Leituras de 2022: “Tudo é rio”, de Carla Madeira, resenha

26 11 2022

Mulher lendo no terraço

Blanche Augustine Camus (França, 1884-1968)

óleo sobre tela, 92 x 73 cm

 

Levei tempo para expressar a respeito de Tudo é rio de Carla Madeira. É um livro considerado “muito bom” por muitas pessoas que conheço.  Foi escolhido por um de meus grupos de leitura, leitores que me ajudaram a perceber melhor a obra.  Quase desisti no primeiro terço.  Mesmo sendo um livro de poucas páginas.  Isso não é comum. Não foi o linguajar crasso, como muitos poderiam imaginar. Não foi a desenvoltura sexual de Lucy, a personagem que abre a narrativa.  Colocada ali, na abertura, principalmente para o choque inicial. Talvez tenha sido a personalidade dessa prostituta: “Parte da excitação de Lucy morava na perversão.”

Minha surpresa veio  mais de dentro, da realização de que para Carla Madeira, e talvez ela esteja correta, a vida emocional do brasileiro não mudou.  Continua repleta de emoções cruas, sem polimento civilizatório. Continua repleta de violência  física e sobretudo emocional.  São pessoas semelhantes às que vão a programas de televisão para lavar roupa suja diante de uma plateia, que não conseguem resolver problemas familiares, amorosos, com conversa nem religião. 

Ficou comigo uma sensação de déjà vu.  O brasileiro não  mudou, desde a primeira metade do século XX para cá?  Este mundo retratado em Tudo é rio, tem gosto de antigo, de problemas já resolvidos na cultura ocidental, até mesmo no Brasil do interior. Violência, crueldade, ciúmes e sobretudo vingança comem a alma, e demonstram um grau de ignorância coletiva que parece demasiado. Emoções fortes entre pessoas casadas que mal se conhecem.  Rancor. Ações extremas para sedimentar a vingança e pouco, muito pouco perdão.

Os temas mais pesados em Tudo é Rio não são os de sexo.  Os mais pesados são a crueldade, a vingança, o ciúme em doses extremas. Todos, tanto as supostas vitimas quanto os que agem contra elas, todos são desequilibrados emocionalmente. E isso me afeta negativamente. Não sou pessoa de extremismos.  Prefiro a narrativa reflexiva, subentendida, moderada, que me deixe descobrir a complexidade das emoções vagarosamente sem tê-las escancaradas à moda de novelas mexicanas. Mas entendo ser uma preferência pessoal.

 

 

O enredo é simples.  Estamos numa cidade do interior.  Uma jovem, quase adulta, endiabrada e exibicionista, “Não ia ter graça nenhuma reinar no deserto sem ninguém para testemunhar seus calores e tempestades.” decide fazer da prostituição sua maneira de viver.  Ama ter poder sobre os homens.  Gosta também de ferir mulheres através de seus homens, maridos, companheiros. Não parece querer ninguém feliz à sua volta.  Talvez todos tenham que pagar que rejeição inicial que sentiu quando criança e adolescente. Sexo, o poder sexual, é onde Lucy se deleita.  Não tem escrúpulos.  E não consegue viver em  paz até que tenha conquistado qualquer homem que lhe seja arredio.  Assim,  consegue criar problemas.  Mas, precisamos prestar atenção ao comportamento de todas as outras  mulheres da história.  Elas também não são santinhas, apesar das aparências.  Elas também  conseguem manter vivo o ódio e se deleitar na vingança.  Todos nessa trama são possuídos por suas emoções.

No final, não há pessoas íntegras nessa história.  Todas as mulheres vivem dominadas por sentimentos, até os mais perturbadores.  E agem de acordo.  Os homens são violentos também,  têm ciúmes, gostam de uma vingança, mas no final das contas, ainda sofrem um pouco mais, porque sofrem muito nas mãos das mulheres, já que não têm poder de se controlarem quando são seduzidos.

 

 
Carla Madeira

Talvez tenha sido esta percepção de falta de controle emocional que tenha me dado a sensação de “dejà vu“, um gosto de pão dormido, o desconforto de testemunhar uma sociedade tão crua, tão sem civilidade.  A escrita é boa e flui. Há algumas frases interessantes nessa narrativa: “É preciso uma coincidência qualquer para que o amor se instale. Existe um certo milagre nos encontros. Não é tolo dizer que o amor é sagrado.” ou “quem é previsível demais oferece o pescoço ao cabresto.“,  e muitas outras, mas no todo, elas não valem a companhia das horas passadas com este texto.  Não recomendo.

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Imagem de leitura — Anna Reznikova

25 11 2022

Notícias, 2021

Anna Reznikova (Chipre, contemporânea)

óleo sobre tela, 70 x 50 cm





Natalinas: Mário Quintana

24 11 2022

Menina lendo, 2008

Adilson dos Santos (Brasil, 1944)

óleo

“Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…”

Mário Quintana





Curiosidade literária

14 11 2022

Jovem segurando uma partitura, 1755

D’après  Louis Jean François Lagrenée (França, 1724-1805)

The Palmer Museum of Art, The Pennsylvania State University

 

 

 

Giàcomo Girolamo Casanova viveu no século XVIII.  Nasceu em 1725 na antiga República de Veneza, portanto bem antes da unificação da Itália em 1870.  Escreveu a autobiografia História da minha vida,  que o tornou famoso, bem depois de ter-se tornado um homem maduro. Antes disso, tentara a vida militar e a eclesiástica. Teve muitas aventuras, fugiu da cadeia, foi um aventureiro de grande porte. Acabou vivendo sob os auspícios  do Conde da Boêmia, em Duchcov, na República Checa, de 1785 até sua morte, em 1792.  Casanova, declarou ter escrito a biografia por tédio, para surpresa de seus leitores, que não acreditavam que isso fosse possível, já que ele alegara ter tido relações amorosas com cento e vinte e duas mulheres. É justamente essa informação sobre sua habilidade sexual que o tornou popular. Ficou famoso, seu nome, por extensão, significa homem conquistador, libertino, nos círculos mais letrados. Mas suas memórias são até hoje usadas para o estudo de comportamento e hábitos das sociedades no século XVIII. 





Imagem de leitura: Aliza Nisenbaum

10 11 2022

Las Talaveritas, Domingo de Manhã, New York Times, 2016

[Marissa e seu pai lendo as notícias]

Aliza Nisenbaum (México, 1977)

óleo sobre tela, 220 x 170 cm





Curiosidade literária

7 11 2022

Jovem aprendiz florentino sentado com livro, Século XV, c. 1460

Antonio Pollaiolo (Itália, 1429-1498)

Desenho a bico de pena, aquarelado, 16 x 12 cm

Louvre

 

É das mãos de um escultor, talvez um dos mais brilhantes escultores da Renascença italiana, Lorenzo Ghiberti (Florença, 1378-1455) que a primeira autobiografia de um artista é escrita.  I Commentari  escrito entre 1452-1455, no final de sua vida.  Nestes três volumes, o último inacabado, suas memórias, dados autobiográficos e conhecimento das artes são divididos mais ou menos da seguinte maneira: 1º volume foi dedicado aos artistas anteriores ao seu tempo; 2º volumes aos artistas contemporâneos do autor e o 3º volume seria um ensaio sobre teoria da arte, principalmente sobre ótica.  Mas só conhecemos uma cópia desta obra, o manuscrito da Biblioteca Nacional em Florença II, I, 333, propriedade do famoso diplomata, matemático, filólogo  e intelectual humanista,  Casimo Bartoli (1503-1572).

 

 





Curiosidade literária

31 10 2022

Leitora

Georg Tappert (Alemanha, 1880-1957)

pastel, 65 x 49 cm

 

O escritor inglês, Daniel Defoe (1660-1731), autor de Robinson Crusoé, teve muitas atividades de trabalho antes de ficar conhecido como panfletista e escritor.  Uma das coisas mais estranhas que fez foi tentar vender perfumes feitos das secreções anais de gatos.

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Em tempo: muitos perfumes famosos têm como ingrediente a secreção anal de animais chamados gatos civetas, (que tecnicamente não são gatos) encontrados na Indonésia e na África. Hoje, por razões éticas essas essências são produzidas sinteticamente.  Entre os perfumes conhecidos que têm este componente estão: Yves Saint Lorain, Kouros; Calvin Klein, Obsession; Guerlain, Coque D’Or e também o Djedi; Jean Patou, Eau de Joy e Adieu Sagesse; Schiaparelli, Shocking; Jean Patou, Patou pour l’Homme; Emanuel Ungaro, Ungaro pour l’Homme II; Revlon, Intimate; Avon, Topaze, Charisma, Tribute e Trazarra; Chanel, Chanel Nº5- Eau de Cologne e Coco Chanel; Lancôme, todas as variedades do Climat Parfum; Cartier, Panthere; Emilio Pucci, Eau de Zadig; entre dezenas e mais dezenas de perfumes usados nos dias de hoje.





“Meus avós portugueses”, soneto de Augusto Frederico Schmidt

27 10 2022

Leitor, 1986

Gregório Gruber (Brasil, 1957)

aquarela e pastel, 70 x 100 cm

 

 

Meus avós portugueses

 

Augusto Frederico Schmidt

 

Meus avós portugueses no meu sangue

Estão falando há muito, e é assim somente

Que, por vezes, as vozes dos outros sangues

Não se fazem ouvir e não comandam.

 

Meus avó portugueses são teimosos

E procuram vencer-me transformando

Essas  minhas volúpias de erradio,

De vagamundo, em nobres sentimentos.

 

Querem-me esses avós, do Minho e Douro,

Um ser capaz de amar a terra à antiga,

E nesse amor construir toda uma vida;

 

Querem-me um crente em Deus e um fiel exemplo

De constância no amor: e, é certo, às vezes,

Isso acontece, mas somente às vezes.

 

Em: Eu te direi as grandes palavras – seleção poética, Augusto Frederico Schmidt, Rio de Janeiro, José Aguilar:1975, p. 76-77





Minutos de sabedoria: Jonathan Swift

25 10 2022

Kayhan lendo The New York Times, 2017

[Resistência começa em casa]

Aliza Nisenbaum (México, 1977)

óleo sobre tela, 195 x 160 cm

“Ninguém deve se envergonhar por descobrir ter estado errado a vida inteira; isso significa que a pessoa está mais madura e mais inteligente hoje do que ontem.”

Jonathan Swift

 
Jonathan Swift (1667-1745)




Curiosidade Literária

24 10 2022

Best Seller

Karn Dupree (EUA, contemporânea)

gravura

Eça de Queiroz passou a vida obcecado em se manter magro, muito magro. Tinha horror à gordura corporal.  Mas gostava e apreciava belas e suntuosas refeições.  De fato, a descrição de vastos repastos está presente em grande número de suas obras.  Acreditava que é pela comida que se descobre as características  de um povo.  Comia e bebia muito bem, mas, ao término de refeição substancial, saía para andar por horas e horas e cobrindo quilômetros para contrabalançar o que tinha ingerido.  Morreu jovem, aos cinquenta e cinco anos de câncer do estômago.