Imagem de leitura — Eliseu Visconti

13 06 2022

A leitura, 1891

Eliseu Visconti (Itália-Brasil, 1866-1944)

óleo sobre tela, 75 x 45 cm

 

Agradeço à leitora Luciana Braga pela referência a este quadro.  Aliás, VIsconti é um dos  poucos pintores brasileiros com grande número de telas em que pessoas lendo são representadas.





Sublinhando…

20 05 2022

Moça lendo, 1970

Cecil Crosley Bell (EUA, 1906-1970)

óleo sobre madeira, 35 x 25 cm

“Podemos viver num erro contínuo, crer que temos uma vida compreensível, estável e apreensível, e descobrimos que tudo é inseguro, pantanoso, sem direção, sem pé em terra firme; ou tudo é uma representação, como se nos achássemos no teatro, convencidos de estarmos na realidade e nos déssemos conta de que se apagavam as luzes e se levantava a cortina e de que, além disso, estávamos no palco, e não em cima nem embaixo entre os espectadores, ou na tela de um  cinema sem podermos sair, aprisionados no filme e obrigados a nos repetir a cada projeção, convertidos em celuloide e sem capacidade para alterar os fatos, o argumento, o projeto, nem o ponto de vista, nem a  luz, a história que alguém decidiu que fosse será sua para sempre como é.”

Em: Berta Isla, Javier Marías, Tradução Eduardo Brandão, São Paulo, Companhia das Letras: 2020, p. 206





Curiosidade literária

16 05 2022

Moça com livro,1895

Filipp Andrejevitsj Maljavin (Russia, 1869-1940)

óleo sobre tela, 106 x 72 cm

 

 

Lewis Carroll, autor de Alice no país das maravilhas não era bom no controle de suas finanças.  Ele pagava as dívidas em dia, mas frequentemente passava do orçamento e entrava no crédito acima de sete mil e quinhentas libras.  A ironia está em Carroll ser um grande matemático trabalhando na universidade de Oxford.





Outonais…

12 05 2022

Há muito tempo sigo Maria Popova, suas excelentes considerações sobre arte, vida, livros, no site que se chamava Brain Pickings,  hoje, The Marginalian. Suas observações sobre as artes, ponderações sobre a vida, são imperdíveis e adicionam conhecimento e reflexão aos que procuram conteúdo na web.  Recebi há algum tempo, suas notas sobre o Outono.  Sim, ela está no hemisfério norte, nos Estados Unidos, ainda que seja nativa da Bulgária. E acabei refletindo também sobre essa estação do ano, a de que mais gosto.  Como residente no Rio de Janeiro, reconheço que outono ou primavera, quase se assemelham por aqui, mas é fascinante ver a distinta divisão de estações do ano em muito locais do hemisfério norte. Como morei por mais de três décadas acima do Equador, posso dizer com segurança: o outono é a estação em que me sinto mais confortável. Ainda que eu tenha simpatia pelas belas imagens trazidas à tona  pelo texto de Popova, marcando o início do fim, a aproximação da meta final de todos nós, seres vivos.  Minha visão do outono é diferente. 

O outono é a mágica da Natureza!  É sua estrondosa celebração.  Último suspiro?  Talvez.  Mas quem não gostaria de morrer depois do aplauso encerrando o maior espetáculo da Terra?  Para começar há a despedida da umidade asfixiante dos dias de calor extremo do verão.  Sim, porque verão no hemisfério norte nem sempre quer dizer temperaturas amenas.  Dias claros, sem chuva, são característicos da época.  E flores, crisântemos e seus primos, margaridões, margaridas e mal-me-queres aparecem vestidos da cores da época, refletindo as mudanças das árvores.  Lá vem eles em potes, nos canteiros, nas guirlandas decorativas das casas, nos jardins, amarelos, laranjas, vermelho escuros, quase marrons.

O outono é a estação das colheitas, da preparação para a sobrevivência no inverno.  É o ponto de partida para garantirmos, tanto quanto possível, a continuação da vida.  É a época do investimento.  Dos frutos colhidos se tornarem comida para os meses seguintes. É a hora de usarmos os conhecimentos ancestrais, de avós e bisavós, para enchermos a despensa com  geleias, salgar os peixes, as carnes, secar as flores, as folhas para os chás, de fazer conservas de frutas e legumes.  É também a época de plantar os bulbos que só virão  a florescer na primavera: tulipas, narcisos, jacintos, anêmonas, lírios e muitos outros que necessitam de hibernação. Portanto, é uma estação encantadora, num bom ano, repleta de alegrias. 





Meus favoritos: Johan Laurentz Jensen

29 04 2022

Cravos em vaso de cristal sobre prateleira de mármore, 1840

Johan Laurentz Jensen (Dinamarca, 1800-1856)

óleo sobre madeira, 31 x 24 cm





Serviço religioso

9 04 2022




RECESSO

8 04 2022

ESTE BLOG FARÁ  UM PEQUENO RECESSO.  Ladyce West (a Peregrina Cultural) encontra-se de luto pelo falecimento de seu marido.

 





Leituras de 2022: A filha do fazedor de reis, Philippa Gregory, resenha

28 03 2022

per angelum induit, in hyacinthino pallio — loumargi: Quiet Read, Annie  Rose Laing. (1869 -...

Uma leitura silenciosa

Annie Rose Laing (Escócia, 1869-1946)

óleo sobre tela, 50 x 76 cm

A Guerra das Rosas preenche um capítulo penoso de minha vida escolar.  Decepcionada com a matéria de história, com o decorar de datas e nomes de príncipes desconhecidos; desencantada pelo meu raso conhecimento da era medieval, passei frustrada e desgostosa por não entender a importância das trocas de poder europeias, de suas batalhas infindáveis.  Nada disso fazia parte dos meus interesses.  Aulas de história obrigatórias e enfadonhas, numa época em que mesmo em um dos melhores colégios do país, não havia o suporte  audiovisual necessário para seduzir a adolescente rebelde.  Parecia perda de tempo.  Aos treze anos, o assunto se tornou um pesadelo de memorização de datas e nomes sem sentido.  Ironicamente,  acabei me profissionalizando como historiadora da arte e hoje, sou totalmente fascinada com as alianças e trocas de poder durante a baixa idade média, com as intrigas das cortes francesas e inglesas da época, além de me deleitar com a beleza dos manuscritos repletos de iluminuras que fazem parte do período.

Philippa Gregory se comprometeu a cobrir a Guerra das Rosas, vista de quatro ângulos diferentes, de acordo com as rainhas envolvidas. Dedicou um volume para cada uma delas.  É visão quase cubista das batalhas que aconteceram nos trinta e dois anos da guerra: o mesmo evento por ângulos diferentes. Ataques violentos, conflitos esmagadores, traições, trocas de governança de um lado e outro, acordos quebrados, pouca lealdade e a cobiça na cabeça de todos os personagens enriquecem essa série e explicam para o leitor moderno os motivos dessas figuras históricas para tanta ferocidade. Em cada livro, vemos a mesma guerra, suas batalhas episódicas, iniciadas por príncipes, reis, governantes. Pontos de vista diferentes na leitura desses volumes trazem variedade de ângulos na compreensão desse ciclo complexo, delineando ambições entre membros das mesmas famílias. Esses romances são independentes, não precisamos ter lido em ordem ou ter lido todos para entendermos o conteúdo e desenvolvimento da história de cada um.

Em A filha do Fazedor de Reis, tradução de Patrícia Cardoso, acompanhamos a corte de Eduardo IV, época em que Richard Neville, conde de Warwick, era o homem mais poderoso e mais rico da Inglaterra, conhecido como O Fazedor de Reis (The Kingmaker).  Ambicioso, deseja obter total domínio do governo. Mas foi traído pelo rei que ele mesmo colocou no trono.  Inconformado, não hesita em negociar os casamentos de suas próprias filhas, Anne e Isabel, de modo que lhe seja vantajoso.  Philippa Gregory escolhe narrar esta versão da Guerra das Rosas, através da voz de Anne, que eventualmente se torna uma das rainhas responsáveis pelas batalhas que caracterizam a guerra entre primos. Como em outras ficções históricas de Philippa Gregory a narrativa é direta e fácil de ser seguida, com capítulos pequenos, cheios de ação, em ritmo acelerado.

Gosto de ficção histórica.  As narrativas de Philippa Gregory têm sucesso porque além de explicarem os motivos das personalidades envolvidas na trama, elas também aproximam, quando podem, detalhes da vida cotidiana que são facilmente identificados como semelhantes ao dia a dia do mundo moderno.  Aqui, por exemplo:

“Depois da refeição, quando Ricardo se retira para seu quarto e se senta junto à lareira para ler, vou com Eduardo para a torre infantil e o vejo ser despido e posto na cama. É neste momento, quando ele acabou de tomar banho e tem um cheiro doce, quando seu rosto está macio e branco como o linho de seu travesseiro, que o beijo e sei o que é amar alguém mais do que a própria vida.”

Philippa Gregory

 

Parece uma cena contemporânea, cena de filme, de anúncio televisivo. Primeiro, o marido que se recolhe para ler próximo à lareira no quarto.  Vamos nos lembrar que só os nobres e ricos teriam, no final do século XV, livros impressos na Inglaterra, país em que o primeiro livro impresso foi em 1473,  Antologia de histórias de Troia, de Raoul Lefèvre, traduzido e publicado por William Caxton, o primeiro editor inglês a publicar livros usando caracteres móveis.  A cena continua, descrita no mesmo tom casual,  mostrando a preocupação de Anne com o filho pequeno, que ela gosta de acarinhar depois do banho. Nobres e reis banhavam-se com frequência, muitas vezes com banhos perfumados com ervas medicinais.  Não era uma atividade diária para o cidadão comum, que na maioria das vezes teria seu banho de imersão em lugares públicos, menor número de vezes por semana.  No entanto, o leitor consegue se abstrair dessa realidade (que não é mencionada pela autora) e imaginar facilmente as cenas descritas nos castelos entre os nobres, porque elas são semelhantes às cenas e preocupações que teríamos nos dias de hoje.

Trazer os detalhes de outrora com a familiaridade do que conhecemos hoje é uma das habilidades de Philippa Gregory que a fazem leitura assídua por aqueles que gostam de ficção histórica.  Ação e compreensão dos sentimentos desses personagens conhecidos nos livros de história ajudam a humanizá-los e a fixar em nossa memória eventos, guerras, batalhas que teriam pouca prioridade de outra feita.

Bom entretenimento.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.

 

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Aniversário da cidade do Rio de Janeiro: 457 anos (1565-2022)

1 03 2022

Lagoa Rodrigo de Freitas, 1870

Franz Keller-Leuzinger (Alemanha, 1835-1890)

aquarela, 21 x 30cm

Museu Imperial, Petrópolis





Leituras de 2022: A Biblioteca da Meia-Noite, Matt Haig, resenha

9 02 2022

Viviane Villalon(Mans, França)

Votado Melhor Livro de Ficção em 2020, pelos leitores do site Goodreads, com mais de dois milhões de volumes vendidos no mundo, era inevitável que dois de meus grupos de leitura se interessassem por A biblioteca da meia-noite, do inglês Matt Haig, traduzido no Brasil por Adriana Fidalgo.  Sempre tento colocar o livro que leio no contexto para que foi criado: que leitores esse autor desejou alcançar?  Teve sucesso nesse objetivo?  A ambição do autor é ser conhecido como um clássico?  Ou sua intenção é uma diversão? Estas perguntas guiam minha perspectiva na resenha.

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A biblioteca da meia-noite começa com o desencanto de Nora Seed que,  aos trinta e cinco anos, se sente sem perspectivas na vida.  Acredita que nada no correr de sua existência deu certo, que suas decisões sabotaram qualquer potencial de sucesso em diversos campos de ação.  O desapontamento consigo mesma domina suas ações e pensamentos. Eventualmente, Nora Seed tem oportunidade de conhecer algumas de suas vidas paralelas, caso tivesse feito diferentes escolhas.  Ainda que este tema tenha sido amplamente explorado na ficção contemporânea, como na refinada prosa de Kate Atkinson, O fio da vida; na thrilling ficção científica de Blake Crouch em Matéria escura, e mais recentemente, na obra prima, marco na literatura contemporânea,  4321 de Paul Auster, (esses foram os que li), ainda assim, esse início de livro me lembrou bastante o filme A felicidade não se compra, de 1947.  Talvez tenha sido a semelhança de atitudes dos principais personagens de filme e livro. A lembrança de Jim Stewart como George Bailey se instalou em minha mente principalmente quando refletia semelhantes surpresas no correr da narrativa entre Nora Seed, deste livro e George Bailey, protagonista do filme de Frank Capra.

Não consegui tampouco esquecer o tom de aconselhamento; a preocupação de mostrar a importância de seguirmos nossos sonhos, confiando no potencial inerente de cada um. Didático?  Autoajuda?  Não sei bem classificar.  Mais sofisticado em linguagem e trama que muitas parábolas contemporâneas criadas por autores com Paulo Coelho, Robin S. Sharma, Rhonda Byrne, este livro tem um pouco de fantasia, de referências à física quântica, muitos diálogos e reflexões.  Trata de problemas existenciais e da procura do amor.  Ainda que abertamente a proposta do livro não seja um guia de autoajuda, há a distinta preferência por frases de efeito, que nesta obra recaem nas inúmeras citações de versos e máximas de Henry David Thoreau, [o escritor favorito de Nora Seed], Bertrand Russell, Sylvia Plath e outros. 

Ela se deu conta de que não importa o quão sincera a pessoa seja na vida, os outros só enxergam a verdade se estiver próxima suficiente da realidade deles.  Como Thoreau escreveu: ‘Não é aquilo para o que você olha que importa, mas o que você vê.‘” [257-8]

Matt Haig

A biblioteca da meia-noite é excelente entretenimento.  É um texto que nos convida a ponderar sobre nossas escolhas. Portanto tem a habilidade de ficar com o leitor por algum tempo depois da leitura.  Como muitos dos livros publicados desde a virada do século usa a popularização da Teoria das Cordas, para explorar a possibilidade de existências paralelas.  Pode ser visto também como um livro de aconselhamento, que leva o leitor a se sentir confortável com sua vida e suas escolhas. 

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.