No vaso azul
Ana Goldberger (Brasil, 1947 – 2019)
acrílica sobre tela, 40 x 40 cm
Natureza morta
Sansão Pereira (Brasil, 1919 – 2014)
Óleo sobre tela, 80 X 100 cm
Natureza morta
Sansão Pereira (Brasil, 1919 – 2014)
Óleo sobre tela, 80 X 100 cm
Natureza morta
Sansão Pereira (Brasil, 1919 – 2014)
Óleo sobre tela, 100 X 80 cm
Natureza morta
Sansão Pereira (Brasil, 1919 – 2014)
Óleo sobre tela, 80 X 100 cm
Natureza morta
Sansão Pereira (Brasil, 1919 – 2014)
Óleo sobre tela, 80 X 100 cm
Maternidade
Aurélio d’Alincourt (Brasil, 1919 – 1990)
óleo sobre placa, 41x 33 cm
Stella Leonardos
Tudo que há na fonte pura
Vem da mina de onde brota
E do fundo da espessura
Nasce a sombra de uma grota.
Todo verdor de uma planta
Deve à terra seu verdor.
Todo pássaro que canta
Herdou raça de cantor.
Qualquer gesto bom que eu tenha,
Toda vez que eu ficar triste,
Todo sonho que me venha,
Tudo que em mim houve e existe
Será teu, Mãe. Porque és água,
Pedra e chão, rama e raiz
De meu mundo: quer na mágoa
Quer no momento feliz.
Em: Pedra no Lago, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José:1956, p. 45
A votação das melhores leituras do ano do Grupo de Leitura Ao Pé da Letra aconteceu ontem na última reunião, neste ano em que desde março os encontros são virtuais, e continuarão assim indefinidamente. Durante a pandemia as discussões têm sido mais ordeiras, ninguém pode falar fora de ordem, um tanto menos detalhadas, para não demorar muito, mas laços de amizade se solidificaram porque o grupo se reuniu virtualmente mais vezes para conversar, fora dos encontros sobre livros, para ajudar a passar momentos de ansiedade e ajuste às circunstância da pandemia, no Rio de Janeiro. Foram doze livros lidos, e este foi o resultado da votação:
O melhor do ano:
Nada ortodoxa, Deborah Feldman
Em segundo lugar:
Me chame pelo seu nome, André Aciman
Em terceiro lugar:
4321, Paul Auster
Outros livros lidos:
Vasto mundo, Maria Valéria Rezende
O jogo das contas de vidro, Herman Hesse
Nenhum olhar, José Luís Peixoto
Uma dor tão doce, David Nicholls
Caçando carneiros, Haruki Murakami
Um lugar bem longe daqui, Delia Owens
A caderneta de endereços vermelha, Sofia Lundberg
A casa holandesa, Ann Patchett
Ninguém precisa acreditar em mim, Juan Pablo Villalobos
Pauline no vestido amarelo, 1944
Herbert James Gunn (GB, 1893-1964)
óleo sobre tela
Harris Museum & Art Gallery, Preston
Natureza morta: livros, maçãs, janela
Dmitri Annenkov (Rússia, 1965)
óleo sobre tela
Aos setenta e cinco anos Maria Albertina Anachoreta Amazonas não hesitou aceitar o convite para participar do grupo de leituras Papalivros. Em dezessete anos esteve ausente cinco vezes, mas leu cada um e todos os livros sugeridos. Participou ativamente das discussões com entusiasmo, ouvindo opiniões diversas e defendendo a visão do que lia. Entrou no Papalivros em 2003, membro fundador, e dividiu conosco sua experiência, contando, quando era apropriado, histórias de alunos que teve numa vida dedicada ao magistério. Dona de repertório de piadas variado, sempre nos presenteou com momentos de riso solto e alegria, mostrando àqueles que a conheciam o prazer de estar viva e gratidão pelo que lhe coube em vida. Dona de prodigiosa memória, Albertina nos deliciou com vinhetas de sua época de jovem moradora na Tijuca, das vesperais dançantes do Tijuca Tênis Club, da paixão à primeira vista por seu marido, das idas aos cinemas da Praça Saens Peña, dos dias de faculdade no Instituto Lafayette.
Neste mês, no entanto, aos noventa e dois anos de idade, Albertina nos deixou. Desde o início da reclusão social ela sofreu com a falta dos encontros com amigas; pela abstenção das idas ao cinema, um dos passatempos favoritos; com a ausência dos chazinhos à tarde nas confeitarias do Flamengo, bairro onde morou por muitos anos. Gregária e muito querida, padeceu com a solidão que lhe foi imposta. Ficou triste. Não teve interesse de participar dos encontros virtuais. Se para nós eles já parecem insatisfatórios, como esperar que suprissem a necessidade de socialização de uma senhora sem domínio da internet? Até que o corpo cansou. Foi-se. Ficamos nós, dezenove companheiras de leitura, de conversas, de telefonemas, de idas ao cinema ou ao chá da tarde, companheiras de bons momentos e das preocupações gerais; ficamos nós, de repente, sentindo um vazio imenso que mesmo assim mal reflete o espaço de importância que Albertina teve em nossas vidas. Ficamos com imensas saudades, parecendo roubadas, trapaceadas, pelas circunstâncias, pela pandemia, pelo desenrolar inesperado de eventos até este ano impensáveis; enganadas e traídas por não podermos mais desfrutar de sua alegria e entusiasmo. Adeus Albertina, vá em paz.
Deixa o marido, Mário, dois filhos e dois netos.

Albertina Amazonas (1928-2020) com o escritor e seu ex-aluno, Francisco Azevedo, num dos encontros do Papalivros.