Impressões sobre a festa, na Bahia, no aniversário do Imperador D. Pedro II, 1855

4 01 2011

Mural no Teatro João Caetano, 1931

[restaurado e modificado pelo próprio autor em 1964]

Emiliano Di Cavalcanti ( Brasil, 1897-1976)

óleo, 4,5m x 5,5m

Praça Tiradentes,  Rio de Janeiro

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Hoje, perambulando pelos meus livros voltei a ler algumas passagens de viajantes pelo Brasil ( uma das minhas leituras prediletas, assim como biografias) e me deparei com essa interessante descrição da festa de aniversário do Imperador D. Pedro II, celebrada na Bahia.  O texto é do Dr. Daniel P.  Kidder, que estava na Bahia na ocasião.  Ele e seu amigo James C. Fletcher escreveram O Brasil e os Brasileiros: esboço histórico e descritivo, que foi pubicado no Brasil em São Paulo, em 1941, pela Cia Editora Nacional com tradução de Elias Dolianiti.  A minha fonte, no entanto, é o livro  Coqueiros e Chapadões: Sergipe e Bahia, uma coletânea de textos  feita por Ernani Silva Bruno, com organização de Diaulas Riedel, publicado em 1959 peloa Editora Cultrix de São Paulo, capítulo de narrativa do Reverendo  norte-americano James C. Fletcher, que esteve percorrendo o Brasil como missionário,  entre os anos de 1851 e 1865.  O título dado a este texto é Ladeiras e Igrejas ( Na Bahia de Todos os Santos, 1855).  Espero que vocês gostem tanto quanto eu gostei.  A meu ver já se esboçavam muito bem algumas características bem brasileiras.  Numa época em que as mulheres ainda se vestiam com pesadas mantilhas, a festa de aniversário do imperador parece uma ocasião sem igual para abrir uma brecha nas pesadas regras sociais da época.  Note-se a mistura de raças e de classes sociais assim como a música como traço de união entre os brasileiros. 

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“A calma das noites de verão produz sempre um encantamento sobre os nossos sentidos, mas havia uma expressão especial naquele espetáculo.  Não somente o observar se podia deleitar com as variadas e engenhosas exibições de luz artificial em torno dele, como também, erguendo seus olhos para o empírio, podia aí contemplar a obra do Todo Poderoso, tão gloriosamente desdobrado nas brilhantes constelações do céu austral.

A riqueza, o luxo e a beleza das baianas nunca se ostentaram com tanta felicidade como no seio da multidão que formada de milhares de pessoas assistia e tomava parte no espetáculo.  Que melhor ocasião se ofereceria do que aquela para um espírito disposto a filosofar sobre as coisas humanas!  Da velhice até a alegre juventude, nenhuma idade ou situação da vida deixava de estar ali representada.

O militar e o civil, o titular, o milionário e o escravo, todos se misturavam em um prazer comum.  Nunca tão numerosa freqüência de elementos femininos havia sido observada, emprestando sua graça a uma festividade pública.  Mães, filhas, esposas, irmãs, que raramente tinham permissão para deixar o ambiente doméstico, exceto para comparecer à missa da manhã, penduravam-se aos braços de seus cavalheiros e olhavam com indisfarçável espanto para os encantos que mais pareciam mágica, de tudo o que viam diante de seus olhos e em volta de si.  As cabeleiras negras e ondeantes, os olhos mais negros ainda e faiscantes, de uma beldade brasileira, juntamente com sua face às vezes também levemente sombreada, mostravam-se com grande encanto, tanto maior porque não as escondiam as abas do chapéu da moda.  As dobras graciosas de suas mantilhas, ou do rico e finíssimo véu que algumas vezes as substitui, usado de maneira indescritível, por cima do largo, alto e artístico chapéu que lhe adorna a cabeça, dificilmente pode ser imitado por uma moda estrangeira.  Todavia, o forte de uma dama brasileira está no seu violão, e nas doces modinhas que ela canta acompanhando-lhe as notas.”

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Brinquedos, poesia infantil de Afonso Schmidt

7 12 2010

 

Joyeux Noel, cartão de Natal francês da virada do século XX.

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Brinquedos

                                 Afonso Schmidt

São Nicolau de barbas brancas,

de alto capuz beneditino,

nas costas levava um grande saco

e vai seguindo o seu destino.

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É muito tarde.  Nas janelas,

há sapatinhos ao sereno:

a cada espera corresponde

o sonho leve de um pequeno.

Súbito, estaca na calçada;

uma janela está vazia

e, pelas frinchas de uma porta,

chegam rumores de alegria.

O Santo pára; está amuado,

acha que o mundo é muito mau

e estas crianças já não querem

esperar por São Nicolau.

Mas, logo fica curioso,

quer descobrir porque naquela

casa não há um sapatinho

no canto escuro da janela.

Vai espiar pelo buraco

da fechadura…  – Pobrezinhos,

são os meninos do trapeiro,

nunca tiveram sapatinhos…

E vê, que à falta de bonecas,

eles divertem o casal,

enquanto o avô fuma num canto,

São Nicolau, mas de avental…

Todos estão muito contentes

o Santo ri de olhos molhados

e vai seguindo à luz branquinha

do plenilúnio nos telhados.

 Pisa de leve sobre as folhas,

diz a sorrir palavras mansas:

“Essas crianças são os brinquedos

 e esses papais são as crianças…”

Em: Poesia brasileira para a infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1968.

VOCABULÁRIO

Beneditino – é o nome que se dá aos frades da Ordem de São Bento.  Na poesia a palavra é usada como adjetivo de capuz.

Plenilúnio — a lua cheia.

 

Afonso Schmidt (Cubatão, SP 1890 – SP, SP 1964) poeta, romancista, contista, biógrafo, jornalista.  Como jornalista trabalhou para  A Voz do Povo, em 1920, no Rio de Janeiro.  Para Folha da Noite,  Diário de Santos e A Tribuna, em Santos. Em São Paulo trabalhou na Folha da Noite e O Estado de S.Paulo.  Neste último trabalhou de 1924 até 1963.  Recebeu o prêmio da  revista O Cruzeiro em 1950 pelo romance Menino Felipe.   A União Brasileira de Escritores lhe premiou com o Juca Pato – Intelectual do Ano em 1963.  Foi sócio fundador do Sindicato dos Jornalistas do Estado de S. Paulo, membro da Academia Paulista de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

Obras: 

Lírios roxos, 1904

Miniaturas, 1905

Janelas Abertas (poesia), 1911

Lusitânia (ato em verso), 1916

Evangelho dos Livres (panfleto), 1920

Mocidade, 1921

Brutalidade (contos), 1922

Ao relento, 1922

Janelas Abertas (versos) – Edição Aumentada (Menção Honrosa da Academia Brasileira de Letras, 1923

Os Impunes (novelas), 1923

As Levianas (peça em três atos), 1925

O Dragão e as Virgens (romance, 1927

Cânticos Revolucionários (panfletos), 1930

A nova conflagração, 1931

Garoa, 1931

Os Negros (crônicas), 1932

Garoa (poesia), 1932

Poesias, 1934

Carne para Canhão (peça em três atos), 1934

Pirapora (contos), 1934

Curiango (contos), 1935

Zanzalás (uma novela de tempos futuros), 1936

A Vida de Paulo Eiró (biografia), 1940

A Marcha (Romance da Abolição), 1941

O Tesouro de Cananéia (contos), 1941

No Reino do Céu (novela), 1942

A Sombra de Júlio Frank (biografia),1942

A árvore das lágrimas, 1942

Colônia Cecília (Uma aventura anarquista na América), 1942

O Assalto (Romance do ouro e do sal), 1945

Poesias (edição definitiva), 1945.

O Retrato de Valentina (novela), 1947

A Primeira Viagem (viagem), 1947

Menino Felipe (romance), 1950

Saltimbancos (romance), 1950

Aventuras de Indalécio (romance), 1951

Os Boêmios (contos), 1952

Dedo nos Lábios (novelas), 1953

O Gigante Invisível (divulgação), 1953

Carantonhas (novela juvenil), s/d

São Paulo dos Meus Amores (crônicas), 1954

A Marcha (romance da Abolição,  história em quadrinhos), 1955

Mistérios de São Paulo (reminiscência), 1955

Bom Tempo (memórias), 1956

A Datilógrafa (romance), 1958

A Locomotiva (romance), 1960

Mirita e o Ladrão (romance), 1960

O Retrato de Valentina (novela), 1961

O Canudo, 1963

O enigma de João Ramalho, 1963

O passarinho verde, s/d

Zamir, s/d





10 hábitos simples para ajudar o planeta

30 11 2010

 

1. — Tem um carro? Cuide dele – e faça a manutenção do veículo. Um motor mal cuidado pode consumir 50% a mais de combustível, além de produzir 50% mais dióxido de carbono (CO2).

2. — Olho no pneu. Faça a calibragem a cada duas semanas pelo menos.

3. — Prefira veículos movidos a álcool ou os biocombustíveis. O álcool é uma fonte de energia renovável, ao contrário da gasolina, do diesel ou do gás.

4. — Em casa, substitua o ar-condicionado pelo ventilador.

5. — Não deixe muitos eletrodomésticos ligados ao mesmo tempo, principalmente se tiver mais de um para funções semelhantes, como geladeira e freezer.

6. — Troque as lâmpadas incandescentes pelas fluorescentes, que consomem cerca de três vezes menos energia e ainda podem durar até dez vezes mais. Ajuda também na redução da conta de luz.

7. — Não deixe luzes ou equipamentos ligados. Configure o computador, por exemplo, para que desligue seu monitor quando estiver em espera.

8. — Evite imprimir ou utilizar papel. Dê preferência ao e-mail e sempre que possível use papel reciclado. Separe papéis e papelão para reciclagem quando for descartá-los.

9. — Separe os materiais recicláveis, pois isso, alem de  reduzir a exploração de matéria-prima bruta, dispensa os gastos de energia e combustíveis fósseis no processo de fabricação e transporte.

10. — As árvores são importantes porque ajudam a absorver o CO2 da atmosfera, além de proporcionar sombra e amenizar a temperatura. Se plantadas perto de residências, por exemplo, elas ajudam a controlar o calor, que reduz o uso de condicionadores de ar ou ventiladores. Portanto, plante árvores!

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FONTE: Terra, meio ambiente





Troca-se um homem-aranha, poesia infantil de Roseana Murray

26 10 2010

Ilustração:  Homem aranha lendo, da campanha de leitura “Sem inspiração, sem futuro”, Marvel.

Troca-se um homem-aranha

Troca-se um homem-aranha de mentira

por uma aranha de verdade.

Uma aranha competente

que teça belas teias transparentes,

que pegue moscas, mosquitos

e não entenda nada de bandidos.

Uma aranha que seja

uma aranha simplesmente.

Em: Classificados Poéticos, Roseana Murray, Belo Horizonte, Migulim:1998 — 17ª edição.

 

Roseana Murray nasceu no Rio de Janeiro em 1950. Graduou-se em Literatura e Língua Francesa em 1973 (Universidade de Nancy/ Aliança Francesa).

Obras:

Poesia para crianças e jovens

Fábrica de Poesia, ed. Scipionne, 2008

Poemas e Comidinhas, com o Chef André Murray, ed. Paulus, S.P, 2008

Residência no Ar, ed. Paulus, 2007

No Cais do primeiro Amor, ed. Larousse, 2007

Desertos, ed. Objetiva, 2006. ( Finalista do Prêmio Jabuti ) – Altamente Recomedável FNLIJ, 2006

O traço e a traça ed. Scpionne, 2006.

O xale azul da sereia, ed. Larrousse, 2006.

O que cabe no bolso? ed. DCL, 2006.

Paisagens, ed. Lê, 2006.

Pêra, uva ou maçã ed. Scipione, 2005. (Catálogo de Bolonha 2006 e Acervo Básico, F.N.L.I.J).

Rios da Alegria, ed. Moderna, 2005. (Altamente Recomendável, F.N.L.I.J).

Poemas de Céu ed. Miguilim, 2005. (Antigo “Lições de Astronomia”).

Maria Fumaça Cheia de Graça, ed. Larousse, 2005.

Duas Amigas, ed. Paulus, 2005 (reedição).

Lua Cheia Amarela, ed. Dimensão 2004.

Caixinha de Música, ed. Manati, 2004. (Catálogo de Bolonha 2005)

Um Gato Marinheiro, ed. DCL, 2004.

Todas as Cores Dentro do Branco, ed. Nova Fronteira, 2004.

Recados do Corpo e da Alma, ed. FTD, 2003. (Altamente Recomendável F.N.L.I.J)

Luna, Merlin e Outros Habitantes, ed. Miguilim/ Ibeppe, 2002. (Altamente Recomendável, F.N.L.I.J. )

Jardins, ed. Manati, 2001. (Prêmio Academia Brasileira de Letras de Literatura Infantil 2002. )

Caminhos da Magia, ed. DCL, 2001.

Manual da Delicadeza, ed. FTD, 2001.

O Silêncio dos Descobrimentos,  com Elvira Vigna, ed. Paulus, 2000.

Receitas de Olhar, ed. F.T.D, 1997, ( Prêmio O Melhor de Poesia, F.N.L.I.J. )

Carona no Jipe, ed. Memórias Futuras, 1994 e ed. Salamandra, 2006

No final do Arco-Íris, ed. José Olímpio, 1994.

O Mar e os Sonhos, ed. Miguilim,1996, (Altamente Recomendável para a Criança, F.N.L.I.J. )

Paisagens, ed. Lê, 1996.

Felicidade, ed. F.T.D, 1995, (Altamente Recomendável  para a Criança, F.N.L.I.J. )

De que riem os palhaços ed. Memórias Futuras, 1995. Esgotado

Tantos Medos e Outras Coragens, ed. F.T.D, 1994 ( Prêmio O Melhor de Poesia F.N.L.I.J e Lista de Honra do I.B.B.Y. ) Reedição com novas ilustrações em 2007

Qual a Palavra? ed. Nova Fronteira, 1994.

Casas, ed. Formato, 1994. Editado no México, ed. Alfaguara

Dia e Noite, ed. Memórias Futuras, 1994. Esgotado

Artes e Ofícios, ed. F.T.D, 1990, (Prêmio A.P.C.A. e Altamente Recomendável para a Criança, F.N.L.I.J. ) Reedição com novas ilustrações em 2007

Falando de Pássaros e Gatos, editora Paulus, 1987.

Fruta no Ponto, ed. F.T.D, 1986. (Prêmio O Melhor de Poesia. F.N.L.I.J.

Fardo de Carinho, ed. Murinho, 1980 e ed. Lê, 1985.

O Circo, ed. Miguilim/ Ibeppe, 1985.

Lições de Astronomia, ed. Memórias Futuras, 1985. Esgotado

Classificados Poéticos, ed. Miguilim/ Ibeppe, 1984, (Altamente Recomendável para a Criança, F.N.L.I.J, e finalista do Prêmio Bienal. )

No Mundo da Lua, ed. Miguilim/ Ibeppe, 1983.

Contos para crianças e jovens

Território de Sonhos, ed. Rocco, Altamente Recomendável FNLIJ, 2006.

Sete Sonhos e um Amigo, ed. FTD, 2004.

Pequenos Contos de Leves Assombros, ed. Quinteto, 2003.

Um Avô e seu Neto, ed. Moderna, 2000.

Terremoto Furacão ed. Paulus, 2000.

Um cachorro para Maya, ed Salamandra, 2000.

Uma História de Fadas e Elfos, ed. Miguilim / Ibeppe, 1998, (Acervo Básico da F.N.L.I.J – criança ).

Três Velhinhas tão velhinhas, ed. Miguilim / Ibeppe, 1996

O Fio da Meada, ed. Memórias Futuras, 1994. Ed. Paulus, 2002

Retratos, ed. Miguilim/ Ibeppe, 1990, Altamente Recomendável para a Criança, F.N.L.I.J. )

O Buraco no Céu ed. Memórias Futuras, 1989.

Poesia

Variações sobre Silêncio e Cordas, com desenhos de Elvira Vigna. E-BOOK, edição artesanal Maurício Rosa, Visconde de Mauá, maio de 2008.

Poesia essencial, ed. Manati, 2002.

15 poemas no livro Um Deus para Dois Mil, de Juan Arias, ed. Vozes (em seis línguas) 1999.

Caravana, inédito, vencedor do Concurso Cidade de Belo Horizonte, 1994.

Pássaros do Absurdo, ed. Tchê ,1990, vencedor do Concurso da Associação Gaúcha de Escritores.

Paredes Vazadas, ed. Memórias Futuras, 1988. Esgotado

Viagens , ed. memórias Futuras, 1984.

Revista Poesia Sempre.

Revista Microfisuras, Espanha

Correspondência

Porta a porta, com Suzana Vargas, ed. Saraiva, 1998, ?Acervo Básico da F.N.L.I.J – jovem).





Meu foco nas eleições presidenciais: a educação

14 10 2010

Luminosidade de por do sol, Espanha

Albert Moulton Foweraker(Inglaterra, 1873-1942)

Aquarela

Foi na década de 80, a primeira vez que estive na Espanha.  Passei oito maravilhosos dias em Madri, onde todas as manhãs visitava o Museu do Prado.   As tardes eram passadas fazendo as mais diversas visitas turísticas  e compras para minha futura casa.  Estávamos a caminho da Argélia, onde meu marido iria ensinar na Universidade de Oran e haviam nos aconselhado a comprar alguns aparelhos eletro-domésticos na Espanha, porque a voltagem era a mesma.  É claro que não nos limitamos aos aparelhos elétricos porque havia muita coisas maravilhosa sendo oferecida  nas grandes lojas de departamentos, entre elas El Corte Ingles.   Foi uma semana mágica, que marcou a passagem para uma nova vida, um marco.  Foi um período de suspensão entre a vida que havíamos levado até então e a que nos esperava num país totalmente desconhecido, num outro continente, com outra religião.  A Espanha nos fascinou e foi para ela que voltamos sempre, inúmeras vezes, não só no período em que moramos na Argélia, como quando pudemos, até hoje acabamos achando uma brecha em qualquer roteiro para lá voltarmos.  A Espanha é um país para o qual vou com alegria e excitação.  Já pedi para passar lá e consegui, dois aniversários, um em Salamanca e outro em San Tiago de Compostela.

Na época da nossa primeira visita,  a Espanha ainda não fazia parte da Comunidade Européia.  Ao longo desses quase 30 anos, vimos, através das nossas visitas, uma grande diferença econômica e social impulsionando o país.   Seu povo é um dos mais apaixonados e apaixonantes do mundo.  Tem uma energia e um orgulho intoxicantes.  Os espanhóis têm uma história riquíssima e muitos dos mais belos recantos turísticos do mundo.  Nas nossas últimas viagens testemunhamos, com prazer, o desenvolvimento econômico e social do país evidente em todo canto, nas ruas, nas firmas, no governo.  Era assim, até recentemente.  Ainda não estive lá depois da crise mundial, mas até então a Espanha crescia a olhos vistos.

Portanto, foi com excitação que me envolvi com a leitura nesse fim de semana de um relato de viagem de Penelope Chetwode, em Two Middle-aged Ladies in Andalusia [John Murray Travel Classics: 2002] — Duas senhoras de meia-idade na Andalusia —  uma nova edição do livro publicado em 1961, em que a autora [ uma das senhoras de meia-idade mencionadas no título, uma inglesa de 51 anos – faz turismo pelos povoados do interior da Andaluzia,  montada na égua  de 12 anos de idade [a outra senhora de maia-idade],  Marquesa.  Gosto imensamente de relatos de viagem, uma área da literatura raramente encontrada no Brasil.  E gosto muito mais ainda desses relatos quando feitos por autores ingleses que, a meu ver, estão entre os mais bem humorados, irônicos e aventureiros que conheço.   Além do mais, a minha expectativa em ler esse livro foi ainda maior por ele se passar na região da Andaluzia, que com a Galícia, fazem parte dos meus locais favoritos no mundo, locais para onde sempre retornarei com prazer e alegria.

O livro de Penelope Chetwode não me desapontou.  É irônico, cheio de aventuras, e pinta uma Espanha desconhecida para mim. Em outubro/novembro de 1961 – período de viagem da autora — o mundo era muito diferente.  Estávamos, emocionalmente e economicamente, fechando a década de 50.  Aqui no Brasil, a nossa capital já era Brasília e o Rio de Janeiro virara Estado da Guanabara.   Jânio Quadros havia renunciado em agosto daquele ano.  Os Beatles não haviam tomado o mundo com suas músicas.  O homem ainda não desembarcara na Lua.  Não havia radinho de pilha.  John F. Kennedy não havia sido eleito.   Ah, sim, e o ditador Francisco Franco ainda estava no poder na Espanha.    Vinte e poucos anos depois quando visitei Madri pela primeira vez, a realidade era bem diversa daquela descrita no livro de Penelope Chetwode.  Tudo mudou, rapidamente.

Numa das passagens da viagem de Penelope Chetwode dá para perceber o quanto a Espanha se modificou nesses últimos 50 anos.  Os que lêem o meu blogue sabem da minha preocupação com a educação, sobretudo a educação de mulheres.  Para mim, qualquer referência ao analfabetismo é sempre doloroso.  Assim, é natural que a passagem que cito abaixo tenha sido uma que me tocou de maneira profunda, a tradução do texto é minha.

[“In this village I at last discovered the Mass mystery in Spain: the church bell is rung three times.  First of all about three quarters of an hour before the Holy Sacrifice is due to start, then a second time about 20 minutes later, then the third and final time when the priest goes into the sacristy to vest.  If he has overslept, nobody minds because they go by the bells, but it is very easy to lose count and often people say to you,  “was that the second bell or the third?”  I went along to church at 9 a.m. and Mass started at 9:15, just after the third bell.  Half a dozen girls, aged about 12 or 13, sat in the front pew and one of them handed out dialogue Mass cards, called in Spanish Misa Participada.  The phonetic spelling, to try to get the people to pronounce the Latin correctly, was most extraordinary.  In addition to the girls, five or six women were present.  Only the girls and I, and the little boy serving the Mass, did the responses.  Obviously, the older women could not read.”]

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Nesse vilarejo finalmente descobri o mistério da Missa na Espanha: o sino da igreja toca três vezes.  Primeiro por volta de quinze minutos antes de o Serviço Sacro começar, depois uma segunda vez mais ou menos 20 minutos mais tarde, e pela terceira e última vez quando o padre vai para a sacristia colocar a veste.  Se ele dormir demais,ninguém se preocupa porque eles se atêm aos sinos, mas é muito fácil perder a conta e frequentemente as pessoas se perguntam, “esse foi o segundo ou o terceiro toque?”  Fui à igreja as nove da manhã e a Missa começou às nove e quinze, logo depois do terceiro toque.  Meia dúzia de meninas, de 12 ou 13 anos, sentava no primeiro banco e uma delas me passou o cartão com o diálogo da Missa, chamado em espanhol de “Missa Participada”.  A versão fonética, para fazer as pessoas pronunciarem o Latim corretamente, foi muito especial.  Além das meninas, cinco ou seis mulheres estavam presentes.  Só as meninas e eu, e o menino sacristão, respondemos.  Obviamente as mulheres mais velhas eram analfabetas.

Foi um momento em que parei para agradecer o desenvolvimento dos últimos cinqüenta anos na Espanha, porque hoje o analfabetismo por lá deve estar em declínio.  Sei que este é um retrato que não casa com a Espanha atual. Mas aquela realidade ainda parece muito próxima de nós – cinqüenta anos só – para que nos sintamos imunes ao que ela retrata.  Graças a Deus as coisas parecem ter mudado.

Por cá, no Brasil, as coisas também mudaram.  A mulher hoje tem um papel mais ativo na economia e supera os homens na escolaridade.  Mas, mesmo assim, os dois bilhões de reais usados pelo atual governo para combater o analfabetismo no país, não chegaram a reduzir nem em um por cento o número de pessoas incapazes de ler – e isso não conta aqueles que são funcionalmente analfabetos.  Apesar disso, temos que celebrar os avanços que fizemos.  Mas precisamos ficar de olho.  A alfabetização, por si só, não é, nem será suficiente, para proteger as gerações futuras.  E esta semana mesmo tivemos um alerta, que deve nos ajudar a ficar em estado de prontidão, pois o noticiário – no meu caso li no Estadão – mostra que mesmo no Brasil de hoje onde as mulheres têm um melhor índice de alfabetização do que os homens, seus salários, para o mesmo trabalho feito por eles é 27,7% menor. Como a  maioria dos lares brasileiros, hoje, é encabeçada por uma mulher, mesmo que ela seja alfabetizada e preparada, escolarizada as chances de seus filhos venham a ser bem sucedidos parecem periclitantes.  Precisamos sem dúvida pensar além da mera aprendizagem de nível básico ou médio.  Precisamos pensar além da bolsa isso ou da bolsa aquilo, nessas eleições.  O que importa é: qual é o melhor programa proposto para a educação?  Não adianta prometer ” o pulo que qualidade que eu darei no futuro…”   Essas promessas já ouvimos uma, duas, dezenas de vezes.  Quem está propondo algo viável?  Continuar o que tivemos pelos últimos oito anos e que não parece estar surtindo efeito, pode ser um erro do qual poderemos nos arrepender e muito.





As quatro operações: DIVISÃO, poesia infantil de Bastos Tigre

9 10 2010

Divisão

—                                   Bastos Tigre

—-

Operação que tem arte

É por certo a Divisão

Ela é que parte e reparte

Com justiça e retidão.

Dividendo, divisor,

Quociente e resto também.

Mas se a conta exata for,

Direi que resto não tem.

Se o divisor for maior

Do que o dividendo, então,

(A regra sei eu de cor)

O quociente é fração.

Se Deus e os homens amais

Dividi,  fazendo o bem:

Dá o que tendes demais

Aqueles que nada têm.

Em: Antologia Poética, vol. I, Rio de Janeiro, Ed. Francisco Alves: 1982





As quatro operações : MULTIPLICAÇÃO, poesia infantil de Bastos Tigre

9 10 2010

Multiplicação

            Bastos Tigre

Sou a Multiplicação.

Faço do “mais”, muito mais.

Numa espécie de adição

Tendo parcelas iguais.

Os dois fatores escrevo

E multiplicando os dois

Tenho os produtos e devo

A soma achar-lhes depois.

Se o dinheiro eu multiplico,

Muito bem isso me faz;

Mas não adianta ser rico

Faltando a saúde e a paz.

Em: Antologia Poética, vol. I, Rio de Janeiro, Ed. Francisco Alves: 1982





As quatro operações : SUBTRAÇÃO, poesia infantil de Bastos Tigre

9 10 2010

Subtração

            Bastos Tigre

Eu sou a Subtração.

É diminuir o meu fim.

 Saibam que essa operação

Não tem segredos para mim.

Dez menos sete são três;

Seis menos dois, quatro são.

E, de quatro tirar seis.

Pode ser?  Não pode, não!

Mas infeliz de quem ousa

Cometer o crime feio

De subtrair uma cousa

Que pertence ao bolso alheio.

Em: Antologia Poética, vol. I, Rio de Janeiro, Ed. Francisco Alves: 1982





As quatro operações : ADIÇÃO, poesia infantil de Bastos Tigre

9 10 2010

 

Adição

            Bastos Tigre

— 

Eu sou a Adição.  Reúno

As parcelas e, afinal,

Como sou um bom aluno,

Depressa encontro o total.

 —-

Quatro mais cinco são nove;

Mais treze são vinte e dois

E se quiserem que eu prove,

A prova farei depois.

 —–

A mestra nunca se esquece

Desta regra nos lembrar:

Só coisas da mesma espécie

É que podemos somar.

 —–

Somando pêra e mamão,

Uva, banana e laranja,

Em lugar de uma adição

Uma salada se arranja.

 —–

—–

Em: Antologia Poética, vol. I, Rio de Janeiro, Ed. Francisco Alves: 1982





Poesia infantil: Dona Joaninha de Júlio Saraiva

3 10 2010

Ilustração de Maurício de Sousa.

Dona Joaninha

— 

                                                    Júlio Saraiva

A Dona Joaninha

é muito gracinha.

Toda falante,

sai manhãzinha

sempre elegante.

Vestido vermelho,

cheio de bolinhas.

Sapato de salto,

chapéu e sombrinha.

Se não vai à feira

nem ao mercado,

ela vai se encontrar

com o namorado.

Ele é um joaninho

inteligente

e estudado.

Dizem até

que tem diploma

de advogado.

Júlio Saraiva, (São Paulo, Brasil, 1956) Jornalista, poeta, dramaturgo, cronista e letrista de música popular.   Vive em São Paulo.

Obras:

Mímica do Vento, poesia, 1990

Liturgia dos Náufragos, poesia, 2002

BLOG: http://currupiao.blogspot.com/