Leituras de 2022: Um outro Brooklyn, Jacqueline Woodson, resenha

11 01 2022

Moça lendo

Nancy Seamons Crookston (EUA, 1948)

óleo sobre tela

No estudo da literatura a expressão alemã Bildungsroman é universalmente usada para designar o romance de formação, aquele que mostra o crescimento emocional e psicológico do personagem principal, retornando às lembranças de infância, passando pela adolescência até amadurecer como adulto.  É um dos campos mais férteis de boa literatura e há numerosos exemplos: Jane Eyre, Charlotte Bronté; Mulherzinhas, Louise May Alcott; O apanhador no campo de centeio,  J. D. Salinger; Grandes Esperanças, Charles Dickens; Educação Sentimental, Gustave Flaubert; Não me abandone jamais, Kazuo Ishiguro, Kafka à beira-mar, Haruki Murakami e muitos outros. Não sei se Um outro Brooklyn, de Jacqueline Woodson, [tradução de Stephanie Borges] terá o fôlego e importância para entrar nesta lista de clássicos.  Isto o futuro decidirá.  Mas a autora conseguiu trazer algumas bem-sucedidas novidades para essa narrativa.

O encanto dessa narrativa está no staccato das memórias que chegam à Augusta, a jovem, agora uma antropóloga, vê de longe uma amiga de infância e ao invés de ir abraçá-la, dá as costas à amiga e à sua adolescência simultaneamente.  Lembra-se do período em que morou no Brooklyn, vinda do Tennessee, com o pai e o irmão.  O texto reproduz o vaivém de memórias, o diálogo interno dela,  em que uma coisa puxa outra. Ela se lembra do quarteto de garotas, do qual fazia parte que, como típicas adolescentes, fazia tudo junto; da sua chegada ao Brooklyn; da conversão do pai ao islamismo; do despertar sexual.  Aos poucos descobrimos o que aconteceu com sua mãe e a dificuldade da menina em aceitar a ausência materna.  Mas encantadora, mesmo, é a linguagem, quase poética, dessas memórias e o ritmo em que são trazidas à tona. Compreendemos assim os degraus por que passou em seu crescimento emocional.

 

“Não éramos pobres, mas vivíamos na fronteira da pobreza” ela se  recorda. As aventuras do quarteto de meninas, vindas de diferentes lugares, com valores familiares diversos, ocupa a maior parte da narrativa, e compreendemos, assim como ela, as sementes dos futuros que as esperam. No posfácio, Jacqueline Woodson explica “queria escrever sobre os vínculos que compartilhamos na juventude e todas as parábolas desses laços”. Com essa intenção aprendemos também sobre Sylvia, Angela e Gigi.  Quantas delas conseguirão sair dessa “fronteira da pobreza” e  quantas sofrerão pela imersão no abismo de que as rodeia?  Essa preocupação quase sociológica da autora, é feita de maneira delicada, reticente, pontuada pelos pequenos textos da antropóloga em que Augusta se transformou sobre os hábitos de outros povos no mundo.

 

Jacqueline Woodson

A caminhada de cada uma dessas adolescentes é única, ainda que na adolescência, imaginassem que teriam vidas próximas umas das outras e que seriam para sempre amigas. E é no ponto de partida dessa história, quando Augusta dá as costas à Sylvia; dá as costas às memórias, à traição que sofreu da amiga, que aprendemos exatamente o que a última frase do livro nos diz; ‘Em algum ponto, todas as coisas, tudo e todos, se transformam em memória.”

Este é um elegante romance de formação.  Breve, poético em estrutura e no ritmo das elipses. Admirável na sua concisão. Recomendo a leitura sem objeções.

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Nossas cidades: Paraty

11 01 2022

Paraty

Luis Claudio Morgilli (Brasiçl, 1955)

óleo sobre tela





Curiosidade literária

10 01 2022

Lendo debaixo da sombrinha

Elizabeth Lee Clarence Hinkle (EUA, 1880 — 1960)

óleo sobre tela

Laguna Art Museum, Califórnia

 

A leitura do Talmude, relata Disraeli [Curiosities of Literature, 1881], já foi proibida por vários editos, do Imperador Justiniano, por muitos dos reis de França e Espanha e numerosos papas.  A ordem era queimar-se todas as cópias, só a corajosa perseverança dos judeus preveniu seu desaparecimento.  Em 1569 doze mil cópias foram incendiadas em Cremona. Johann Reuchlin (1455–1522) humanista alemão, católico, estudioso de Grego e Hebraico, interferiu para que parassem com a destruição universal dos  Talmudes.  Por isso, passou a ser odiado pelos monges, e condenado pelo Eleitorado de Mainz, um dos estados mais prestigiosos e influentes do Sacro Império Romano. Mas apelou para Roma e as acusações foram suspensas e não foi mais considerado necessária a destruição dos Talmudes.





Em casa: Marc Chalmé

9 01 2022

Lá fora

Marc Chalmé (França 1969)

óleo sobre tela





Leituras em 2022: Dôra, Doralina, de Rachel de Queiroz, resenha

8 01 2022

Prisma, 1977

Brian James Dunlop. (Australia, 1938-2009)

aquarela, 30 x 27 cm

Ao terminar Dôra, Doralina, de Rachel de Queiroz, eu me pergunto o motivo dela não ser mencionada entre os grandes da literatura brasileira, no mesmo altar de Machado, Graciliano e Guimarães Rosa, Clarice. Dela li três livros: O Quinze, Memorial de Maria Moura e agora este, publicado em 1975. Rachel de Queiroz não deixa a desejar quando comparada com os grandes nomes da nossa literatura. E não listá-la entre os maiores é injustiça e um desserviço à tão maltratada cultura brasileira.

Dôra, Doralina conta mais do que a história de vida de Maria das Dores, mulher herdeira de uma fazenda no interior do Ceará, completamente dominada pela mãe, a quem chamava Senhora e que depois de viúva, foge deste lugar, encontra abrigo emocional como membro de um grupo de teatro mambembe, com eles viaja ao Rio de Janeiro, no período da ditadura Vargas e da Segunda Guerra Mundial. 

Na capital do país amasia-se com um comandante que conheceu na viagem pelo Rio São Francisco a caminho do sul.  Com ele, perdidamente apaixonada, vive em altos e baixos, tensa com gênio violento do companheiro e por seus ciúmes. Eventualmente se vê envolvida, a contragosto, na contravenção. Mas o flerte com a vida de segredos e transgressões não lhe era desconhecido, já deixara os rincões cearenses com tralha semelhante.

Narrativa rica em assuntos controversos, que cobre com vocabulário exemplar e de fácil compreensão, relata não só a descoberta do amor para Dôra, como também, por causa de suas limitadas experiências fora do local onde nasceu, seu próprio acordar para o mundo e para si mesma. E conselhos não lhe servem para nada, como diz: “Gente nova não adivinha nem quer adivinhar certas coisas; e mesmo quando tem um aviso, dez avisos, não acredita.”

Rachel de Queiroz

Central na trama estão as relações familiares, e a ausência delas;  amizades e a complexidade das emoções humanas. Há traição, abuso, arrogância, ciúmes pontuados esparsamente por  lealdade e honestidade.  É uma obra de realismo físico e emocional, refinada pela palavra certa, ritmo preciso e relato direto,  sem bordados. 

Recomendo a leitura.  A obra de Rachel de Queiroz, a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, deve fazer parte da lista de leitura de qualquer brasileiro curioso sobre a rica herança literária do país. Nota 10.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Flores para um sábado perfeito!

8 01 2022

Girassóis e Minha Cidade, 1998

Adir Sodré (Brasil, 1962-2020)

Acrílica sobre tela, 200 x 200cm





Rio de Janeiro, RJ, Brasil

7 01 2022

Rio, 1972

Nelson Jungbluth (Brasil, 1921-2008)

acrílica sobre tela , 100 x 70 cm





‘Quando ela passa” poesia de Nelson Tangerini

6 01 2022
Ilustração de Gil Elvgren, 1960s.
Quando ela passa

 

 

Nelson Tangerini

 

 

Quando Ela passa, de sombrinha clara,

essa da Moda, esplendorosa Estrela,

para o automóvel, para o bonde, para

o mundo inteiro: todos querem vê-la..

 

E todo mundo, estático, escancara

os olhos grandes, que se aumentam pela

vontade de envolver-lhe a forma rara

num desejo malvado de comê-la…

 

E a deusa passa… E passa – indiferente,

sem medo de que o mundo se desabe…

bailando as curvas, desmanchando a gente…

 

E a gente fica a interrogar-se, à-toa,

como, em dois dedos de vestido, cabe

uma porção de tanta coisa boa!…





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

5 01 2022

Maçã, 1968

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925 -2019)

óleo sobre tela, 22 x 16 cm





Leituras em 2022: O último duelo, Eric Jager, resenha

4 01 2022

Comecei bem o ano lendoO último duelo, de Eric Jager.  Baseado em fatos reais, com extensa pesquisa histórica, essa narrativa não é só detalhada na precisão de dados da vida medieval como é tão intrigante que se torna um livro que queremos saber o final, para saber o resultado de uma grande batalha entre dois homens.

A história se passa no final do século XIV, na França.  Dois vizinhos e amigos, Jean de Carrouges e Jacques Le Gris, começam a se estranhar desde que Le Gris, recebe maiores benesses do Conde Pierre d’Alençon.  Enciumado, Carrouges procura justiça junto ao Conde, sem sucesso.  Os benefícios que Le Gris recebe continuam, mesmo que Carrouges saia para batalhas a favor da França. É reconhecido como grande lutador, mas as terras que deseja não lhe são dadas.

Ambos os homens têm personalidades que ora nos irritam, ora nos fazem querer que sejam bem sucedidos.  Mas um dia, a esposa de Carrouges é estuprada em casa, quando seu consorte se encontra em outra cidade.  Ele reconhece Le Gris como o estuprador e se recusa a ficar calada sobre o crime. Conta ao marido que, então, resolve levar o caso ao rei.

Nesta época, na França, a resolução por duelo estava quase extinta.  Mas este era um crime de honra e, eventualmente, o rei dá permissão para que o duelo aconteça.  No entanto, é necessário lembrar, que este duelo era até a morte de uma das partes.  Quem morresse era considerado culpado, e quem sobrevivesse era considerado inocente, porque Deus o salvara.  Neste caso, Carrouges se morresse,  ou seja se fosse considerado culpado, sua esposa, Marguerite, iria sofrer também, pois seroa queimada viva, por falso testemunho sobre o sobrevivente. 

Mais importante do que a grande pesquisa, bem documentada, feita pelo autor na França, e que o texto traz deliciosas iluminuras de manuscritos de época, é a narrativa repleta de suspense, de ação, é levada com grande habilidade.  Mesmo que não sejamos especialistas de história medieval, conseguimos acompanhar bem; e se nossa preferência é por um livro de aventuras, também ficamos satisfeitos.  Apesar de toda pesquisa, fatos corroborados por documentação, não interrompem a leitura que se assemelha a um livro de mistério, de tanto que queremos saber o desfecho.

Eric Jager

Eric Jager é um crítico literário americano e especialista em literatura medieval, professor universitário  com alguns livros publicados e outro romance não traduzido,  Blood Royal, a true tale of crime and detection in Medieval Paris. Um pesquisador que definitivamente domina a arte da narrativa, dos thrillers e mistérios, sem comprometer a pesquisa histórica. 

Foi um prazer ler este livro.  Não há diálogos. Mas a narrativa é forte, bem ritmada.  E saímos da leitura certos de termos conhecido intimamente as qualidades e os defeitos dos dois homens centrais no romance.  Recomendo a leitura, sem restrições.  Mas se você gosta de ficção histórica, se é apaixonado pela idade média ou se gosta de um mistério respondido só nos parágrafos finais, esse livro, é para você.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.