziam escrever 3.000 palavras por dia
Ian Fleming escrevia 2.000 palavras/dia, 5 dias por semana, 6 meses, para cada livro de James Bond
Ernest Hemingway — considerava 500 palavras, bom trabalho diário
Stephen King — escrevia 2.000 palavras por dia mas não contava os advérbios
Jack London — escreveu 1.000 palavras por dia, todos os dias de sua vida
Anthony Trollope — escrevia 250 -palavras a cada 15 minutos, marcados no relógio
Thomas Wolfe — não parava até alcançar as 1.200 palavras diárias
EXCEÇÕES
James Joyce considerava duas frases perfeitas, um bom dia de trabalho
Dorothy Parker dizia que não podia escrever cinco palavras sem trocar sete
Florence Fuller (África do Sul- Austrália, 1867-1946)
aquarela sobre papel
O retorno, livro que li em 2012, de Dulce Maria Cardoso, me seduziu com sua linguagem, e suavidade ao tratar nuances nos sentimentos. A autora me encantou pela escrita poética e fluida. Passaram-se dez anos e voltei minha atenção para Eliete: a vida normalque acabou de ser lançado no Brasil. Foi bom ver, que pelo menos no primeiro terço do livro, o charme da escrita de Dulce Maria Cardoso permaneceu intacto ainda que o assunto tratado não se prestasse a tom meditativo de O retorno. De fato, foi o humor que se imiscuiu na narrativa que me surpreendeu, assim como o tratar de episódios corriqueiros e não tão introspectivos que eu havia atribuído à sua voz narrativa.
Eliete: a vida normal é completamente diferente do livro que li anteriormente. Partimos da vida frustrada de uma dona de casa, classe média portuguesa, vivendo em Cascais, que depois de formar uma família, com duas filhas, encontra-se naquela fase tão comum das pessoas de meia-idade: cuidar dos filhos, do consorte e dos pais, que envelhecem. Vende imóveis como profissão porque não conseguia saber a que mais poderia se dedicar. Tudo contribui para o caos generalizado, quando projetos de vida, planeamento e desejos até mesmo banais são descartados pelo bem comum. Neste ambiente, Eliete se sente só. Rendeu-se ao desmazelo, não atrai mais o desejo do marido. Isso é agravado pelo fato de não ter se sentido atraente ou sedutora, na juventude, detalhe ainda mais pesaroso, já que sua irmã conseguiu superar os entraves da juventude, e desfruta de vida interessante aos olhos de Eliete.
O que diferencia a história dessa personagem é o meio por que decide resolver seu problema. A época é a atual. Eliete é viúva do celular. Todos à sua volta estão mais interessados na telinha dos jogos ou das redes sociais, deixando-a unicamente só apesar de fisicamente próxima. Sente-se desnecessária, negligenciada. A vida é enjoada e exaustiva. A bela natureza de Cascais a aborrece. “Deus era um compositor minimal repetitivo naquele lugar, mar e vento, vento e mar, até o chilreio dos pássaros soava sempre ao mesmo.” Irônica, Eliete reflete: “Aprendi assim, de uma só vez, que as pessoas podiam morrer como os bichos e que a utilidade das suas mortes era o sofrimento que causavam aos outros.” Mas o que mais a aflige é o passar do tempo, a vida em branco, a meia idade, como quando corta os longos cabelos, por já não ser tão jovem: “Parecia haver quase um sadismo na satisfação com que o cabeleireiro me cortava o resto da juventude que eu tanto quisera preservar e que, ao contrário do cabelo, não voltaria a crescer.” É fabulosa a narrativa conduzida por Eliete, para justificar suas decisões, ações intempestivas.
Dulce Maria Cardoso continua a encantar com sua prosa. Deixou de lado a magia nostálgica de O retorno; enveredou pelo cáustico comentário da realidade contemporânea. Eliete é vítima desta realidade, mas acha, um meio de se refazer. “O passado foi feito por outros, mas o presente é feito pornós” justifica-se.
Dulce Maria Cardoso
Marquei exatas cinquenta e sete frases ou passagens neste livro, de acordo com Goodreads. Muitas foram pelo delicioso descobrir de expressões portuguesas: ‘biquinhos dos pés’, para na ponta dos pés; ‘o roçagar das sedas’; mas boa parte por excelentes descrições da alma feminina. Apesar disso, o livro se prolonga onde é desnecessário. Se dividíssemos a obra em três, o primeiro terço é fantástico, o último é bom, mas o meio se prolonga, torna-se repetitivo. O ritmo se esvai, leva junto o entusiasmo pela leitura. No momento em que a história parece pachorrenta, é mais fácil deixar a leitura de lado por alguns dias. Por isso, e só por isso Eliete: a vida normal, não recebe o máximo de cinco estrelas. São quatro as que dou, com gostinho de três e meio.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Honoré de Balzac deu a toda sua obra o nome de Comédia Humana. Sob esse título há praticamente a totalidade de sua escrita criativa, que se concentra nas histórias, aventuras e desgraças de uma extensa família francesa. Através dos anos, o número de seus personagens cresceu tanto que Balzac desenhou uma árvore genealógica pelas paredes de três cômodos em sua residência, para poder se lembrar das conexões familiares e datas de nascimento daquelas figuras que vieram de sua imaginação.
“Os livros nos fazem viajar no tempo. Todos os leitores de verdade sabem disso. Mas os livros não nos levam para o momento em que foram escritos. Eles nos fazem lembrar de nós mesmos em outra época.”
Em: Oito assassinatos perfeitos, Peter Swanson,tradução de Thereza Christina Rocque da Motta, São Paulo, Jangada: 2022
La Fontaine, mais conhecido por nós aqui no Brasil como autor de Fábulas em verso, aos vinte e dois anos de idade ainda não tinha ideia de que profissão seguir, ou a que se dedicar na vida. Um dia, por acaso, ouviu alguns versos de Malherbe. Teve, então, o impulso de comprar um volume poesias desse autor. Essa decisão iria mudar o curso de sua vida. La Fontaine ficou tão impressionado com a obra, que passou noites em claro, memorizando alguns poemas. De dia ia a um bosque perto de casa para às escondidas recitar o que decorara em voz alta. Nascia o poeta…