Imagem de leitura: Lucian Freud

6 01 2024

Ib lendo, 1997

[Isabel, filha do artista]

Lucian Freud (GB, 1922 – 2011)

óleo sobre tela, 134 x 158 cm





Arte popular, Arte Naif, Arte primitiva

6 01 2024

Natividade

J. Cruz  (Brasil, ? – ? Século XX?)

Talha em bloco de madeira nobre,  38 x 42 cm

 

 

Publiquei esta cena da Natividade, no dia 24 de dezembro de 2023, comemorando o Natal.  O que não disse naquele dia é da minha frustração com essas definições de arte popular, naïf (ingênua em francês, mas adotada mundialmente) e arte primitiva que se intercalam no Brasil. Não parece haver consenso de como identificá-las ou separá-las. 

O grande divisor de águas frequentemente é o treinamento oficial, ou seja se o artista é autodidata ou não; se fez um curso de arte numa escola de Belas Artes, ou se aprendeu com o professor do bairro. Isso é um exemplo.  A temática também faz alguma diferença.  Temas folclóricos, cores vivas, traços rústicos são o esperado.  Aliás, acho que no Brasil somos muito complacentes quanto a aceitação da chamada arte naïf ou popular.  Vejo trabalhos por demais rústicos apresentados em galerias de arte de algum prestígio.  Temos o hábito de querer levar em consideração a falta de oportunidades que alguns artistas tiveram.  Julgar de coração mole não é necessariamente uma boa coisa. Acontece porque  temos grande aversão às regras, a padrões.  Todo brasileiro quer ser bonzinho.  Mas esse critério cá das nossas bandas não é universal.  Conheço pintores chamados naïf, que são arquitetos, ou têm curso de design de interiores e que por isso mesmo foram treinados em algum tipo de representação espacial, representação de perspectiva, expostos de alguma forma às convenções da representação quer aquelas usadas tradicionalmente no mundo ocidental ou a perspectiva ambiental, como a usada nas xilogravuras policromadas japonesas.

A talha acima, de um escultor que não conheço, J. Cruz, foi a leilão como Arte Popular em abril de 2021, aqui no Rio de Janeiro.  [Arte Popular – J. Cruz – Talha em bloco de madeira nobre, representando presépio. Med.: 38 x 42 cm.] Por que chamaram de arte popular? Porque provavelmente não conhecem o artista e seu meio de expressão é comum entre brasileiros sem treino: escultura em madeira, não muito diferente das matrizes de xilogravuras tradicionalmente consideradas arte popular.  Quem acha que xilogravura é só arte popular, nunca viu os detalhes e a delicadeza das obras de Albrecht Dürer, pintor e gravurista da renascença alemã.    Verdade é que por desconhecermos o senhor J. Cruz, quem quer que ele seja ou tenha sido, sabemos, só de olhar para a obra que estava familiarizado a iconografia das obras da renascença italiana.  Como assim?  Vejam abaixo.

 

 

Painel da Natividade, c. 1310-1330

Lorenzo Maitani (Siena, 1255-1330)

Catedral de Orvieto, Itália

 

 

A arte religiosa dos séculos XIII e XIV obedecia aos rigores iconográficos da Igreja (Falo da Igreja cristã, nesta época não havia a diferença entre igreja católica e outras, era tudo Igreja, só havia uma). Ela ditava o que aparecia na cena retratada e porque (muito simbolismo). Assim sendo, as cenas  eram determinadas até certo ponto a priori, pela Igreja, a quase única patrona das artes e principal responsável pela sobrevivência de artistas.  A Igreja Romana do Ocidente foi abandonando a tradição dos ícones que permaneceram como padrão de representação na Igreja Romana do Oriente, hoje Igreja Ortodoxa. Essa ainda permanece com as representações religiosas como ícones. Nos países do Ocidente vemos através dos séculos da Baixa Idade Média, as primeiras tentativas de quebrar a rigidez dos ícones com cenas que se aproximavam da vida dos homens comuns.  Giotto é o grande nome, na renascença italiana, desta “humanização ” do conteúdo nas cenas retratadas, sem nunca, no entanto, se desviar dos quesitos estabelecidos pela Igreja.

Não havia Escola de Belas Artes para ensinar artistas a pintar, esculpir, fazer arte, até o século XVII.  Na França, por exemplo, começa em 1648. Artistas eram artesãos.  E como artesãos pertenciam a guildas, como todos os que trabalhavam com as mãos: pedreiros, carpinteiros, ferreiros, padeiros, boticários, barbeiros, ourives, fabricantes de velas, sapateiros e assim por diante.  A guilda era onde um artista aprendia sua arte, trabalhando sob o comando de outro artista, já conhecido, e por anos.  Não era ele que decidia se já podia trabalhar sozinho… havia regras… tantos anos cumpridos.  Começavam misturando tintas, depois passavam a preparar as telas, mais tarde podiam aprender a fazer o fundo, até chegarem ao ponto de poderem trabalhar sozinhos e eventualmente terem seus próprios ateliês reconhecidos pelas guildas onde poderiam formar, dar aulas, a novos artistas.

O nosso artista brasileiro do século XX, J. Cruz, cujo único outro trabalho que encontrei online é um crucifixo, evidentemente aprendeu a olhar para artistas do passado, aprendeu a ver a tradição iconográfica da cena da Natividade, como mostra bem a comparação que vemos entre seu trabalho e o de Lorenzo Maitani, nos relevos exteriores da fachada oeste da Catedral de Orvieto.  Maitani era arquiteto e escultor.  Foi o arquiteto desta catedral e responsável por grande número dos relevos em pedra, decorativos no exterior dessa igreja.

 

 

 J. Cruz fez uma excelente escolha ao combinar seu estilo bem brasileiro, bem moderno, com ecos de Vicente do Rego Monteiro, à iconografia usada no século XIV, para a representação da Natividade. Não estou com isso dizendo que ele se inspirou exatamente nesta representação.  Não sei.  Talvez em uma foto destes relevos ou até mesmo de outras representações da Natividade.  Mas assim que vi a talha brasileira, lembrei-me da Natividade de Maitani que faz parte de um grande ciclo de imagens religiosas decorando o exterior da catedral de Orvieto.

 

 

Fachada oeste da Catedral de Orvieto, Lorenzo Maitani, primeira metade do século XIV.
Fachada oeste da Catedral de Orvieto, Lorenzo Maitani, primeira metade do século XIV.  RESSALTE DA CENA DA NATIVIDADE

 

 

Em comum, temos o posicionamento dos elementos no espaço. Maria na cama, enrolada em cobertas levanta com a mão esquerda o dossel (mosquiteiro) que protege o menino Jesus em seu berço. O arco acima deles simboliza a construção onde a família se abrigou, que pode ser, manjedoura, gruta, casa abandonada… Durante a Idade Média a Natividade de Cristo foi ganhando detalhes que não existiam anteriormente.  O nascimento de Cristo foi descrito brevemente só em dois evangelhos, o de Matheus (2:1-12) e o de Lucas (2:1-20).  A menção de uma caverna aparece no Livro apócrifa de Tiago. Assume-se na história da arte que foi justamente a falta de descrição detalhada desse evento que faz com que ele cresça e ganhe até personagens como o boi e o burro, e até mesmo os três reis magos que nos relatos mais antigos eram simplesmente padres (religiosos).  Toda essa evolução aconteceu durante a Baixa Idade Média, ou seja, entre os séculos XI e XV.  Outros personagens que povoam a cena, além do burro e do boi no canto direito superior, temos José, sentado, no canto direito inferior, apoiando a cabeça na mão direita, dando sinais de cansaço.  No centro da representação as duas obras mostram também as ajudantes de Maria, mulheres, que prepararam a água para o parto.  Esse detalhe, das  parteiras, vem da tradição bizantina, da Igreja Romana do Oriente, que também é responsável pela representação de Maria na cama.  Esses detalhes bizantinos, indicam para quem estuda a história da arte que trata-se de uma representação com raízes na Idade Média, e no caso de Maitani, ajuda-nos a comprovar que ele foi formado pela escola de Siena, porque esta levou muito tempo para se libertar das influências bizantinas.  Maria em adoração a Jesus, em pé ou ajoelhada, na cena da Natividade, já é uma representação mais tardia, baseada na obra Meditações de Giovanni de Caulibus, [Pseudo-Bonaventura]…  e assim por diante, podemos ir aos poucos datando as diferentes representações da Natividade, de acordo com diferentes textos e épocas.

 

 

Anunciação, Natividade e Adoração dos Pastores, 1259-1261

Nicolas Pisano (1220-1284)

Painel, Relevo em mármore do púlpito do batistério de Pisa

Pisa

Púlpito do Batistério de Pisa, 1259-1261, Nicolas Pisano (1220-1284)

 

 

Nicolas Pisano também mostra algumas raízes da iconografia bizantina.  Maria está recostada numa cama, temos as parteiras ao centro da cena, e José aparece no canto esquerdo inferior, mais ou menos na mesma posição que ele tem na obra de Maitani (que é posterior a esta).  As outras diferenças podemos considerar que existem porque temos a combinação de três eventos em um único painel, que são a Anunciação a Maria pelo anjo Gabriel, a Natividade de Cristo e a Adoração dos Reis Magos. Uso esse exemplo, de uma obra muito mais conhecida pelo público em geral, para demonstrar a maneira como alguns motivos se perpetuaram e foram passados de geração em geração.

Voltando à nossa primeira questão, acho difícil classificar a obra de J. Cruz como primitiva, naïf ou popular.  Não tenho dúvidas de que ele estava consciente das tradições da representação da Natividade e familiarizado com obras italianas da proto-renascença.  Se ele as conheceu em pessoa ou por fotografias, não deixou de estudá-las.  Não há nada nesta obra que indique ser de alguém que não teve treino nem estudo algum.  Muito pelo contrário, chego a imaginar que haja uma conexão entre ele e Vicente do Rêgo Monteiro.  Talvez ele tenha sida aluno, artista do círculo de Rego Monteiro.  Não sei, mas é provavel que o nordeste do Brasil seja o ponto em comum entre eles. 

 NOTA:

Este texto faz parte de um trabalho em andamento, futura publicação com o título provisório:  Notas da história da arte através das salas de aula.

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2024

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Ladyce West é uma historiadora da arte.  Em sua vida acadêmica, antes de abrir uma galeria de arte e antiquário, dedicou-se ao estudo do surrealismo belga.  Seu livro: Humor, Wit and Irony in the Works of Belgian Surrealists, baseado em tese da Universidade de Maryland, está em processo de tradução para o português. 





Rio de sol, de céu, de mar…

5 01 2024

Regata na Baía de Guanabara, 1989

Carlos Sorensen (Brasil, 1928-2008)

óleo sobre tela, 50 X 65 cm





Imagem de leitura: Gregory Gillespie

4 01 2024

Autorretrato

Gregory Gillespie (EUA, 1936)

óleo sobre placa, 20 × 23 cm





Curiosidade literária

2 01 2024

Garoto lendo

Christiane Kubrick (Alemanha, 1932)

óleo sobre tela

 

 

Jorge Luís Borges (1899-1986) nascido numa família tradicional argentina, foi criado bilíngue em inglês e espanhol e foi educado em casa até os onze anos de idade.  Aos nove anos Traduziu do inglês para o espanhol a obra The Happy Prince, de Oscar Wilde [O príncipe feliz].  Aos doze anos já lia Shakespeare. Aprendeu francês tornando-se fluente na língua. A família, evitando problemas políticos, viveu na Suíça, passando por lá toda a primeira guerra mundial  até  retornar à Argentina em 1921, quando Borges estava com 22 anos. A esta altura Jorge Luís Borges já lia  em alemão, principalmente filosofia.





Flores para um sábado perfeito!

30 12 2023

Lírios em vaso amarelo

Ana Goldberger (Brasil, 1947 -2019)

Acrílica sobre tela, 50 x 30 cm

 

 

 

 

Le club, 1995

Newton Mesquita (Brasil, 1948)

acrílica sobre tela, 140 x 120 cm





Rio de Janeiro: entre mar e montanhas

29 12 2023

Morro de Santa Tereza, RJ, 1980

Yugo Mabe (Brasil, 1955)

óleo sobre tela, 50 x 60 cm





A Peregrina escolhe os melhores livros do ano!

28 12 2023

Interior com senhora lendo

Albert André (França, 1869-1954)

óleo sobre tela, 50 x 65 cm

Musée de Belas Artes de Lyon, Coleção Tomaselli

 

 

Este foi um ano irregular de leituras.  Ou seja:  muitos livros começados.  Muitos livros sem terminar.  Muitos livros terminados aos trancos e barrancos.  Muitos livros relidos.  Muitos livros lidos exclusivamente para aulas.  E alguns meses sem qualquer vontade de ler.  Dizem que o vai e volta é típico de quem passa pelo processo de luto.  Termino este ano consciente que faz um pouco mais de um ano e meio que me encontro viúva; o luto realmente mexe com a cabeça da gente.  Mas daqueles que li tenho alguns que achei MUITO BONS.  Como sempre, posto aqui a lista dos que li para depois colocar meus favoritos. 

 

Lições, Ian McEwan

Ninféias negras, Michel Bussi

A tenda vermelha, Anita Diamant

O mistério de Henri Pick, David Foenkinos

Hotel Portofino, J. P. O’Connell

Orgulho e preconceito, Jane Austen — RELIDO desta vez em português

A última livraria de Londres, Madeline Martin

Uma mulher singular, Vivian Gornick

Caderno proibido, Alba de Cespedes

O sol também se levanta, Ernest Hemingway 

Véspera, Carla Madeira

Noites Brancas, Fiódor Dostoiévski

Berta Isla, Javier Marías  — RELIDO

Garota, mulher, outras, Bernardine Evaristo

A vida peculiar de um carteiro solitário, Denis Thériault — RELIDO

Casas Vazias, Brenda Navarro

A boa sorte, Rosa Montero

As vitoriosas, Laetitia Colombani

O peso do pássaro morto, Aline Bei

Vermelho amargo, Bartolomeu Campos de Queirós  RELIDO

Confissões, Kanae Minato

A arte da rivalidade, Sebastian Smee

Autobiografia, Agatha Christie  RELIDO

A cidade e as serras, Eça de Queiroz  RELIDO

Laços, Domenico Starnone

A elegância do ouriço, Muriel Barbery  RELIDO

Violeta, Isabel Allende

O apartamento de Paris, Lucy Foley

O hotel na Place Vendôme: Vida, morte e traição no Ritz de Paris, Tilar J. Mazzeo

Ficções, de Jorge Luís Borges

Uma relação Imprópria, Barbara Pym  RELIDO, desta vez em português

2030: Como as Maiores Tendências de Hoje Vão Colidir com o Futuro de Todas as Coisas e Remodelá-las, Mauro F. Guillén

Incidente em Antares, Érico Veríssimo

 

Ao todo foram trinta e três livros.  Entre eles oito relidos.  Quase um quarto deles. Seis escolhidos como os melhores do ano.

 

 

 

 

Em primeiríssimo lugar:

Uma mulher singular, de Vivian Gornick.  Uma autobiografia  de uma mulher moderna, intelectual, que mantém o ritmo sincopado da cidade de Nova York,  onde vive.  Não é linear.  Não é a história completa de uma vida. Tampouco é um livro para todo leitor.  Mas é fascinante, revela uma era, uma mente curiosa e desvenda um conhecimento literário muito maior do que o de grande parte dos leitores.  É um livro que eu gostaria de um dia poder escrever, mas acredito que só esta autora poderia fazê-lo.

Em segundo lugar:

Ficções de Jorge Luis Borges. Que desafio!  Que brincadeira com a mente dos leitores.  Extraordinário.  Este livro terei que reler ainda algumas vezes. Mas é tudo o que haviam anunciado e muito mais. Que passeio entre a realidade (ela existe?) e o sonho.  Definitivamente um livro que não pode deixar de ser lido. Labiríntico.

Em terceiro lugar:

Incidente em Antares, Érico Veríssimo.  Ah, que prazer!  Uma comédia, uma crítica social, um retrato em que ainda nos reconhecemos!  Um prazer esta leitura, um divertimento que me fez refletir, sobre a nossa cultura, o nosso momento, sem amargor.  Muito bom.         

 

      

 Os outros três, também excelentes leituras: Laços, de Domenico Starnone; Lições de Ian McEwan e Caderno proibido de Alba de Céspedes.  Recomendo todos três (dois italianos e um inglês, que ano diferente!) para quem queira ler obras reflexivas com qualidade literária de primeira!





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

27 12 2023

Natureza morta, 1885

Benedito Calixto (Brasil, 1853-1927)

óleo sobre tela

 

 

Verduras e objetos sobre a mesa

José Lima (Brasil, 1910-1980)

óleo sobre tela. 65 x 80 cm





Nossas cidades: Piracicaba

26 12 2023

Caminho do mirante, Piracicaba,1933

Eugênio Luís Losso (Brasil, 1898-1974)

óleo sobre tela, 65 x 72 cm