Jangada do Ceará, 1988
Win Van Dijk (Holanda/Brasil, 1915-1990)
óleo sobre tela, 46 x 55 cm
Conversas de marinheiro
ouço nas conchas do mar.
São almas de jangadeiros
Que não puderam voltar.
(Hegel Pontes)
Jangada do Ceará, 1988
Win Van Dijk (Holanda/Brasil, 1915-1990)
óleo sobre tela, 46 x 55 cm
Conversas de marinheiro
ouço nas conchas do mar.
São almas de jangadeiros
Que não puderam voltar.
(Hegel Pontes)
Paisagem
Leopoldo Gotuzzo (Brasil, 1887 – 1983)
óleo sobre tela, 61 x 46 cm
Sonia Carneiro Leão
Gotinha meiga e mansa
acaricia meu rosto,
descendo suave
a trilha da saudade.
Lá fora as rosas rosas
E os hibiscos dourados
saúdam o outono.
Negro curió entre os poleiros
saltita de júbilo e gorjeia,
mesmo nos confins
das grades da vida.
Só eu,
do outro lado das coisas,
choro.
Tornei-me o poro por onde passa,
no vazio de uma lágrima,
o peso de tua falta.
Sol na manhã enevoada, Beth Whitney, aquarela.
Nossa estrada, que era igual,
dividiu-se em dois caminhos:
eu, regando o roseiral,
você…contando os espinhos.
(Vanda Fagundes Queiroz)
Auto-retrato, Retratando o cotidiano em Vina-Lituânia, s/d
Lasar Segall (Lituânia/Brasil, 1889 – 1957)
óleo sobre papelão, 67 x 47 cm
Ladyce West
Na indolência de um domingo de verão,
quando o sol cerceia o movimento e o calor detém a brisa,
Quando o bafo quente das calçadas se ergue lento,
envolve o corpo e reprime pensamentos,
Quando a inércia paralisa insetos,
cala pássaros, esconde peixes,
No meio da tarde indiferente,
preguiçosa, frouxa e incandescente,
Um solitário acordeon se faz ouvir.
É gemido desditoso, lamento sofrido.
Queixume penoso.
No ar estagnado do bairro,
por entre casas sonolentas e mudas torres de igrejas,
por cima do asfalto amolecido das ruas,
mascarando o borbulhar do riacho,
vibram notas saudosas, melodias sofridas,
canções de outras eras, de outras terras.
Gemidas.
A nostalgia se espalha.
Manta transparente, que envolve.
Aderente.
Libação sonora, suadouro enlutado,
carpindo na tarde.
Canto solitário de imigrante europeu,
Chora a terra, a distância,
a perda do lugar em que nasceu.
©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2019.
Luluzinha, Glória e Plínio da revista em quadrinhos Luluzinha, criação de Marjorie Henderson Buell.
Ruth Rocha
São duas crianças lindas
Mas são muito diferentes!
Uma é toda desdentada,
A outra é cheia de dentes…
Uma anda descabelada,
A outra é cheia de pentes!
Uma delas usa óculos,
E a outra só usa lentes.
Uma gosta de gelados,
A outra gosta de quentes.
Uma tem cabelos longos,
A outra corta eles rentes.
Não queira que sejam iguais,
Aliás, nem mesmo tentes!
São duas crianças lindas,
Mas são muito diferentes.
Ilustração de Walter Heubach.
Vitor Caruso
Maldosa como ninguém
Finge que reza, na igreja.
Porém não reza, pragueja
Acrescentando um “Amém”…
Em: 232 Poetas Paulistas:antologia, ed. e col. Pedro de Alcântara Worms, São Paulo, Conquista: 1968, p. 149
Igreja de Montmagny (Seine-et-Oise)
Maurice Utrillo (França, 1883 – 1955)
óleo sobre tela, 46 x 55 cm
Na velha igreja te ouço
sino alegre … Estás dizendo
que há muito coração moço
em peito velho batendo.
(Lilinha Fernandes)
Monica pega chuva voltando do mercado, Ilustração Maurício de Sousa.
Rosana Rios
Tenho quatro guarda-chuvas
todos os quatro com defeito;
Um emperra quando abre,
outro não fecha direito.
Um deles vira ao contrário
seu eu abro sem ter cuidado.
Outro, então, solta as varetas
e fica todo amassado.
O quarto é bem pequenino,
pra carregar por aí;
Porém, toda vez que chove,
eu descubro que esqueci…
Por isso, não falha nunca:
se começa a trovejar,
nenhum dos quatro me vale –
eu sei que vou me molhar.
Quem me dera um guarda-chuva
pequeno como uma luva
Que abrisse sem emperrar
ao ver a chuva chegar!
Tenho quatro guarda-chuvas
que não me servem de nada;
Quando chove de repente,
acabo toda encharcada.
E que fria cai a água
sobre a pele ressecada!
Ai…
Burglar Bill, ilustração de Janet Ahlberg.
No carnaval, tem mania
de se vestir de ladrão;
mas, tirando a fantasia,
não muda de profissão!..
(Rodolpho Abbud)

Casimiro de Abreu
Sempre teu lábio severo
Me chama de borboleta!
— Se eu deixo as rosas do prado
É só por ti-violeta!
Tu és formosa e modesta,
As outras são tão vaidosas!
Embora vivas na sombra
Amo-te mais do que às rosas.
A borboleta travessa
Vive de sol e de flores…
— Eu quero o sol de teus olhos,
O néctar do teus amores!
Cativo de teu perfume
Não mais serei borboleta;
— Deixa eu dormir no teu seio,
Dá-me o teu mel -violeta!