Papalivros vota nas melhores leituras de 2022!

5 12 2022

 

 

 

Foram onze livros lidos em 2022 pelos membros do grupo Papalivros. 

 

O último duelo, Eric Jager

A filha do fazedor de reis, Philippa Gregory

Berta Isla, Javíer Marías

Gente ansiosa, Fredrik Backman

Vozes de Batalha, Marina Colasanti

A casa holandesa, Ann Patchett

Autobiografia, Agatha Christie

O pianista da estação, Jean-Baptiste Andrea

A boa sorte, Rosa Montero

O lugar, Annie Erneaux

Diário de um velho louco, Jun’ichiro Tanizaki

 

Depois da festa de encerramento do ano, votamos nas melhores leituras dos últimos doze meses.

 

Em primeiro lugar

 

 

SINOPSE

Do consagrado autor de Coração tão branco e Os enamoramentos. É possível dizer que conhecemos uma pessoa, mesmo tão próxima, quando boa parte do que ela diz e faz permanece nas sombras?

Berta Isla e Tom Nevinson não passavam de adolescentes quando se conheceram e se apaixonaram. Em 1974, poucos anos depois das primeiras trocas de olhares no colégio madrilenho, já eram marido e mulher. Berta não sabia, mas Tom – filho de pai inglês e mãe espanhola, fluente em várias línguas e capaz de imitar sotaques e dicções com perfeição – fora recrutado para o serviço secreto britânico pouco antes do casamento. Tom engana Berta como pode, até que um incidente horripilante o obriga a revelar a atividade a que dedica boa parte dos dias. A regra, acatada por ela ao descobrir que o marido é um espião, e que deve valer por toda uma vida, é não fazer perguntas. Berta concorda, assim, em ignorar metade da existência de Tom, o que inclui a natureza de seus atos e os lugares por onde ele andou. Vivemos no escuro, diz ela, e mal conhecemos a pessoa com quem estamos casados. O quanto ainda há em Tom daquele adolescente que Berta conheceu e por quem se apaixonou?

Javier Marías retorna, aqui, ao tema da espionagem, eixo da monumental trilogia Seu rosto amanhã. Com a prosa elegante de sempre, disseca não apenas os perigos e dilemas morais de se levar uma vida dupla, mas as marcas que as zonas de sombra podem deixar no afeto e na intimidade.

“Haverá melhor romancista vivo que Javier Marías?”


The Independent

 

Em segundo lugar

 

 

 

SINOPSE

O mundo inteiro conhece o virtuosismo literário de Agatha Christie. Sua extraordinária habilidade em desvendar os segredos ocultos da alma humana produziu oitenta e seis livros que continuam encantando gerações e gerações de leitores em todo mundo. Qual o segredo de Dame Agatha? Que mistérios cercavam a personalidade daquela pacata dona-de-casa que, oa escrever, transformava-se na diabólica Rainha do Crime? Essa resposta você encontra na Autobiografia que narra, com absoluta honestidade e lucidez, todos os pormenores de sua vida, desde a infância na pequena cidade de Torquay até os devaneios de sua mais remota vida amorosa.

 

Em terceiro lugar

 

 

 

SINOPSE

Após a Segunda Guerra Mundial, graças à conjugação de sorte e um investimento fortuito, Cyril Conroy entra no ramo imobiliário, criando um negócio que logo se tornará um império e levará sua família da pobreza a uma vida de opulência. Uma de suas primeiras aquisições é a Casa Holandesa, uma extravagante propriedade no subúrbio da Filadélfia. Mas o que seria apenas uma adorável surpresa para a esposa acaba desencadeando o esfacelamento de toda a estrutura familiar.

Quem narra essa história é o filho de Cyril, Danny, a partir do momento em que ele e a irmã mais velha — a autoconfiante e franca Maeve — são expulsos pela madrasta da casa onde cresceram. Os dois irmãos se veem jogados de volta à pobreza e logo descobrem que só podem contar um com o outro. E esse vínculo inabalável, ao mesmo tempo que os salva, é o que bloqueia seu futuro.

Apesar de suas conquistas ao longo da vida, Danny e Maeve só se sentem verdadeiramente confortáveis quando estão juntos. Narrada ao longo de cinco décadas, A Casa Holandesa é uma história sobre a dificuldade de superar o passado. Com bom humor e raiva, os dois rememoram inúmeras vezes seu relato de perda e humilhação e a relação entre o irmão indulgente e a irmã superprotetora enfim será colocada à prova quando os Conroy se virem forçados a confrontar quem os abandonou.

Uma saga sobre o paraíso perdido, A Casa Holandesa se debruça sobre questões de herança, amor e perdão, uma narrativa sobre como gostaríamos de ser vistos e quem de fato somos. E, embora seja um livro repleto de reviravoltas que farão o leitor devorar a história, seus personagens ficarão marcados por muito tempo na memória.

 

O Papalivros é composto por dezoito assíduos leitores que há dezenove anos se encontram para conversar e trocar ideias sobre livros, uma vez por mês.  Portanto nossas recomendações podem ser levadas em consideração.

 

Boa sorte nas suas leituras de 2023.  Esta época de Natal e férias é muito propícia às leituras,  Aproveite-a!





Trova do Natal

21 11 2022

Cigarras e passarinhos,

no presépio das florestas,

entoam dentro dos ninhos:

“Feliz Natal! Boas Festas!”

(José Corrêa Villela)





Trova do tamanho

10 11 2022

Pequenez é coisa feia?

Grandeza é documentário?

— Pequeno é o grão de areia,

mas enguiça um maquinário.

(Carlos Ribeiro Rocha)





Trova dos namorados

8 11 2022
Rosinha e Chico Bento se encontram, ilustração Maurício de Sousa.

Todo dia, o dia inteiro,

É dia dos namorados.

Se o amor é verdadeiro,

Serão dois abençoados.

(Maria Eunice Silva de Lacerda)





Trova do pião

1 11 2022

Joga o teu pião, menino,

aproveita a brincadeira,

que a fieira do destino

vai jogar-te a vida inteira…

(Edgard Barcellos Cerqueira)





Leituras de 2022: “A boa sorte”, Rosa Montero, resenha

14 10 2022

Menina lendo

Carmen Gomez Junyent (Espanha, 1954)

Pastel, 45 x 38 cm

Há tempos acompanho Rosa Montero. Das obras publicadas no Brasil li: A louca da casa, A história do rei transparente, Te tratarei como uma rainha, Muitas coisas que perguntei e algumas que disse, Histórias de mulheres, O coração do tártaro, Instruções para salvar o mundo, e agora, A boa sorte, este com tradução de Fábio Weintraub. Poderíamos dizer que aprecio sua habilidade narrativa e imaginação. Tenho leituras favoritas entre estes livros mas até hoje nunca me arrependi de dedicar muitas horas às suas criações. Mas A boa sorte não irá para a lista dos meus favoritos da escritora.

Assuntos na pauta de Rosa Montero, e aqui não é exceção, têm a ver com a jornada do autoconhecimento. Também encontramos histórias com diversa variantes narradas pelo mesmo personagem de acordo com as necessidades que não são necessariamente mentiras, mas que poderiam ser plausíveis. Rosa Montero sempre nos regala com testemunho das diferentes versões que damos à nossa trajetória, de acordo com a audiência ou o momento em que vivemos. E ainda uma vez mais, Rosa Montero mostra ser a maga das imagens, aquela que seduz leitores como se hipnotizados. É certamente capaz de descrever situações, atmosferas, ambientes, absolutamente degradantes de maneira que não choque ou faça o leitor se aborrecer. Há muita arte nisso. A condição humana a preocupa, também merece atenção soluções variadas que seus personagens encontram para sobreviver.

Em geral, seus personagens têm muitas falhas: heróis ou heroínas, bandidos e afins, não importa. Os mundos que cria na ficção são sempre o bas-fond, os bairros pobres, as vidas de esperanças quebradas, de poucos horizontes.  Rosa Montero despe seus personagens, desnuda seus motivos, por mais torpes que possam ser; ela nos ajuda a entender que tanto o mais bem aquinhoado quanto os menos dotados trilham caminhos semelhantes.  O resultado, positivo ou não, depende exclusivamente de seus esforços.  Ela não protege nem a eles, nem a nós, leitores.  Passa ao leitor uma realidade frequentemente sombria, povoada por pessoas com propósitos obscuros, ambientes sujos, razões de vida torpes e muitos inocentes enrascados no aguardo  de vida melhor. Mas ela é consistente, pois há sempre o lastro de fé, de possibilidades vindouras em sua narrativa.  Há aquele  que sobrevive que se amolda, que consegue passar a perna na crueldade humana.

A boa sorte tem todas esses traços comuns à obra de Rosa Montero. Temos um homem bem sucedido amargando culpa, uma mulher bonita e maltratada à beira de imaginar-se sem possibilidades de amor e de formar uma família.  Bandidos de todos os jeitos, sempre pensando em querer algo mais, inconformados com a vida. E no entanto, este livro não me satisfez. 

Rosa Montero

 

Deixe-me ser clara.  Continuo a apreciar a imensa criatividade de Rosa Montero.  Ela consegue surpreender sempre;  criar personagens fortes, inesquecíveis, cujas lutas e dores acompanhamos com o coração nas mãos.  Nos oito livros dela que li, não pareceu haver limite na  engenhosidade de suas tramas, nem nos mundos que criou.  Na verdade, sempre tenho a impressão de que estou a ver, sentir e observar um mundo paralelo com clara semelhança àquele em que vivo.  Isto é uma arte.  Mas o que não me agradou em A boa sorte, foi a sensação no final de que havia necessidade de um fechamento específico, quando personagens precisam ser contabilizados;  a vida, inóspita detalhada na narrativa necessita realmente de um ponto final para cada personagem?  Com um fechamento um tanto hollywoodiano onde tudo se resolve, ficou um gosto de agrado ao mundo editorial.  Além disso, a narrativa, no último terço do livro, veio recheada com frases de edificação ou conselhos aquém da imaginação da autora: “para encontrar um sentido para a morte, é preciso antes encontrar um sentido para a vida“; “o inferno está aqui, somos nós“; “muitas vezes a vida consiste em escolher o mal menor”; “a alegria é um hábito“. Deixou em mim a sensação de manual de vida, que me desagrada bastante.  Continuo, no entanto, a achar que Rosa Montero é uma escritora que deve ser lida. Até hoje ela dá muito mais a nós leitores, do que muitos outros contadores de histórias. Três estrelas, de cinco no máximo.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.

 





“Disciplina”, poesia de Tania Horta

8 10 2022

A carta de amor

Hendrik Jacobys Scholten (Holanda, 1824-1907)

óleo sobre madeira, 33 x 26 cm

 

 

 

Disciplina

 

Tania Horta

 

Para fugir de ti

distraio o meu coração

arrumando quinquilharias,

meus armários, minhas gavetinhas.

Como podes o meu amor tão grande

transformar em coisas comezinhas?

 

 

Em: Coração fechado para obras, Tania Horta, capa e ilustrações de Ziraldo, São Paulo, Massao Ono: 1991 p. 42





Leituras de 2022: “Eliete: a vida normal”, de Dulce Maria Cardoso

29 09 2022

Irmã da pintora

Florence Fuller (África do Sul- Austrália, 1867-1946)

aquarela sobre papel

 

O retorno, livro que li  em 2012, de Dulce Maria Cardoso, me seduziu com sua linguagem, e suavidade ao tratar nuances nos sentimentos. A autora me encantou pela escrita poética e fluida.  Passaram-se dez anos e voltei minha atenção para Eliete: a vida normal que acabou de ser lançado no Brasil.  Foi bom ver, que pelo menos no primeiro terço do livro, o charme da escrita de Dulce Maria Cardoso permaneceu intacto ainda que o assunto tratado não se prestasse a tom meditativo de O retorno. De fato, foi o humor que se imiscuiu na narrativa que me surpreendeu, assim como o tratar de episódios corriqueiros e não tão introspectivos que eu havia atribuído à sua voz narrativa.

Eliete: a vida normal é completamente diferente do livro que li anteriormente. Partimos da vida frustrada de uma dona de casa, classe média portuguesa, vivendo em Cascais, que depois de formar uma família, com duas filhas, encontra-se naquela fase tão comum das pessoas de meia-idade: cuidar dos filhos, do consorte e dos pais, que envelhecem.  Vende imóveis como profissão porque não conseguia saber a que mais poderia  se dedicar. Tudo contribui para o caos generalizado, quando projetos de vida, planeamento e desejos até mesmo banais são descartados pelo bem comum.   Neste ambiente, Eliete se sente só.  Rendeu-se ao desmazelo, não atrai mais o desejo do marido. Isso é agravado pelo fato de não ter se sentido atraente ou sedutora, na juventude, detalhe ainda mais pesaroso, já que sua irmã conseguiu superar os entraves da juventude, e desfruta de vida interessante aos olhos de Eliete.

 

 

O que diferencia a história dessa personagem é o meio por que decide resolver seu problema.  A época é a atual.  Eliete é viúva do celular.  Todos à sua volta estão mais interessados na telinha dos jogos ou das redes sociais, deixando-a unicamente só apesar de fisicamente próxima.  Sente-se desnecessária,  negligenciada.  A vida é enjoada e exaustiva.  A bela natureza de Cascais a aborrece. “Deus era um compositor minimal repetitivo naquele lugar, mar e vento, vento e mar, até o chilreio dos pássaros soava sempre ao mesmo.” Irônica, Eliete reflete: “Aprendi assim, de uma só vez, que as pessoas podiam morrer como os bichos e que a utilidade das suas mortes era o sofrimento que causavam aos outros.” Mas o que mais a aflige é o passar do tempo, a vida em branco, a meia idade, como quando corta os longos cabelos, por já não ser tão jovem: “Parecia haver quase um sadismo na satisfação com que o cabeleireiro me cortava o resto da juventude que eu tanto quisera preservar e que, ao contrário do cabelo, não voltaria a crescer.”  É fabulosa a narrativa conduzida por Eliete, para justificar suas decisões, ações intempestivas.

Dulce Maria Cardoso continua a encantar com sua prosa. Deixou de lado a magia nostálgica de O retorno; enveredou pelo cáustico comentário da realidade contemporânea.  Eliete é vítima desta realidade, mas acha, um meio de se refazer. “O passado foi feito por outros, mas o presente é feito por nós” justifica-se.

 

 

Dulce Maria Cardoso

 

Marquei exatas cinquenta e sete frases ou passagens neste livro, de acordo com Goodreads. Muitas foram pelo delicioso descobrir de expressões portuguesas: ‘biquinhos dos  pés’, para na ponta dos pés; ‘o roçagar das sedas’; mas boa parte por excelentes descrições da alma feminina.  Apesar disso, o  livro se prolonga onde é desnecessário. Se dividíssemos a obra em três, o primeiro terço é fantástico, o último é bom, mas o meio se prolonga, torna-se repetitivo.  O ritmo se esvai, leva junto o  entusiasmo pela leitura. No momento em que a história parece pachorrenta, é mais fácil deixar a leitura de lado por alguns dias. Por isso, e só por isso Eliete: a vida normal, não recebe o máximo de cinco estrelas.  São quatro as que dou, com gostinho de três e meio.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Trova do tempo que passa

20 09 2022

Saudade, lembrança triste

de tudo que já não sou…

Passado que tanto insiste

em fingir que não passou…

(Edgard Barcellos Cerqueira)





Trova do seu bem-querer

12 09 2022
Ilustração de revista americana década 1960.

Você nem sabe a ventura

que me traz seu bem-querer:

se é paixão ou se é loucura,

eu não quero nem saber!

(Ana Maria Motta)