
Centro da Barra, Torre da Av. Sernambetiba (série Rio 1974), 1974
Orlando Brito ( Brasil, 1920-1981)
Aquarela, 30 x 40 cm

Centro da Barra, Torre da Av. Sernambetiba (série Rio 1974), 1974
Orlando Brito ( Brasil, 1920-1981)
Aquarela, 30 x 40 cm
Mulher com papagaio, 1864
Paul Cézanne (França, 1839-1906)
óleo sobre tela, 28 x 20 cm
Coleção Particular
Há escritores que tentam mudar a forma literária e não têm sucesso. Expandir algo que já se estabeleceu há séculos é difícil. Já encontrei dezenas de livros cuja leitura encontra obstáculos: personagens que levam ícones no lugar de nomes à moda do cantor/compositor Prince; textos sem pontuação, sem parágrafos rolando com o objetivo de cascatearem aos nossos ouvidos, mas que ao término não passam de chuvas de granizo, pedras de gelo ferindo a fluidez da narrativa. Nada disso acontece com a prosa de Julian Barnes, em seu livro, talvez o mais famoso deles, O papagaio de Flaubert, no Brasil traduzido por Manoel Paulo Ferreira. Colocado entre os finalistas do Prêmio Man-Booker de 1984, quando Anita Brookner (GB, 1928-2016) venceu com Hotel do Lago, O papagaio de Flaubert mostra, hoje, 33 anos depois, ter maior resistência ao tempo. Isso não desmerece o prêmio dado à escritora britânica, que está entre minhas escritoras favoritas, não só pela bela prosa, mas por ter abraçado a mesma profissão que eu: historiadora da arte. Mas em sua pequenina obra, Julian Barnes consegue esfumar os limites narrativos, retirando os contornos: trata-se de um ensaio? De um romance? De uma biografia? De uma autobiografia? Quando se chega ao fim, dá vontade de voltar ao início. Merece uma segunda leitura, com outros olhos, mais sagazes, mais conhecedores. Torna-se uma obra circular, que encanta, deslumbra e seduz.
Geoffrey Braithwaite é médico. Faz uma visita à França, com o propósito de aliviar a dor da viuvez. Lá é atraído por uma discrepância observada em dois museus franceses que mostram um papagaio empalhado como sendo aquele que o escritor Gustave Flaubert teria possuído e usado como modelo para o papagaio do conto Um Coração Simples, parte do livro Três Contos. Grande admirador do escritor francês, Geoffrey Braithwaite que já pensava em escrever um biografia do autor, começa a esmiuçar a vida do autor de Madame Bovary. Cada capítulo toma um aspecto da vida de Flaubert, de Braithwaite, das obras do escritor, das divergências encontradas em edições independentes dos romances. De pulo em pulo, conhecemos detalhes da vida de Flaubert, suas viagens, mãe, amantes, o celibato. Vislumbramos preocupações e o escopo do sucesso.

Aos poucos, no entanto, perdemos a noção entre fato e ficção. Será que lemos o que realmente aconteceu? Quão verdadeiras são as informações que nos dão? Seria este ou aquele fato uma conclusão do médico que ajuda a narrar a vida de Flaubert? As dúvidas aparecem de mansinho e finalmente ocupam toda leitura. O ceticismo aumenta. Ao final, não sabemos nada. Será que lemos sobre Flaubert ou sobre Braithwaite? Este romance/biografia é uma das mais inteligentes construções literárias da literatura moderna. É uma tour de force e serve muito bem de exemplos de narrativas a que qualquer estudante do curso secundário deveria ser exposto: é inteligente, faz pensar e brinca com a lógica.
É um livro incomum. Podendo ser considerado até mesmo experimental. Parece ser feito de histórias desconexas, entradas em diários, fábulas. Parece crítica literária, meditação, biografia e ensaio. É uma mistura de todos esses gêneros contada com grande senso de humor e um tanto de sátira. Excede os limites na estrutura, não tem trama. Narrativa e leitura são circulares. Por isso mesmo pode ser considerado um dos grandes romances do final do século XX. Como um catálogo de amostras, convence o leitor da habilidade do autor que recria para nós o mundo de Emma Bovary, discute a cor de seus olhos e entrelaça essa narrativa com a de Geoffrey Brathwaite que, espelha de certo modo o sofrimento com o adultério e luto, estampados na obra mais famosa de Flaubert.

Julian Barnes talvez esteja entre os autores contemporâneos de maior erudição. Sua prosa, suas conexões fascinam. Ele gosta de um jogo de ideias, de palavras. Joga verde e colhe maduro, mas sua erudição não se torna pernóstica, ao contrário, ela serve de fio de Ariadne para nossa leitura. Além de todas essas características O papagaio de Flaubert é uma obra moderna: exige participação do leitor. É ele quem conecta os elementos heterogêneos e os organiza de maneira significativa. Frases e palavras, assim como temas, aparecem de um capítulo ao outro, sem aparente conexão, até que se percebe que há uma ligação das ideias postuladas, dos símbolos mencionados e até mesmo dos personagens e o narrador, quando se chega finalmente às últimas linhas da narração.
Com essa leitura, tomei a decisão de voltar a ler Flaubert. E certamente não deixarei nenhuma obra de Julian Barnes escapar dos meus olhos ávidos. Recomendo entusiasticamente.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.

Janela e Igreja de São Pedro em Olinda-Pernambuco, 1986
Ivan Marquetti (Brasil, 1941 – 2004) –
óleo sobre tela , 110 X 85cm
Velhas cartas e folhas secas
Claude Andrew Calthrop (Inglaterra, 1845-1893)
óleo sobre tela
Christopher Wood Gallery, Londres
“Só consigo escrever algo quando disponho de amplo e sólido cabedal de informações com que trabalhar. Esperava que essa visita me permitisse dar um pouco de forma às profusas impressões que havia colhido e completar a trama que se esboçava vagamente na minha fantasia. Decidi não trabalhar enquanto não estivesse na Índia; até então, brincaria com as ideias que me acudiam ao espírito e trataria de conhecer mais intimamente as criaturas da minha imaginação que deviam tomar parte na narrativa. É esse o setor da atividade do romancista que lhe proporciona o mais puro prazer; não envolve nenhum trabalho e nenhuma responsabilidade ; o exercício fácil e espontâneo da faculdade criadora enche-o de exultação e o mundo inventado por ele é tão real que faz com que o mundo de verdade pareça um tanto vago e nebuloso, tornando-se-lhe difícil levar a sério. Esse mundo do romancista é tão importante e tão rico que ele se sente inclinado a protelar indefinidamente o dia em que, empunhando por fim a pena, terá de quebrar o encanto e permitir que o seu mundo pessoal e completo se perca no mundo comum a toda gente.”
Em: Assunto pessoal, William Somerset Maugham, Globo: 1959, tradução de Leonel Vallandro, pp 8-9
Leitura, 2007
Yoav Bashan (EUA, contemporâneo)
acrílica sobre tela, 74 x 60 cm
Paisagem serrana, 1980
Benedito Luizi (Brasil, 1933)
óleo sobre tela, 55 x 46 cm
Leitura natalina, 1877
Heinrich Max (República Checa, 1847- 1900)
óleo sobre tela, 78 x 60 cm
Mangas e mar, 1982
Quirino Campofiorito (Brasil, 1902-1993)
óleo sobre tela colada em eucatex, 18 x 48 cm
Casa de Portinari , Brodowski, 1930
Arnaldo Barbieri (Brasil, 1913 – 2000)
óleo sobre tela, 30 x 39 cm
Entardecer no pasto
Gérson de Azeredo Coutinho (Brasil, 1900-1967)
óleo sobre madeira, 15 x 20 cm
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