Não leia, um quarto de hora, as folhas de um romance
Em que a dama conjugue o eterno verbo amar.
Tem na alcova em que dorme, e descansa de dia,
A cama da boneca ao pé do toucador;
Quando sonha, repete, em santa companhia,
Os livros do colégio e o nome de um doutor.
Alegra-se em ouvindo os compassos da orquestra;
E quando entra num baile, é já dama do tom;
Compensa-lhe a modista os enfados da mestra;
Tem respeito a Geslin, mas adora a Dazon.(*)
Dos cuidados da vida o mais tristonho e acerbo
Para ela é o estudo, excetuando talvez
A lição de sintaxe em que combina o verbo
To love, mas sorrindo ao professor de inglês.
Quantas vezes, porém, fitando o olhar no espaço,
Parece acompanhar uma etérea visão;
Quantas cruzando ao seio o delicado braço
Comprime as pulsações do inquieto coração!
Ah! se nesse momento alucinado, fores
Cair-lhes aos pés, confiar-lhe uma esperança vã,
Hás de vê-la zombar dos teus tristes amores,
Rir da tua aventura e contá-la à mamã.
É que esta criatura, adorável, divina,
Nem se pode explicar, nem se pode entender:
Procura-se a mulher e encontra-se a menina,
Quer-se ver a menina e encontra-se a mulher!
(*) Baronesa de Geslin era proprietária de um colégio de meninas no Rio de Janeiro desde a década de 1840 localizado à Rua Príncipe do Catete, 25, hoje rua Silveira Martins ; [CLIO – REVISTA DE PESQUISA HISTÓRICA – n. 31.1 ISBN 0102-9487]; Catharina Dazon foi uma modista da rua do Ouvidor, nos últimos anos da década de 1850.
óleo, acrílica, crayon e lápis sobre tela, 121 x 121 cm
Meus alunos sabem que observar Naturezas Mortas do mesmo pintor, é uma boa maneira de entender o desenvolvimento de sua arte. Qualquer outro assunto a que esse artista possa se dedicar não especifica tanto os caminhos tomados. E quase todos os pintores se dedicam ao tema. Primeiro, porque quem teve um mínimo de aulas de pintura ou desenho dedicou-se à Natureza Morta, de frutos, legumes, peixes, comida em geral e logo em seguida às representações de flores em jarros, flores sobre mesas, em cestos. São tradicionalmente os primeiros temas exercitados pelo iniciante para aprender perspectiva, combinação e contraste de cores, organização dos elementos na tela, aprender o básico do desenho e da pintura. Segundo, se o pintor deseja continuar na arte figurativa terá nas Natureza Mortas o seu sustento mais imediato, pois, mesmo nos dias de hoje, o público em geral prefere temas com que possa se identificar e todos nós conhecemos comidas e plantas. Com esta perspectiva, procuro sempre ver nos pintores figurativos de hoje, aquilo que fizeram para renovar este tema milenar. Sim, milenar, porque nas salas de arquitetura romana, como aquelas encontradas em Herculano e Pompeia vemos algumas Naturezas Mortas impressionantes em pintura mural.
A rainha em sua alcova, 2019
Robert Kushner (EUA, 1949)
óleo, acrílica e folha de ouro sobre tela, 182 x 182 cm
Gosto imensamente da obra de Robert Kushner. Ele se dedica há muitos anos à reinvenção da Natureza Morta. Desde dos anos 70, quando participou do movimento Pattern and Decoration, procura aquilo que o pós-modernismo na América não tinha. Sua descoberta foi cor e com isso a “explosão” de energia.
Lady Calandium [Tinhorão], 2016
Robert Kushner (EUA, 1949)
óleo, acrílica e folha de ouro sobre tela, 182 x 182 cm
Suas telas exibem grande riqueza de influências, honestamente adquiridas e digeridas de tal maneira que se transformam em estilo próprio, em assinatura visual de uma maneira específica de ser. Nela encontramos obviamente ecos de Henri Matisse, veja a superimposição de padrões, de estamparia; de Georgia O’ Keefe na delicadeza do contorno de folhas e flores; da arte oriental, não só das gravuras japonesas que tanto influenciaram os impressionistas, mas também a arte oriental islâmica, na riqueza das folhas de ouro sobre tela.
Buquê de anêmonas, 2019
Robert Kushner (EUA, 1949)
óleo, acrílica e folha de ouro sobre tela, 183 x 183 cm
Cortinas Antonela, janelas e iris, 2023
Robert Kushner (EUA, 1949)
óleo, acrílica, crayon e lápis sobre tela, 122 x 92 cm
Homenagem a Russell Page, 2012
Robert Kushner (EUA, 1949)
óleo, acrílica e folha de paládio sobre tela, 183 x 234 cm
Meia-noite no Jardim de Cactus da Biblioteca Huntington, 2014
Robert Kushner (EUA, 1949)
óleo, acrílica e folha de ouro sobre tela, 274 x 335 cm
Doze imperadores vermelhos, 2008
Robert Kushner (EUA, 1949)
óleo, acrílica e folha de ouro, folha de prata, folha de cobre sobre tela, 182 x 274 cm
Cortinas Antonela, janelas, buquê de flores silvestres e glicínias, 2023
Robert Kushner (EUA, 1949)
óleo, acrílica, crayon e lápis sobre tela, 152 x 122 cm
Hortênsias, 2019
Robert Kushner (EUA, 1949)
óleo, acrílica, crayon e folha de ouro, 183 x 366 cm