A chegada da primavera, texto de Olga Tokarczuk

30 08 2023

Pessoa lendo na paisagem, 2005

Erni Kwast (Holanda, 1959)

 

 

 

“Os primeiros indícios da primavera ainda não tinham chegado à cidade. Ela deveria ter se acomodado nos arredores, nas hortas das chácaras, nos vales dos riachos, como as tropas inimigas antigamente. Sobre os paralelepípedos, o inverno deixou um monte de areia usada para cobrir as calçadas escorregadias, e agora, ao sol, empoeirava tudo e sujava os sapatos primaveris recém-tirados do armário. Os canteiros municipais estavam debilitados e os gramados sujos de fezes de cães. Nas ruas passavam pessoas com um aspecto acinzentado e olhos semicerrados. Pareciam grogues. Formavam filas em frente aos caixas eletrônicos, para tirar de lá um valor de vinte zlotys, exatamente o valor necessário para se alimentar durante um dia. Estavam com pressa para chegar ao posto de saúde, pois tinham uma consulta marcada para as 13h35, ou estavam a caminho do cemitério para trocar as flores de plástico do inverno pelos narcisos naturais da primavera.”

Em: Sobre os ossos dos mortos, Olga Tokarczuk, tradução de Olga Baginska-Shinzato,  São Paulo, Todavia: 2020, p.118





Imagem de leitura: Evelyn Bartlett

28 08 2023

Isso é que é vida

Evelyn Bartlett (Inglaterra, contemporânea)

técnica mista

 





Palavras para lembrar: Gary Paulsen

17 08 2023

Jovem lendo

Armand Schönberger (Hungria, 1885 – 1974)

pastel

 

 

 

 

“Se os livros pudessem ter mais, dar mais, ser mais, mostrar mais, ainda assim, eles precisariam de leitores para lhes trazer som e perfume e luz e todo o resto que não pode estar contido nos livros.”

 

Gary Paulsen

 





Imagem de leitura — Nicolaas van der Waay

17 08 2023
Garota órfã de Amsterdã. Por volta de 1890-1910 de Nicolaas van der Waay

Garota órfã de Amsterdã, c.1890-1910

Nicolaas van der Waay (Holanda, 1855-1936)

óleo sobre tela

Rijksmuseum,  Amsterdã





Sublinhando…

4 08 2023

Jovem lendo

Albert Bertalan (Hungria, 1899-1957)

óleo sobre tela, 65 x 81 cm

 

 

                                                                                                                                                                           “Quem lhe escreve, Zico, é um senhor quase gordo, de cabelos grisalhos; se alguma rapaz melancólico ler esta correspondência entre velhos amigos, talvez ele compreenda que ainda se pode, à tardinha, ouvir as cigarras cantar nas árvores da rua; e, na boca da noite, aprender, em qualquer porta de boteco, os sambas e marchas do Carnaval que aí vem; que às vezes ainda vale a pena ver o sol nascer no mar; e que a vida poderia ser pior, se esta cidade fosse menos bela, insensata e frívola.”

 

Janeiro, 1953                                    
 
 

Em: O verão e as mulheres, Rubem Braga, São Paulo, Editora Global: 2021, p. 25                               





Curiosidade literária

31 07 2023

Saguão de entrada de hotel, 1943

Edward Hopper (EUA,1882-1967)

óleo sobre tela, 81 x 103 cm

Museu de Arte de Indianápolis

 

 

 

O dramaturgo americano Eugene O’Neill, (1888-1953), recipiente do Prêmio Nobel de Literatura em 1936, recebido em 1937 e diversos Prêmios Pulitzer, nasceu em um quarto de hotel, The Barrett House, na esquina de Broadway com rua 43, em Times Square,  Nova York.  Na época Times Square chamava-se Longacre Square.  Filho do imigrante irlandês James O’Neill, ator, e Mary Ellen Quinlan, americana de origem irlandesa, Eugene se familiarizou com o teatro desde cedo.  Uma das muitas curiosidades a seu respeito tem a ver exatamente com a coincidência de seu nascimento e morte. Eugene O’Neil faleceu em 1953, também num quarto de hotel, desta vez no Sheraton Hotel, em Boston (hoje Kilachand Hall no campus da Boston University) na Bay State Road.  Ficou conhecido por suas últimas palavras demonstrando sua incredulidade: “Eu sabia.  Eu sabia.  Nascido em um quarto de hotel e morto em um quarto de hotel!”  

 





Resenha: As Vitoriosas, Laetitia Colombani

29 07 2023

Leitura de verão

Nancy B. Gramps (EUA, 1952)

óleo sobre tela

 

 

 

No início dos anos 2000, a escritora inglesa Fay Weldon (1931-2023) trouxe para o mundo literário uma interessante discussão: colocação de produto (Product Placement) na obra literária. Fay Weldon estava em bom momento em sua vida. Havia publicado diversos livros cujos enredos eram associados ao feminismo e havia também se projetado no mercado americano, atravessando o Atlântico.  Grande crítica social chegou a ter muito sucesso com o romance Vida e Amores de uma Mulher Demônio, que em 1989,  tornou-se no filme She-Devil, com Meryl Streep e Roseanne Barr.  Convencida, no entanto, de que nunca  receberia prêmios como o Booker, mesmo tendo sido um dos jurados deste prêmio anteriormente, Fay Weldon procurou independência econômica, aceitando, por uma quantia nunca revelada, escrever um romance onde a joalheria italiana Bulgari tivesse lugar de destaque.  Assim nasceu The Bulgari Connection, em 2000 (Conexão Bulgari, Rocco, 2001, no Brasil).  Assim que a imprensa soube do caso surgiu a controvérsia: colocação de produto em obra literária?  Como assim? 

Alguns acharam que Weldon estava poluindo a arte literária e houve aqueles para quem esse parecia ser o novo caminho da literatura e da diminuição de custos para as editoras.   Alguns compararam o sistema ao de séculos atrás, quando escritores tinham o patrocínio do rei, e só se publicava o que o monarca autorizasse, outros acharam que seria uma excelente ferramenta para vendas, porque o leitor teria uma experiência mais íntima com o produto durante a leitura. A moda não pegou, mesmo que este não tenha sido o único livro a ter colocação de produto em seu texto ou enredo.  A companhia de produtos de beleza Clinique, por exemplo é ponto de interesse no livro de Meg Cabot, How to Be Popular (Como ser popular, 2008, Galera); e o escritor inglês William Boyd, cujos livros têm-me entretido muito, aceitou comissão da companhia inglesa de carros de luxo, Land Rover,  para escrever um conto em que este carro fosse presença necessária.  O debate persiste.  Mas a esta altura, por que eu estaria trazendo este assunto à tona na resenha de As Vitoriosas de Laetitia Colombani?

 

 

 

As vitoriosas

 

 

 

O motivo é simples: temos  a história, do surgimento do Exército da Salvação, de maneira didática, gratuita e tediosa, no início do livro. Parece matéria comprada, ou direta de um press release, para alavancar fundos para as boas ações da instituição.  Não fosse isso suficiente, temos por outro lado a história do Palais de Femmes de Paris, uma casa de abrigo para mulheres, mantida pelo Exército da Salvação, e reaberta em 2011.  As aventuras dos personagens em ambos os contextos não importam tanto quanto a elevação em pedestal de ouro dessa organização beneficente.  As personagens envolvidas nas histórias das habitantes do Palais de Femmes, não são exploradas a fundo, fazendo papel exclusivo de pano de fundo para a propaganda institucional.  Fraquíssimo.

Laetitia Colombani usa da mesma estratégia de seu livro anterior, A Trança, também resenhado neste blog, em que duas histórias aparentemente desconexas acabam se entrelaçando.  Mas se A Trança já tinha alguns problemas na costura das histórias, este livro eleva esse problema ao quadrado. 

 

 

 

Temos que ser boas em tudo o tempo todo", diz escritora sucesso na França -  15/03/2021 - UOL Universa

Laetitia Colombani

 

 

Não fosse isso estaríamos bem?  Não.  Discordo também da maneira de narrar da autora.  Colombani não deixa absolutamente nada para o leitor imaginar.  Tudo é dito antes mesmo de ser necessário, como se estivéssemos frente a um texto para aqueles que não conseguem se identificar com os personagens.   Aqui vai um exemplo:

É dominada por uma emoção incontrolável. Diante de Binta, ela cai no choro — ou melhor, desaba. Não são apenas lágrimas, é muito mais do que isso. Nelas há Jérémy, o filho que nunca vão ter, as meias que comprou sem saber por quê. Há o sofrimento de Binta, a profanação ocorrida quando tinha quatro anos, a menininha das balas, Khalidou que ficou na Guiné. Há tudo aquilo e muito mais, a tristeza que ela não consegue mais conter, que não consegue mais esconder.

Será que acompanhando o progresso da personagem já não saberíamos todas as emoções contidas nessas lágrimas?  Será que o leitor não conseguiria dar algo de si para complementar a leitura?  Por que termos cada possibilidade enunciada por nós?  Esta maneira de narrar, que exclui a contribuição emocional do leitor, é muito rasa.  E o mais interessante é que Colombani começa a narrativa desta história mais ou menos se colocando em pé de igualdade com grandes escritoras dos séculos XIX e XX:

“Já se via sentada diante de uma escrivaninha durante o resto da vida, um gato sobre os joelhos, como Colette, Um quarto só seu, como Virginia.”  ou  “Educadas em conventos, casavam-se com homens que não tinham escolhido. “Somos criadas como santas e depois vendidas como éguas”, escrevera George Sand, que recusava em altos brados o hímen que lhe queriam impor. ”   Mencionadas? Colette, Virginia Woolf e George Sand.  É isso mesmo, Colombani?

Li este livro porque foi selecionado em votação democrática por um dos meus grupos de leitura.  Não recomendo.  Use o mesmo tempo, a mesma energia para ler outra obra que vá lhe dar mais ferramentas para lidar com o mundo, conhecer valores, até mesmo se informar sobre o Exército da Salvação ou o Palais des Femmes.  Uso da Wikipedia certamente seria mais interessante.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.

 




Imagem de leitura — Annika Connor

27 07 2023

Em consideração a X

Annika Connor (Geórgia-Suécia, radicada EUA)

óleo sobre tela, 50 x 40 cm





Todo mundo lê…

26 07 2023
Ilustração Vernon Grant (EUA, 1902-1990)




Curiosidade literária

24 07 2023

Primeira fila orquestra, 1951

Edward Hopper (EUA, 1882-1965)

óleo sobre tela, 79 x 101 cm

Hirshhorn Museum and Sculpture Garden,

Washington DC

 

 

O escritor russo Boris Pasternak, autor do livro Doutor Zhivago, foi o primeiro escritor a recusar o Prêmio Nobel para Literatura.  Ele ganhou o prêmio em 1958 por conseguir, em linguagem poética contemporânea, dar continuidade à tradição épica da literatura russa.  A princípio, ele aceitou o prêmio, mas, pressionado pelo governo soviético, acabou recusando-o com medo que prendessem a ele e sua família.  Foi só trinta e um anos mais tarde, em 1989 que o filho de Pasternak foi à Suécia receber o prêmio por seu pai.