Kevin em verde, 2020
Dominic Chambers (EUA, 1993)
óleo sobre tela, 132 x 127 cm
Josien
Arjan van Gent (Holanda 1970)
óleo sobre tela, 50 x 65 cm
Meu grupo de leitura Ao Pé da Letra, já havia escolhido Não é um rio, de Selva Almada, com tradução de Samuel Titan, Jr, como leitura para o mês de abril, antes mesmo do livro ter sido anunciado como finalista do prêmio Booker Internacional deste ano. Há, além disso, a curiosidade deste livro estar competindo com o livro Torto Arado do escritor brasileiro Itamar Vieira Júnior, também finalista para o mesmo prêmio. O grupo leu o livro brasileiro em fevereiro de 2021. Ainda brincamos, no nosso encontro de sábado, que mais uma vez estamos diante de uma competição Brasil x Argentina, já que a autora é natural da Argentina. Mas dessa vez a rixa não é no futebol.
Todos do grupo gostaram do livro. Ainda que alguns sentissem a necessidade de mais conteúdo de alguns personagens, mais complexidade na trama. O livro é pequeno, há aproximadas cem páginas de texto, e características de alguns personagens poderiam ser aprofundadas, fazendo o texto mais rico, mais tridimensional. Há personagens fortes e herméticos. As personagens mulheres parecem tão enigmáticas quanto o olhar masculino as julga.
Confesso que gostei do livro como está. Sem necessidade de aprofundamento dos personagens. Gosto de textos curtos, impactantes, que marcam pela elipse, por tudo que não dizem. É uma maneira de engajar o leitor que dá de si ao preencher as lacunas, ao entender o que foi sugerido. Selva Almada tem uma maneira de escrever lacônica. Não há uma palavra extra, nenhuma palavra extra para ênfase. A narrativa mistura passado e presente, e por isso requer atenção. Há muitos personagens. Há os personagens humanos e há pelo menos dois personagens não humanos: a floresta tropical, e o rio. Há um tantinho de realismo mágico, na dose certa. Para mim, fiz algumas notas para manter cada personagem no seu lugar, com sua história, algo raro em texto tão curto. Mas talvez isso tenha sido porque não li o livro de uma só vez, ainda que ele possa ser lido em duas horas.
Mas há uma característica dessa narrativa que me cativou e a colocou à frente de muitos livros; Esta é uma história que mostra a violência de pessoas comuns. Exibe o desprezo de muitos pela vida. A vida é algo barato. Dispensável, Todos morremos e sofremos. E revela o lugar deprimente das mulheres nesse enclave a que somos apresentados. É o retrato da bestialidade humana, das atrocidades cometidas no cotidiano de um grupo que se reserva um mínimo civilizatório. Apesar disso, a narrativa é tão precisa, tão pontual e hábil que aceitamos tudo sem espanto, sem choque. Nesse aspecto, Selva Almada se mostra uma mestre, sem igual. Não me surpreende que hoje seja conhecida como uma das grandes escritoras argentinas. Recomendo a leitura.
Verão em Redlyme, 1914
Willard Leroy Metcalf (EUA, 1858-1925)
óleo sobre tela
Florence Grimswold Museum, Old Lyme, CT
Mulher Lendo e Natureza Morta,1997
[Série Júlia]
Adilson Santos (Brasil, 1944)
óleo sobre tela, 81X 65 cm
Leitora no jardim, final da década de 1960
Cesare Peruzzi (Itália, 1894-1995)
óleo sobre tela, 33 x42 cm
Januário dos Santos Sabino
Quando o sol já no poente
Perde o brilho, a cor desmaia
E louca vaga gemente
Se desenrola na praia;
Quando alegre o coleirinho,
No galho da pitangueira,
Trina à beira do seu ninho
Doce canção feiticeira;
Quando a flor n’haste pendida,
Mais grato perfume exala,
E a natureza sentida
Como que, cantando fala:
Eu sinto, minha alma então
Divagar na imensidade
Dos cismares da paixão,
Levada pela saudade;
Lembra-me o tempo encantado,
Que eu a teu lado passei…
Ah!… com então enlevado,
No teu amor me inspirei!
Minha vida que então era,
Arruinado jardim,
Transformou-se em primavera,
Teve rosas e jasmim;
E as ondas procelosas,
Do mar de minha existência,
Se acalmaram bonançosas,
Ao teu sorrir de inocência;
Mas agora, — ave sem ninho,
A doudejar no deserto,
Cego em busca do caminho,
Com passo tardio e incerto;
Lembrando esse momento,
De tão venturosa idade,
Só encontro um sentimento,
Uma palavra – saudade!
Revista O Cysne, ano I, nª 1, 1864
Januário dos Santos Sabino (Brasil, 1836?- 1900)