Ilustração de Anne Mortimer.
O meu gato é meu amigo…
Em casa, na falta dela,
assiste a T V comigo,
do futebol à novela.
(Dari Pereira)
Ilustração de Anne Mortimer.
O meu gato é meu amigo…
Em casa, na falta dela,
assiste a T V comigo,
do futebol à novela.
(Dari Pereira)
Cristo Redentor Visto por Santa Tereza
Angeli Bigi (Itália/Brasil, 1891-1953)
óleo s madeira, 24 X 29
Jovem em azul
Brian James Dunlop (Austrália, 1938 – 2009)
óleo sobre tela, 64 x 83 cm

“Nos anos 1950, a América ergueu o globo pelos tornozelos e sacudiu o troco de seus bolsos. A Europa tinha se tornado um primo pobre – só brasões, porém nenhum serviço de jantar. E os indistinguíveis países da África, da Ásia e da América do Sul tinham apenas começado a surgir nas paredes das nossas salas de aula como salamandras ao sol. Certo, os comunistas estavam por lá, em algum lugar, mas, com Joe McCarthy no túmulo e ninguém na Lua, por enquanto os russos apenas se esgueiravam pela páginas do romances policiais.”
Em: Regras de Cortesia, Amor Towles, tradução de Léa Viveiros de Castro, Rio de Janeiro, Rocco: 2012, página 9
Limões
Sonya Grassmann (Bulgária/Brasil, 1933-1997)
óleo sobre eucatex, 38 x 28 cm
Portas abertas com metrônomo
Charles Hardaker (GB, 1934)
óleo sobre tela, 40 x 40 cm
Muito barulho por nada. Este livro foi cotado como um dos melhores livros de 2017 pelo jornal The New York Times. Obra do paquistanês e britânico Mohsin Hamid, na edição brasileira traz, ainda, na capa, a ratificação do ex-presidente dos EUA, Barack Obama — “um dos melhores livros do ano” — que, fica claro, não leu o que eu li naquele ano. Este livro não faria parte da minha lista das melhores leituras de 2017, nem dos anos subsequentes.
A obra é dividida informalmente em três tempos. Trata-se da história entre um homem e uma mulher, mais para “amizade com benefícios” do que uma história de amor, que se desenrola num país qualquer, do Oriente Médio, muçulmano e em guerra. O casal é formado por uma jovem e corajosa mulher acostumada a desafiar costumes tradicionais, e um rapaz, mais conservador do que ela, um homem sonhador e dependente emocionalmente da família. Este primeiro terço da obra é interessante, pois quebra diversas e costumeiras suposições sobre a vida de jovens muçulmanos e do dia a dia de um lugar em conflito. Não tenho como saber se é um retrato realista dessas circunstâncias. Mas a intenção do autor é que assim julguemos.

De repente, no afã de mostrar diversas possibilidades e ajustes no processo de emigração que se faz necessário para os que desejam sobreviver, somos apresentados às vantagens e problemas de imigrantes em diferentes países, enquanto acompanhamos a vida de Nadia e Saeed em lugares do mundo variados, da Grécia aos EUA, passando pela Inglaterra, na migração sequencial em que embarcaram.
Mohsin Hamid, no segundo tempo, revira a narrativa e através de um dispositivo primário, como portas ou portais para diferentes realidades e incita o questionamento da natureza da terra natal, seu significado e relativismo. O autor mistura gêneros, do quase realismo à fantasia. Essa manobra me deixou fria, desinteressada. E mais: perplexa com o sucesso deste livro.
Mohsin Hamid
No terceiro tempo, passados cinquenta anos, encontramos Nadia e Saeed em sua terra natal, onde Saeed ainda sonha em viajar ao Chile para observar o cosmos. Passagem para o Ocidente é frequentemente aplaudido, pelos leitores de língua inglesa, como um texto poético, narrado com delicadeza. No Brasil, na tradução de José Geraldo Couto, essas qualidades não foram ressaltadas. O livro apresenta uma linguagem objetiva e seca. Cristalina. Sem firulas. Não agrada, nem desmerece a leitura.
Difícil recomendar esta leitura.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Avenida 15 de Novembro (Hoje, Rua do Imperador) – Petrópolis, 1905
Augusto Luiz de Freitas (Brasil, 1868-1962)
óleo sobre tela, 33 X 26 cm
Nathaniel Hawthorne, 1840
Charles Osgood (EUA, 1809 – 1890)
óleo sobre tela, 74 x62 cm
Peabody Essex Museum, Salem, Ma, EUA

Sem título
Daniel Freire (Brasil, 1927 – 2000)
óleo sobre tela, 40 x 50 cm
Katie
Aldo Balding (GB, 1960)
óleo sobre tela, 70 x 50 cm
No ano passado, coloquei aqui no blog, a tradução de Bárbara Heliodora, do Soneto 18 de Shakespeare, um dos mais conhecidos mundialmente. Mas, há outras, muitas outras, e se compararmos podemos ver como a cada tradução o poema muda um tanto… São todas boas e traduzidas por conhecidos poetas, mas a dificuldade da tradução de poesias é evidente. Vejamos, por curiosidade o que acontece.
O soneto pode aparecer nesta forma 4-4-3-3 ou seguido. Optei por 4-4-3-3 para aumentar a legibilidade na tela.
ORIGINAL EM INGLÊS
Shall I compare thee to a summer’s day?
Thou art more lovely and more temperate:
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer’s lease hath all too short a date:
Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimm’d;
And every fair from fair sometime declines,
By chance, or nature’s changing course, untrimm’d;
But thy eternal summer shall not fade
Nor lose possession of that fair thou ow’st;
Nor shall Death brag thou wander’st in his shade,
When in eternal lines to time thou grow’st;
So long as men can breathe or eyes can see,
So long lives this, and this gives life to thee.
-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-
NA TRADUÇÃO DE BÁRBARA HELIODORA (Brasil 1923 — 2015)
Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.
Às vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.
Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:
Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.
-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.
NA TRADUÇÃO DE EMMANUEL SANTIAGO (Brasil, 1984)
Poderei comparar-te ao fulgor do verão?
Tu és tão mais amável e tão mais ameno:
A tormenta de maio a flor tolhe em botão
E o verão se consome num prazo pequeno.
Quando faz calor, o olho do céu nos fulmina,
Outras vezes oculta a dourada nudeza;
E, de tudo que é belo, a beleza declina
Por acaso ou por sua fugaz natureza.
Mas, sem fim, teu verão não conhece fastio,
Nem sequer perde o viço no curso das eras,
Nem a Morte te envolve em seu manto sombrio,
Pois no verso indelével o tempo superas:
…….. Enquanto homens houver, e olhos prontos a ver,
…….. Enquanto isto for lido, tu hás de viver.
-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.
NA TRADUÇÃO DE VASCO GRAÇA MOURA (Portugal, 1942 – 2014)
Que és um dia de verão não sei se diga.
És mais suave e tens mais formosura:
vento agreste botões frágeis fustiga
em Maio e um verão a prazo pouco dura.
O olho do céu vezes sem conta abrasa,
outras a tez dourada lhe escurece,
todo o belo do belo se desfasa,
por caso ou pelo curso a que obedece
da Natureza; mas teu eterno verão
nem murcha, nem te tira teus pertences,
nem a morte te torna assombração
quando o tempo em eternas linhas vences:
enquanto alguém respire ou possa ver
e viva isto e a ti faça viver.
-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.
NA TRADUÇÃO DE PÉRICLES EUGÊNIO DA SILVA RAMOS (Brasil, 1919 – 1992)
A um dia de verão como hei de comparar-te?
Vencendo-o em equilíbrio, és sempre mais amável:
Em maio o vendaval ternos botões disparate,
E o estio se consome em prazo não durável;
Às vezes, muito quente, o olho do céu fulgura,
Outras vezes se ofuscava a sua tez dourada;
Decai da formosura, é certo, a formosura,
Pelo tempo ou o acaso enfim desadornada:
Mas teu verão é eterno, e não desmaiará,
Nem hás de a possessão perder de tuas galas;
Vagando em sua sombra o Fim não te verá,
Pois neste verso eterno ao tempo te igualas:
Enquanto o homem respire, e os olhos possam ver,
Meu canto existirá, e nele hás de viver.
-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.
NA TRADUÇÃO DE CARLOS DE OLIVEIRA (Brasil/Portugal 1921 – 1981)
Comparar-te a um dia de verão?
Há mais ternura em ti, ainda assim:
um maio em flor às mãos do furacão,
o foral do verão que chega ao fim.
Por vezes brilha ardendo o olhar do céu;
outras, desfaz-se a compleição doirada,
perde beleza a beleza; e o que perdeu
vai no acaso, na natureza, em nada.
Mas juro-te que o teu humano verão
será eterno; sempre crescerás
indiferente ao tempo na canção;
e, na canção sem morte, viverás:
Porque o mundo, que vê e que respira,
te verá respirar na minha lira.
-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.
NA TRADUÇÂO DE GERALDO CARNEIRO (Brasil, 1952)
Te comparar com um dia de verão?
Tu és mais temperada e adorável.
Vento balança em maio a flor-botão
E o império do verão não é durável.
O sol às vezes brilha com rigor,
Ou sua tez dourada é mais escura;
Toda beleza enfim perde o esplendor,
Por acaso ou descaso da Natura;
Mas teu verão nunca se apagará,
Perdendo a posse da beleza tua,
Nem a morte rirá por te ofuscar,
Se em versos imortais te perpetuas.
Enquanto alguém respire e veja e viva,
Viva este poema, e nele sobrevivas.
-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.
NA TRADUÇÃO DE IVO BARROSO (Brasil, 1929)
Devo igualar-te a um dia de verão?
Mais afável e belo é o teu semblante:
O vento esfolha Maio inda em botão,
Dura o termo estival um breve instante.
Muitas vezes a luz do céu calcina,
Mas o áureo tom também perde a clareza:
De seu belo a beleza enfim declina,
Ao léu ou pelas leis da Natureza.
Só teu verão eterno não se acaba
Nem a posse de tua formosura;
De impor-te a sombra a Morte não se gaba
Pois que esta estrofe eterna ao Tempo dura.
Enquanto houver viventes nesta lida,
Há-de viver meu verso e te dar vida.
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NA TRADUÇÃO DE THEREZA CHRISTINA ROQUE DA MOTTA (Brasil, 1957)
Como hei de comparar-te a um dia de verão?
És muito mais amável e mais amenas
Os ventos sopram os doces botões de maio,
E o verão finda antes que possamos começá-lo:
Por vezes, o sol lança seus cálidos raios,
Ou esconde o rosto dourado sob a névoa;
E tudo que é belo um dia acaba,
Seja pelo acaso ou por sua natureza;
Mas teu eterno verão jamais se extingue,
Nem perde o frescor que só tu possuis;
Nem a Morte virá arrastar-te sob a sombra,
Quando os versos te elevarem à eternidade:
Enquanto a humanidade puder respirar e ver,
Viverá meu canto, e ele te fará viver.
-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-
NA TRADUÇÃO DE JORGE WANDERLEY (Brasil, 1938 -1999)
Comparar-te com um dia de verão?
Tens mais doçura e mais amenidade:
Flores de maio, ao vento rude vão
Como o estio se vai, com brevidade:
O sol às vezes em calor se exalta
Ou tem a essência de ouro sem firmeza
E o que é formoso, à formosura falta,
Por sorte ou por mudar-se a natureza.
Mas teu verão eterno brilha a ver-te
Guardando o belo que em ti permanece.
Nem a morte rirá de ensombrecer-te,
Quando em verso imortal, no tempo cresces.
Enquanto o homem respire, o olhar aqueça,
Viva o meu verso e a vida te ofereça.