Mary Lapsley Caughey, 1916
John Butler Yeats (Irlanda, 1839 – 1922)
óleo sobre tela, 105x84cm
National Gallery, Irlanda
Mary Lapsley Caughey, 1916
John Butler Yeats (Irlanda, 1839 – 1922)
óleo sobre tela, 105x84cm
National Gallery, Irlanda

ENTRE CABRAS E OVELHAS
Joanna Cannon
Editora Morro Branco:2017, 472 páginas
Inglaterra, verão de 1976. A sra. Creasy está desaparecida e a Vila borbulha com fofocas. Os vizinhos culpam a sufocante onda de calor por seu repentino sumiço, mas as pequenas Grace e Tilly não estão convencidas disso.
Com o sol brilhando incansável no céu, as meninas decidem tomar o assunto em suas próprias mãos e, batendo de porta em porta atrás de pistas, percebem que todos na Vila têm algo a esconder. Enquanto a rua começa a revelar seus segredos, as pequenas detetives vão perceber que nem tudo é o que parece.
Verão, David Zolan.
“O cheiro de asfalto quente me beliscou o nariz e mudei as pernas de posição, afastando-as do calor dos tijolos. Não havia lugar algum onde se pudesse fugir do calor. Ele estava lá todos os dias, ao acordarmos, insistente e constante, pairando no ar como uma discussão inacabada. Escoava os dias das pessoas para as calçadas e os pátios e incapazes de nos contermos entre tijolos e cimento, nos derretíamos do lado de fora, trazendo conosco nossas vidas. Refeições, conversas, debates, tudo despertava, perdia as amarras e era permitido ao ar livre. Até a vila estava mudada. Rachaduras gigantes abertas no chão, cheias de grama amarela, pareciam macias e instáveis. Coisas que haviam sido sólidas e confiáveis eram agora maleáveis e duvidosas. Nada mais parecia seguro. Os laços que mantinham as coisas coesas foram destruídos pela temperatura — foi o que disse meu pai –, mas parecia mais sinistro do que isso. Parecia que a vila inteira se transformava, se distendia e tentava fugir de si mesma.”
Em: Entre cabras e ovelhas, Joanna Cannon, tradução de Celina Portocarrero, São Paulo, Editora Morro Branco:2017, p. 16-17.







Depois do jantar, porto e cachimbos
Alfred Lyndon Grace (GB, 1867-1949)
óleo sobre tela, 61 x 76 cm
“Minha segunda aventura foi do gênero humorístico. Estava sendo conduzido através da zona rural por uma mulher que muito fazia, como algumas outras inglesas e americanas caridosas, para melhorar a sorte dos infelizes refugiados; como principiasse a fazer-se tarde, eu disse que precisava tratar de arranjar um quarto em algum hotel, para passar a noite.
–Não se preocupe com isso — respondeu ela. — Tenho uns primos distantes que moram nestas redondezas e o acolherão com prazer. São provincianos, gente muito siples, mas ótima, e lhe darão um bom jantar.
— Muito gentil da parte deles — retruquei.
Minha companheira não mencionou o nome dos seus parentes e não me ocorreu perguntar-lho. Do que ela havia dito depreendi que se tratava de gente pobre que vivia muito modestamente; foi, por isso, uma surpresa para mim quando, ao anoitecer, entramos numa cidadezinha e paramos diante de uma casa que, ao lusco-fusco, tinha um aspecto assaz imponente. Fomos recebidos por um homem gordo, de estatura baixa, xom um rosto vermelho de feições comuns. Trajava uma roupa preta que não lhe sentava muito bem e tinha a aparência de um típico burguês francês. Conduziu-me a um quarto bem aquecido, confortavelmente mobilado, e notei com satisfação que havia um banheiro ao lado. Disse-me ele que o jantar era às sete e meia. Tomei um banho e, como me sentisse muito cansado, dormi um pouco. À hora marcada desci e tratei de encontrar o living, em cuja lareira ardia um belo fogo de troncos. Meu anfitrião, que ali se achava, ofereceu-me um cálice de xerez. Afundei-me numa vasta poltrona.
— Encontrou uma garrafa de conhaque no seu quarto? — perguntou-me ele.
— Não procurei — respondi.
— Sempre tenho uma garrafa de conhaque em todos os quartos de dormir da casa, até nos quartos das meninas. Elas nunca tocam nessas garrafas, mas agrada-me saber que as têm consigo.
Achei a ideia esquisita, mas não disse nada. Pouco depois o meu cicerone feminino entrou em companhia de uma senhora morena e magra, a quem fui apresentado. Era irmã do dono da casa, mas não lhe apanhei bem o nome. De algumas frases pronunciadas durante a conversa inferi que o meu anfitrião era solteiro e a irmã hospedara-se em sua casa com duas filhas pelo tempo que durasse a guerra, pois seu marido tinha sido mobilizado. Rumamos para a sala de jantar, onde já nos aguardavam duas mocinhas, respectivamente de quatorze e quinze anos presumíveis, com uma empertigada governanta. Fomos servidos por um velho mordomo e uma criada.
— Abri em sua intenção o meu último garrafão de clarete, um Château-Larose de 1874 — disse o dono da casa.
Eu nunca tinha visto ainda um garrafão de clarete. Fiquei impressionado. O vinho era delicioso. Para um parente pobre, pareceu-me que o dono da casa ia bastante bem de vida. A comida era excelente — verdadeira comida francesa do campo, copiosa, talvez um tantinho pesada e muito temperada, mas saborosíssima. Um dos pratos estava tão bom que não pude deixar de comentá-lo.
— Estimo que tenha gostado — disse o anfitrião. — Na minha casa todos os pratos são cozidos com conhaque.
Começou a parecer-me que aquela casa era realmente muito estranha e desejei, mais do que nunca, saber quem era o hospitaleiro indivíduo. Terminamos de jantar e tomamos um cafezinho, após o que o mordomo trouxe uns copos grandes e uma imensa garrafa de conhaque. Eu já tinha ingerido uma boa quantidade de clarete e, em vista de me achar entre estranhos, achei prudente não tomar mais álcool. Recusei, portanto, o conhaque.
— Como! — exclamou o meu anfitrião, caindo para trás na poltrona. — O senhor vem passar a noite em casa de Martell e enjeita um copo de conhaque!
Eu havia jantado em casa do maior negociante mundial de conhaque.
— E olhe bem! — acrescentou ele. — Este conhaque não está à venda. É um tipo que eu reservo para o meu consumo particular.
Diante disso, força me foi abandonar a minha circunspecção. O resto do serão passou-se bem depressa, ouvindo-lhe contar o romântico episódio do descobrimento do conhaque e os dois séculos de história da sua firma. Parti no dia seguinte, com um cordial convite para voltar quando a guerra houvesse terminado.”
Em: Assunto pessoal, William Somerset Maugham, Globo: 1959, tradução de Leonel Vallandro, pp 93-96
Menina lendo
Jozef Karel Frans Posenaer (Bélgica, 1876 – 1939)
óleo sobre tela, 61 x 45cm
Natureza morta
Henrique Cavalleiro (Brasil, 1892 – 1975)
óleo sobre tela, 70 x 50 cm
Como isso acabará?, c. 1900 *
L. Riedler (Alemanha, meados do século XIX)
óleo sobre painel de madeira, 26 x 25 cm
“Havia diversos cães rasteiros na casa, nunca menos de quatro, mas quando nascia uma nova ninhada, me antes dos cachorrinhos terem bastante idade para ser dados de presente aos conhecidos, o seu número elevava-se por vezes a dez. A linhagem começara anos atrás com um elegante animalzinho de cor castanha clara, chamado Elsa, em homenagem à exasperante heroína do Lohengrin e todos os seus descendentes tinham recebido nomes wagnerianos. Elsa era agora uma matrona de idade respeitável e deveria ter juízo; seu aspecto era, com efeito, sossegado, mas ainda ardiam nela as chamas da mocidade como, infelizmente, sucede muitas vezes com a fêmea da espécie humana depois que a idade lhe embotou de maneira por demais visível a infinita variedade, e em certas quadras do ano, era difícil fazer-lhe ver que, tendo posto no mundo uma progênie tão numerosa, convinha agora dar por terminada a sua missão. Tantos filhos e netos tivera que se tornava cada vez mais trabalhoso encontrar-lhes nomes adequados, e Erda recebera o seu porque não pudemos imaginar outro. Era preta e bege, pequenina, com uma bela cabeça, mas com um corpo atarracado que herdara do pai, o qual pertencia a um arquidiácono e, apesar do seu pedigree inatacável, adquirira, devido a essa ligação com a igreja anglicana, uma aparência maciça e algo pomposa. Erda pertencia a uma ninhada de seis cachorros e, por motivos que só ela conhecia, adotara-me desde tenra idade como sua posse exclusiva. Indignava-se quando me via dispensar atenções aos outros dachs e, se eu insistia, cortava toda relação comigo por um ou dois dias. Teimava em dormir na minha cama, não nos pés como costuma fazer todo dachs bem comportado, mas no meio, com grande inconveniente para mim, e todas as reclamações que eu fazia eram inúteis. Estava convencida de que aquele lugar era seu de direito. Seguia-me como uma sombra. Quando tinha três meses, acompanhara-me uma vez em que fui tomar banho de mar. Mergulhei do alto de uma pedra e, pensando que eu me afogaria, infalivelmente, ela saltou na água para me salvar. Mas o elemento lhe era completamente estranho e assustou-se. Tentou sair, mas a pedra era íngreme e não pode trepar por ela; foi tomada de pânico e quando a agarrei, debateu-se violentamente no seu terror. Tive alguma dificuldade de levá-la para terra firme. Desde então, acompanhava-me sempre durante parte do caminho, mas quando percebia a minha intenção parava, ladrava-me uma ou duas vezes para me advertir do perigo e abalava para casa o mais depressa que podia. Seu pensamento era claro: se esse imbecil faz questão de se afogar, eu pelo menos não quero estar presente.
Quando Erda via trazerem para baixo malas e maletas, compreendia que eu ia ausentar-me, punha-se a vaguear triste e amuada pela casa; mas quando eu regressava a sua alegria era tumultuosa. Corria como doida pelo aposento, saltava sobre mim e deitava-se de costas para que eu lhe afagasse o ventre; mas no meio dessas festas lembrava-se de que eu fora tremendamente injusto em abandoná-la e punha-se a soluçar. Isso era tocante ao extremo e fazia com que eu me sentisse em bruto egoísta. Ela nunca amou ninguém senão a mim. Nas estações apropriadas tinham-lhe sido arranjados casamentos com noivos de incomparável beleza e da mais aristocrática linhagem, mas Erda invariavelmente lhes recebia as propostas com tão violenta hostilidade que desencorajava até o mais ardoroso pretendente. Talvez pensem que os seus gostos eram vulgares e que não teria ficado indiferente às persuasões de um admirador plebeu. Seria fazer-lhe injustiça. Mastins, schnauzers, alsacianos, cães-d’água, terriers, a todos repeliu e, como a grande filha de Henrique VIII, a Rainha Virgem, optou por uma vida de celibato.”
Em: Assunto pessoal, William Somerset Maugham, Globo: 1959, tradução de Leonel Vallandro, pp 49-51
* um de um par

É assim que acabará, c. 1900 *
L. Riedler (Alemanha, meados do século XIX)
óleo sobre painel de madeira, 26 x 25 cm
