Revendo a postagem de domingo, das paisagens com portões, eu me lembrei de um fato curioso. Nos anos 90 quando eu tinha uma galeria, nos Estados Unidos, no fundo da galeria, em outra salinha coloquei uma arca (a palavra mais acertada é bin, em inglês, comum em galerias de arte) onde desenhos, aquarelas, gravuras de artistas não necessariamente associados à galeria, mas de boa qualidade, são apresentados ao público para compra imediata. São trabalhos de custo menor, que já vêm com paspartur neutro, embrulhados em acetato, em tamanho padrão para compra de moldura nos tamanhos existentes no mercado. Essas gravuras, pequenas aquarelas, desenhos a nanquim, lápis, pastel, carvão podem ser de artistas renomados, mas que por serem de pequenas dimensões têm o preço acessível a maior número de compradores.
Há épocas como a das festas de final de ano, ou nos dias letárgicos do verão, em meio ao calor excessivo, comum em alguns lugares do hemisfério norte, o comércio que depende da venda de artigos de luxo, como obras de arte, produtos menos acessíveis ao bolso do consumidor comum, penam para manter um mínimo de fluxo de caixa. Tendo isso como parâmetro, a sobrevivência confortável vai depender da imaginação do galerista. Ele pode organizar exposições mais acessíveis ou acarinhar a fiel clientela oferecendo brindes (também dispendiosos, não estou falando de chaveirinho). Tenho na verdade, deliciosas histórias para contar sobre esses períodos anuais, quando a imaginação do galerista, e desta que vos fala, precisa se expandir e abraçar ideias nunca dantes imaginadas.
Sou uma pessoa que me programo. Depois que dirigi a primeira galeria de arte (que não era minha) eu me tornei ainda mais cautelosa com a organização do futuro, infelizmente algo nem sempre encontrado por aqui, talvez não por completa culpa nossa, mas pelas incertezas do país. Vou dar um exemplo: exposições em galerias de arte, mesmo fora de Nova York, Los Angeles, Chicago ou Miami, são programadas com um ano de antecedência. Isso dá ao galerista e ao artista tempo de preparar, divulgar e fazer um bom trabalho, inclusive contatar e fomentar o interesse de possíveis compradores.
Eu estava sempre à procura de arte de excelente qualidade, que pudesse vir a ser apresentada e vendida a partir de novembro até meados de janeiro e depois no meio do verão, todo o mês de julho. Seriam presentes para um anfitrião numa casa de campo, onde se passa um fim de semana, ou lembrança de Natal para um profissional a quem se deve um referência comercial. Obras menos caras do que as habituais telas ou esculturas da galeria, mas mesmo assim artigos de luxo, nem sempre cabendo no orçamento familiar mensal. Eram obras de excelentes artistas, menos conhecidos. Isso às vezes até me servia para testar o mercado, para testar a expansão do gosto da minha clientela. Galeristas têm que saber o que cada um de seus clientes deseja, no que se interessa em comprar. Não há sorte. O segredo é sempre a informação e cultivo do cliente.
Ter uma galeria de arte, não é só um comércio. É principalmente um serviço. Seu papel é aquele de ajudar o comprador a achar aquilo que ele quer. E se necessário, educar esse comprador. É um trabalho muito além do pendurar na parede um quadro ou colocar uma escultura em determinada posição na sala.
Pois bem, nessa procura constante por obras que pudessem ser vendidas nos períodos de “vacas magras” que todo galerista sabe muito bem quais são, houve um ano, em que comprei, para revenda, três séries de aquarelas de um artista no NE dos EUA. Cada série era composta por aquarelas que iam gradativamente da representação realista da mesma cena à abstração total, da paisagem original. As séries eram compostas por seis ou sete obras, já não me lembro o número, todas aquarelas.
Uma dessas sequências era dedicada a representação de um muro com um portão e algumas flores se debruçando sobre este muro. As cores eram tênues como cabe bem aos pintores do nordeste dos EUA. E ao final da série chegávamos a uma pintura totalmente abstrata da mesma cena. Um de meus clientes quando viu a cena, me disse, “… mas esse pintor não deve ser americano, porque esse interesse por flores em cima de muros é um tema que a gente encontra no México, não nos EUA.” Fiquei surpresa. Como assim, eu tinha conversado com o pintor, eu tinha comprado a série no seu ateliê na Nova Inglaterra. Ele não era mexicano. Não vendi a série para este senhor, mas eventualmente vendi as três séries separadamente.
No ano seguinte, numa conversa telefônica com o artista, cultivo que o galerista também deve fazer, soube que este americano, nascido em New Hampshire, tinha passado a infância, até os doze anos no México. Calculei naquele momento que essa apreciação por muros, portões e flores talvez seja mais cultural do que imaginamos. E que até mesmo eu, criada e educada no Brasil, provavelmente retinha esse gosto pelo tema. Desde então, toda vez que vejo um portão com flores próximas ou um muro com buganvílias tomando o espaço da rua eu me lembro do viés deste gosto latino. Às vezes traímos nossas raízes, sem saber como!
Somos sete lendo o livro do Caldeira. Mas às vezes uma ou outra falta. Não faz mal, quem falta lê sozinha o capítulo perdido e pega o ritmo na semana seguinte. Esta leitura é organizada e dirigida pela leitora, psicóloga, artista plástica Rose Nobre.
Os pergaminhos estão tão queimados que é impossível abri-los sem despedaçá-los.
Textos em papiro da biblioteca da família de Júlio Cesar, completamente queimados como este da fotografia acima podem agora começar a ter seu conteúdo revelado graças ao trabalho de três estudantes trabalhando com inteligência artificial. Os papiros de aproximadamente 2000 mil anos se encontram ilegíveis desde a erupção do Vesúvio no ano 79 DC que os atingiu na cidade de Herculano. Esta é uma verdadeira descoberta, um incontestável passo no estudo da história antiga e da cultura ocidental.
O manuscrito decifrado, provavelmente, pertenceu à biblioteca do sogro de Júlio César. Trata-se de um texto sobre música, cuja maneira de escrita parece típica do filósofo Filodemo de Gádara (110 AC-35 AC) que seguiu os ensinamentos de Epicuro (341AC – 270 AC), ambos gregos. Filodemo pode ter sido o filósofo em residência em Herculano. Especialistas dizem que esta descoberta é uma pequena revolução no estudo da filosofia grega.
Os papiros foram descobertos por um fazendeiro em uma das casas de Herculano.
Dr. Brent Seales, da Universidade de Kentucky, nos EUA reconheceu o trabalho de um time de três estudantes de diferentes locais, todos na área de inteligência artificial e não, como se poderia supor, na área da filosofia, que desenvolveram a técnica de ler os papiros sem os abrir. Eles foram recipientes do prêmio de um milhão de dólares, que Dr. Seales havia conseguido levantar junto a investidores para descobrir o que estes documentos do passado guardavam. A este projeto foi dado o nome de Desafio do Vesúvio. Os estudantes foram: Youssef Nader, estudante de doutoramento em Berlim, Luke Farritor, estudante e estagiário na SpaceX e Julian Schillinger, estudante de robótica na Suíça. Juntos eles construíram um robô que é capaz de reconhecer letras através de matrizes.
Até o momento eles decifraram dois mil caracteres gregos escritos em um dos quatro documentos escaneados pelo time do Dr. Seales, o que é só 5% dos textos. O que foi traduzido refere-se a fontes de prazer na vida, tais como música e alimentos.
Em uma passagem Filodemo se pergunta se coisas em pequenas quantidades dão maior prazer. O time do Desafio do Vesúvio espera que a tecnologia desenvolvida por eles possa ler pelo menos 90% de todos os papiros escaneados neste ano e possivelmente todos os 800 rolos encontrados nas mesmas circunstâncias.
NB: este artigo é baseado em publicação da BBC News, de fevereiro de 2024: AI unlocks ancient text owned by Caesar’s family;
A todos que se lembraram, o meu muito obrigada. Quem não se lembrou, não faz mal, não é importante. O importante é que vocês estão aqui comigo, a dias de completarmos 16 anos de troca de ideias. Aqui sim, vale um MUITO OBRIGADA!