Resenha: “Estamos todos completamente transtornados”, Karen Joy Fowler

24 06 2018

 

 

461px-Henri_Rousseau_-_Two_Monkeys_in_the_JungleDois macacos na floresta, 1909

Henri Rousseau [Le Douanier](França, 1844 – 1910)

óleo sobre tela, 64 x 50 cm

Coleção Particular

 

 

Houve profundo conflito entre minhas expectativas e o resultado da leitura de Estamos todos completamente transtornados, de Karen Joy Fowler.  Obra aclamada, finalista do Man Booker Prize, vencedora do Pen/Faulkner Award não passou de uma leitura mediana, às vezes irritante pelo gancho, muito forçado, pelo jogo de esconde-esconde com o leitor, numa tentativa de atiçar o interesse até descobrirmos, só na página 88, (nesta tradução de Geni Hirata), o verdadeiro segredo da  irmã desaparecida.

A narrativa é fácil de ser seguida, a linguagem é moderna quase coloquial mas, como a própria narradora admite, a história começa no meio.  Esse ir e vir do passado ao presente e ao meio da história, essa narrativa picada, cortada em pedacinhos,  não adiciona nem tem grande valor estilístico. É obra plena em humor. Mostra personagens interessantes. Mas a profusão de eventos, de memórias, de atividades de personagens secundários, que recebem nome e sobrenome, descrições detalhadas e inúteis, é irritante. Há uma abundância do desnecessário, detalhes que distraem  a atenção do drama familiar acumulam curiosidades factuais dispensáveis, veladas pela constante mudança na linha do tempo.  Mais de uma vez questionei se iria ou não terminar a leitura.

 

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Não gosto de literatura com agenda, ou seja, literatura que defende um ponto de vista político, luta social, direitos humanos, direitos dos animais, religiões, e outros assuntos do dia a dia. Ensaios, dissertações, artigos em revistas especializadas se prestam para isso.  A boa literatura mostra, não pontifica.  A literatura perde quando se encontra com estas “boas intenções” dos autores.  A narrativa em defesa de um argumento empobrece e estreita a mente, características que se opõem à literatura. Livros com agendas temáticas parecem-se com obras de autoajuda ou religiosas. Infelizmente, Estamos todos completamente transtornados pertence a este grupo.  Por usar o subterfúgio da narrativa na primeira pessoa, a autora evita argumentos contrários. Temos então uma obra proselitista, de catequese. Uma história, um romance, que não passa de apostolado, de propaganda de causa, com excesso de números, dados, informações científicas, sem disfarce.

 

karen joy fowlerKaren Joy Fowler

 

Não vou revelar a causa, nem a virada da narrativa quando descobrimos a verdadeira natureza de Fern,  irmã de Rosemary, filha caçula da família Cooke. Mas não gostei de me sentir manipulada em diversos níveis.  Primeiro nesta descoberta, e depois na pregação, no partidismo em favor da agenda da autora, que muito me comove, e com a qual posso até concordar plenamente.  No entanto, submeter valor literário a qualquer causa como esta, é depreciar a imensa porta para o auto conhecimento, para a imaginação, para a maturação emocional revelados pela leitura.  Há aqui uma reversão de valores que acho detestável.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Flores para um sábado perfeito!

23 06 2018

 

 

GEORGINA DE ALBUQUERQUE - Vaso de Flores, O.S.T, assinado no canto inferior esquerdo.45x37 cm.Vaso de flores

Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885-1962)

óleo sobre tela, 45 x 37 cm





Sobre escritores e suas biografias, texto de Hanif Kureishi

14 06 2018

 

 

 

Dennis William Dring (1904-1990) Royaume-Uni,William D. DringMoça lendo

Dennis William Dring (GB, 1904 – 1990)

óleo sobre tela

 

 

“Sentado ao lado do grande homem, Harry ruminava pensamentos sobre os escritores que crescera adorando. Forster, fazendo em pedaços o colonialismo, absurdo dos absurdos; um Orwell sério; Graham Greene, errático, correndo atrás de encrenca e de morte; Evelyn Waugh, que via quase tudo, e odiava o que via. Mamoon era um dos últimos desse tipo, e de mérito equiparável, na opinião de Harry. E Harry estava na casa dele; andava a seu lado e discutia a sério com ele; ia escrever sobre a vida dele. Seus nomes ficariam unidos para sempre; ele teria uma diminuta fatia do poder do velho. Mas a biografia havia aprendido muito com a imprensa de escândalos; tinha sido sugada na direção da imundície, um processo de perda de qualquer ilusão.  Desmascarar era o grande lance, deixando apenas ossos nus. Você acha que gosta desse escritor? Pois veja como ele maltratou a esposa, os filhos e a amante. Ele até gostava de homens! Tenha ódio dele, tenha ódio de sua obra — de qualquer lado que a gente olhe o sujeito, está tudo acabado. A questão agora era outra: o que podemos perdoar nos outros? Até onde eles podem ir antes que a nossa fé neles vire pó?”

 

 

Em: A última palavra, Hanif Kureishi, São Paulo, Cia das Letras: 2016, p. 43





11 de junho: Batalha Naval de Riachuelo

11 06 2018

 

 

1024px-Palácio_Pedro_Ernesto_-_Batalha_do_Riachuelo_-_cópiaBatalha naval de Riachuelo, 1883

Victor Meirelles (Brasil, 1832 — 1903)

óleo sobre tela, 420 x 820 cm

Museu Histórico Nacional, RJ

 

 

Batalha Naval de Riachuelo aconteceu no dia 11 de junho de 1865, durante a Guerra do Paraguai, no Rio da Prata.





Rio de Janeiro, minha cidade natal!

8 06 2018

 

 

Paisagem do Rio de Janeiro com o Palácio Monroe Manoel Santiago (Brasil, 1897-1987) óleo sobre madeira, 47 x 57 cmPaisagem do Rio de Janeiro com o Palácio Monroe

Manoel Santiago (Brasil, 1897-1987)

óleo sobre madeira, 47 x 57 cm

 

 





Resenha: “O círculo dos Mahé”, Georges Simenon

6 06 2018

 

 

 

Vista da ilha de PoquerollesVista da ilha de Porquerolles

Albert Marquet (França, 1875 – 1947)

óleo sobre tela,   33 x 41 cm

 

 

Engana-se quem se aproximar de O circulo dos Mahé pensando em encontrar Inspetor Maigret solucionando crimes.  Este é um dos romances de Georges Simenon chamados “dur” [Duros] , em geral desconhecidos no Brasil, mas que ajudaram a caracterizar o autor como um dos grandes escritores de língua francesa do século passado.  Quase um conto,  a história não ocupa mais do que 120 páginas, — traduzido por André Telles, e traz com ela o espírito de pós-guerra  europeu, um mundo sem grandes esperanças, cinzento e amargo. Passado no final da década de quarenta — originalmente publicada em 1946,  Simenon retrata um homem de trinta e cinco anos,  que hoje seria jovem, mas na época considerado maduro. Médico, com família: esposa, filhos e mãe dominadora que tudo decide por ele.  Um homem de espírito fraco, introvertido, que preenche o papel para o qual foi preparado e ordenado por sua mãe.

 

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Dr. François Mahé  constrói sistematicamente e sem entusiasmo uma clínica medianamente próspera. Parte deste sucesso inclui férias anuais para a família, na costa mediterrânea. Certa vez passam o período de folga em Porquerolles, ilha ao sul da França.  O verão lá é quente, o ar não se move, o sol inclemente.  O local não é aprazível, mesmo assim, ano após ano ele e a família retornam, porque na primeira visita, a que abre o texto para nós, Dr. Mahé é confrontado com o que não espera, com a vida como outros vivem.  Chamado para atender uma mulher à beira da morte, Dr. Mahé se encanta com a filha desta paciente, meninota ainda, adolescente, que se transforma em mulher com a passagem dos anos e repetidas férias em Porquerolles. A atração que sente é controlada e fantasiosa.  Tenta, sem sucesso, macular a imagem da moça em sua mente ao sugerir que o sobrinho a conquiste.  Mas ela é mais do que um fascínio, ela acentua, para ele e para nós leitores,  seu próprio descontentamento com o casamento, desagrado com cotidiano,  monotonia e  tédio da vida social e enfado com a profissão. Depois da morte de sua mãe esses sentimentos parecem voltear em espiral a seu redor.  Até que uma decisão é tomada.  Surpreendente mas lógica.

 

simenon_0889053001334762410George Simenon

 

A arte de Georges Simenon está no poder de síntese, na narrativa que mostra e não rotula, no retrato psicológico feito pela ação ou marasmo de seus personagens. Nada é extra, não há cena descartável.  E no fim de uns poucos parágrafos temos toda angústia do personagem, a carência de sentimentos, o acanhamento de decisões, o dissabor com a vida, o confinamento do homem na família e nos poucos amigos, a asfixia das obrigações. É um drama existencial. Extremamente forte, O círculo dos Mahé,  revela um delicado estudo da alma humana.  Belíssimo.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

6 06 2018

 

 

Francisco AURÉLIO DE FIGUEIREDO e Melo Natureza morta, sem data Aquarela sobre cartão,Natureza morta, s/d

Aurélio de Figueiredo (Brasil, 1854- 1916)

(Francisco Aurélio de Figueiredo e Mello)

aquarela sobre cartão





Nossas cidades: Paty do Alferes

5 06 2018

 

 

 

 

VIRGILIO TENORIO FILHO- Igreja de Nossa Senhora da Conceição, óleo sobre tela, 30 x 50 cm. No verso, assinado, titulado, localizado e datado- Paty dos Alferes 1965.Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Paty do Alferes, 1965

Virgílio Tenório Filho (Brasil)

óleo sobre tela, 30 x 50 cm





Eu, pintora: Kemi Onabule

31 05 2018

 

 

Kemi Onabule(GB)AUTORRETRATO, ost, 78 x 61cmAutorretrato

Kemi Onabule (Grã Bretanha, contemporânea)

óleo sobre tela, 78 x 61cm





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

30 05 2018

 

 

 

J. Procópio de Moraes (1929)Fruteira,1967,Óleo sobre tela,65 x 46 cmFruteira,1967

J. Procópio de Moraes ( Brasil, 1929)

Óleo sobre tela, 65 x 46 cm