Janina Süssle-Muszkietowa (Polônia, 1903–1956)
óleo sobre papelão, 33 x 48 cm
Nesta semana um grande buquê misturado de crisântemos e margaridas.
Passagem do tempo. Quando os bebês nascem é comum os pais saberem o progresso de seus filhos. Engatinham com tantos meses, falam com outros tantos. Sabemos tudo. Quando anda, quando nasce o primeiro dente.
O mesmo não acontece com o envelhecimento. Cada qual envelhece de maneira própria. Uns são grisalhos aos trinta anos, outros só aos sessenta. Engordamos. Rugas se aninham nos olhos. Hormônios desaparecem. Juntas sofrem. Tudo isso em diferentes idades e de maneiras diversas. Somos o resultado das nossas escolhas pregressas, da genética e do acaso.
Estou num momento em que tenho amigas da mesma idade que eu, amigas vinte anos mais velhas e amigas tão jovens que poderiam ser minhas filhas.
Dizem que envelhecer está na cabeça. Não é bem verdade. O corpo envelhece. Há dores. Perde-se audição, visão, um tanto de mobilidade, mesmo para aqueles mais devotos à vida saudável, restrições abundam.. É uma batalha constante o mero sobreviver.
Envelhecer se reflete também nas atitudes. Hoje temos inúmeras melhorias no envelhecer e desafios incalculáveis. Eletrônicos, internet, ferramentas e aplicativos exigem destreza nas mãos artríticas e são uma barreira entre aqueles que se habilitam e os que resistem a inovações.
Recentemente ajudei uma amiga a instalar alguns aplicativos no seu celular. Ela, já na oitava década de vida, saiu da comunicação por papel à comunicação por celular sem passar pelo email. Nunca dominou a arte de receber e passar emails. Ela não está sozinha. Há ainda muita resistência aos “novos métodos”. A divulgação constante de fraudes na internet não ajuda a quem já fragilizado pela idade, se sente um pária no mundo informatizado. Vulnerável.
A resistência às inovações aumenta a percepção do envelhecimento. Todos nós preferimos o que conhecemos. Mudar requer esforço. Tenho visto muita resistência à entrada nas redes sociais pelas amigas mais idosas. Pena. Perdem a oportunidade de se conectar com netos, sobrinhos, amigos distantes e de fazer novos conhecidos. Já vivem uma vida de grande reclusão, este seria um bom paliativo para o distanciamento. Vejo também resistência ao livro eletrônico. No entanto, ele é de grande ajuda para quem já não enxerga tão bem e para quem não pode levantar muito peso na mão artrítica. Não só o livro ficaria mais fácil de segurar, como o preço reduzido ajudaria no bolso cada vez mais vazio do aposentado.
Produtos eletrônicos poderiam servir melhor a todos, com botões de fácil manejo para dedos imprecisos e explicações claras, beabá, porque nem todos têm um adolescente na família que possa ou queira dar instruções a seus familiares.
Não está fácil essa adaptação ao mundo virtual, para os mais velhos ou para quem resiste a mudanças. Mas assim como temos que nos exercitar e comer equilibradamente, também temos que nos manter em dia com as inovações. Não adianta resistir. O mundo muda, sempre, a toda hora. Mesmo que seja incômodo, temos que ir junto. Seria uma maneira do envelhecimento se tornar um pouco menos restritivo.
Emilia Dukszyńska-Dukszta(Polônia, 1847-1898)
óleo sobre tela, 72 x 55 cm
Museu Narodowe, Varsóvia
Thomas Hardy
Ópera de Beijing, o mestre dos fantoches
Zhang XuanZheng (Huxian, China,1954)
aquarela, guache sobre papel de arroz, 25 x 25 cm
Não conheço a história da China. Como qualquer pessoa do século XX, mais ou menos educada, sei dos principais eventos da história recente do país. Mulheres de pés amarrados, milhões de bicicletas no trânsito, aquarelas, Hong Kong skyline, finíssima porcelana, Ano Novo fora de época, papel de arroz, I Ching, peões de chapéus pontudos no campo, dragões, Mao, O livro vermelho, homens de rabichos, a muralha, pandas, comida deliciosa, chá, perspectiva axonométrica, crisântemos, Charlie Chan e seu filho nº 1 são alguns dos dados que correm pela minha imaginação quando penso na China. Sobre o país li muito pouco. Ainda adolescente li da biblioteca de minha mãe, alguns livros de Pearl S. Buck: Pavilhão de mulheres, Vento leste, vento oeste, Mulher imperial. Mamãe também era fã de Lin Yu Tang; dele só li Um momento em Pequim. Encontrei Jung Chang, recentemente, autora de Cisnes Selvagens: três filhas da China, até hoje um dos meus livros favoritos e Qiu Xiaolong, cujas obras centradas no Inspetor-chefe Chen Cao, detetive, filósofo e poeta, passaram a ocupar a prateleira da leitura preferida – The Death of the Red Heroine, A Loyal Character Dancer, When Red is Black, A Case of Two Cities. Mais recentemente enveredei pelas obras da jornalista Xinran: Enterro Celestial, uma obra de impacto pela espiritualidade, e As Boas Mulheres da China. Fiz a curadoria de uma exposição de aquarelas chinesas recentes, pós anos 60, produto de um esforço do governo comunista de dar uma ocupação a peões do campo ociosos durante o inverno. Essas imagens e mais algumas resumem o meu conhecimento sobre a China, nada especial e absolutamente incompatível com o tamanho e a importância do país.
Essa introdução contextualiza minha incredulidade sobre boa parte desse romance histórico enaltecedor da mulher manchu, Yehonala, concubina do Imperador Hsien Feng. A Imperatriz Orquídea, como ficou conhecida ou “Tzu Hsi” – Imperatriz do Palácio Ocidental –figura controversa em qualquer verbete enciclopédico — reinou sobre a China como regente de seu filho Tung Chih, que era infante ainda, quando se tornou órfão do imperador Hsien Feng. Yehonala sobreviveu a um atentado de golpe, às Guerras do Ópio, à Rebelião Tai Ping em Nanquim, e à Rebelião Boxer e morreu em 1908.
Anchee Min tinha nas mãos um excelente assunto. Pela própria figura controversa, tinha um número razoável de opções de narrativas. Talvez para agradar a uma fatia específica do mercado, transformou a história dessa regente, numa variação de Cinderela: menina pobre descoberta pelo príncipe encantado e escolhida para ser sua concubina. Apimentou a narrativa fazendo a jovem concubina, ainda despercebida pelo imperador, fugir da Cidade Proibida para receber aulas de sedução num prostíbulo. Mesmo para quem pouco sabe a respeito da história da China, imaginar que uma jovem já dentro da Cidade Proibida, escolhida pelo imperador, mantida a sete chaves na companhia de observadores eunucos, pudesse fazer isso é algo inimaginável. Anchee Min aproveitou-se de dados nebulosos sobre a vida de Yehonala, para tecer um romance fantasioso que compromete o resto de sua pesquisa história.
Como se precisasse nos seduzir pelo exotismo, passamos quase metade deste romance focados nos rituais da corte chinesa, a cada virada dedicados a sabermos dos mais infinitésimos detalhes, das descrições detalhadas de bordados de flores na túnicas usadas, aos noventa e nove pratos de comida servidos unicamente para ela, concubina — uma de muitas — a detalhes sórdidos que não contribuem para a história, a não ser chocar, como o fedor que acompanhava as centenas de eunucos que ao serem castrados são incapazes de controlar o esvaziamento da bexiga. Para quê? Meio livro gasto nessas elucubrações, nas fantasias do dia a dia da concubina. Na segunda metade do livro, quando Yehonala se torna regente do país e enfrenta inimigos dentro e fora da corte, terreno mais fértil e de maior interesse histórico Anchee Min deixa o detalhismo contundente de lado e usa de pinceladas corridas para pintar um cenário impressionista sobre essa mulher que surpreendeu o mundo por sua habilidade política e pelo enfrentamento que teve com os poderes europeus e aqueles de dentro de sua própria corte. Passa-se do detalhismo do luxo à simplificação e superficialidade de eventos conhecidos envolvendo a Imperatriz Orquídea.
Anchee Min
Para fazer justiça ao leitor da resenha preciso anunciar que minha opinião foi a mais radicalmente contra essa leitura num grupo de vinte leitoras que gostaram do livro. Se você se aventurar a lê-lo tenha em mente que a classificação Ficção Histórica, neste caso está mais para a ficção do que para a história. Desapontada, de cinco estrelas dou três, simplesmente porque cheguei até o final.