Leituras de 2022: A filha do fazedor de reis, Philippa Gregory, resenha

28 03 2022

per angelum induit, in hyacinthino pallio — loumargi: Quiet Read, Annie  Rose Laing. (1869 -...

Uma leitura silenciosa

Annie Rose Laing (Escócia, 1869-1946)

óleo sobre tela, 50 x 76 cm

A Guerra das Rosas preenche um capítulo penoso de minha vida escolar.  Decepcionada com a matéria de história, com o decorar de datas e nomes de príncipes desconhecidos; desencantada pelo meu raso conhecimento da era medieval, passei frustrada e desgostosa por não entender a importância das trocas de poder europeias, de suas batalhas infindáveis.  Nada disso fazia parte dos meus interesses.  Aulas de história obrigatórias e enfadonhas, numa época em que mesmo em um dos melhores colégios do país, não havia o suporte  audiovisual necessário para seduzir a adolescente rebelde.  Parecia perda de tempo.  Aos treze anos, o assunto se tornou um pesadelo de memorização de datas e nomes sem sentido.  Ironicamente,  acabei me profissionalizando como historiadora da arte e hoje, sou totalmente fascinada com as alianças e trocas de poder durante a baixa idade média, com as intrigas das cortes francesas e inglesas da época, além de me deleitar com a beleza dos manuscritos repletos de iluminuras que fazem parte do período.

Philippa Gregory se comprometeu a cobrir a Guerra das Rosas, vista de quatro ângulos diferentes, de acordo com as rainhas envolvidas. Dedicou um volume para cada uma delas.  É visão quase cubista das batalhas que aconteceram nos trinta e dois anos da guerra: o mesmo evento por ângulos diferentes. Ataques violentos, conflitos esmagadores, traições, trocas de governança de um lado e outro, acordos quebrados, pouca lealdade e a cobiça na cabeça de todos os personagens enriquecem essa série e explicam para o leitor moderno os motivos dessas figuras históricas para tanta ferocidade. Em cada livro, vemos a mesma guerra, suas batalhas episódicas, iniciadas por príncipes, reis, governantes. Pontos de vista diferentes na leitura desses volumes trazem variedade de ângulos na compreensão desse ciclo complexo, delineando ambições entre membros das mesmas famílias. Esses romances são independentes, não precisamos ter lido em ordem ou ter lido todos para entendermos o conteúdo e desenvolvimento da história de cada um.

Em A filha do Fazedor de Reis, tradução de Patrícia Cardoso, acompanhamos a corte de Eduardo IV, época em que Richard Neville, conde de Warwick, era o homem mais poderoso e mais rico da Inglaterra, conhecido como O Fazedor de Reis (The Kingmaker).  Ambicioso, deseja obter total domínio do governo. Mas foi traído pelo rei que ele mesmo colocou no trono.  Inconformado, não hesita em negociar os casamentos de suas próprias filhas, Anne e Isabel, de modo que lhe seja vantajoso.  Philippa Gregory escolhe narrar esta versão da Guerra das Rosas, através da voz de Anne, que eventualmente se torna uma das rainhas responsáveis pelas batalhas que caracterizam a guerra entre primos. Como em outras ficções históricas de Philippa Gregory a narrativa é direta e fácil de ser seguida, com capítulos pequenos, cheios de ação, em ritmo acelerado.

Gosto de ficção histórica.  As narrativas de Philippa Gregory têm sucesso porque além de explicarem os motivos das personalidades envolvidas na trama, elas também aproximam, quando podem, detalhes da vida cotidiana que são facilmente identificados como semelhantes ao dia a dia do mundo moderno.  Aqui, por exemplo:

“Depois da refeição, quando Ricardo se retira para seu quarto e se senta junto à lareira para ler, vou com Eduardo para a torre infantil e o vejo ser despido e posto na cama. É neste momento, quando ele acabou de tomar banho e tem um cheiro doce, quando seu rosto está macio e branco como o linho de seu travesseiro, que o beijo e sei o que é amar alguém mais do que a própria vida.”

Philippa Gregory

 

Parece uma cena contemporânea, cena de filme, de anúncio televisivo. Primeiro, o marido que se recolhe para ler próximo à lareira no quarto.  Vamos nos lembrar que só os nobres e ricos teriam, no final do século XV, livros impressos na Inglaterra, país em que o primeiro livro impresso foi em 1473,  Antologia de histórias de Troia, de Raoul Lefèvre, traduzido e publicado por William Caxton, o primeiro editor inglês a publicar livros usando caracteres móveis.  A cena continua, descrita no mesmo tom casual,  mostrando a preocupação de Anne com o filho pequeno, que ela gosta de acarinhar depois do banho. Nobres e reis banhavam-se com frequência, muitas vezes com banhos perfumados com ervas medicinais.  Não era uma atividade diária para o cidadão comum, que na maioria das vezes teria seu banho de imersão em lugares públicos, menor número de vezes por semana.  No entanto, o leitor consegue se abstrair dessa realidade (que não é mencionada pela autora) e imaginar facilmente as cenas descritas nos castelos entre os nobres, porque elas são semelhantes às cenas e preocupações que teríamos nos dias de hoje.

Trazer os detalhes de outrora com a familiaridade do que conhecemos hoje é uma das habilidades de Philippa Gregory que a fazem leitura assídua por aqueles que gostam de ficção histórica.  Ação e compreensão dos sentimentos desses personagens conhecidos nos livros de história ajudam a humanizá-los e a fixar em nossa memória eventos, guerras, batalhas que teriam pouca prioridade de outra feita.

Bom entretenimento.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.

 

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DNA de Ricardo III sugere infidelidade histórica

3 12 2014

 

King_Richard_III_from_NPGRicardo III, rei da Inglaterra, 1452-1485.

Pintura anônima do final do século XV.

National Portrait Gallery, Londres

 

Ricardo III, figura controversa na história da Inglaterra, protagonista cruel de uma das peças teatrais de William Shakespeare, nunca foi tão popular quanto no século XXI, quase 700 anos depois de sua morte. Uma morte, lembre-se, que não só gerou a Guerra das Rosas entre as linhas familiares  dos ducados de Lancaster e de York mas também colocou um ponto final à linha Plantagenet no trono inglês.  O final da guerra traz como sabemos o início à linhagem Tudor, com Henrique VII no trono.

O único rei da Inglaterra a morrer no campo de batalha, Ricardo III teve os restos mortais descobertos  em 2012, no sítio da antiga Igreja de Grey Friars, incendiada a mando de Henrique VIII, na época da dissolução dos monastérios. Ricardo III havia sido enterrado às pressas, sem pompa, durante a batalha.  Com a destruição da igreja e de seu cemitério anos depois o local não havia sido registrado pela História.

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Há dois anos a descoberta de seus restos mortais, examinados e identificados através de exames de DNA, trouxe uma pequena revolução no estudo da história da Inglaterra por confirmar alguns traços físicos de Ricardo III e também descartar outras tantas teorias levantadas por estudiosos do final da época medieval inglesa.

Hoje, no entanto, Ricardo III volta às manchetes.  Sua linhagem parece não ter sido tão pura quanto se pensava.  Alguém, do lado da família de seu pai, Eduardo V, teve um caso amoroso, que se tornou séria infidelidade, com consequências históricas.  Este intruso, que não sabemos ainda quem é, se infiltrou na torre do castelo, balançou o coração da donzela e permaneceu no DNA de Ricardo III.  Um pouco tarde para se mudar o resultado da Guerra das Rosas, mas uma curiosidade que, sem dúvida, levará a muitas especulações mudando até certo ponto nossos preconceitos sobre a vida cotidiana nos castelos medievais.

 

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